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Posts na categoria "Crônicas"

Lugares para ir em 2013

31 de dezembro de 2012 0

Como sempre acho que estou em dívida com tudo e com todos (costumo brincar que ser de origem italiana, ser católica e virginiana me faz carregar muitas das culpas da humanidade...), fui conferir pra ver se havia feito promessas, para mim mesma, de passeios e viagens em 2012.

Não fiz (ôba, menos culpas para carregar em 2013)!

Como sempre, viajei muito menos do que gostaria. Fiz, é verdade, uma pequena viagem que há muito estava nos meus planos. Conheci (aleluia!), finalmente, COLÔNIA DO SACRAMENTO, no Uruguai, que havia virado uma lenda.

Fiz, também, algumas incursões pelo interior gaúcho que há muito queria fazer, e outras pequenas saídas por aí.

Mas, também, como viajante amadora, me dei conta de que quanto menos se planeja e se sonha, menos se faz.

Acho que, nas últimas duas décadas, foi o ano em que menos perambulei por aí. Por circunstâncias também, é verdade, mas muito por falta de planos e sonhos.

Pois encerro 2012 e entro em 2013 com váaaaarios deles. Não vou escrever pra mim mesma, e pra quem lê esse blog, quais os destinos, por que destinos podem mudar (aliás, algumas de minhas melhores viagens foram aquelas em que, no meio do caminho, decidi mudar de rumo).

Mas termino o ano desejando e planejando para que se concretizem minhas viagens. Assim como desejo isso para todos. Viaje no bairro, na cidade, viaje pelo Estado, pelo país, pelo mundo... Ou nos livros, nos filmes, na imaginação... É esse desejo de movimento que me alimenta e me faz mais feliz.

Para encerrar o ano, e começar o novo que vem aí, fotos de coisas que eu adoro: por do sol num porto seguro - o lugar onde me encontro com as pessoas que amo e pra quem desejo um 2013 só de coisas boas!


Mais imagens de solidão

03 de dezembro de 2012 2

Numa de minhas últimas viagens, me chamaram a atenção cenas de solidão.

Lugares, situações, momentos, pessoas que me transmitiam solidão.

Desde então, fiquei mais atenta a eles.

Não é nenhum tipo de sentimento depressivo. Solidão, às vezes, faz muito bem.

Esta imagem é muito singela: um barquinho de controle remoto, numa manhã cinzenta de domingo, num píer da Lagoa dos Patos, em Pelotas.

Tinha muita gente olhando e se divertindo com ele. Mas o barquinho, sozinho na água...


Em viagem, cenas de solidão

11 de junho de 2012 4

Talvez por ter viajado sozinha nas últimas férias, fiquei mais atenta ao que chamei de "cenas de solidão".

Não necessariamente pessoas sozinhas, mas objetos, lugares, cenários me transmitiam sensações de solidão.

Curioso é que não sinto a palavra apenas com conotação negativa, que é só com o que deparo.

Queria algo que transmitisse essa ideia para para acompanhar minhas fotos, tiradas em Colônia do Sacramento, no Uruguai... Não encontrei.


E de tudo que li, do que eu mais gostei foi um trecho de um poema de CLARICE LISPECTOR, que pede coragem para enfrentar a solidão.

Meu Deus, me dê a coragem

(...)

Faça com que a solidão não me destrua.

Faça com que minha solidão me sirva de companhia.

Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.

Faça com que eu saiba ficar com o nada

E mesmo assim me sentir

Como se estivesse plena de tudo.

(...)


E a Miriam, que deixou um comentário no post, lembrou de uma música que fala de solidão de um jeito muito bonito, como em geral é a obra do uruguaio Jorge Drexler. Seguem letra e música:


Soledad

Jorge Drexler


Soledad,

Aqui están mis credenciales,

Vengo llamando a tu puerta

Desde hace un tiempo,

Creo que pasaremos juntos temporales,

Propongo que tú y yo nos vayamos conociendo.

Aquí estoy,

Te traigo mis cicatrices,

Palabras sobre papel pentagramado,

No te fijes mucho en lo que dicen,

Me encontrarás

En cada cosa que he callado.

Ya pasó,

Ya he dejado que se empañe

La ilusión de que vivir es indoloro.

Que raro que seas tú

Quien me acompañe, soledad,

A mi que nunca supe bien

Cómo estar solo.



