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Posts de março 2011

Como fazer sucesso por US$ 2 mil

31 de março de 2011 0

Em seu filme Exit Through the Gift Shop (2010), indicado ao Oscar de melhor documentário, o grafiteiro britânico Banksy prova que não é preciso mais do que dinheiro e alguns bons contatos para transformar qualquer um em celebridade. E ainda questiona se o que faz sucesso necessita mesmo ser legítimo, original, inteligente, fruto de trabalho árduo ou qualquer embuste bem produzido dá conta do recado. Com exceção do “bem produzido”, o argumento de Banksy poderia ser a história da (curta, porém real) vida de sucesso de Rebecca Black – incluindo, no entanto, uma boa dose de sadismo.

Como o personagem de Banksy, Rebecca é uma aspirante ao estrelato com pouco ou nenhum talento. É uma menina de 13 anos com problemas de pele, voz em mutação e pouca intimidade com as câmeras ou o microfone. Mas tem pais com algum dinheiro e dispostos a satisfazer a sua vontade de imitar os ídolos pop – gente igualmente desprovida de aptidão musical, ressalte-se.

Mas, ao contrário de suas musas inspiradoras, ela não precisou ser descoberta por caça-talentos, participar de programas infantis, estrelar séries ou musicais – que, bem ou mal, servem de “peneira”. Rebecca comprou um “pacote popstar” oferecido pela Ark Music Fatcory, uma pequena gravadora de Los Angeles.

A gravadora, fundada em 2010 pelos produtores Patrice Wilson e Clarence Jey, tem como propósito único tornar-se uma fábrica de clones de Justin Bieber, Selena Gomez, Miley Cyrus e afins apostando num tripé que une adolescentes caprichosos, pais permissivos e a cultura da celebridade. Seu casting é todo formado por jovens como Rebecca, interessados mais em serem famosos do que em fazer música.

Por módicos US$ 2 mil, os pais de Rebecca pagaram a gravação de uma canção (incluindo a letra) e a produção de um videoclipe (gravado com a ajuda de amigos e familiares). Lançado no YouTube em fevereiro, o vídeo de Friday não havia acumulado mais que umas poucas visitas – provavelmente dos mesmos amigos e familiares. Até que no dia 11 de março ele foi publicado no tumblr The Daily What com o jocoso título “Where Is Your God Now of the Day” (“onde está o seu Deus agora do dia”, numa tradução literal).

Daí em diante foi replicado em redes sociais até tornar-se viral. Em quatro dias, Friday alcançou mais de 3 milhões de visualizações (está agora com mais de 60 milhões) e ganhou dezenas de versões. A canção foi tocada pelos Jonas Brothers, elogiada por Lady Gaga e Simon Cowell e ficou no top 100 do iTunes, a loja virtual da Apple, faturando em torno de US$ 25 mil só na primeira semana – dinheiro que Rebecca não verá, já que a composição da música (e seus royalties), pertencem à Ark Music.

Essa linha miúda do contrato explica e resume o caso de Rebecca. Se era claro que a garota não havia entrado nessa atendendo a uma vocação, o fato de também não ganhar dinheiro significa que o objetivo sempre foi a exposição pura e simples. Claro que virar motivo de chacota em rede mundial não estava nos seus planos (ela afirma que foi vítima de cyberbullying...), mas esse é um ônus que parece pequeno diante da fama que ela alcançou sem mérito algum.

Rebecca Black é a primeira celebridade que pagou para ser celebridade. Mas, do que depender da Ark Music, não a última. Preparem seus ouvidos.

Freiras em chamas!

25 de março de 2011 0

Acho que deve ter começado com Machete (2010), aquele filme horrendo do Robert Rodriguez estrelado pelo Danny Trejo. Nele, uma das personagens é uma freira vivida pela atriz Lindsay Lohan. Por baixo do hábito, ela segura um canhão cromado:

Aí caiu na rede um tal de Nude Nuns With Big Guns (Freiras Nuas com Armas Grandes, na tradução literal). Se você não tem pena da sua banda larga, vai na fé: é terrivelmente ruim. A história é essa: depois de ser pega tentando roubar drogas dos traficantes para quem trabalhava (?!), uma freira sofre todo tipo de abusos até finalmente entender que sua missão é espalhar a palavra de deus sentando o ferro na bandidagem _ ao mesmo tempo que tira uma casquinha das moçoilas que estiverem pelo caminho.

