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Posts na categoria "Crônicas"

Sobre Nice: Do que não gostaríamos de recordar

17 de julho de 2016 0

Esse texto foi publicado na edição de final de semana, sobre os tristes acontecimentos da última quinta-feira, quando mais de 80 pessoas foram mortas e dezenas ficaram feridas num ataque terrorista.

Fui a Nice pela primeira vez há exatos 20 anos, num longo roteiro rodoviário iniciado em Roma e que passava pelo sul da França, incluindo a famosa cidade da Costa Azul, além de Grasse, Mônaco e Monte Carlo.

Das fotos analógicas da época, apenas uma meia dúzia. Na memória, mais do que as belas paisagens da capital da Riviera Francesa que as fotos retratam, ficou uma visita ao Museu Marc Chagall (há um outro famoso também para o pintor Matisse). Lembro de serpentear a pé por uma estradinha para chegar até ele e da emoção de ver as obras que eu conhecia só dos livros.

Era dezembro, e a cidade de 350 mil habitantes, o segundo destino turístico da França (recebe mais de 4 milhões de visitantes por ano, ficando atrás apenas de Paris), não vivia seu burburinho habitual de verão. Além da hotelaria, da gastronomia, dos museus e das paisagens que misturam montanha e mar, a cidade é conhecida por seu Carnaval, que costuma atrair cerca de 1 milhão de pessoas.

Aeroporto de Nice, porta de entrada para a Riviera Francesa. Foto Rosane Tremea.

Aeroporto de Nice, porta de entrada para a Riviera Francesa. Foto Rosane Tremea.

Voltei a Nice dois meses atrás por acaso, desta vez numa passagem via aérea que me levaria de Roma a Grasse e Cannes, com passagem obrigatória pelo moderno aeroporto de Nice (no Nice-Côte d’Azur, há ligações para 30 países e mais de cem voos diretos). Na chegada, vista do alto, talvez tenha achado a cidade ainda mais bonita do que eu lembrava. A Promenade des Anglais, que vai do teatro de Verdure até o aeroporto, por vários quilômetros, emoldura o mar azul do Mediterrâneo.

No retorno de meu roteiro, também para tomar um voo, desta vez com destino a Paris, o ônibus urbano que me levaria ao aeroporto fez um trajeto de uma meia hora pelo centro da cidade, tomado por praças tranquilas e floridas, com cenas típicas daquela região da França.
Imaginar tudo isso maculado por terrorismo e medo, assim a distância, parece impossível. Não é nada do que gostaríamos de recordar.

Duas visões sobre férias

18 de janeiro de 2016 0

Li dois textos sobre férias nos últimos dias daqueles que eu gostaria muito de ter escrito.

Um deles é da psicanalista Diana Corso e fala da nossa dificuldade em desligar e ser outra coisa que não o que nos define no resto do ano, o nosso trabalho/profissão.

Publico só o primeiro parágrafo e o link para que você leia o resto:

“É verão, temporada oficial de descanso. Sair de férias não garante que sejamos capazes de gozá-las: amigos, casais e famílias se desentendem, se angustiam, alguns vagam tristes, outros perdidos. A expressão workaholic, viciado em trabalho, que a princípio me define, não basta para explicar: não é apenas um vício. O problema é que despidos das nossas características profissionais ficamos nus de identidade.

Sei que isso não é assim para todo mundo: há quem se preparou o ano todo para esse momento, lapidou o corpo, garantiu as insígnias de beleza, força, dinheiro ou o que for para entrar nos padrões. Enquanto os outros se desmancham em brancuras, barrigas, celulites e roupas soltas, alguns soberbos exemplares angariam admiração e inveja dos complexados. Eles não passeiam, desfilam. São como os salva-vidas, profissionais do veraneio.”

Foto Rosane Tremea

Foto Rosane Tremea


O segundo texto é uma entrevista que eu li no Estadão com um filósofo e que fala sobre GPS, wazes e google maps, redes sociais e outros quetais usados em viagens e que traduz muito do que eu penso. O que angustia o fisóloso é a atual preocupação de viajantes, e das pessoas em geral, maior com o destino, com o objetivo, e menos com a jornada, com o caminho.

Aqui vai apenas o link para que você leia essa reflexão interessante.

Que vengan (los argentinos!)

09 de janeiro de 2016 0

Croniqueta publicada no ZH Noite e reproduzida aqui:

Naquele verão de 1985, tive meu primeiro contato com turistas argentinos.