E minha colega Cláudia Laitano, depois de ver este post no Facebook, ficou intrigada com uma coincidência: logo após o meu estava lá um outro post, com um poema sobre solidão do uruguaio Mario Benedetti... E me mandou o link. Reproduzo o texto e uma leitura dele, que é linda.


Hablo de tu soledad

Hablo de tu infinita soledad

dijo el fulano

quisiera entrar al saco de tu memoria

apoderarme de ella

desmantelarla desmentirla

despojarla de su último reducto.

Tu soledad me abruma/ me alucina

dijo el fulano con dulzura

quisiera que en las noches me añorara

que me echara de menos

me recibiera a solas.

Pero sucede que/

dijo calmosamente la mengana/

si tu bendita soledad

se funde con la mía

ya no sabré si soy en vos

o vos terminás siéndome.

¿Cuál de los dos será

después de todo

mi soledad legítima?.

Mirándose a los ojos

como si perdonaran

perdonarse

adiós

dijo el fulano;

y la mengana

adiós.


Jardins de colônia

09 de maio de 2012 3

Quando eu era criança, tinha quase vergonha do jardim cuidado com zelo por minha mãe. Achava uma bagunça aqueles canteiros entremeados de caminhos construídos com restos de tijolos, telhas quebradas, pedras recolhidas no quintal.

Desgostava da profusão de tipos e cores, da mistura de espécies de flores que se engalfinhavam, cada uma buscando seu espaço.

Minha mãe raramente voltava da visita a uma vizinha ou parente sem trazer mais uma muda, uma semente, um acréscimo àquela babilônia botânica.

Eu preferia um jardim alinhado, só de rosas ou de espécies mais nobres. Muito, mas muito, mais tarde encontrei beleza naqueles projetos paisagísticos maternos e, hoje, uma das coisas de que eu mais gosto é o que eu chamo de "jardim de colônia". Com liberdade para plantas flores e, especialmente, para os jardineiros!

Pensamentos desalinhados, para começar a semana.

Mulheres que vencem os medos

08 de março de 2012 3

Parecia que as palavras não saíam daquela boca feminina.

Quem ouvisse, sem prestar atenção, poderia achar que falava ali um velho agricultor, calejado pela roça e pelas intempéries.

Não que o tom fosse masculino. Mas o que ela dizia não combinava com sua figura.

Falava de temporais, de granizos, de ventos, de secas infinitas, de folhas murchas e grãos esparramados sob os parreirais.

Falava com a autoridade de quem sabe o que está dizendo, de quem aprendeu na escola, mas muito mais com a vida e a observação do mundo que a cerca.

É uma guria estudada, diria minha mãe, mas que reserva boa parte do tempo a prestar atenção em coisas simples.

Quando descrevia a época da vindima, não falava só das uvas e de suas complexidades. Ela descrevia a paisagem, os sons das tempestades que se aproximam, a direção de raios e trovões, o dia e a noite entre os montes da paisagem serrana, os verões que podem ser de muita alegria e colheita farta ou de imensa tristeza, com a inclemência dos fenômenos naturais sempre à espreita. E resumiu:

- É um tempo de medos.

Confesso não lembrar o nome dela. Talvez Camila. Ou seria Clarissa? Fernanda?!

Não importa. Num porão de Garibaldi, num pequeno e bem-sucedido empreendimento familiar comandado por mulheres, ouvi alguém que mistura conhecimento acadêmico e a leitura da natureza. Que ajudou a transformar terra quase arrasada num simpático ponto turístico.

Ela, e as outras mulheres da família, vencem seus medos todos os dias.

E, com seus saberes, me remeteram ao trecho que uma amiga enviou extraído de E se Obama fosse Africano, do escritor Mia Couto:

"Estamos todos amarrados aos códigos colectivos com que comunicamos na vida quotidiana. Mas quem escreve quer dizer coisas que estão para além da vida quotidiana. Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco.

Sou biólogo e viajo muito pela savana do meu país. Nessas regiões encontro gente que não sabe ler livros. Mas que sabe ler o seu mundo. Nesse universo de outros saberes, sou eu o analfabeto. Não sei ler sinais da terra, das árvores e dos bichos. Não sei ler nuvens, nem o prenúncio das chuvas. Não sei falar com os mortos, perdi contacto com os antepassados que nos concedem o sentido da eternidade. Nessas visitas que faço à savana, vou aprendendo sensibilidades que me ajudam a sair de mim e afastar-me das certezas. Nesse território, eu não tenho apenas sonhos. Eu sou sonhável."