Olha o naipe da justiceira (notem a preferência por revólveres cromados...):

Mais adiante, como quem não quer nada (e não tem pena da banda larga...) vejo esse Atração Perigosa (The Town, 2010), com o Ben Affleck dirigindo e protagonizando. Thriller policial com um teco de romance e drama, nada demais, se não fosse pelos disfarces usados pelos assaltantes:

Agora, parece que os irmãos Farrelly estão planejando uma refilmagem d'Os Três Patetas e querem ninguém menos que a Cher como uma... freira!

E olha elas aqui, aprontando num belo (hehehe) clipe da banda ucraniana de black metal Semargl:




Seria uma tendência? Ou apenas coincidência? Eu temo pelo que pode vir daqui pra frente, mas sei que rezar não vai adiantar muito, não...

Rebbeca Black OU quanto pior, melhor

23 de março de 2011 1

Você sabe quem é Rebbeca Black? Eu não fazia a menor ideia até ontem, quando li uma notícia de que ela era a sensação da semana na internet. E por um motivo nefasto: cantora mirim, Rebbeca aparecia em um clipe cantando o que era considerada a pior música do mundo. "Uou!", pensei, "Pior música do mundo? Preciso ouvir agora".

Procurei pelo nome dela no YouTube e achei o tal vídeo. Esperava algo realmente estarrecedor, que fizesse meus olhos pularem para fora das órbitas ou, no mínimo, me causasse uma crise de labirintite aguda. Rebbeca me faria sangrar, estava certo disso. Mas eis que a canção começa, termina e... nada acontece. Ouço outra vez. Nada.

Se você não ouviu, leitor, dá uma ouvida agora, dá:

E aí? Morreu?

Na verdade, só consigo pensar que Friday, a tal pior música do mundo, é apenas uma prima pobre de qualquer hit pop atual. A diferença entre ela e um single da Miley Cyrus, do Justin Bieber ou Vanessa Hudgens é apenas grana. Grana pra uma produção melhor (urge mais Auto-Tune ali), grana para fazer um clipe decente (figurantes mais bonitos, no mínimo), grana pruma boa assessoria de mídia (ninguém acontece de graça nessa vida...) e, principalmente, grana pra convencer todo mundo de que ela tem algum valor musical _ exatamente como fazem seus primos ricos.

Há muito que talento deixou de ser considerado ou discutido dentro da esfera pop, dando lugar para o freak show puro e simples. Tanto que a própria Rebbeca, quanto mais alvejada pelos críticos, mais via crescer as vendas de sua Friday no iTunes. Piedade? Curiosidade mórbida? Dinheiro sobrando? A única certeza é que se nenhum gaiato tivesse feito chacota da garota, ela provavelmente continuaria na mesma situação que outras milhares de meninas imberbes que tentam a sorte na rede.

Mas a exposição _ e apenas ela, veja bem _ fez Rebbeca ganhar notoriedade e, na sequência, engordar seu porquinho. Se for espertar, vai pegar essa grana e investir em canções ainda piores. Ela sabe (ou deveria saber) que o sucesso está em aparecer _ e tão somente. Música boa, a gente sabe (ou deveria saber), não é dos melhores negócios.

E agora, meu colega e amigo Carlos André Moreira, o incansável editor do blog Mundo Livro, me avisa que a coisa está tomando contorno preocupantes. Rebbeca está prestes a se tornar uma entidade viral, vejam só:



Qual o tamanho que te satisfaz?

18 de março de 2011 4

Imagem retirada daqui.

Então, certo dia, eu estava ouvindo o The Shoes. O The Shoes é um trio italiano que faz hardrock com pegada electric blues, ou seja, rock velho. Rock velho é o que eu costumo ouvir quando não estou trabalhando. Por mim, passaria a vida (tá, nem tanto...) ouvindo rock velho. Me dá muito prazer ouvir rock velho. E o The Shoes toca rock velho, então tenho muito prazer ouvindo o The Shoes.

Só que lá pelas tantas, alguma coisa me incomodou. Porque por mais que eu goste do The Shoes e seu rock velho, chega uma hora que o CD precisa acabar _ até pra botar outro rock velho... Naquela vez, a parada parecia não ter fim. Cheguei a pensar que tinha colocado para repetir uma única faixa infinitamente.