Talvez tenha sido mesmo a primeira vez em que vi e falei com um argentino, considerando que até então não havia cruzado a fronteira com o país hermano e, na minha cidade, não morava nenhum deles.

Nem o Mercosul existia na época (ele só viraria algo que nunca viria a ser em 1991). Aquela, portanto, seria uma temporada de estreias. Acampar era novidade. E, naquele camping remoto de Florianópolis, nossa barraca era uma ilha cercada de argentinos por todos os lados.

Meu espanhol, como diria uma amiga, era um espanhol de final de semana. Na fila do banheiro, niñas e jovencitas tentavam falar comigo, e eu ficava lá, só sorrindo, fazendo de conta que tinha entendido. Me esforçava, mas não entendia.

Eles nos cercavam também com suas camisas xadrezes, suas bandanas, suas Coca-Colas com Fernet, seus alfajores e empanadas – adorei as empanadas, adoro até hoje (a melhor de todas, comi em um restaurante de Puerto Iguazú!).

O camping remoto não era propício às compras, mas eu sabia que, na passada por Porto Alegre, naquela temporada, eles haviam consagrado a expressão “dá-me dos”.

Anos mais tarde, no início do verão de 2001, me vi numa situação semelhante (o que não havia mais eram aquelas novidades todas: eu já conhecia Buenos Aires, já falava espanhol com alguma fluência, já tinha comido mais empanadas do que deveria): hospedada numa pousada de Canasvieiras, era de novo a única entre muitos argentinos.

Eles lotavam tudo, do café da manhã à praia semiprivada, e falavam e gesticulavam e jogavam frisbee na praia. Para quem buscava sossego, como eu, era um pouco de barulho demais. Até que num dia daquele dezembro a pousada amanheceu estranhamente silenciosa. Eu estava sozinha.

Custei a saber por quê (hoje, eu descobriria em segundos, com um smartphone à mão). A crise econômica fez o governo argentino instituir o “corralito”, congelando os depósitos dos poupadores e estabelecendo limites semanais para a retirada de fundos. Assustados diante da incerteza, os argentinos dormiram na pousada e não amanheceram.

Neste janeiro de 2015, não está nos meus planos nenhuma praia catarinense, portanto a chance de viver situação parecida com a desses dois cortes em 30 (!) anos é pequena.

Eu os vejo nas estradas aqui no Rio Grande do Sul, alguns perdidos nas nossas mal sinalizadas entradas da Capital, um que outro em bares e restaurantes da cidade.

Mas me alegra vê-los de volta. E fico pensando: é uma pena que, cá e lá, nossa livre circulação de pessoas, prevista em acordos comerciais e diplomáticos, dependa de nossas debilitadas economias.

Que bom se fôssemos apenas turistas indo de um lado para o outro em vez de parecermos especuladores das fraquezas alheias.

Um ano para viajar (!?)

04 de janeiro de 2016 0

Encerrei 2015 e comecei 2016 terrivelmente triste.

Perdi um amigo querido que, entre outras coisas, compartilhava o gosto por viagens. Ele, muito mais aventureiro do que eu, gostava de esportes, de ciclismo, de corrida… Viajava o mundo atrás de uma nova aventura e de superação.

Começamos juntos no jornalismo e, na faculdade, fizemos duas viagens inesquecíveis pelo interior do Rio Grande do Sul: um curto final de semana em Rio Pardo e quatro dias de um mergulho improvável pela Estação Ecológica do Taim

O Taim recém havia recebido essa distinção e nos fomos lá, sem nenhum dinheiro no bolso, com uma vaga ideia na cabeça, as câmeras emprestadas do Hilário, o Passat enjambrado do meu amigo carregando as nossas juventudes e ideais, com os colegas/amigos Luís, Kátia, Paulo, Andrea, Marilene.

Vivemos quatro dias intensos, com a cumplicidade/parceria dos administradores da reserva, percorrendo os canais em aerobarco, em canoas de lata, andando por banhados, percorrendo trilhas…

Compartilhamos os improvisados alojamentos ocupados por pesquisadores onde nós, urbanos, nos assustávamos com o tamanho dos insetos, das rãs que habitavam os banheiros, do desconforto…

Compartilhamos, na volta, a ilha de edição para montar o documentário que, na nossa cabeça, ganharia o mundo, como se fôssemos produtores da National Geographic, mas ficamos mais do que satisfeitos em vê-lo exibido na faculdade e na TV local.

Depois, viajamos, todos nós, por mundos diferentes.