P.S.: o nome dela é Raíssa, me recorda uma amiga que ouviu o mesmo relato e compartilha da impressão.


Um Natal sem viagens

24 de dezembro de 2011 0

Na última década e meia, invariavelmente viajei para passar o Natal com a família.

Neste ano, é a família que vem a mim.

Então, não haverá viagem. Só aquela embalada pelo carinho dos irmãos, sobrinhos e agregados.

Não vou desejar presentes maravilhosos nem ceias fartas ou decorações requintadas. Se elas fizerem parte, melhor. O que eu desejo mesmo é carinho e compreensão. Custam muito pouco e não enchem apenas uma noite. Lotam a vida.


















Na foto, biscoitinhos que minha irmã e eu tentamos fazer para esperar todo mundo





Croniqueta de sábado: o valor de um azeite (extra-virgem)

08 de outubro de 2011 3

Não são hábito meu as compras em viagem. Em geral, suvenires ou algo simbólico, que me lembrem do lugar. Ou algum perfume ou bebida no aeroporto. Nada que me faça perder um tempo que considero precioso. Quando a viagem é curta, menos ainda.

Pois estava eu no aeroporto de Florença, na Itália, que é pequeniníssimo (sim, há aeroportos menores que o de Porto Alegre), matando o tempo, quando entrei na loja com produtos locais. Não me pergunte a marca, eu não saberia dizer, o que me chamou a atenção foi a garrafa do azeite de oliva extra-virgem. Linda.

Parecia um pequeno vaso de cristal. Eu já conseguia vê-lo com minhas flores preferidas na mesa de centro da sala. Dentro dele, ervas finas, que deixavam a embalagem ainda mais apetitosa. Comprei, e o vendedor o colocou, como de praxe, na embalagem transparente para a bagagem de mão quando a quantidade de líquido é superior a 100ml.

Passado o entusiasmo com a compra, lembrei que na mochila levava laptop, câmera fotográfica, sem contar documentos e etc, e fiquei imaginando tudo isso boiando em azeite de oliva, ainda que extra-virgem. Como o vendedor disse que não poderia colocar uma outra embalagem ou plástico bolha (sim, eu sabia que não podia), resolvi eu mesma tomar minhas providências.

Peguei todas as sacolas plásticas que tinha à mão e fiz uma proteção quase indevassável, coloquei na mochila e... esqueci. Só fui lembrada disso ao passar pelo raio X no aeroporto de Frankfurt, na Alemanha. O que eu levava na mochila? perguntou o agente. Nada, respondi, com a cara de pau dos inocentes. Nada? Então desenrole o que está enrolado nisso, disse ele com cara e inglês de poucos amigos. E então lembrei do meu azeite!

– É só um suvenir – observei com um sorriso de quem acaba de fazer uma traquinagem.

– Para nós, é só líquido – retrucou ele, com a preocupação de quem tenta detectar explosivos e terroristas.

Tirei o sorriso do rosto e desembrulhei e embrulhei tudo com a mesma rapidez após a inspeção. Mais uma pequena lição de viagem, aprendida à custa do azeite. Ainda que extra-virgem.

Volta ao mundo com uma criança a tiracolo

30 de agosto de 2011 2

O título é de um texto publicado na página 2 do caderno VIAGEM desta terça. Tem muito mais coisa na página, confira lá, mas resolvi republicar aqui essa entrevista porque a história é bacana e mais ainda porque a foto que eu recebi agora é SEN-SA-CIO-NAL. Não poderia desperdiçá-la. Você não acha? Que inveja desse pequeno viajante Felipe!

Veja abaixo a entrevista:

Há poucos dias, eles estavam em Yogyakarta, na ilha de Java, na Indonésia. A comunicação não era muito fácil, mas eles enviaram um e-mail extenso, descrevendo um pouco da aventura de viajar por cinco meses com uma criança de dois anos.Claudia Ferraz Rodrigues Pegoraro, 35 anos, promotora de Justiça em Jaguarão (RS), e Marlon Sandri Pegoraro, 35 anos, policial rodoviário federal, estão há horas na estrada, carregando a tiracolo o filho Felipe. E descrevem tudo no blog Felipe, o Pequeno Viajante. Junto, o casal já conhece 54 países. Felipe, pasme, já tem no passaporte a passagem por mais de 20 nações. E ele já tem lá suas impressões de viagem:

– Quando chegamos num terraço de arroz, em Bali, ele me olhou e disse: que lindo mamãe! – descreve Claudia.


