O MySpace acaba de anunciar o fechamento do seu escritório no Brasil. A partir de 1º de julho, os brasileiros não terão mais com quem reclamar pessoalmente. Na prática, não muda nada. O upload de material vai continuar normal, bem como a interface em português.
Mas o que o cerramento das portas de um escritório internacional que operava com lucro _ segundo ele mesmo _ de um dos sites mais importantes para a música independente tem a nos dizer?
Numa palavra: acondicionamento. Ou, cada coisa no seu lugar.
O grande e indiscutível mérito do MySpace, desde sua criação em 2003, foi o de servir de plataforma de lançamento para músicos que não constavam no rol das grandes gravadoras. Através dele, gente do mundo todo se conectou. De suas entranhas virtuais brotaram talentos que rapidamente tomaram a cena real, como os Arctitc Monkeys, o CSS e, até mais recentemente, Mallu Magalhães.
Sem entrar no mérito da importância ou qualidade como músicos, essa galera conseguiu deslanchar suas carreiras graças quase que totalmente ao MySpace. E o mais importante: tudo de graça. Diferente de sites de portais onde é permitido ouvir míseros 30 segundos de cada faixa, o MySpace te dava a barbada de ouvir tudo, permitindo ainda inclusão de vídeos e _ o mais importante _ formar uma rede social através da música.
O que o MySpace fez foi dar continuidade ao que Napster _ lembram? _ começou
em 1999. Unir as pessoas através da música. E gente comum, com pouco ou nenhum recurso, mas muita vontade e talento. Democrático, o site deu espaço para as Ivete Sangalos e Metallicas da vida. Mas seu foco sempre foram os pequenos, os independentes.
Só que a grana falou mais alto. E em 2005 o site foi vendido para a News Corp. pela bagatela de US$ 580 milhões. A News Corp., para quem não sabe, é um dos maiores conglomerados de mídia do mundo, que abarca desde editoras de livro a estúdio de cinema, rádios, revistas, jornais e, claro, sites.
Era apenas questão de tempo até a empresa sacar que o MySpace não era nenhuma fonte de dinheiro. Nem enchendo ele de banner, como fez logo que assumiu sua tutela. Esta semana, exatos quatro anos depois de botar seus dedos sequiosos no site, A News Corp., através de seu CEO Owen Van Natta, soltou um comunicado apontando que "internacionalmente, assim como nos EUA, a equipe havia se tornado muito grande e ineficiente para ser sustentável nas atuais condições de mercado".
O documento oficial explica que as bases do MySpace na Argentina, Canadá, França, Índia, Itália, México, Rússia, Suécia e Espanha também poderão ter o mesmo destino. No total, 400 pessoas foram demitidas em todo o mundo, um corte de 30% no RH da empresa.
É exatamente esse o ponto. Acondicionamento. O MySpace pode dar lucro. Mas nunca o lucro que um mamute como a News Corp. deseja. Justamente porque a grande moral dele é fomentar a cena independente, que tem o tamanho de um botão. E, acima de tudo e arriscando soar redundante, é pobre.
No Brasil especificamente, o MySpace jamais teve ou terá tantos acessos quanto o Orkut. E simplesmente porque a massa consumidora _ alvo da News Corp. _ não consome Little Boots ou Lautmusik, e sim Ivete Sangalo e Metallica. Artistas estes que não precisam do MySpace, figurando no site apenas por inércia. Logo, seu público também não está lá. Está de ouvido grudado nas FMs, TVs e sites de fofoca.
Assim como o Last.fm (comprado pela CBS e recém-abandonado pelos seus fundadores) foi praticamente deixado a míngua, o mesmo pode acontecer com o MySpace agora, se não conseguir suprir a ganância dos seus donos. E ser colocado em um lugar que não merece.
Postado por Gustavo Brigatti
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