Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts na categoria "Anta Gorda"

Romaria na minha terra

09 de fevereiro de 2013 1

O blog andou quieto. Não sem motivos.

Quebro o jejum das últimas semanas pra falar de uma festa religiosa da minha terra que se repete há 79 verões. Era das grandes atrações das nossas férias.

Há anos não vou lá. Sempre recebo o convite, mas acaba não calhando. Também não será agora.

Todo ano vai uma multidão: a organização espera 8 mil pessoas para a tradicional FESTA DA GRUTA NOSSA SENHORA DE LOURDES, de Itapuca, um distrito de Anta Gorda.

Fica a cerca de 200 quilômetros de Porto Alegre e é uma sugestão para quem quiser conhecer uma típica festa do Interior. Uma opção de PARA IR NO FINAL DE SEMANA.

A paisagem, por lá, é assim:

A programação

Dia 10/02/2012

Missas: 9h30min, – 11h,  13h30min e– 15h

Almoço (buffet ou churrasco): a partir das 11h30min

Show Musical (URPM): 16h

Sorteio de brindes: 18h


Dia 11/02/2012

Missa: 10h30min

Almoço: 12h

Um cartão-postal rural

17 de junho de 2011 1

CARTÃO-POSTAL

Minhas últimas férias foram de reencontros. Com pessoas, com lugares, com memórias. Voltei à minha terra natal, depois de um bom tempo distante. Nem era tanto assim, na verdade. Lendo do jeito que escrevi parece que foram anos. Passaram-se meses apenas, mas nunca havia tido um intervalo tão longo.

Achei tudo mais bonito. Meu colégio de uma vida inteira, por exemplo, está colorido, bem cuidado. E, o mais legal, é que muitas pessoas com quem convivi não só nos 11 anos de escola, mas nos seis em que trabalhei ali, continuam à frente dele. O que só dá mais motivos para me alegrar - parece um caso de uma saudável mistura de preservação com renovação.

Bom, mas este cartão-postal (ou cartões-postais) não tem nada a ver com o colégio, mas com a propriedade da família de uma amiga querida, os Pitol. Encontrei paisagens tão lindas na visita que fiz ao lugar onde eles produzem e beneficiam noz-pecã, fruta típica da minha terra (pra quem não conhece, a da última foto abaixo), criam ovelhas texel... Essas últimas, aliás, responsáveis por esse clima tranquilo...

Então, sem mais, as fotos desse lugar de cartão-postal...


Festa na gruta da minha terra

09 de fevereiro de 2011 2

Todo ano, em fevereiro, eu falo dela. Quando era criança, era esperada quase tanto quanto o Natal. Todo mundo ia à Festa da Gruta de Itapuca, na minha terra natal, Anta Gorda.

É sempre pouco antes ou pouco depois de 11 de fevereiro, dia de Nossa Senhora de Lourdes.

Eu tenho tantas lembranças dessa gruta de Itapuca... Para mim, que queria ser arqueóloga ou qualquer coisa do gênero, aquilo era o caminho mais curto rumo às tumbas de faraós... Me impressionava entrar direto daquela mata exuberante para pisotear as pedras sibilantes, para o teto que ia diminuindo, oprimindo, para uma suposta falta de ar que eu nem sentia, mas fazia parte do mistério.

Não havia quem fosse nos visitar, inverno ou verão, que a gente não levasse para conhecer a tal gruta. E, no fim do ano, nosso esperado piquenique carregava para lá toda a família - irmã, irmãos, cunhados, sobrinhos - numa divertidíssima excursão. Voltávamos com os cabelos duros da poeira do caminho, mas felizes porque íamos cantando, comendo nosso farnel que às vezes nem conseguia chegar ao destino.

Naquele trajeto, nós víamos de tudo, até disco voador um dia vimos, na carroceria do jipe que era dividido por meu pai e pelo compadre Demétrio. Que coisa. A imaginação, com aquelas vistas, não tinha mesmo limites.

A paisagem a caminho da gruta

Pois o cartaz com o convite para a festa deste ano, que a Franciele Izoton Dall Orsoletta me enviou, lembrou de tudo aquilo. Não irei à festa. Mas pretendo voltar lá assim que possível. É sempre bom voltar.

Festa na minha terra

11 de fevereiro de 2010 3

Todo ano, em fevereiro, tem festa na GRUTA DE ITAPUCA, no interior de Anta Gorda, minha terra natal.
Perdi a conta de quantas vezes fui até lá, não só para a festa, mas também porque é uma atração turística. Quando meus pais eram vivos e passávamos todos juntos o Natal lá, era tradição fazermos um passeio/piquenique. Íamos todos, irmãos, cunhados e sobrinhos, com tantos suprimentos que dava para viver na gruta por algumas semanas.