Abri o Winamp e vi que não, que o disco estava rodando normal. Pior: estava só na metade ainda. Problema era que, de tanto ouvir a banda, eu já não tinha mais paciência pra bolacha inteira. E rock velho, você sabe, não tem muita variação, não. Aí fiquei pensando que, se o disco do The Shoes, ao invés de 16 faixas tivesse, sei lá, 7 faixas, descerei bem melhor por muito mais tempo.

Comecei a pensar se existiria um tamanho ideal que fosse capaz de prolongar a "vida útil" de um disco (exclua discos temático/conceituais, ok?). Pensei também em quantos discos eu ouço do começo ao fim sem que seja a trabalho. E quantas vezes eu ouço esse mesmo disco do começo ao fim. Chego a conclusão que, tirando as grandes obras do rock velho, faz tempo, muito tempo, que eu não ouço um disco do começo ao fim, pelo simples prazer de ouvir, mais de uma vez.

Resolvi, então, perguntar pra quem entende do riscado _ músicos e ouvintes industriais/compulsivos de música _ pra saber se eles tem uma ideia de formato ideal e se, dentro do que já ouviram, o que poderia ganhar se tivesse perdido.

"O disco ideal tem entre 11 e 13 faixas, mas acho que um exemplo recente de disco que poderia ter sido muito menos criticado é o terceiro do Strokes: tem muita música legal ali, mas o disco todo é um amontado de porcarias".
TiTo, vocal e guitarra da Telecines

"Não sei se existe um 'ideal'. Mas hoje em dia é difícil alguém ter paciência e se dispor a ouvir algum material novo que seja muito longo. Hoje em dia o artista tem os primeiros 30 segundos de cada música para ganhar o ouvinte. Se não for boa... o cara já parte para a próxima, com certeza. O Mellon Collie and the Infinite Sadness, do Smashing Pumpkins, na minha opinião, poderia ser um disco único, não com 28 músicas. Algumas não são tão boas e consistentes como outras simplesmente animais, que mesmo assim tornam o disco fantástico"
Vinicius Ferrari, guitarrista

"Em se tratando de um disco convencional de uma banda de rock, acredito que umas 12 músicas já sejam suficientes. Mas isso também depende da qualidade das faixas à primeira ouvida e também da disposição de quem ouve. Um disco pode ter 48 músicas, mas se forem boas na primeira ouvida, vai me despertar tanto interesse  quanto outro com menos músicas"
Janaína Azevedo, jornalista

"Seria uma boa pensar num disco como uma redação de vestibular, só que com tema livre. Tem três partes: Uma introdução, um desenvolvimento, e uma conclusão. Como são três "partes" chuta-se um número de faixas ímpar. Cinco pra cada etapa por exemplo. 15 é um bom número (juro que nunca parei pra pensar sobre isso...). Mas discos com mais faixas parecem dar mais credibilidade perante a crítica. Eu, particularmente, preferiria fazer um disco de duas músicas bem feitas, do que um disco ruim e ser one hit wonder".
Liege Milk, música da Loomer e Hangovers

"Se for pensar de uma maneira mais "comercial" tem toda aquela coisa de músicas de 3 minutos, máximo de 12 e tal por álbum. Considero isso mais um "conselho" do que algo a ser seguido. Como ouvinte, confio na proposta da banda para dizer se vale 15 minutos de solo de bongô ou um minuto de pancadaria extrema. Sei que ninguém mais tem tempo e saco para ficar ouvindo 90 minutos de música ininterrupta do mesmo álbum por várias vezes e tal, como antigamente. Porém, o Blood Sugar Sex Magik, dos Red Hot Chili Peppers, seria perfeito sem umas cinco músicas dali que só se repetem e não acrescentam nada".
Álcio Villalobos, baterista da Podias Er Pior e MESS

"Hoje em dia, de 9 a 10 faixas, com uma duração de 40 a 55 minutos está de bom tamanho. Se for colocar mais faixas, disco duplo com os dois "lados" com essa mesma duração. E ouço sempre do início ao fim, se eu tiver vontade de pular faixas, o artista fracassou na missão. "All killer, no filler". Foda-se o shuffle. Então é melhor lançar 6 músicas fortes como EP do que encher um disco com material de segunda mão. Os discos dos anos 70, com a limitação de tempo do vinil, descem macios. CDs de 78 minutos geralmente são cansativos. Vejo uma tendência em algumas boas bandas em limitar a quantidade de tempo usado no CD. O novo Radiohead tem menos de 40 minutos. Os discos que hoje eu diria ser longos demais são provavelmente de bandas pelas quais perdi interesse faz tempo, tipo Dream Theater"
Valmor Pedretti, músico, produtor e obcecado

E você, leitor? Qual o tamanho ideal pra te satisfazer?

