
O show do Paul tá quase aí. A maior parte da audiência, acredito, vai pro Beira-Rio atrás da adolescência _ um pouco mais, um pouco menos _ perdida. Dessa galera, o grosso será de gente ansiosa por cantar Yesterday aos soluços. Soluços sinceros, de quem realmente sente saudade do ontem, não importa o quanto o hoje seja melhor. Por isso vai ser_ tenho certeza _ o show da vida (ou de uma parte dela) de milhares.
Mas não o meu, disso eu também tenho certeza.
O show da minha vida foi há duas semanas, no mesmo Beira-Rio, mas na arena do lado. O show da minha vida _ ou de uma das minhas vidas _ foi no Gigantinho, com o Green Day.
Prosaico e comezinho, eu sei, mas eu não tenho nada mais a oferecer, desculpem. Não há iluminação aqui e nunca haverá, desistam. Querem profundidade busquem uma piscina olímpica, ora essa. Eu sou raso, reto, fácil e previsível.
Por isso também que não fui ver o Green Day para recordar a minha adolescência. Fui para me vingar dela, isso sim.
Fui para ser transportado para a casa da Flavinha, para desencostar de uma vez por todas o pé da parede, tirar a Juliana pra dançar, sussurrar meia dúzia de besteiras óbvias e certeiras e ganhar aquele beijo com sabor de chiclete tutti-frutti que nunca existiu. Que eu não tive coragem de arriscar.
Mas também me vi novamente saindo do Santana quatro-portas 2.0 do meu pai, algo aturdido depois de amassar um carro durante um congestionamento dentro do estacionamento de um shopping em Santa Bárbara d'Oeste. Era sábado, era a primeira vez que eu pegava o carro e eu não vi a Belina de um tiozinho enquanto manobrava de ré.
Na época eu desci e ele, o tiozinho, veio me enchendo de desaforo, dedo na cara, a mulher dele gritando que eu nem habilitação tinha, uma carteirinha de policial rodoviário aposentado surgiu na minha cara, minha namoradinha chorando, o lanche do McDonald's esfriando, outros carros buzinando, cadê meu jetpack?
Mas agora eu não gaguejei uma desculpa qualquer novamente, não senhor. Deixei o velho falando sozinho enquanto tranquilamente manobrei o carro para um lugar seguro, estiquei um papel com meu número de telefone e fui embora daquela pocilga. Ele talvez continuou a brandir sua carteirinha de policial rodoviário aposentado até ter um ataque cardíaco, mas isso não foi problema meu.
Eu manejei aquela barca azul-marinho pela cidade como o pequeno ponto de constelação perdido num universo de insignificância que ela, a cidade, sempre foi e sempre será. E no dia seguinte, quando minha mãe veio, aos berros, me perguntar o que eu fiz com o carro, eu disse que foi simplesmente aquilo que ela já sabia e que, por isso, não precisava me perguntar nada, só me desse uma Neosaldina e um copo d'água, obrigado.
Aliás, ela não precisou me perguntar mais nada nunca mais. Eu estava de saída para nunca mais voltar _ no máximo, visitas esporádicas para uma cerveja rápida.
Também aproveitei para brigar. Dei uns belos duns sopapos no moleque que roubou meu boné só de sacanagem, numa noite de sexta-feira qualquer. Acho que lhe quebrei um osso _ nada muito grave, escolhi um que pode ser consertado sem prejuízo, tipo o fêmur.
E aprendi de uma vez por todas como calcular um número atômico. E a tirar um sangrador quebrado de um cilindro de roda. E a acertar a quantidade de graxa na corrente da bicicleta. Me aperfeiçoei em massagens de pés. E saquei, de uma vez por todas, que o fato de uma garota ser legal não quer dizer que ela está dando mole.
E aprendi a não me importar com nada disso. Que o que está feito, está feito. Que o que passou, passou. Que o máximo que dá para fazer é continuar a tocar, capturando esses fantasmas e armazenando todos num grande container como o dos Caça-Fantasmas (aproveitei para rever meus desenhos favoritos, obrigado Billie).
Ao final, depois de todo esse acerto de contas, saí com aquela sensação de deixar como está. Let it be, como diria vocês-sabem-quem e...
... bem, talvez eu não tenha tanta certeza que o show do Paul não possa ser o show da minha vida. De uma delas, pelo menos. Talvez uma próxima que eu ainda não saquei muito bem.
Descobrirei no dia 7.
Comentários