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Um dos maiores fotógrafos do Brasil, Marcio Scavone fala sobre seu processo de criação: "O retrato é um evento. É meu e de quem fotografo"

28 de June de 2015 0

Marcio Scavone

No dia em que Marcio Scavone, ainda criança, fotografou pela primeira vez com a Rolleiflex de seu pai, decretou o seu destino. Considerado um dos retratistas e fotógrafos de publicidade mais importantes do Brasil, o artista passou por Porto Alegre para participar do evento da Associação dos Laboratórios Fotográficos do Sul, recebendo a coluna para um bate-papo. Scavone define a fotografia como uma espécie de “entrevista visual” e explica seu processo de criação:

– Fotógrafo abre o olho e começa a produzir. Não existe separar a vida profissional da pessoal. Pego a câmera e levo comigo tudo o que já vivi, amei, sofri. Tento passar isso, já que todo retrato é também um autorretrato, de tanto que me doo para aquele momento.

Jô Soares

Aos 20 anos o paulista já clicava campanhas de destaque e, a partir de então, vieram os tão falados retratos de nomes como Oscar Niemeyer, Pelé, Jô Soares, Fernanda Montenegro, Caetano Veloso e Neymar. Inquieto, ele ainda retém uma lista de personalidades que gostaria de ter registrado. Cita algumas como Ayrton Senna e Tom Jobim – sendo o último um sonho quase realizado:

– Faria para uma edição da Vogue. Seria tocando piano de cauda longa no meio do Jardim Botânico do Rio – lembra.

Regina Casé

Apesar do rol de trabalhos grandiosos, parece ser nos pequenos detalhes que Scavone encontra a satisfação do ofício. A relação estabelecida com seus modelos tem início antes mesmo de retirar a câmera do case:

– Injeto uma dignidade e retribuo a confiança que a pessoa me dá. Sabe quando você inspira alguém? Você passa para ela quem gostaria de ser. Quando você expira e solta o ar, acabou. É quem você é. A fotografia está para a poesia como o cinema está para a prosa. A síntese de resumir alguém em uma imagem me fascina.

Um de seus segredos de originalidade está em não observar fotografias de outros profissionais antes de algum trabalho para não ser influenciado ou abalar a própria criatividade.

Malu Mader

– Acredito que o retrato é um evento. É meu e de quem fotografo. É metade de cada uma das partes envolvidas. Se o modelo não gostar do que está acontecendo, ele levanta e vai embora.

Nem sempre conquistar a confiança e intimidade com o personagem que está na mira da câmera é uma missão fácil. Mas Scavone garante que se trata de um jogo de sedução:

– Se a pessoa for muito sensível e quiser um retrato bonito, ela também vai tentar conquistar o fotógrafo.

Oscar Niemeyer

O retratista até tem uma conta no Instagram. mas diz não ter muita paciência com a rede social que populariza a fotografia e escancara a intimidade. Aproveita para citar a pintora barroca Artemisia Brunelleschi, que diz que não se pode deixar a porta aberta o tempo todo.

– É uma metáfora, mas se você ouve música ruim, produz música ruim. Eu não quero ver coisa feia.
A relação do fotógrafo com a imagem é diferente, a gente sofre. No Instagram, de tanto as pessoas buscarem a diferença, acabam ficando iguais – reforça.

Pelé

Fotos: Adriana Franciosi/Agência RBS e Marcio Scavone/Reprodução

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