Hangovers e a arte de transformar azeitonas em azeite

16 de março de 2011 1

A primeira vez que vi e ouvi a Hangovers foi num show deles no Dr. Jekyll, abrindo para a Urso. Pensei, no meio da tempestade de relâmpagos que eles produziam, que aquela parada não era séria. Não iria adiante. Na boa, era divertido curtir aquela cavalice ali, ao vivo, tomando cerveja, mas não passaria disso. Três amigos que se juntaram pra fazer um barulho honesto.

Mas aí começaram as notícias que Liege Milk (bateria), Theo Portalet (guitarra) e Gabriel Lixo (guitarra) estavam se reunindo em estúdio não apenas para ensaiar, mas também gravar. Gravar? Sério que eles estavam querendo registrar aquela porradaria toda? Minha veia pop/mainstream quase cometeu suicídio. Por que acessível é tudo o que a Hangovers não é. A não se que tu seja mulher de malandro e goste de ser esbofeteado na orelha...

Por que eu me lembrava da música deles assim, uma agressão, uma violência, cordas de guitarra açoitando o córtex enquanto tambores massacravam seu peito, sem refrão, sem ponte, um lance meio grunge, meio sludge, relando no doom, aquela sequência de caldos que quebra a coragem do sujeito quando ele está aprendendo a surfar, água salgada entrando pelos buracos, prancha puxando prum lado, correnteza pro outro, de repente uma água-viva gruda na perna, quer dizer... Gravar essa parada? Assim, as ganha?

Sim, gravar. E gravaram. Gravaram o EP Bebendo Socialmente, com seis faixas. Gravaram e disponibilizaram semana passada no Trama Virtual. Hoje, dia 16, o disquinho está no topo dos mais baixados com Chico Bento Vai Ter Sua Vingança em Seattle. E eu, ainda embasbacado, porém satisfeito, fui um dos que contribuíram para tal. Há dias que só ouço isso para relaxar.

Bebendo Socialmente está longe da tosquice que eu ouvi ao vivo. Acredito que graças ao Lucas Pocamacha ("aquele cara bem bróder, barbudo e cabeludo que toca guitarra na Superguidis", como eles dizem), produtor do disco, que deve ter dito mais ou menos assim:

– Seguinte, turminha: estão vendo esse pote cheio de azeitonas, aqui? Eu vou dar uma banda lá fora e, quando voltar pro estúdio, quero ver ele cheio de azeite extra-virgem. Vou deixar aqui em cima da caixa de retorno, junto da redinha pra tirar os caroços, beleza? É isso.

Só que quando ele voltou, não havia nem caroço pra tirar. A dedicação e o esmero dos Hangovers em produzir ondas sônicas foram tão grandes que os 14min25s de Bebendo Socialmente não permitiram sobreviventes. E, como nem dá pra perceber, sem baixo na parada _ os graves são dados pelas guitarras, nos botões. Daí foi só passar um verniz.

Divertido, direto e demoníaco (para ficar só no D), Bebendo Socialmente merece ser ouvido mais de uma vez. Grande ideia essa de terem gravado um disco...

O lançamento oficial rola nesta sexta-feira, dia 18, no Jack Rabbit Bar, em Cachoeirinha. Além dos Hangovers, a espetacular INI. Depois, a banda sobe pra São Paulo, rodar pelo interior.


AGENDE-SE

Wander Wildner continua sua peregrinação folk-rocker no Zelig (Sarmento Leite, 1.086), durante as próximas quintas-feiras de março, apresentando o show do excelente Caminando y Cantando. Começa nesta quinta (17), às 21h, com participação de Jimi Joe e ingressos a R$ 15.