E foi duro, saber agora, que nossos caminhos não se cruzarão mais.

Fiquei sem vontade de viajar. Sem vontade de escrever.

Deixei o blog à própria sorte.

Despertei de minha letargia nesse primeiro sábado/domingo de 2016.

Primeiro porque minha querida amiga Nina me presenteou com uma lembrança (pós) natalina que eu amei.

Ela me deu um pequeno (mesmo) Diário de Ushuaia, produzido pela Ana Cândida Sommer, do Ateliê de Bolso (com o querido Antonio Vasques, ela faz outras coisas lindas!).

Veja o tamanhinho do livro, comparado a esse guia que nem grande é.

Foto Rosane Tremea

Foto Rosane Tremea

Ela já fez outros também, como esse de Berlim abaixo.

Foto Ateliê de Bolso, arquivo pessoal

Foto Ateliê de Bolso, arquivo pessoal

Ana conta as viagens com seus desenhos delicados e pequenas frases/acontecimentos, para lembrar de tudo além das fotos e das memórias.

É ela quem descreve:

“Os mini diários desenhados começaram quando percebi que não conseguiria guardar apenas na lembrança esses acontecimentos ou pensamentos que ocorrem quando estamos viajando.”

Eu também, Ana, escrevo diários, mas não desenho nem faço coisas lindas como essa com a qual fui brindada.

 ***

Depois de recebido o mimo, e talvez por isso, tive um sonho. Estava numa roda de conversa sobre viagens. Era um pátio, com vários ambientes diferentes, meio aberto, e chovia.

Eu devia falar sobre experiências de viagem e tinha levado uma dessas indefectíveis apresentações em powerpoint, que insistia em não funcionar. E íamos rodando o pátio atrás de uma TV ou projetor que aceitasse minha apresentação. Era quase um pesadelo.

Enquanto isso, para distrair a plateia, que curiosamente aumentava em lugar de diminuir, fui pedindo que cada um dissesse qual tinha sido a primeira e a última viagem. Surgiram histórias lindas, cada um querendo falar mais do que o outro.

E contei a minha: a primeira, no Ford 1949 do meu tio, rumo à casa italiana com porão de pedra dos meus avós, numa vila de uma cidade minúscula do Rio Grande do Sul. A última, neste Natal, com quase toda a família em comboio, num porão italiano do interior de Garibaldi que tem a propriedade de me fazer sentir em casa.

 

Foto Rosane Tremea

Foto Rosane Tremea. A casa de meus avós.

Foto Thaís Sellini Tremea

Foto Thaís Sellini Tremea. O porão de Garibaldi

***

De volta ao começo.

Que 2016 nos reserve muitas viagens. Mas, principalmente, que elas nos tragam/devolvam o melhor de nós mesmos.

 

Quando a tecnologia joga a favor

23 de junho de 2015 0

Assim como há coisas em que a tecnologia parece afastar as pessoas, há outras em que ela é muito útil, torna a viagem mais interessante ou ajuda no mínimo a divertir.

Nas últimas viagens, coisas legais que eu vi por aí:

  • Em GRACELAND, a eterna casa de Elvis Presley nos arredores de MEMPHIS (EUA), o tablet recebido na entrada acompanha a visita do início ao fim, dando o tempo certo e informações extras (vídeos, fotos, áudios, entrevistas) em cada cômodo da mansão.

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No final, ainda pode-se selecionar fotos ou outros conteúdos para receber por e-mail ou compartilhar direto nas redes sociais. Bacana.

Antes de iniciá-lo, faz-se um registro: uma foto, o código postal e um endereço de email.

E começa a diversão, com perguntas e respostas, gravação de áudios, confecção de capas de CDs, fotos… No final, chega ao email um link, com um site completo sobre a visita interativa. Divertido.

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  • O trajeto até Machu Picchu, no PERU, é feito parte em ônibus, parte em trem, parte em minivans.

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O roteiro de ônibus e trem até Águas Calientes, ao pé da montanha da cidadela inca, é administrado pela PeruRail, com seus atendentes bem vestidos que, para distrair os turistas (e vender algumas peças), fazem até desfile de modas.

E é pisar de volta para que um email com uma pesquisa sobre os serviços pisque na sua caixa. Pode ajudar a melhorar os próximos passeios. Útil.

Pequeno recorte de uma viagem: o que nos aproxima e o que nos afasta?!

11 de maio de 2015 0

Já devo ter dito aqui inúmeras vezes que adoro aeroportos e até atraso de voo (quando não me faz perder a conexão!) às vezes me deixa feliz.