Sempre tive medo de entrar nela. A sensação é de que aquele maciço de pedra, que vai se fechando aos poucos, caia sobre mim. Não cai, claro, mas é uma fantasia de infância. Na entrada, tem 30 metros de largura; nas partes mais altas, um pé direito de 3 metros de altura; 115 metros de comprimento. Fica nesse distrito chamado Itapuca, que é uma gracinha, muito pitoresco.

Sempre aconteciam coisas interessantes quando ia pra lá. Uma vez, criança, fomos com o pai de uma amiga em seu Jeep dos anos 40 (aliás, durante anos, esse Jeep, que pertenceu a um tio meu, foi usado em sociedade entre o pai dessa amiga e meu pai - sociedade improvável hoje, não?) para mostrar a gruta a uns visitantes. Na volta, todos os que estávamos na parte detrás do carro vimos o que jurávamos ser um disco voador. Era algo luminoso que se movia. O pai da minha amiga traduziu nossa visão como sendo a de uma "nuvem luminosa", categoria que ele criou ali na hora. Podia ser um avião, a lua atrás das nuvens ou qualquer outra coisa que, com a nossa imaginação, virou um disco voador. Para mim, continuou sendo um mistério.

Outra vez, já no final da faculdade, levei uns colegas que me visitavam para conhecer nossa principal atração turística. Na volta, tivemos uma infeliz ideia juvenil: resolvemos colher, sem pedir licença, apetitosas espigas de milho que se ofereciam à beira do caminho. Foi um desastre. O dono das terras, coberto de razão, subiu lomba acima com uma espingarda na mão. Sem explicações... não havia o que dizer. Para nossa sorte o caso não acabou na delegacia. Devolvemos o milho e pronto, voltamos com o rabinho no meio das pernas.

Mas vamos à festa, que era afinal o motivo do post.
A gruta, como toda gruta de lugar colonizado por italianos, como eu já comentei num post dias atrás, tem uma santa, Nossa Senhora de Lourdes, e é lugar de peregrinação (hoje, qualquer intervenção dessas seria fatalmente condenada por ambientalistas).
E todo mês de fevereiro tem romaria e festa no local.
Neste ano vai ser nos dias 14 e 15 de fevereiro. É a 76ª festa.

Nos dois dias tem missa às 9h30min, 11, 13h30min e 15h.
E claro, almoço ao meio-dia, com jogos tradicionais durante todo o dia. 
Anta Gorda fica a cerca de 200 quilômetros de Porto Alegre, no Vale do Taquari. Itapuca fica a 17 quilômetros de Anta Gorda, e a ligação é uma estrada de chão, mas a estrada costuma ser boa, e as paisagens compensam.

As primeiras férias a gente não esquece

25 de abril de 2008 6


Não ia de avião nem de trem, não precisava de passagem e muito menos passaporte. A bagagem era reduzidíssima, o período, curto. Para viver minhas primeiras férias, percorria 11 quilômetros. Era a distância que separava a casa de meus pais da casa de meu avô, onde moravam meus tios Adélia e Adolfo (ela, irmã de minha mãe, ele, irmão de meu pai). Mas era uma viagem e tanto.

 

Olha o cenário! Essa é a segunda fase da casa de meus tios. Foto: Rosane Tremea

Minha tia Adélia morreu há 16 anos. Meu tio Adolfo completa 80 neste sábado, dia 26. E continua morando na casa da minha infância, das minhas primeiras férias.

 

É um patrimônio sentimental da família. Repare, na foto abaixo, no PORÃO DE PEDRA, típico das construções da colônia italiana. Cada uma das pedras foi carregada das terras de um vizinho até as do meu avô, em 1942, ano em que ele ergueu sobre o porão a casa de dois andares, em madeira. Meu tio Adolfo tinha 14 anos então.

 

Eu contava seis anos quando aconteceram minhas primeiras “viagens” de férias. Nesse mesmo ano, a parte de madeira da casa era substituída por outra de alvenaria, agora em um piso só. Em 2002, uma espécie de tornado derrubou a construção. A parte de cima, eu quero dizer, que o porão resistiu bravamente.


Repare no porão de pedra. Ele segue firme 66 anos depois. Foto: Rosane Tremea


Naquele tempo, o piso do porão ainda era de chão batido, para que ao caminhar ninguém atrapalhasse o repouso do vinho, explicava meu pai. Os barris de vinho (e os de grapa, uma tradição de meu avô Martin — ou Giuseppe, como descobrimos que se chamava muitos anos depois de morto – mantida por tio Adolfo) ficavam apoiados sobre estrados de madeira, salames e queijos vinham pendentes do teto.