Sexta-feira, dia 18, rola o sensacional showrrasco do Cartel da Cevada, na Casa do Gaúcho (Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, s/n), que reúne os bons para promover seu primeiro disco (à venda no local por R$ 5). Se você estava ligado, comprou ingresso antecipado para degustar um costelão antes do show. Se não, ainda dá tempo de arrumar entradas para curtir espetáculo dos meninos com valores entre R$ 30 (antecipado) e R$ 35 (na hora). A partir das 23h.

O Garagem Hermética (Barros Cassal, 386) recebe os decanos do hardcore Garage Fuzz nesta sexta-feira, dia 18, em show com os parceiros Out of Reason, End of Pipe e Pernalonga. O show está marcado para depois das 23h, com ingressos custando R$ 20 (antecipados) e R$ 30 (na hora).

As bandas Change Your Life, Pull The Trigger, Terrorismo?, Farpa e Decore tocam o horror neste sábado, dia 19, a partir das 22h, na Fundação Cultural de Canoas (Victor Barreto, 2301). Ingressos a R$ 5.

Acadêmicos da Distorção, ou IV Sinewave Festival

12 de março de 2011 1

Texto do Thiago Kittler sobre o Sinewave Festival, que rolou domingo passado em Porto Alegre.

Grande colaboração!

Segue:

Domingo de Carnaval. Muita gente no Porto Seco (?), outros em blocos de rua que eu desconheço mas curto mesmo assim. Calor afugentando todo mundo para o litoral. Nesse cenário onde a resistência é/era fundamental pra quem curte rock e não curte calor, Porto Alegre – Capital desta Província – recebeu a 4ª edição do Sinewave Festival.

Organizado pelo selo homônimo, o bloco da barulheira já passou por cidades como São Paulo e Curitiba e tem uma quinta edição despontando no Rio de Janeiro em maio. Levou ao Garagem Hermética banca com material das bandas – de registros em Eps e Cds a camisetas –, projeções em telão, discotecagem variada. Enfim, prato cheio pra quem curte.

Talvez pelos contras citados no primeiro parágrafo o Garagem não estivesse tão cheio. O “fator domingo” também pode ter colaborado para a situação, mesmo com o início dos shows previsto para um horário razoável, 18hs – e cabe salientar: eventos em final-de-domingo são muito bem vindos, já que o 'primeiro' dia da semana não tem a diversidade de programação como forte.

Entre um passeio e outro até a escada do Garagem pra 'fumar' – no caso de um não-fumante como eu pra arzinho noturno –, boa parte da gurizada conversava sobre as bandas, os próximos shows e talecoisa. Sobe escada, volta pra ver a banda, pegar mais uma ceva. Não era passarela, mas praticamente funcionava como tal entre uma apresentação e outra.

E, falando nisso, vamos às apresentações (ou parte delas) propriamente:

Input Output: Não vi, mas gostei. Alguém que toca “Silence”, do Portishead, merece inegável respeito. As músicas do one-man-band Douglas Dickel (cata no Trama Virtual, onde dá pra encontrar quase todo o material do rapaz, ou no blogspot – só jogar o nome do projeto no Pai Google) remetem a um trabalho de caráter experimental, com influências do rock radioheadiano e trip-hop num tanto ou outro. Vale a curiosidade de caçar nos links internéticos já citados.

Transmission: Pessoal já tem tempo de estrada – e currículo extenso em outras bandas – mas admito que nunca tinha dado a devida atenção. Lembra, por conta das influências comuns, a Loomer, onde o Stefano também toca guitarra – sempre com seu ampli Giannini porradão e alavancadas certeiras na ponte da sua guita Jazzmaster.

E falando na 'seis cordas', a observação obvia a quem ouve: são elas que ditam a sonoridade da banda, que bebe na fonte onde o sr. Thurston Moore mantém sua juventude.

Huey: ver uma banda como a Huey traz esperanças ao que se convencionou chamar de “metal”. Os caras conseguem soar pesados e, em parte, fieis a alguns clichês divertidos do gênero, mas sem se prender ao estereótipo padrão de headbanger.

Eu esperaria maquiagem, vestimenta inteiramente preta e outras esquisitices de qualquer outro banda que tocasse como eles. Mas o que o público do Sinewave viu foi um guitarrista a lá H. Thompson (camisa floreada e 'danças' ), e caras que curtem o que fazem sem abrir mão de outras influências e umas experimentações aqui e acolá, bem de canto.