Zero Hora – Desde quanto vocês viajam com o Felipe?

Claudia Ferraz Rodrigues Pegoraro – Fizemos uma primeira viagem grande com ele quando ainda não tinha três meses, aos Estados Unidos e Canadá. Os dois anos, agora, ele completou na Rússia.


ZH – Como é viajar com uma criança tão pequena? Como vocês se adaptam?

Claudia –A gente escolhe os destinos que a gente tem vontade de conhecer. Antes de o Felipe nascer, a gente achava que depois só iríamos à Disney e destinos do gênero, mas depois da primeira viagem, quando vimos que não tem mistério, fomos ficando cada vez mais corajosos. Claro que fizemos vários testes, em viagens curtas, perto de casa, até nos animarmos a fazer esta “volta ao mundo” de cinco meses.


ZH – O que vocês acham que ele aprende viajando?

Claudia – Não tem nada melhor para a estimulação de uma criança do que estar o tempo inteiro com o pai e a mãe. Se a gente estivesse em casa, ele estaria com a babá, na creche, seria bem diferente. Também dá a ele esperteza: ele está sempre ligado, cuida quando vem carro, como a gente anda na rua. Não acredito que ele vá lembrar de nada, mas tenho certeza de que ele vai adorar ver as fotos no futuro.


ZH – Quais as principais dificuldades de viajar com o Felipe? Que cuidados vocês têm?

Claudia – É preciso estar atentos à documentação, pois eles precisam de passaporte, vistos, como os adultos, e sempre é bom levar também uma cópia da certidão de nascimento, porque nos passaportes não tem o nome do pai e da mãe e isso pode causar problemas. A gente também faz um check-up geral de saúde antes de viajar, além de tomar todas as vacinas e ter um bom plano de saúde.


ZH – É possível ir a qualquer lugar do mundo com um filho pequeno?

Claudia – Se sobrevivemos à Índia com o Lipe, tudo é possível. É preciso ter energia e disposição, porque é muito trabalhoso – o tempo que antes a gente passava descansando, quando chegava ao hotel, agora tem que dar banho, lavar as roupas etc, mas vale cada minuto! Não tem alegria maior do que vê-lo correndo pelo Taj Mahal, comendo uma fruta diferente, brincando com crianças de todas as raças...



Croniqueta de sábado: No meio, as ideias

26 de março de 2011 1

O texto a seguir não foi escrito originalmente para o blog. Eu o havia escrito para outro espaço, mas acabou não sendo publicado. Como eu acho que não se deve desperdiçar nada, nem palavras, reproduzo abaixo. Já que é sábado. Já que uma croniqueta no sábado não faz mal:


"Escrever é fácil: é só começar com maiúscula e terminar com ponto final, no meio vão as ideias. Para mim, a frase sempre foi de Luis Fernando Verissimo. Me dizem que é de Neruda. Não importa. Para mim, segue sendo de Verissimo.

O misto de provocação-ironia-desafio da frase martela na cabeça. Lembrei dele, tempos atrás, quando por obra do destino calhou de eu ser sorteada com um lugar à mesma mesa de Verissimo. Que ideias trocar quando se está tão próximo de alguém como ele? Não que ele seja uma pessoa inatingível, mas é dos poucos que considero um ídolo, e com ídolos nossa relação às vezes é muito estranha.

Uma vez, muitos anos atrás, entrei numa fila de banco e lá estava meu ídolo, com uma conta de luz na mão, esperando pacientemente sua vez (naquele tempo, as filas eram muito maiores e não havia a facilidade de internet e caixas eletrônicos). Quase me ofereci para pagar a conta no lugar dele: meu ídolo não deveria estar ali, prestes a executar uma tarefa tão prosaica... Deveria estar à frente da máquina de escrever (naquele tempo também não existiam computadores e iPads), colocando ideias brilhantes entre a maiúscula e o ponto final. Enquanto eu pensava, chegou a vez dele no caixa, e a minha, e a vida seguiu.

