Nos anos 1950, as emissoras de TV norte-americanas eram recomendadas a não exibirem Elvis Presley de corpo inteiro enquanto ele dançava. A razão: histeria coletiva por causa da pélvis lasciva do Rei. Nos anos 1960, os Rolling Stones eram vendidos como os piores genros que um pai poderia querer. Era marketing, mas não deixava de ser verdade. Nos anos 1970, líderes religiosos promoviam manifestações em frente a cada show do Black Sabbath, queimando discos e perseguindo os músicos.
Nos anos 1980, foi criado nos EUA o infame selo Parental Advisory, que indicava que determinados LPs continham letras consideradas pouco apropriadas. Entre os primeiros trabalhos rotulados estavam Appetite For Destruction, do Guns N'Roses, e Peace Sells... But Who's Buying?, do Megadeth. E nos anos 1990 tinha gente queimando igrejas na Escandinávia.
Mais do que a música, o que fez do rock'n'roll um gênero tão amado e combatido foi sua capacidade de romper com padrões ao mesmo tempo que oferecia _ às vezes, sem querer _ um caminho alternativo. Um dos trunfos era a conexão direta e sincera com sua audiência: você sabia que aquilo que estava ouvindo era rock quando seus pais mandavam abaixar o volume.
Mas lá pelos anos 2000, de alguma forma, o rock'n'roll abandonou essa capacidade de dialogar com seu público e, principalmente, de levar perigo aos papais e mamães. As novas gerações de músicos se refugiaram em nichos cada vez mais herméticos e afetados, preocupados demais em achar um brechó descolado ou uma nova pomada de cabelo, enquanto a velha guarda começou a se levar a sério, virou uma caricatura de si mesma e agora exige cerveja sem álcool em seus camarins.
Quem, então, tocaria o terror nos corações e mentes impúberes? Quem provocaria a ira da patrulha da mesmice? Quem, pombas, justificaria o salário dos jornalistas de tablóides?
Miley Cyrus. Sério. Miley "Hannah Montana" Cyrus foi eleita, em uma pesquisa nos EUA, a personalidade musical que exerceu a pior influência entre os adolescentes em 2010. Sem tocar nenhum instrumento, sem alcançar nenhuma nota superior a de uma maritaca com gripe, sem mastigar cabeça de morcego alguma, Miley ocupa neste momento o posto que já foi de gente realmente perigosa.
E com méritos inegáveis: sua falta de noção, digna de um Ozzy Osbourne, é legítima; no palco, consegue ser tão chocante _ ou pelo menos com tanta pele a mostra _ quanto Dave Lee Roth; e agora, entrou numas de Suzi Quatro, toda couro e zípers. Somando-se a sua música _ que goste-se ou não, é sucesso _ ela consegue atingir justamente o público que, durante quatro décadas, foi o principal consumidor e reverberador do rock.
Miley Cyrus se faz entender pela sua platéia, vende horrores e é detestada pelos pais de seus fãs. Miley Cyrus é o que de mais rock'n'roll a primeira década do novo século produziu.





Miley Cyrus? É uma pena, mas é a realidade. Resumindo toda a história, há duas frases da Rita Lee, uma dita nos anos 70 para não sei quem, e outra na semana passada, para mim, via Twitter. A primeira: "todo roqueiro tem cara de bandido." A segunda: "o rock era oposição, hoje é situação." Sem mais. Abraços.
Fraco
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Adoro leitores cheios de argumentos...
Ainda precisa?
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Sim.
Gostei muito da comparação, mas acho que algumas pessoas que comentaram aqui não acabaram de ler todo texto para poder entender o porque desta comparação, ou simplesmente gostam da tal Miley Cyrus.
Como fã de música, acho que vivemos em uma época de poucas novidades, baixíssima criatividade e qualidade musical. O que temos hoje, são os bons cantores/cantoras ou boas bandas de antigamente. Mas até quando eles irão existir? E o que restará para o futuro? Estou temeroso quanto a isso e espero que estes boas bandas vivam para sempre.
Vida longa ao Rock 'N Roll.
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Essa é uma boa pergunta, Juan. Até quando viveremos dependendo dos velhos rockers para nos referir ao verdadeiro rock'n'roll? Infelizmente _ para nós, pelo menos _ essas boas bandas não viverão para sempre. Mas felizmente _ para nós, pelo menos _ sua música viverá para sempre. De resto, é procurar por aí _ o que não falta é gente tentando acertar. Uma hora, conseguem.
Abraço!