E é digno de nota que a Huey é a banda de metal com o melhor fã clube existente: ao invés dos tradicionais cabeludos suados defronte a banda, a primeira fila era dominada umas meninocas fotografando, filmando e afins. Fui para vê-los – E acho que boa parte do pessoal que estava até então, que foi minguando aos poucos – e, ao término do show, tive a confirmação das minhas expectativas.

Herod Layne: Vi, mas não acho que não entendi. O Elson – responsável pelo selo Sinewave, que organiza o festival e merece parabéns pela iniciativa – é muito gente fina, vá lá, mas não poderia mentir: o som da banda em que ele figura como baixista é avançado demais para o meu “intelecto musical”. Talvez tenha me faltado paciência.

O tanto que ouvi me lembrou Sigur Rós, adicionadas umas barulheiras sonicyoutheanas aqui e ali – uma amiga os define, também, como “o Slint brasileiro”. Mas pretendo ouvir com atenção novamente, as boas referências me inclinam a isso.

Loomer: Último show da noite, menos galera do que antes, mas nem por isso uma apresentação menos animada. Pelo contrário, a banda parecia até um tanto 'encapetada' - destaque para o batera, Guilherme F., e a Liege no baixo. Os chefes da cozinha da Loomer parecem ser os 'culpados' por, a cada show, a banda parecer estar mais pesada, com batidas fortes e marcadas.

Mostraram algumas músicas novas, aplaudidas pelos fortes que resistiram horas em pé – talvez uma delas se chame “Cornflakes”. Talvez. “Rocket Fuzz” ao vivo é um daqueles doces com recheio amargo (?), ou vice versa: início com um soco no ouvido; versos quase delicados, quase derretendo.

Ao pedir pra pararem a fumaça (vulgo gelo seco) no palco, a menina do baixo Jazzmaster proferiu a frase da noite: O problema de ser a última banda a tocar é que a gente fica meio bêbado. Era o que todo mundo já sentia no Garagem, o misto de ceva, distorção e a maratona de muito samba no pé (?) cobra dos músculos e da cabeça. Fim de noite com distorções e microfonias, pessoal aplaudindo. Carnaval na Capital.

Gunport e o primeiro WTF?! do ano

03 de março de 2011 3

Gunport, já ouviu falar? Até o meio da semana passada, nem eu. E vai abrir o show do Ozzy, dia 30 de março, em Porto Alegre. Uma banda totalmente desconhecida para tocar antes de ninguém menos que o sujeito que inventou o heavy metal. Não ligo de zuarem a abertura de bandas ruins colocando gente ainda pior pra tocar antes, mas com o nosso Paul McCartney...

Então fui ouvir. Meu amigo @vinoferrari havia alertado que os arquivos achatados do MySpace não faziam jus ao som da banda ao vivo. Era preciso vê-los em ação. Mas como, se o único vídeo dos caras é jogando paintball na MTV e dublando a si mesmos num show no Garagem Hermética? MySpace, azar.

Cliquei direto na faixa que tem mais audições, It's a Crime. Começa com um pianinho, ruído de agulha no vinil, vocal que eu classificaria como classudo e então entra tudo de uma vez, bateria, baixo e guitarra. Hard rock dançante, meio jazzie, piano marretando do começo ao fim, e de repente eu já estava batendo os pés, chacoalhando a cabeça pros lados e mandando twitte pedindo pelas faixas em alta resolução.

It's a Crime me ganhou de primeira, mas a Gunport tem mais. É um rock'n'roll pesado, sofisticado mas sem firula, nada sobrando ou escapando pelas pontas. Econômico, redondo, de bom gosto. E com aquela pegada metal necessária que exige mais que o 4x4 básico que a maioria das bandas comete.

Agora me vejo ouvindo no repeat, imaginando que existe aqui potencial para ir além da meia-dúzia de demos e surpreender com um bom disco de rock. Agora, abrir um show como o do Ozzy... só vendo ao vivo. E eu verei.

O link pra baixar as seis demos é esse. No Last.fm dá pra baixar também.

Se você é moderninho...

03 de março de 2011 2

... Jessie J


Órfão desde que Amy Winehouse perdeu-se nos próprios abusos, o Reino Unido festeja esta semana o nascimento oficial de sua nova voz — e desta vez, sem álcool ou drogas. Rainha absoluta das paradas desde o final do ano passado e capaz de arrancar elogios das bocas mais inesperadas, Jessie J lança nesta semana seu primeiro disco completo cotada como a grande promessa da música pop em 2011. E não deve decepcionar.