 

Eu não agüentava mais de três dias na casa de meus tios, que eu sempre chorava e queria voltar para casa (hoje não choro mais, mas sempre quero voltar para casa!). Eu adorava, mas sentia muita saudade.

Não adiantava o que meus primos inventassem para me distrair. Nem nossos pequenos passeios entre a casa de tia Adélia e de tia Regina, cuja fronteira era marcada pelo capitel (a pequena capela de madeira da foto abaixo, também típica dos imigrantes), me consolavam.

Três dias eram o limite das minhas férias. Do tempo curto, conseguia milhares de histórias para contar. E lembranças que não se apagam.

Por isso reservo esse post, que não é sobre nenhuma atração turística nem contém dicas de viagem, para homenagear os 80 anos do tio Adolfo. Sua fortaleza. Sua coragem para manter de pé a família de seis filhos, mesmo sem tia Adélia, e a casa de minha infância, o lugar de minhas primeiras férias.

O capitel de Santo Antônio, marco entre as casas das tias Adélia e Regina. Foto: Rosane Tremea

O texto abaixo foi publicado numa das edições dos Contos de Oficina, resultado da Oficina de Criação Literária de Luiz Antonio de Assis Brasil. Misturando realidade e ficção, fala um pouco mais sobre a casa de meus tios e de minhas lembranças.

Tia Adélia

O carro vence a estradinha de chão com valentia. É o Ford ano 1949 que pertencia ao meu avô, agora dirigido com orgulho por meu tio. É ultrapassado por qualquer outro, mas tia Adélia vai de queixo bem erguido na carona. No banco de trás vou eu, tentando me equilibrar nas curvas. Do vidro traseiro, observo as nuvens de poeira e enxergo nelas formas de gente, de bichos, de objetos.

Todo ano, no verão, tia Adélia cumpre o ritual: entre os tantos sobrinhos, ela me escolhe para passar uns dias no casarão de pedra. Foi ali que meu avô começou a família, recém-chegado da Itália. Mesmo mais nova, tia Adélia parece gêmea de minha mãe. Posso matar minha saudade olhando para seus complacentes olhos azuis.
As pernas curtas são ágeis ao descer do carro, outro gesto incrivelmente parecido. O riso compassado, o jeito de falar, o cabelo curto. É tudo igual, observo.

Há uma diferença, porém. Minha mãe é rígida. Hora de comer, hora
de dormir, hora do banho. Com tia Adélia posso qualquer coisa. Durante anos até acreditei ser filha dela, como um de meus irmãos sempre insinuava. Eu e um dos primos nascemos com horas de diferença, minha mãe e minha tia ocupavam quartos lado a lado no hospital. Ela me trata melhor do que a seus filhos. Muito melhor do que minha mãe me trata, juro.

Tia Adélia fica comigo no quarto quando o gerador encerra nossas
brincadeiras e só a luz de velas ilumina meu medo do escuro. Ela também levanta no meio da noite quando o relógio trazido da Itália pelo avô bate as horas, me despertando de sonhos e pesadelos. Sempre choro, e em instantes ela está ao meu lado, compreensiva. Seus braços curtos e gordos me envolvem.
Pronto, bicho-papão não existe.

Quando acordo, tia Adélia já pôs a cozinha toda em movimento. Os primos mais velhos e o tio, alimentados com o café forte preparado por ela, estão no trabalho. Os pequenos ainda tomam o desjejum, as panelas fumegantes revelam o cardápio do almoço, mas mesmo assim ela tem tempo para me dar colo e me contar histórias.

Ela também não deixa que eu me afaste o dia inteiro, inventa brincadeiras no tanque enquanto lava roupa, improvisa jogos enquanto estende os lençóis brancos no varal, faz com que eu me divirta com as galinhas no pátio. A volta da casa é um parque de diversões criado por tia Adélia e por sua imaginação.

Ela me protege dos perigos e leva os braços curtos e gordos à cabeça, apavorada, quando me vê enfiada sob um forno, entre ninhos, ovos e
pintos recém-nascidos. Tia Adélia me tira dali à força. Minha pele e meus cabelos estão cobertos de quase invisíveis piolhos de galinha.


— Tua mãe me mata se sabe de uma coisa dessas — quase grita.

Nessa hora, minha tia diminui de tamanho. Como eu, ela também tem medo de minha mãe.

Postado por Rosane Tremea