Naquele jantar em que estávamos à mesma mesa, pensei: conversar é fácil - é só começar com um cumprimento e terminar com a despedida, no meio vão as palavras. Para encurtar a história, devo dizer que passei a noite inteira pensando em tentar puxar um assunto interessante, em algo brilhante para dizer ao meu ídolo, coisa que não aconteceu. Ele e eu fomos apenas simpáticos mutuamente, um concordando ou discordando de algo que nossos companheiros diziam, ouvindo muito o que falavam Lucia, sua mulher, e Moacyr Scliar que, embora estivesse em outra mesa, volta e meia ia ali para trocar uma ideia. Ficamos só no cumprimento e na despedida, e a vida seguiu.

Devo dizer, porém, que a frase, aquela que atribuo ao meu ídolo, continua me perseguindo. Escrever, em tese, é fácil. E agora até sem maiúscula e ponto final - em blogs, redes sociais etc permitem-se liberdades que não havia no tempo em que caligrafia era tema de escola. Todo mundo escreve. O problema continuam sendo as ideias.

Confesso que eu tinha um tema predefinido para ocupar este espaço em que não bastam a maiúscula e o ponto final - pelo menos o início e o fim estavam claros. Outra pessoa, porém, preencheu o mesmo lugar com ideias muito precisas sobre o tema escolhido. E fiquei pendurada pela maiúscula e o ponto final.


Na caminhada matutina com meu querido Maurício, rumo aos seus 19 anos, ideias arejadíssimas, pedi sugestões. Em 45 minutos à margem do Guaíba, passamos a semana e a vida em revista. Falamos sobre visitas presidenciais, tragédias, entrevistas de emprego, redes sociais, clima, aspirações, juramento à bandeira, baladas...

- Fala sobre como as crianças crescem rápido - sugeriu, entre a ironia e o autorretrato, ele que teria de encurtar o exercício para seguir para o estágio e a faculdade - E como em pouco tempo a gente passa da infância à vida adulta sem escalas.

E isso nos rendeu uns 10 minutos de conversa.

- Fala sobre encontros - emendou mais adiante, enquanto planejávamos o final de semana - Em como não é preciso esperar datas especiais para reunir a família, os amigos, as pessoas que a gente gosta.

- Mas o nosso encontro ainda não aconteceu! - ponderei, sabendo que ele se referia a um jantar marcado para este sábado, reunindo pela primeira vez os três afilhados que moram na cidade (anote aí os de fora: Isaura, Luciana, Camila, Luiz Antônio e Nina!) e no qual eles serão os responsáveis pelo cardápio: Renan, 22 anos, estudante de Engenharia, Ramiro, 19, aluno da Publicidade, e ele mesmo, acadêmico de Ciências da Informação.

- Mas não precisa acontecer - ponderou ele, cheio de razão - A gente pode ficar feliz de forma antecipada, só com a expectativa do encontro.

Acho que Maurício nunca leu O Pequeno Príncipe (nem eu!) - "Se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei", disse a raposa ao pequeno príncipe.

Tive de concordar.

Finda a caminhada, a vida seguiu. Eu continuava sem um tema, mas a frase dele me fez refletir, me levou direto ao computador e me fez escrever. Agora, só falta o ponto final."

Viagem ao interior: a vida pode ser muito simples. E muito boa.

21 de março de 2011 1

No sábado de sol e céu azul, a viagem para visitar uma tia adoentada revelou-se um passeio repleto de reencontros, abraços calorosos, singelezas.

Na casa de minha tia, 81 anos completados na quinta-feira, não só nos esperavam chimarrão, o bolo de aniversário de chocolate e a soda limonada. Havia ali também a alegria de tia Maria por nos receber, suas histórias misturando as histórias da família, as lembranças que são as nossas lembranças... Tia Maria me olhou firmemente nos olhos e sentenciou:

- Tu és uma pessoa feliz, livre, pode fazer o que quiser.

E seguiu contando histórias.

Tia Maria tem um jardim singelo, que mistura dálias, rosas e beijos. E pés de abóbora, tomates selvagens e caquis. E se despediu com um sorriso, apesar de ter passado a semana no hospital.

Nossa incursão passou também pela casa que era do nosso avô e que meu tio Adolfo cuidadosamente conserva. Meu primo Renato, que voltou encantado de uma viagem ao norte da Itália, incrementou as janelas do porão de pedras com flores, montou estufas onde cultiva plantas só à base de terra, água e carinho. Saímos dali com tomates reluzentes e a visão de vacas com úberes inchados de leite pastando a grama verdinha.

