Em seu filme Exit Through the Gift Shop (2010), indicado ao Oscar de melhor documentário, o grafiteiro britânico Banksy prova que não é preciso mais do que dinheiro e alguns bons contatos para transformar qualquer um em celebridade. E ainda questiona se o que faz sucesso necessita mesmo ser legítimo, original, inteligente, fruto de trabalho árduo ou qualquer embuste bem produzido dá conta do recado. Com exceção do “bem produzido”, o argumento de Banksy poderia ser a história da (curta, porém real) vida de sucesso de Rebecca Black – incluindo, no entanto, uma boa dose de sadismo.
Como o personagem de Banksy, Rebecca é uma aspirante ao estrelato com pouco ou nenhum talento. É uma menina de 13 anos com problemas de pele, voz em mutação e pouca intimidade com as câmeras ou o microfone. Mas tem pais com algum dinheiro e dispostos a satisfazer a sua vontade de imitar os ídolos pop – gente igualmente desprovida de aptidão musical, ressalte-se.
Mas, ao contrário de suas musas inspiradoras, ela não precisou ser descoberta por caça-talentos, participar de programas infantis, estrelar séries ou musicais – que, bem ou mal, servem de “peneira”. Rebecca comprou um “pacote popstar” oferecido pela Ark Music Fatcory, uma pequena gravadora de Los Angeles.
A gravadora, fundada em 2010 pelos produtores Patrice Wilson e Clarence Jey, tem como propósito único tornar-se uma fábrica de clones de Justin Bieber, Selena Gomez, Miley Cyrus e afins apostando num tripé que une adolescentes caprichosos, pais permissivos e a cultura da celebridade. Seu casting é todo formado por jovens como Rebecca, interessados mais em serem famosos do que em fazer música.
Por módicos US$ 2 mil, os pais de Rebecca pagaram a gravação de uma canção (incluindo a letra) e a produção de um videoclipe (gravado com a ajuda de amigos e familiares). Lançado no YouTube em fevereiro, o vídeo de Friday não havia acumulado mais que umas poucas visitas – provavelmente dos mesmos amigos e familiares. Até que no dia 11 de março ele foi publicado no tumblr The Daily What com o jocoso título “Where Is Your God Now of the Day” (“onde está o seu Deus agora do dia”, numa tradução literal).
Daí em diante foi replicado em redes sociais até tornar-se viral. Em quatro dias, Friday alcançou mais de 3 milhões de visualizações (está agora com mais de 60 milhões) e ganhou dezenas de versões. A canção foi tocada pelos Jonas Brothers, elogiada por Lady Gaga e Simon Cowell e ficou no top 100 do iTunes, a loja virtual da Apple, faturando em torno de US$ 25 mil só na primeira semana – dinheiro que Rebecca não verá, já que a composição da música (e seus royalties), pertencem à Ark Music.
Essa linha miúda do contrato explica e resume o caso de Rebecca. Se era claro que a garota não havia entrado nessa atendendo a uma vocação, o fato de também não ganhar dinheiro significa que o objetivo sempre foi a exposição pura e simples. Claro que virar motivo de chacota em rede mundial não estava nos seus planos (ela afirma que foi vítima de cyberbullying...), mas esse é um ônus que parece pequeno diante da fama que ela alcançou sem mérito algum.
Rebecca Black é a primeira celebridade que pagou para ser celebridade. Mas, do que depender da Ark Music, não a última. Preparem seus ouvidos.













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