Costumo ler muito quando estou sozinha em aeroportos, mas gasto a maior parte do tempo observando as pessoas.

Nos últimos anos, as cenas não são lá muito diferentes, mas essa da foto abaixo, particularmente, sempre me faz pensar muito.

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As pessoas estão ali, todas juntas, batalhando um espaço para… carregar seus celulares e outros equipamentos.

Os totens colocados por empresas e aeroportos (no caso da foto, o de Washington) para carregar smartphones, tablets, computadores e assemelhados parecem potes de mel atraindo abelhas e formigas.

Em lugar de equipamentos mobile ou carros elétricos, enxergo pessoas conectadas a tomadas.

E aí não há limites de lugares onde se possa dispor de energia para carregar as baterias (não as nossas), como aqui nessa abaixo, ao ar livre, em frente ao Museu Nacional dos Direitos Civis, em Memphis, nos EUA.

Eu não chego a nenhuma conclusão. Só observo.

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Viajar é muito bom, mas...

28 de abril de 2015 2
Fotos arquivo pessoal

Fotos arquivo pessoal

Sempre que viajo e vejo multidões cada vez maiores se movendo, conhecendo, experimentando… fico muito feliz e, ao mesmo tempo, preocupada.

Como vamos proteger nossas belezas naturais, nossos patrimônios culturais e arquitetônicos ou nosso bens imateriais de nós mesmos?!

Às vezes, parecemos nuvens de gafanhotos que passam e deixam atrás de si terra arrasada.

Foi assim que me senti quando visitei, de novo, o Peru e suas cidadelas incas como Ollantaytambo e Machu Picchu.

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Vista à distância, a multidão assusta. Mais próximo, fica pior ainda, com gente se acotovelando para poder admirar as maravilhas construídas séculos atrás.

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E olhe que Machu Picchu, por exemplo, restringiu o acesso de visitantes a 2,5 mil POR DIA, distribuídos em três ou quatro horários distintos! E proibiu os sobrevoos de helicóptero… Ainda assim, é muita gente.

Na semana que passou, li que o mercado da Boqueria, em Barcelona, passou a limitar a entrada de turistas, atendendo a um pedido dos próprios comerciantes. Às sextas e sábados, está vetada a circulação de grupos com mais de 15 pessoas, entre 8h e 15h. E a restrição pode ser ampliada.

É uma questão a ser muito discutida.

Recebi um estudo da Amadeus (uma parceira tecnológica do mercado de viagens e turismo) mostrando que, até 2030, 1,8 bilhão de pessoas viajarão, anualmente. A pesquisa é baseada em entrevistas com futurologistas, especialistas da indústria de viagens e viajantes, em parceria com a Future Foundation.

O trabalho, intitulado “Future Traveller Tribes 2030: entendendo o viajante do futuro”, também detalha os diferentes tipos de viajantes, ampliando os aspectos meramente demográficos dos estudos anteriores e entrando um pouco mais no comportamento desses globetrotters.

O que me impressionou mais foi o número de viajantes (que também serão cada vez mais velhos e cada vez mais conectados), mas também é curioso esse perfil das seis tribos traçado pelo levantamento (descritos abaixo tal e qual):

  • Buscadores de Capital Social vão estruturar suas férias quase que exclusivamente com o público online em mente, pois acreditam fortemente nas recomendações dos usuários para validar as suas decisões. Um novo mercado pode se abrir com base no “Klout-boosting breaks” (breaks impulsionados por algoritmos), repleto de momentos conscientemente amigáveis.
  • Puristas Culturais vão olhar para o planejamento de férias como uma oportunidade de mergulhar em uma cultura exótica, mesmo que de maneira desconfortável, onde o prazer das férias depende da autenticidade da experiência.
  • Viajantes Éticos vão fazer os planos de viagens com base em fatores morais, por exemplo, diminuindo sua emissão de carbono ou melhorando a vida dos outros. Eles, muitas vezes, vão improvisar ou adicionar algum elemento de voluntariado, desenvolvimento comunitário ou atividade eco-sustentável em suas férias.
  • Buscadores de Simplicidade preferem ofertas empacotadas, evitando gerenciar muitos detalhes da viagem. As férias para esta tribo representam um raro momento na vida para cuidar de si mesmo com garantia de segurança e diversão.
  • Viajantes por Obrigação são orientados por um propósito específico de viagem, seja a negócios ou lazer e, portanto, têm restrições de tempo e orçamento. Eles buscarão tecnologia baseada em algoritmo inteligente capaz de eliminar qualquer tipo de aborrecimento nas viagens.
  • Caçadores de Recompensa estão apenas interessados em viagens recompensadoras. Muitos querem algo que represente uma extraordinária recompensa ou que ofereça uma experiência premium, um retorno para o alto investimento em tempo e energia em sua vida profissional.

