
Como prometido no Segundo Caderno de hoje, aí vai a íntegra da conversa que tive por telefone com Rodrigo Amarante, que se apresenta hoje à noite com o Little Joy no Bar Opinião:
Quem era o público do Little Joy nos EUA e na Europa? Muitos fãs de Strokes?
Amarante _ O público está se formando ainda. Claro que em toda cidade tem alguém que é fã do Strokes, assim como em todas as cidades, pasmem, tinha fãs do Los Hermanos. Inclusive na Europa. Sempre tinha alguém que estava estudando lá e ia falar comigo. Mas já tem um público começando a se formar que é gente que gosta do disco, que ouviu falar da banda.
E quem você acha que vai ser o público nos shows do Brasil?
Amarante _ Eu não sei, sinceramente. Acho que vai ter muito fã de Los Hermanos. E, vou te dizer, a imprensa no mundo inteiro sabe do Los Hermanos. Para minha surpresa, na Europa todos falavam que é uma banda reconhecida no Brasil e tal. E foi engraçado que, por causa do Little Joy, comecei a ouvir muito americano e europeu dizer que está ouvindo Los Hermanos.
O que uniu o Little Joy foi amizade ou uma preferência musical?
Amarante _ Foi a amizade instantânea que eu tive com o Fabrizio quando a gente se conheceu em Portugal. Passamos a noite inteira tomando todas na beira do rio, foi tipo amor à primeira vista. Aí a gente combinou. Quando eu fui pra Los Angeles, para gravar com o Devendra Banhart, a gente se encontrou e começou a fazer música. Mas a gente nem tinha plano de fazer disco ou banda, era pura diversão. O Fabrizio tinha as músicas que ele não tinha terminado e aí eu comecei a puxar umas também. O som foi aparecendo, sem planos.
O som parece incorporar características tuas e do Fabrizio pinceladas por surf music. De onde veio isso?
Amarante _ Foi a Califórnia, o lugar. Só pode ser. Depois que a gente começou a ser perguntado sobre isso é que eu fui me tocando. Morando na Califórnia, tanto eu quanto o Frabrizio (que é de Nova York), começamos a curtir o papel da cidade, o clima, as pessoas...
Teve algum lado teu que surgiu nessa empreitada fora do país, como músico?
Amarante _ O processo de composição foi totalmente diferente e mudou a minha cabeça. No Los Hermanos, mesmo nas músicas que eu fiz em parceria com o Marcelo, ele tinha a música quase pronta e faltava um pedaço, daí eu fazia. No Little Joy a gente passou os primeiros três meses fazendo as músicas juntos. Mesmo as que o Fabrizio já tinha antes, a gente discutia as melodias, sugeria mudanças. Era totalmente coletivo. E isso foi do caralho. Antes disso, eu achava que eu não era bom de fazer música com os outros. E agora vi: que nada, é mole. Como eu e o Fabrizio estávamos nos conhecendo enquanto fazíamos as músicas, isso criou uma coisa especial que proporcionou essa abertura.
E como instrumentista, mudou algo?
Amarante _ No Los Hermanos eu entrei para fazer a segunda voz, não era pra tocar nada. Daí comecei a tocar flauta, no Bloco fiz guitarra e baixo, depois comecei a escrever arranjo. Cada um tinha o seu papel. E u e Marcelo éramos mais soltos para escrever arranjos para outros instrumentos. Agora, a primeira transformação veio quando eu fui gravar uma participação com o Devendra. Ele perguntava "O que você acha que pode ter nessa música?". E eu dizia "pode ter o instrumento tal". Daí ele dizia "então grava aí". Eu nunca tinha gravado tantos instrumentos. Eu não era da banda, mas tinha liberdade total. Então, cara, eu toquei de tudo. Guitarra, violão, piano, baixo, fole indiano, fiz arranjo para metais, para cordas, percussão de tudo que é tipo...
Como começou essa história com o Devendra?
Amarante _ Conheci ele em Londres no Festival da Tropicália. O Devendra tava lá para o show dos Mutantes. Conheci ele no bar do hotel, para onde todo mundo ia depois do festival. Foi a mesma coisa: ficamos amigos imediatamente, tomamos um porre e nos falamos por email. Daí ele ouviu Evaporar, achou linda, e me chamou pra gravar.
Qual foi o principal estranhamento ao fazer música fora do Brasil?
Amarante _ Tem vários níveis de diferença... É difícil falar da diferença entra Brasil e América. Posso falar das minhas experiências. No Brasil eu gravei com Los Hermanos e Orquestra Imperial e foi isso. Lá tem muito mais gente fazendo isso. Muito mais estúdio, muito mais equipamento, muito mais técnico, gente muito jovem com experiência. Lá eles não tem muito pudor em trabalhar com referências. Tipo: ah, essa música aqui o baixo podia ter o som igual àquela música do Michael Jackson, mas a bateria podia soar como se fosse Sam Cook. E neguinho vai caçando o som sem pudor e misturando. Tem menos uma falsa ideia de criação. Uma das lições que aprendi é que a gente cria muito menos do que a gente imagina. A gente combina referências que agente tem e cria alguma coisa que remete a essas referências. Criação pura não há. E aqui (no Brasil) tem um pouco de pudor nesse sentido. Ao mesmo tempo, a galera aqui tem menos lógica na mistura. Aqui pode tudo, o que é do caralho.
