LUCIANA TOMASI lançará Três Cidades Perto do Céu no dia 23 de maio. Reproduzo abaixo parte da entrevista em que ela fala sobre esses três destinos localizados na Caxemira, na Índia e no Nepal, todos perto do céu, como diz o título do livro. Ela foi feita por Maristela Bairros, assessora da editora Artes e Ofícios, responsável pela obra. Confira:
ENTREVISTA: Luciana Tomasi
Artes e Ofícios - Qual a razão de escolher Srinagar, Rishikesh e Katmandu?
Luciana Tomasi - O Artur Veríssimo, que é um repórter paulista e já foi 20 vezes para a Índia e muitas vezes para o Oriente, recomendou para mim e para minha companheira de viagem este roteiro. Disse que, se optássemos por fazer uma nova viagem para o Oriente, não poderíamos deixar de conhecer estes três lugares que são muito especiais em beleza e espiritualidade. Também são três lugares onde o Himalaia tem presença marcante, em diferentes expressões da natureza. Na época do ano que escolhemos, que foi o mês de abril, a montanha tem pouca neve em Srinagar, muito verde em Rishikesh e muita neve no Nepal. Como Artur já tinha feito o maravilhoso roteiro de viagem de meu outro livro “Um Spa na Índia” pelo Rajastão, confiamos nele e nos demos muito bem na escolha.
Artes e Ofícios - Por que você acha que estas três cidades devem ser conhecidas ainda nesta vida, mesmo sendo absolutamente sincera ao reconhecer que são problemáticas em vários aspectos para quem as visita?
Luciana - Se tu vais para o Oriente, tens que esquecer momentaneamente o teu alto nível de higiene, de comunicação e de atendimento nos diversos serviços. Se quiseres fazer uma viagem indiana asséptica demais, ficando a maioria do tempo em um hotel cinco estrelas norte-americano ou inglês, é melhor ficar em Londres ou Nova Iorque, porque vais gastar na viagem e não vais conhecer o mundo real destas culturas. Tu tens que ir para as ruas e estradas, fazer contato com todos, provar comidas e chás. Isto pode te acarretar problemas, surpresas e, ao mesmo tempo, uma despadronização de teus valores ocidentais. Exatamente aí reside a magia de entender diferentes formas de pensar a vida. A partir desta comunicação, tu começas a revisar teus conceitos sobre tudo. Algumas coisas fúteis passam a ter muito menos importância no teu cotidiano. Como são cidades muito fortes espiritualmente, alguns turistas mais sensíveis começam a perceber que tem algo de especial em estar ali e conviver com aquele povo.
Artes e Ofícios - Como um visitante deve se aproximar destas cidades no que toca à sua preparação, à sua atitude e às suas expectativas?
Luciana - Atualmente tu podes agendar tudo pela internet. Mas se tu quiseres a ajuda de uma boa agência, tem escritórios de viagens especializados no Oriente que escolhem o hotel, translado com guia e principais passeios. Tu podes fazer a viagem mesmo sozinho, que não há problema. Sempre tem alguém para conversar contigo em inglês. E o melhor: não tem a violência urbana diária do Brasil. Tem ainda as excursões organizadas para quem curte, o que não é o meu caso. Também, tem muita gente viajando em grupo de amigos. São viagens para quem gosta de aventura e não é muito medroso.
Artes e Ofícios - Como você vê o Himalaia junto a estas três cidades do ponto de vista físico e do espiritual para seus moradores?
Luciana - A natureza para eles é Deus. Tudo que existe no mundo, que parte da natureza, foi feito por Deus e deve ser admirado como tal. Eles rezam todo o dia para a natureza, seja para uma vaca, para o sol ou para as flores. O Himalaia é uma das expressões máximas da natureza pela sua grandiosidade e imponência. Para os hinduístas, os deuses vivem todos no Himalaia. Os sadhus (homens santos renunciantes) estão todos em meditação no Himalaia.
Artese Ofícios - Até que ponto a mistura das religiões mantém tantas etnias e classes sociais aparentemente em harmonia?
Luciana - O indiano nunca te pergunta de que religião tu és, o que tu estás fazendo dentro do templo deles, se está rezando direito. Tirando o sapato e não estando nas “regras”, pode entrar em 90 por cento dos templos no país. Os hinduístas acham o máximo tu prestigiares as festas religiosas deles. Eles acham auspicioso este interesse dos estrangeiros pelos valores hindus. A questão das classes sociais é bem mais complicada, pois eles acreditam que se o indiano nasce para ser pária (a mais baixa classe), ele tem que se conformar, pois foi Deus quem quis assim. Mesmo assim, é possível o casamento de pessoas de classes diferentes, embora pouco usual.
Artes e Ofícios - Qual a consciência de sua importância como pólos de turismo e de reflexão que você viu nestas cidades?
Luciana - Na Índia, eles adoram os turistas por causa da entrada de divisas. Tu és visto como um cofre ambulante. Os pobres mendigam o tempo todo (não os muçulmanos). Mas mesmo quando tu não dás dinheiro ou não compra nos mercados e lojas, eles estão satisfeitos com a tua presença. Querem saber do teu país, sempre com as mesmas perguntas. Adoram que tu compareças nos casamentos e aniversários, pois os ocidentais trazem sorte, segundo eles. O governo indiano ganha muito dinheiro com a liberação dos vistos de entrada e os europeus compram muito ouro, tapetes, esculturas e mandam entregar na Europa. É muito barato em comparação com os preços ocidentais e os artigos chegam inteiros no destino. Os hotéis de alto luxo, sem comparação com o Ocidente em termos de arquitetura de interiores, estão sempre cheios. Os indianos têm consciência da importância da Medicina deles (ayurveda) e dos ensinamentos do yoga, mas o governo e os empresários querem que a Índia seja reconhecida pelo seu grande potencial econômico. Muitos desprezam exatamente a sua maior riqueza que é a tradição do ensino ancestral do yoga. Em Katmandu, os moradores nem te olham direito e não fazem a mínima força para serem agradáveis. A cidade é cheia de montanhistas, alpinistas e exploradores ocidentais, sempre subindo e descendo do Himalaia. O povo parece estar cansado dos turistas, mas sabe que ganha muito com o turismo.
Artes e Ofícos - Você uniu um sincero e apaixonado relato de viagem com informações objetivas sobre yoga. É possível que alguém que não saiba nem mesmo respirar direito aprenda um pouco deste manancial numa viagem como essa?
Luciana - Sim. Apesar de já ter muito conhecimento de yoga, pois já estudava e praticava há 15 anos, quando fui para Índia aprendi muito nas pequenas aulas de que participei, nas diversas cidades que visitei. Principalmente com um mestre de 80 anos em Delhi. Também tem o pessoal mais radical que se interna em ashrams (centros de hinduísmo com pratica de yoga e meditação intensiva) e fica lá por um bom tempo até se espiritualizar profundamente ou abandonar de vez a prática. Nunca tive oportunidade, nem tempo, nem abnegação suficiente para me hospedar em um ashram.