 

Três frases para incentivar viajantes

30 de março de 2015 0

Fotos Sabrina Schuster, divulgação

Recebi de uma sobrinha (dizer querida seria redundante) essa imagem acima, que resume bem o que eu penso sobre viajar.

São bons slogans, não?!

Pra gente começar a semana.

Mais um "artigueto": Poesia para Tempos Difíceis

11 de março de 2015 0

Este foi publicado por mim na edição impressa do último domingo, e resolvi compartilhar por aqui também:

Tenho inveja de palavras e expressões, e uma das minhas preferidas é “poesia numa hora dessas!?”, do Verissimo, o Luis Fernando.

É que, sempre que as coisas estão difíceis, não consigo pensar em outra coisa que não nisso, em poesia, o que, no meu cartesianismo, não parece adequado.

Quando as coisas estão difíceis, não penso em poesia, assim, de uma forma genérica. Penso num pedaço de poema.

Ele me foi apresentado há muitos anos por um amigo querido que agora, quando pedi para recuperá- lo, declarou:

– Eu queria ter sido a Cora Coralina.

E quem não queria?

A poetisa goiana, preocupada mais com o conteúdo do que com a forma, somava sabedoria e simplicidade – talvez fosse simples por ser sábia (ou seria sábia por ser simples?!).

Antes de publicar seu primeiro livro, aos 76 anos, viveu muito.

Com as palavras, a doceira de profissão convivia desde cedo. Mas demorou para se dedicar de verdade a elas.

Foi aos 50, quando adotou esse pseudônimo que parecia ter nascido com ela, que desencantou.

Um tempo e uma transformação que definiu como “a perda do medo”. Amadureceu e viveu até os 95 anos produzindo pequenas joias.

É uma delas que me conforta quando as coisas estão difíceis.

Esse trecho de O Longínquo Cantar do Carro fala assim:

“Dizia meu avô:

Quando as coisas ficam ruins,

é sinal de que o bom está perto.

O ruim está sempre abrindo passagem para o bom.

O errado traz muita experiência

e o bom traz às vezes confusão:

“Nem sempre assim nem nunca pior”.

Meu avô conhecia todas as verdades e gastava filosofia de quem muito viveu e aprendeu.”

Se lhe soaram apenas conformistas as palavras, peço que volte e leia de novo.

Quando as coisas estão difíceis, eu acredito, como na poesia de Cora Coralina, que o errado traz muita experiência e que o ruim haverá de abrir uma passagem para o bom.

Pode me chamar de Poliana, a incorrigível otimista de Eleanor Porter.

Mas o que eu queria mesmo, como o meu amigo, era ser Cora Coralina, e achar poesia, assim, para uma hora dessas.

 

Das coisas que se vê por aí, em Cartagena

07 de novembro de 2014 0

O relato abaixo é do colega Thiago Copetti e mostra um tipo de cena que deixa nossas viagens mais ricas.

“Em viagem a Cartagena, na Colômbia, no início do ano, me chamou a atenção, logo que cheguei, uma banca de locação de celulares. Depois, circulando, observei que eram comuns em diferentes ruas, em geral, em regiões mais simples. Não eram aparelhos para venda, como me pareceu em uma primeira olhada. Eram para ‘llamadas’, como diz no cartaz. Horas depois, observando os transeuntes, notei que, ao contrário do Brasil, os colombianos (ou pelo menos em Cartagena) não vivem grudados em um celular. Demorei a encontrar na multidão um nativo ao telefone. Muitos nem têm, e param nas bancas quando estão na rua e querem falar com alguém.

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Há mais bancas de locação de celular do que aparelhos públicos de telefone fixo. É como um sistema de celular privado de aluguel, aparentemente de baixo custo (deduzo pela “modernidade” dos aparelhos, na foto), mas que parece dar conta do recado e deixar a cidade menos frenética. Para efeitos estatísticos, fui conferir a densidade de celulares por habitante no Brasil e por lá. Estamos com cerca de 30% mais celulares per capita aqui do que na Colômbia. Enquanto o Brasil tem cerca de 1,3 aparelho registrado por habitante, a Colômbia registra praticamente 1 por 1. É a estatística confirmando as ruas (e as percepções de um turista).”