E no show business, do palco, do disco, que diferenças você percebeu nos EUA em relação ao Brasil?
Amarante _ Uma coisa é muito diferente: a imprensa. A imprensa no Brasil, de cultura. E eu não sabia. Eu sempre achei que eram recalcados pra caralho, sensacionalistas, que o cara que quer te entrevistar quer uma manchete sensacional para vender a revista e foda-se o conteúdo. E eu pude comprovar isso mesmo porque eu dei entrevistas no mundo inteiro. Lá fora os caras tão interessados em traduzir o que você tem pra dizer da melhor forma possível e apresentar para quem quer que se interesse.
Você teve muitas experiências ruins com a imprensa aqui no Brasil?
Amarante _ O lance é o seguinte: eu entrei na faculdade de jornalismo e me frustrei com a idéia que estava sendo apresentada e discutida pelos estudantes. Então não parti do ponto zero. E daí senti na pele como são as entrevistas. E eu já sentia que estava erado. A maioria dos veículos tem uma abordagem horrivel, rasa e polêmica. É muito escroto, recalcado. Tem muito jornalista que parece ser músico frustrado, porque é um recalque do caralho. Fica querendo achar o ponto fraco... Peraí que tá chegando a turma.. O Noa chegou aqui (interrompe a convesa para abraçar Noah Georgeson, produtor do disco do Little Joy e músico de apoio nos shows).
O show de março está confirmado?
Amarante _ Confirmado, vai ser do caralho.
Com foi a combinação?
Amarante _ Ah, fomos convidados, aceitamos e pronto (risos). A gente tá parado, mas não tá brigado, não tem nada disso. Não tinha plano para tocar porque não teria uma justificativa.
Qual foi a justificativa agora?
Amarante _ Ah, porra, abrir pro Radiohead e pro Kraftwerk, entendeu?, é do caralho. Aí dissemos "ah, vamo lá, vamo toca". Quer dizer, sinal de que não precisa muito... Eu adoro as duas bandas, vamos tocar pra uma porrada de gente e ainda ganhar um dinheiro, que também não faz mal. E pronto. É bom, tá todo mundo com saudades. O Marcelo pode, por causa da turnê dele, e daí vamo lá.
Vocês se falaram neste tempo?
Amarante _ Com o Marcelo falei até mais do que com o resto. Mas eu fiquei meio isolado, vou te fizer. Eu me mudei muito quando era pequeno. Por causa disso _ e daí vou ter que entrar no terreno psicológico _ não fiquei tão próximo das pessoas que eu ia deixando pra trás. Mudei tanto. Então fiquei lá, escrevi um email aqui outro ali, também morava na casa dos outros. Então mantinha contato, mas não fiquei assim.. também haja dinheiro pra manter contato.
Quanto tempo você ficou fora do Brasil?
Amarante _ Fui pra lá no final de 2007. Daí fiquei seis meses, fiquei quatro meses, voltei, fiquei mais seis meses, indo e vindo. Fiquei um ano e meio.
Qual o futuro do Little Joy?
Amarante _ A gente vai continuar. Começaram a pintar convites de festival no verão. Vamos ver como é que vai ser. Estamos combinando com o Strokes um negócio para a gente sequestrar o Fabrizio quando der. Eles vão começar a ensaiar pro disco novo mês que vem. O Fabrizio tem que estar em Nova York. Já estamos com música nova, tem que ensaiar, vamos gravar outro disco no fim do ano, sei lá. A gente tava em turnê, sem parar, ainda vivendo o primeiro momento, ainda deixando a coisa rolar. Mas agora, como começaram a pintar os convites de festivais na Europa, a gente tem que aceitar.
E o Los Hermanos fica nesse esquema de fazer show de vez em quando?
Amarante _ Esse show não quer dizer que agente vai começar a fazer shows. Mas nada imepde também, não sei, não tem nada marcado. O Marcelo ainda tem um tempo bom pra trabalhar o disco dele e eu também tenho um tempo bom pra trabalhar o Little Joy. Nós dois queremos fazer isso. O lance é viajar e mostrar.
Qual vai ser o repertório do show de março?
Amarante _ Ainda não ensaiamos. Vai ter músicas de todos os discos. Não sei ainda, não combinamos nada.
Qual foi influência do Radiohead pra você?
Amarante _ Eu gosto muito, só de gostar muito, acho que já tem alguma influência. Mas na música que faço, não sei, diretamente não consigo enxergar. É inspirador, se me inspiro, deve sair de lagum lugar. Tanto quanto o Kraftwerk, que eu adoro, acho maravilhoso. Sou fã das duas bandas.
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