O texto a seguir não foi escrito originalmente para o blog. Eu o havia escrito para outro espaço, mas acabou não sendo publicado. Como eu acho que não se deve desperdiçar nada, nem palavras, reproduzo abaixo. Já que é sábado. Já que uma croniqueta no sábado não faz mal:
"Escrever é fácil: é só começar com maiúscula e terminar com ponto final, no meio vão as ideias. Para mim, a frase sempre foi de Luis Fernando Verissimo. Me dizem que é de Neruda. Não importa. Para mim, segue sendo de Verissimo.
O misto de provocação-ironia-desafio da frase martela na cabeça. Lembrei dele, tempos atrás, quando por obra do destino calhou de eu ser sorteada com um lugar à mesma mesa de Verissimo. Que ideias trocar quando se está tão próximo de alguém como ele? Não que ele seja uma pessoa inatingível, mas é dos poucos que considero um ídolo, e com ídolos nossa relação às vezes é muito estranha.
Uma vez, muitos anos atrás, entrei numa fila de banco e lá estava meu ídolo, com uma conta de luz na mão, esperando pacientemente sua vez (naquele tempo, as filas eram muito maiores e não havia a facilidade de internet e caixas eletrônicos). Quase me ofereci para pagar a conta no lugar dele: meu ídolo não deveria estar ali, prestes a executar uma tarefa tão prosaica... Deveria estar à frente da máquina de escrever (naquele tempo também não existiam computadores e iPads), colocando ideias brilhantes entre a maiúscula e o ponto final. Enquanto eu pensava, chegou a vez dele no caixa, e a minha, e a vida seguiu.
Naquele jantar em que estávamos à mesma mesa, pensei: conversar é fácil - é só começar com um cumprimento e terminar com a despedida, no meio vão as palavras. Para encurtar a história, devo dizer que passei a noite inteira pensando em tentar puxar um assunto interessante, em algo brilhante para dizer ao meu ídolo, coisa que não aconteceu. Ele e eu fomos apenas simpáticos mutuamente, um concordando ou discordando de algo que nossos companheiros diziam, ouvindo muito o que falavam Lucia, sua mulher, e Moacyr Scliar que, embora estivesse em outra mesa, volta e meia ia ali para trocar uma ideia. Ficamos só no cumprimento e na despedida, e a vida seguiu.
Devo dizer, porém, que a frase, aquela que atribuo ao meu ídolo, continua me perseguindo. Escrever, em tese, é fácil. E agora até sem maiúscula e ponto final - em blogs, redes sociais etc permitem-se liberdades que não havia no tempo em que caligrafia era tema de escola. Todo mundo escreve. O problema continuam sendo as ideias.
Confesso que eu tinha um tema predefinido para ocupar este espaço em que não bastam a maiúscula e o ponto final - pelo menos o início e o fim estavam claros. Outra pessoa, porém, preencheu o mesmo lugar com ideias muito precisas sobre o tema escolhido. E fiquei pendurada pela maiúscula e o ponto final.

Na caminhada matutina com meu querido Maurício, rumo aos seus 19 anos, ideias arejadíssimas, pedi sugestões. Em 45 minutos à margem do Guaíba, passamos a semana e a vida em revista. Falamos sobre visitas presidenciais, tragédias, entrevistas de emprego, redes sociais, clima, aspirações, juramento à bandeira, baladas...
- Fala sobre como as crianças crescem rápido - sugeriu, entre a ironia e o autorretrato, ele que teria de encurtar o exercício para seguir para o estágio e a faculdade - E como em pouco tempo a gente passa da infância à vida adulta sem escalas.
E isso nos rendeu uns 10 minutos de conversa.
- Fala sobre encontros - emendou mais adiante, enquanto planejávamos o final de semana - Em como não é preciso esperar datas especiais para reunir a família, os amigos, as pessoas que a gente gosta.
- Mas o nosso encontro ainda não aconteceu! - ponderei, sabendo que ele se referia a um jantar marcado para este sábado, reunindo pela primeira vez os três afilhados que moram na cidade (anote aí os de fora: Isaura, Luciana, Camila, Luiz Antônio e Nina!) e no qual eles serão os responsáveis pelo cardápio: Renan, 22 anos, estudante de Engenharia, Ramiro, 19, aluno da Publicidade, e ele mesmo, acadêmico de Ciências da Informação.
- Mas não precisa acontecer - ponderou ele, cheio de razão - A gente pode ficar feliz de forma antecipada, só com a expectativa do encontro.
Acho que Maurício nunca leu O Pequeno Príncipe (nem eu!) - "Se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei", disse a raposa ao pequeno príncipe.
Tive de concordar.
Finda a caminhada, a vida seguiu. Eu continuava sem um tema, mas a frase dele me fez refletir, me levou direto ao computador e me fez escrever. Agora, só falta o ponto final."