Viagem com um pé lá e outro cá

15 de setembro de 2014 0

Estou voltando de 10 dias de férias, que pareceram muitos e pareceram poucos.

É incrível o que se pode viver em poucos dias, quando se viaja, para onde quer que seja: situações, pessoas, lugares… E aí parecem muitos.

É inevitável que dias cheios de tudo isso passem rápido e deixem aquele gosto de quero mais… E aí parecem poucos.

Fui a Buenos Aires, que é tão perto e tão longe ao mesmo tempo, tão diferente do nosso dia a dia. Por mais que se procurem semelhanças, por mais restaurantes que ofereçam sua comida e mais cafés ao estilo portenho surjam na cidade…

Nos próximos posts, vou publicar dicas de lugares e atrações na capital argentina.

Por enquanto, só para ilustrar este, uma imagem que resume como eu me sinto diante de tanto mundo a ver ou rever (!).

E, abaixo, um trecho de uma música que serviu de trilha sonora para parte dessa jornada. O título é sugestivo:

Sólo se trata de vivir

“Dicen que viajando se fortalece el corazón
pues andar nuevos caminos
te hace olvidar el anterior
Ojala que esto pronto suceda,
así podrá descansar mi pena
hasta la próxima vez.”

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

 

Os datilógrafos das ruas de Guadalajara e a holografia no aeroporto de Varsóvia

25 de abril de 2014 0

Não lembro direito o contexto, mas a conversa era sobre Garcia Márquez, morto na semana passada no México, e os escrevinhadores de Guadalajara.

Lembrei deles, sentados com suas mesinhas e máquinas de escrever, à sombra de marquises, à espera de gente na porta de cartórios, prontos para redigirem uma procuração, um requerimento, uma carta…

Fotos Rosane Tremea

Fotos Rosane Tremea

Fiquei me perguntando se eles estarão ainda lá, quase 10 anos depois. Tentei encontrá-los na rede, não achei.

Será que ainda existem datilógrafos como aqueles agora, tempo das redes sociais?!

Fiquei me perguntando sobre isso também por que, viajando por aí, fiquei frente a frente com uma holografia que me lembrou os datilógrafos e também Blade Runner, o filme.

No aeroporto de Varsóvia, a capital da Polônia, uma moça virtualmente bem vestida tentava ensinar, em vários idiomas, como fazer meu check-in…

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O desafio era me trazer de volta a Porto Alegre, evitar que eu acabasse em algum país do Oriente Médio, da América Central ou em qualquer outro ponto remoto do planeta.

Prefiro os datilógrafos, que não poderiam me ajudar a marcar meu assento no voo de volta, mas com quem poderia trocar uma palavra qualquer. Que mostrassem que, por trás da máquina, o bom mesmo é saber que há alguém de carne e osso.

Viagem a Casca, ao passado, ao presente, ao futuro...

07 de março de 2014 10

Não ia escrever sobre isso, achei particular demais. Mas ao relatar meu domingo para um amigo, ele se entusiasmou com a ideia e me disse: “Tu precisa contar isso”.

Precisar, precisar, não precisa, mas lá vai:

Pela primeira vez, participei de um desses encontros de famílias que se tornaram tradicionais no Rio Grande do Sul, especialmente reunindo descendentes de imigrantes italianos e alemães.

Fotos arquivo pessoal

Fotos arquivo pessoal

Ainda que eu cultive muito interesse pelas raízes e as tenha buscado em arquivos históricos e de pesquisadores da imigração, confesso um certo preconceito. Temia que fossem como alguns encontros de antigas turmas, muitas vezes promovidos para reafirmar a superioridade de uns sobre outros, para exibir o sucesso profissional, para observações ainda menos nobres como as de que o colega, ele, sim, envelheceu, engordou…

Me despi dos preconceitos e fui. Facilitou o fato de o quarto encontro da família ter sido marcado para uma cidade relativamente próxima da minha, Casca, entre o norte e a serra gaúchos. E de ter encontrado parceria em dois de meus irmãos e de minha cunhada. E da mobilização de muitos primos queridos.

A programação lembrava a de um congresso, com horários definidos para cada parte do evento, iniciando com um café da manhãs às 7h (!).