Seguimos para a casa de nossa prima Leda, que sempre tem um bolo especial pronto para servir. Na casa ampla, cercada de muito verde, o Lucas brinca brincadeiras que pouco se veem hoje. Despejava uma carga de milho no caminhão de madeira, colocava de volta, repetia a operação, ao ar fresco e livre. Tão bonito ver criança assim.

Ainda vimos mais dois irmãos de nossa mãe e outros tantos primos, como o nosso querido Moa, que nos brinda sempre com muitos sorrisos, com a mesma piada da qual sempre rimos e com alguma gentileza (a do dia era "vocês são tão perfumadas..."!) Moa tem quase 50 anos, síndrome de Down, e nos faz sempre lembrar que a vida não precisa ser complexa.

Voltamos para casa tarde, sob a lua mais brilhante dos últimos 18 anos. O luar entrava no carro de um jeito diferente. Cansada do dia, dormi na metade do caminho. Acordei quase em casa e, meio tonta, fiquei me perguntando se tinha sonhado o sábado que vivi... Não tinha. A vida pode ser bem simples. E muito boa.


Para quem gosta do Rio, de Portugal, de Saramago... e de uma crônica aos sábados

12 de março de 2011 1

Tempos atrás, o Joaquim António Emídio, jornalista, escritor e editor do jornal português O MIRANTE nos visitou na Redação.

Depois disso, ele voltou ao Brasil, mais especificamente ao Rio, onde escreveu a crônica abaixo, que me enviou. Para ler com calma, em um sábado de verão:


José Saramago e o coco gelado numa praia do Brasil

Joaquim António Emídio

"O esquecimento é a maior das misérias". Acabei de folhear, na praia de Copacabana, três jornais do dia. No meio de centenas de palavras e dezenas de títulos retive esta citação de um jovem poeta que viveu em Paris nos últimos dois anos a fazer um doutoramento em poesia. É notícia do jornal no meio de muitos outros assuntos desinteressantes.

Acabei de viajar dez horas de avião com o Memorial do Convento debaixo do nariz. Está confirmado: Este é o melhor livro de Saramago na minha fraca opinião. Saramago já tinha escrito este livro quando convivi com ele em várias iniciativas e mantive sempre uma certa reserva em relação à força da sua prosa. Se o maior cego é aquele que não quer ver então eu sou definitivamente um dos maiores cegos do mundo.

Nem o Levantado do Chão, O Ano da Morte de Ricardo Reis ou Todos os Nomes me abriram tanto os olhos em relação ao autor quanto As Pequenas Memórias.

Mesmo assim não tive alento, na altura, para ler Memorial do Convento, e acho que me deixei cegar pela leitura dos Cadernos de Lanzarote; e sentindo-me tão próximo do escritor, por ter o privilégio de eventualmente ter dormido a sesta na infância debaixo dos mesmos salgueiros da maracha do Tejo, terei sido tão arrogante com ele em pensamento como foram os Souzas Laras de Portugal.

Na impossibilidade de escrever na minha pele os sentimentos de gratidão para com este livro e seu autor, gastei a carga de uma caneta a assinalar as páginas do livro. Estou a tomar notas para esta crónica, com o livro entre pernas, no meio de um mar de gente numa das praias mais concorridas do mundo ( no Brasil), e não me sai da cabeça o episódio de uma noite de convívio na esplanada das piscinas de Golegã ( concelho de Azinhaga) terra de nascimento de Saramago), em que Saramago, com seu rosto austero e voz autoritária, mandou calar um conterrâneo que só fazia perguntas estúpidas e estragava aquelas duas horas de regresso às origens. Nessa altura, percebo agora, já o escritor tinha criado estas duas personagens extraordinárias, (Blimunda e

Baltazar) que estão para este livro como o coco gelado que bebo agora está para a minha sede debaixo de uma temperatura de 30cº.

Não sei nada de arqueologia mas sinto a alegria de um arqueólogo que de descoberta em descoberta vai confirmando que não há segredos debaixo da terra que possam fugir ao conhecimento do homem.

Este encontro tardio com as personagens de Memorial do Convento, e com a arte maior de José Saramago, é também uma afirmação da minha pobreza como leitor sabendo, no entanto, que sou dono de muitas outras misérias.