Natural do condado de Essex, Jessica Ellen Cornish construiu uma sólida reputação dentro da indústria (e da bolsa de apostas) musical inglesa em um curto período de tempo. Até o final do ano passado, Jessie era uma ilustre desconhecida que escrevia canções para outros artistas, como Alicia Keys, Rihanna e Miley Cyrus. O empurrãzinho para os holofotes quem deu foi Justin Timberlake, que a incentivou a registrar o primeiro single, Do It Like a Dude.

A canção, uma agressiva mistura de batidas hip hop e guitarras distorcidas, com letra típica de auto-afirmação feminista do início do século 21, ficou em segundo lugar na lista britânica dos mais vendidos em novembro de 2010 _ cerca de 300 mil cópias. Foi o suficiente para Jessie ganhar o prestigiado Brit Awards, deixando para trás veteranos como Adele e Florence and the Machine, e ser considerada a número 1 na última lista de artistas que a BBC indica para se ficar de olho em 2011.

O segundo single, o dub feliz de mensagem anti-capitalista Price Tag, estreou direto em primeiro lugar, vendendo 90 mil unidades em 48 horas e prognosticando que o debut, Who You Are (cuja faixa título fala em ser feliz do jeito que se é, tema em alta no mundo pop atualmente), será tão bem sucedido financeiramente quanto variado musicalmente.

Com a mesma paleta sortida e cheia de personalidade Jessie trata seu guarda-roupas. Uma rápida espiada em seus clipes, shows ao vivo ou aparições públicas basta para entender porque ela é considerada a resposta de Sua Majestade a outro fenômeno da cultura pop, Lady Gaga. Como sua contraparte norte-americana, Jessie é presença garantida em revistas de música, comportamento e moda — Pop Magazine, Rolla Coaster, RWD, entre outras — e uma promissora usina de tendências (no YouTube há tutoriais ensinando a copiar os lábios estilosos de Jessie no clipe de Do It Like a Dude...).

Mas as comparações param no que tocam a capacidade de ambas em ouriçar fashionistas e abusar do corpo como ferramenta de trabalho. Diferentemente de Gaga, Jessie é uma cantora com personalidade vocal própria, com timbre elogiado pela veterana Cindy Lauper e por ninguém menos que Simon Cowell, o produtor e jurado inglês especialista em destruir calouros em programas de TV como American Idol e X-Factor.

Sua autoconfiança é suficiente para que apresentasse Price Tag pela primeira vez com apenas voz e violão no tradicional programa de Jools Holland, na BBC, e fizesse o mesmo com Do It... durante o Brit Awards. Já Who You Are ganhou versão karaokê em pleno metrô de Nova York.

No Brasil, Who You Are deve ser lançado no dia 29 de março.

Para quem gosta... de cantoras de vozes potentes, com pegada R&B (Leona Lewis) e pitadas de hip hop (Beyoncé), que se vestem de maneira pouco usual, mas cheias de estilo (Lady Gaga) e com muita atitude dentro e fora do palco (Pink).

Se você é mais moderninho ainda...

03 de março de 2011 0

... Lykke Li


Da gélida e cinzenta Suécia, Lykke Li surgiu luminosa e dançante em 2008, com o disco Youth Novels. Amparada (e produzida) pelo compatriota Björn Yttling, do trio Peter Bjorn and John, tornou-se rapidamente queridinha das pistas descoladas e de grifes famosas. Em 2011, aos 24 anos, ela parece não enxergar mais graça em tudo.

Interessante notar que o amadurecimento musical e pessoal de Li Lykke Timotej Zachrisson tenha se dado de maneira tão controversa. O primeiro trabalho, gravado na capital Estocolmo, prima pelo folk alegrinho, os sintetizadores correndo a mil, o vocal infantil e frágil cantando alegorias de uma juventude que não quer saber de envelhecer. Diz ela, em entrevista ao site Pitchfork, como que mirando (e criando em estúdio) um horizonte mais ensolarado:

— Eu sou da Suécia, então não curto tanto assim o inverno. Não tem nada de fofinho nele.