Na chegada ao CTG local, que nos abrigou, uma mesa de recepção calorosa e organizada, com etiquetas (não eram crachás, mas etiquetas adesivas mesmo) nos identificando, com nome, a cidade de onde vínhamos e nossa ascendência (no meu caso, meu bisavô Antonio).

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Na mesa seguinte, o café, que achávamos que já teria se acabado àquela altura… Nada. Havia ali biscoitos e grostolis feitos em casa, salames, queijos, pães, bolos, copas, frutas, café…

Na sequência, a recepção às ‘comitivas’ - eram cerca de 300 pessoas, vindas de todo o Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná, de Mato Grosso – por uma ‘prima’, nossa anfitriã, que tinha não só o dom da organização, mas o da palavra.

E então partimos, em carreata, até a bonita igreja local para uma missa, que seria rezada por nosso primo padre – toda família italiana tem um padre para chamar de seu -, dirigida por uma prima, cantada por outros primos… Uma igreja lotada por gente muito próxima e por gente que nem sabia da existência um do outro, apesar de compartilhar do mesmo sobrenome. E ainda que respeitando a liturgia, ela foi toda permeada pela história dos nossos antepassados, pela nossa própria história. Gente simples, muitos rostos e mãos marcados pelo trabalho na terra, emocionados ao ouvir falar dos seus e de si.

E voltamos de novo em carreata, depois de posar para a tradicional foto para a posteridade (alguém saberá um dia, quem é quem, naquelas cabeças de alfinete?!).

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Ao retornarmos para o salão onde seria o almoço, parecia que fadas e duendes haviam passado por ali, com as mesas postas – enfeitadas com flores, copos personalizados, mensagens impressas com capricho -, os aperitivos, o bufê… Tudo muito simples, mas elaborado com muito capricho.

Uma mistura de culturas e tradições, de hábitos e costumes, como o macarrão (que nós chamamos de bígoli) tal qual era feito por minha mãe, minha nonna e minha bisnonna, com o churrasco incorporado por quem um dia se abancou por aqui.

E, a cada volta no bufê, a descoberta de um parente distante do qual se tinha ouvido falar, alguém que havíamos adicionado no Facebook, outro que queria saber quem era só de olhar o nome, mais um que buscava desvendar de onde tinha vindo afinal, muitas semelhanças em rostos desconhecidos.

E para depois do almoço ainda estavam reservadas emoções como as homenagens ao descendente mais velho presente (meu querido tio Adolfo, irmão de meu pai, aos quase 86 anos) e ao mais novo (um bebê fofo de cinco meses, cujo nome, confesso, esqueci, naquela confusão de sentimentos) e como uma videoconferência com a porção italiana da família reunida, naquele momento, do outro lado do Atlântico.

No alto de uma montanha da pequena Lentiai, no norte da Itália, os Tremea de lá também se juntaram (pela diferença do fuso, nós para o almoço, eles para o jantar) e fizeram um encontro tão animado como o nosso.

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Estavam ali organizados, no restaurante de nossos queridos primos Angelo, Daniela e Massimo (com a participação fundamental da jovem guarda no comando das ferramentas tecnológicas para que tudo desse certo, Alessandro e Francesco), sentados em fileiras, com o coral ao fundo que cantou músicas do folclore repetidas pelos imigrantes na chegada à terra nova e que são entoadas até hoje.

Quando eles começaram a cantar, meu primo e afilhado Renan observou, com propriedade, que algo aconteceu na travessia do Atlântico: os Tremea de lá são afinadíssimos; nós, de cá, o máximo que fazemos é uma gritaria animada. E nesse encontro de vozes, afinadas ou não, houve risos e choro de genuína emoção. Encontros inimaginados por nossos bisavós, que nunca mais retornaram, alguns sequer cartas trocaram com quem deixaram para trás na Itália. Inimaginados também por nossos pais, que sequer conheceram a Itália, mas falavam de lá como se tivessem desembarcado havia pouco e nem desconfiavam que um dia fosse possível tal tipo de comunicação.

Me despi dos preconceitos dos encontros de família – e das festas de escola também! – e até já me incluí no próximo, daqui a dois anos, quando ficará ao encargo de meu irmão, eleito “presidente” do quinto evento, e de meus primos promover uma nova reunião.

Saímos dali felizes.

Bons ventos nos levem a muitas viagens em 2014

31 de dezembro de 2013 2
Foto Rosane Tremea

Foto Rosane Tremea

No balanço que eu fiz ao final de 2012, percebi que não havia elaborado muitos planos (de viagens, que é do que principalmente se fala aqui) para aquele ano que terminava.