Enquanto bebo a água de coco, olho por cima dos óculos as bundas das mulheres que passam à minha frente; entre um mergulho no mar e a actualização dos meus sonhos para mais logo à noite, deixo-me ir com as gaivotas e com o fumo do meu cachimbo.

No Memorial do Convento está escrito que "um homem precisa de fazer a sua provisão de sonhos. Se é mais rico ou mais pobre não é coisa que se pergunte pois todo o homem sabe o que tem mas não sabe o que isso vale".



De músicas, de atores, de italianos...Tu Vuò Fa L'americano

19 de fevereiro de 2011 0

E então, no ano passado, Tu vuò fà l'americano virou We No Speak Americano. A banda de house music Yolanda Be Cool e o DJ e produtor DCUP, australianos, transformaram essa pequena joia do napolitano Renato Carosone numa das músicas eletrônicas mais tocadas no mundo.

Sabendo de quanto eu gosto dela, especialmente a versão de O Talentoso Ripley, de 1999, minha amiga Jussara me mandou três versões, a primeira delas com Sophia Loren.

Ouça as três versões e responda: QUAL DELAS VOCÊ PREFERE?

(tente colocar as três para tocar ao mesmo tempo depois, fica muito divertido!)

1 - COM SOPHIA LOREN, em Começou em Nápoles, com Clark Gable (eu ganhei esse filme, delicioso!)



2 - Com Jude Law e Matt Demon em O Talentoso Ripley, de 1999 (eu tenho a trilha, e adoro!)



3 - Com Quadro Nuevo, bandas de jazz da Alemanha (esse eu não tenho!)



E vai a letra abaixo, caso queira acompanhar as duas primeiras versões.


Tu Vuò Fa L'americano

Renato Carosone

Puorte o cazone cu 'nu stemma arreto
'na cuppulella cu 'a visiera alzata.
Passe scampanianno pe' Tuleto
camme a 'nu guappo pe' te fa guardà!

Tu vuò fa l' americano!
mmericano! mmericano
siente a me, chi t' ho fa fa?
tu vuoi vivere alla moda
ma se bevi whisky and soda
po' te sente 'e disturbà.

Tu abballe 'o roccorol
tu giochi al basebal '
ma 'e solde pe' Camel
chi te li dà? ...
La borsetta di mammà!

Tu vuò fa l' americano
mmericano! mmericano!
ma si nato in Italy!
siente a mme
non ce sta' niente a ffa
o kay, napolitan!

Tu vuò fa l' american!
Tu vuò fa l' american!
Comme te po' capì chi te vò bene
si tu le parle 'mmiezzo americano?
Quando se fa l 'ammore sotto 'a luna
come te vene 'capa e di:"i love you!?"

Tu vuò fa l' americano!
mmericano! mmericano
siente a me, chi t' ho fa fa?
tu vuoi vivere alla moda
ma se bevi whisky and soda
po' te sente 'e disturbà.

Tu abballe 'o roccorol
tu giochi al basebal '
ma 'e solde pe' Camel
chi te li dà? ...
La borsetta di mammà!

Tu vuò fa l' americano
mmericano! mmericano!
ma si nato in Italy!
siente a mme
non ce sta' niente a ffa
o kay, napolitan!

Tu vuò fa l' american!
Tu vuò fa l' american!
Tu vuò fa l' american!

Uns dias são prateados, outros são dourados

07 de fevereiro de 2011 0

Como meu verão tem sido, como de costume, em Porto Alegre, viajo na janela.

O pôr do sol é meu momento preferido. Tem gente que acha melancólico, como pode? Não consigo achar.

Ele, definitivamente, me lembra a infância... Sabe o momento em que a natureza se recolhe e parece que fica tudo mais próximo?! Era assim em casa, mais ainda no inverno, quando a gente tinha de entrar em casa cedo, acendia-se o foto, conversava-se até a última brasa.

Adoro estar em casa nesse horário e me recolher...

E num fim de semana em que o sábado revela-se dourado, assim....


... e o domingo prateado, desse jeito...

o que mais eu posso querer?


Só aproveitar as cenas pra desejar uma ótima semana. De viagens a qualquer lugar.

Croniqueta de sábado: Outra viagem dentro de casa, agora natalina

11 de dezembro de 2010 1

Num post recente, mostrei a maravilhosa árvore de Natal das Galeries Lafayette, de PARIS (aliás, minha foto amadora não mostra, mas ela é suspensa no teto...!!!), e falava sobre como gosto de preparar a minha própria, ainda que bem mais modesta.

