Tem coisas que nos são queridas e das quais não abrimos mão. Gostamos tanto que as defendemos até a morte, muitas vezes encolhidos num canto, arma em riste atirando contra a porta tipo jogador iniciante de FPS. Em excesso, essa postura nos torna xiitas, chatos, intransigentes e, acredito, acaba apertando o horizonte. Não sei até onde isso pode ser ruim ou bom.
Sabemos dessa nova geração que topa qualquer coisa para ser feliz (ou assim parecer), mas também sabemos que as coisas não são assim tão simples. Questione-se um pouquinho só e a locomotiva ameaça descarrilhar. Questione-se muito e sua existência vira um bugie zanzando loucamente em dunas com o piloto gritando "é com emoção, né, patrão?"
Mas estamos falando de música e de duas bandas que conheci essa semana. Conheci não porque fui atrás, mas porque caíram no meu colo. A primeira foi a Miami Horror, banda de um homem só da Austrália, projeto do produtor Benjamin Plant que mescla praticamente todo gênero "música pra dançar" feito entre as décadas de 1970 e 1980 acrescida de uma tintura indie.

Quer dizer, tem como não odiar? Tem. Ouvindo, por exemplo. Se você é um ouvinte compulsivo de música, sabe que é preciso ouvir muito pouco de uma faixa pra saber se vale a pena continuar ou não. Para um ouvinte experimentado, segundos iniciais de uma única música podem conter o código genético do resto do disco. E com o Miami Horror não é diferente. Você ouve qualquer uma das canções e saca que não vai ser diferente disso _ mas no meu caso, mesmo sabendo que a batida seria essa, acabei seduzido a ouvir mais. E mais. E quando vi estava fazendo cadastro no Myspace pra poder ouvir o disco todo.
Vou levar o Miami Horror pruma ilha deserta? Jamais. Mas indicaria para os amigos _ como estou fazendo aqui, agora (ele toca em Porto Alegre terça-feira agora, dia 5, inclusive). Não compraria o disco todo, mas faria uma seleta com algumas faixas para ouvir à toa. Cai bem, não agride, não enche o saco e me faz balançar a cabeça pros lados. É uma discoteca de forte gosto retrô, mas que não parece antigo. Você ouve e pensa "bah, isso é Bee Gees, isso é New Order, isso é Human League, isso é Prince", mas não é um pastiche torto dos originais. Eles estão ali, mas diluídos e bem recolocados. E tem uma delicadeza em algumas momentos onírica que não encontro no meu setlist habitual.
Se o Miami Horror não salva o mundo, pelo menos não destrói o meu como 90% da produção que acabo tendo que ouvir por força da profissão.
Por força da profissão eu fui ouvir o Habits, disco novo do Neon Trees. Nunca tinha ouvido o Neon Trees pelo simples fato dele frequentar espaços onde eu evito deitar os olhos. Mas o CD estava fora do plástico, eu estava de bobeira e PLAC, botei pra rodar.

E me impressionei com a capacidade da banda de condensar toda a produção do rock indie feito nos anos 2010 num único disco. As 10 faixas (disco curto!) tem Strokes, Klaxxons, White Stripes, Kings of Leon, Arctic Monkeys, Killers, Franz Ferdinand... É dançante, mas também pesado. E bem executado, sem brechas _ lembrando que eu ouvi farejando por qualquer erro, louco pra sentar a porrada nos dentes hipsters do integrantes (com exceção da Elaine Bradley, porque sou um gentleman e ela é baterista e gatona).
O Neon Trees também não entra na minha lista de coisas que eu salvaria da minha casa durante um incêndio (ele sequer entraria na minha casa...), mas pelo menos não me chamou de idiota, não me tirou para boçal. Não me vende algo que sabe que não estou disposto a comprar. Deixa claro de onde veio e pra onde vai e é isso. Honestidade poderia ser outro título pra Habits, penso eu.
Penso mesmo que se só me mantivesse com o que me é caro, não teria conhecido o Miami Horror e nem o Neon Trees. Não acredito que farão diferença na minha vida, mas o que e quem tinha que fazer diferença já fez. Ou seja, a posição está bem guardada. Por que não sair e procurar novos alvos como um jogador de verdade, seu lamer?
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