E, lógico, não muita coisa aconteceu.

No ano que passou, planejei e sonhei mais, e fiz pelo menos duas viagens incríveis/inesquecíveis, sem contar os vários e pequenos deslocamentos por aí.

Sou do tipo que precisa falar alto, dizer, pras coisas realmente acontecerem.

Parece que me imponho uma obrigação, e aí, ainda que não me cobrem os resultados do projeto, eu mesma me cobrarei.

E nunca é ruim colocar em prática um sonho, é?!

Pois resolvi fazer uma lista de lugares/pessoas que quero visitar em 2014. 

Umas pertinho, outras longe. Algumas já engatilhadas, outras distantes disso. O rumo pode mudar, o destino pode ser outro, mas achei bem bom fazer a lista.

Enfim, lá vai minha relação, pra eu cobrar de mim mesma. Você já fez a sua?

  • Visitar minhas amigas de longa data em Bagé
  • Viajar por países do Leste Europeu e, na passada, rever uma amiga em Lisboa
  • Visitar amigos queridos em São Paulo e Brasília
  • Conhecer (finalmente, ainda não acredito que não conheça) as Missões
  • Voltar a Cambará e aos cânions
  • Viajar por viajar ao Interior, descobrindo lugares, tentando encontrar novos restaurantes e pousadas
  • Ir de carro ao Uruguai (não, de carro nunca fui)
  • Fim de semana em Buenos Aires com amigos
  • Reencontrar família em Curitiba, Foz do Iguaçu e no interior do RS
  • Será que eu chego a Nova York onde quis ir em 2013 e não fui?!

Talvez falte tempo, talvez (e muito provavelmente!) faltem milhas ou dinheiro, mas é o que eu gostaria de fazer.

Sempre ao encontro não só de lugares, monumentos, história, cultura, gastronomia, diversão, arte, mas principalmente de PESSOAS. Que, afinal, é o que nos move.

Muitos e bons ventos nos levem para onde quisermos em 2014!

 

P.S.: escolhi esse cata-vento pra ilustrar o post não só pelos ‘bons ventos’ do título (dãaaaaa), mas pelo que significa.

Toda vez que vou a uma propriedade de meu irmão mais velho, ele me mostra esse cata-vento com o maior orgulho, dizendo que foi o que escolheu para comprar com uma pequena herança que nosso pai nos deixou.

Está, obviamente, bem visível e, sempre que olha pra ele, lembra das coisas que o “vô Antônio” nos ensinou. Eu o fotografei no Natal, e como hoje faz exatamente 17 anos que nosso pai foi enterrado, achei que, de onde estiver, pode nos ajudar a impulsionar nossos sonhos para este e para os próximos anos.

 

Refúgio natalino

24 de dezembro de 2013 0
Fotos Rosane Tremea

Fotos Rosane Tremea

Para quem, como eu, gosta de viajar, sempre, nada melhor do que ir também no Natal.

Uma viagem não muito longa, ao encontro das coisas que, de verdade, fazem diferença na vida.

Por isso eu espero o Natal, para o reencontro.

Sei que estaremos juntos, que vamos conviver, fazer palhaçadas, brincar, rir, chorar, rezar…

Sei que a pescaria frustrada vai render mais do que o peixe.

Que as corujinhas empoleiradas na árvore vão ter mais comentários do que todos os post somados e que nós causaremos a elas mais estranhamento do que o vice-versa.

Que não haverá trânsito engarrafado, só a preocupação com o jipinho que encrenca a cada passeio.

Que todo mundo vai cantar desafinado (tá, uns mais do que os outros), mas que todo mundo canta ainda assim.

Que bingo e gincana viram balada e que ninguém com menos de 20 anos vai achar ruim.

Que vamos correr atrás de gato e cachorro. E colher abobrinha, pimentão e cenoura direto da horta. E comer uva debaixo do parreiral.

Que vamos jogar bola, lutar capoeira, jogar canastra, tomar banho de chuva.

Que vamos montar a ceia ao ar livre, com milhares de estrelas no lugar de pisca-piscas.

E dormir debaixo delas, depois de revelarmos nossos amigos secretos que pedem chinelos e pijamas, bebidas e perfumes, games e brinquedos para o único bebê da família.

E vamos acordar, e tomar café com polenta, e almoçar sob as árvores, e tirar a foto oficial de todos os anos.

E esperar mais 365 dias para repetir tudo de novo, de novo e de novo.

 

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