Pois a minha árvore de Natal não tardou a ser montada. Não sem uma certa solenidade. Convidei minhas fiéis escudeiras (minha irmã Luiza e minha comadre Nina) e também meu sobrinho/afilhado Maurício veio para um happy hour de domingo, o primeiro do Advento (os quatro domingos que antecedem o Natal), como diz a tradição cristã.

A árvore, a mesma que uso há mais de uma década, só vai recebendo acréscimos de adereços a cada ano que passa. Deixei a dita cuja ali prontinha, só esperando para serem colocados os enfeites e montado o presépio.

Recebi o maior apoio moral da Luiza e da Nina, que ficaram no sofá dando palpites, e o suporte técnico/logístico do Maurício.

Adicionei, neste ano, o presépio de dependurar comprado na National Gallery e as fitas de Saint Paul's Cathedral, de Londres, além da estrela da lojinha do Museu do Louvre, minhas únicas compras na minha última viagem, que eu já contei dias atrás.

E já estavam ali:
- estrelas e bolas artesanais confeccionadas pela habilidade da Nina
- pequenos anjos de palha ganhos de outra amiga
- prendedores de madeira para colocar os pedidos
- estrelas de madeira recortada trazidas de outra viagem à Cortina d'Ampezzo
- bolas vermelhas e amarelas

Enfim, uma verdadeira árvore de Natal. Agora, só faltava meu presépio com imagens que imitam crianças, um presente de minha cunhada Iete. Enquanto arrematava a árvore, pedi a Maurício para instalá-lo na mesa de mosaico cujo pé é a antiga máquina de costura de minha mãe. Prontamente, ele começou a tarefa, desempacotando com cuidado as figuras, até chegar ao Menino Jesus.

Ele já ia colocá-lo entre Maria e José quando o adverti.

- Ah, claro, Jesus só na noite de Natal - lembrou ele.

E sumiu.

Voltou, instantes depois, com o cartazete da foto, com a seguinte inscrição:

- Coming Soon!  - "Em breve", em português.

Como imagino Jesus como uma pessoa bem-humorada, deve ter achado engraçada a peraltice pós-adolescente de meu sobrinho.

Agora, mal posso esperar a noite de Natal para, reunida com a família, colocar o menino no seu devido lugar. E me refiro a Jesus, não ao Maurício.

Quando as coisas vêm até você

12 de outubro de 2010 2

Já que é feriado, lá vai um amontoado de pensamentos - não chega a ser uma crônica, não me atreveria...

Num post encomendado tempos atrás escrevi sobre como gosto de fazer programas sozinha, embora adore companhia: viajar, comprar uma revista e sentar num café, ir ao cinema, caminhar, conhecer um lugar novo, um restaurante, apenas na própria companhia, às vezes, é muito bom...

Em muitas ocasiões, me proponho a ficar só, como no final de semana, este último, de folga. Mas mesmo quando isso ocorre, é incrível como se sucedem, digamos, "acontecimentos". Fora as coisas triviais da casa como cozinhar (até almoço eu fiz!), arrumar, lavar roupas, regar as plantas, ler jornal, retomar um livro... resolvi ir ao cinema. E vi o excelente Dois Irmãos, que eu recomendei no post anterior, na companhia de uma amiga que encontrei no café do cinema, por obra do acaso.

De volta, ainda no sábado, um por do sol indescritível (por isso as fotos) invadiu minha janela. Mais tarde, amigos queridos tomaram minha casa de assalto e me proporcionaram uma orgia gastronômica daquelas com pouco planejamento e resultado absolutamente saboroso.

Vou pular todas as coisas que aconteceram no domingo (isso não é um diário, afinal), e que foram muitas, mesmo sem plano nenhum. Salto direto para uma visita de final de tarde... Na minha janela, na mesma ameixeira que já descrevi tempos atrás, apareceu um bando de papagaios...

De onde vêm tantos papagaios à solta nesta cidade, alguém sabe? Corri para tentar fotografá-los, mas eles foram mais rápidos. Sem uma lente adequada, só o que consegui foram as imagens abaixo...

Escrevi tudo isso quando queria dizer bem pouco: há tanta coisa boa bem à frente da nossa janela; outras tantas batendo à nossa porta... Por que às vezes não conseguimos enxergá-las?