Então ela conquista o sol, vai para Los Angeles, a capital do verão dos EUA, onde estabelece base e escreve seu segundo disco. Mas Wounded Rhymes (Rimas Feridas, numa tradução literal), lançado esta semana nos EUA e Reino Unido, mostra Lykke pintando justamente com as paletas monocromáticas de sua terra natal. Pesado, soturno e enigmático, é Lykke debruçada na janela com saudades do frio.

— Tem menos atmosfera e mais direção. Eu tinha 19 anos quando gravei meu primeiro álbum, e desde então fui exposta a muitas coisas. Eu mergulhei na loucura e fiz coisas que talvez eu pense duas vezes quando ficar mais velha — completa, ao mesmo Pitchfork.

O choque de realidade que a elevou de promessa do synthpop escandinavo começou nos cinemas. Mesmo relutante, escreveu Possibility, canção exclusiva para a trilha sonora do blockbuster teen Lua Nova (2009), segundo capítulo no cinema dos vampiros da saga Crepúsculo. Tornou-se, então, diva de adolescentes melancólicos — além de um rostinho bonito para o mundo da moda.

Em 2010, emprestou corpo e alma para a campanha publicitária da linha de jeans Curve ID, da Levi's. Tomou gosto pela coisa e cedeu a faixa Little Bit para um comercial de lingerie da Victoria's Secret com a super top Heidi Klum. Encantado, o rapper Kanye West chamou Lykke para um dueto na faixa Gifted, do duo N.A.S.A e rasgou elogios:

— Eu amo ela. E não entendo porque ela não é uma artista maior do que agora.

O resultado de tanta exposição foram mais algumas milhares de cópias vendidas do independente Youth Novel, um contrato com a gravadora Atlantic e a consagração de musa indie, estampando a capa mais recente da revista Spin que elencou as Next Big Things de 2011.

A expectativa também cresceu: antes mesmo de seu lançamento, Wounded Rhymes recebeu cotações gordas entre as publicações especializadas, como Rolling Stone, Mojo, Q Magazine, entre outras. Todas são unânimes em ressaltar o crescimento de Lykke como compositora e cantora.

A voz também mudou, está mais segura, porém gélida e sombria. O tema volta-se para a solidão (Sadness Is A Blessing), amores expressos (Love Out Of Lust, I Follow Rivers) e entrega (Get Some). Os arranjos mantiveram os violões folk e uma ou outra guitarra, além da percussão marcante. Mas a velocidade agora é outra.

Lykke agora quer, do alto de uma montanha nevada, contemplar seu reino. Sem pressa. E, de preferência, no escuro.

Para quem gosta... de um pop construído com sintetizadores (Little Boots), conduzido por uma voz marcante e soturna (Nico) e com alguma vocação para as pistas de dança descoladas (Robyn e The XX).

Ondas sônicas em Porto Alegre

02 de março de 2011 2

Carnaval chegando, confete, serpentina, birita batizada, a lá lá ô ô ô, homem vestido de mulher e... tá, mas aqui o lance é outro, pra você que, como nós, literalmente pula a folia de Mômo.

Domingo de carnaval, EM PLENO DOMINGO DE CARNAVAL, Porto Alegre faz jus a capital anti-folia (nem tanto, eu sei, calma, galera, tô só provocando...) e recebe a 4ª edição do Sinewave Festival, a primeira no Rio Grande do Sul. No line-up, três bandas gaúchas que dispensam apresentações: Loomer, Transmission (foto) e input_output. Além das paulistas Huey e Herod Layne.

A parada vai rolar no Garagem Hermética (Barros Cassal, 386), pontualmente a partir das 18h. Quer dizer, chega cedo e aproveita mais a festa, que ainda vai ter discotecagem de J.P. Romero e Richard (guitarrista da Loomer).

Mas não vá sem antes conhecer do que se trata. Porque se faz necessário avisar que o negócio não é para tímpanos sensíveis ou tratados a leite de pêra e ovolmatino do pop radiofônico. É anti-pop, barulhento, passivo-agressivo, incontrolável, post-lugarcomum, alheio a rótulos e afiado.

Mas também não precisa se preocupar _ ou ter medo. O próprio Sinewave te ajuda, disponibilizando faixas e até discos inteiros das atrações não apenas desta edição, mas de anos anteriores. Tudo em alta qualidade e pra download imediato.

Também dá pra botar os dedinhos pra cima e sair procurando a cabeleira do zezé, mas aí tu tá por tua conta e risco...