
Born This Way, o novo disco de Lady Gaga, chega oficialmente para os fãs nesta segunda-feira. Como era de se esperar, ele não traz nada além do que já existe no universo da cantora _ com honrosas e bem vindas exceções, é preciso admitir.
Mas a bolacha é mais que um amontoado de canções com base tecno anos 1990. Ele é, de uma maneira torta como a própria autora, uma disco conceitual. Quase um roteiro de uma noitada com Lady Gaga. Suas 14 canções, quando ouvidas na sequência, contar uma história bem típica do mundo da Mãe Monstra. Pra mim, fez todo sentido.
Saquem só (cada parágrafo representa uma faixa com trechos retirados de suas respectivas letras):
Gaga tá em casa numa pior quando decide que precisa fazer alguma coisa pra espantar a bad (Não vou desistir da minha vida / Sou uma rainha guerreira / Eu não vou mais chorar). Então, claro, parte pra fazer festa (Vou amarrar minhas botas / Botar algum couro e destino), encher a lata (Nós vamos para o bar / Vou segurar meu uísque lá em cima) e praticar bobagens das quais poderá se arrepender depois (Beijar o garçom duas vezes / Não vou criar buracos nos bancos com meus calcanhares). Trincada, começa falar coisas sem sentido (Eu vou casar com a noite) e aí...
... passa a bancar a prostituta. Ela não é uma de fato, mas está tão louca que bota pra fora uma fantasia onde é uma espécie de acompanhante do alto escalão governamental (Government Hooker) e encarna a Marylin Monroe (Coloque suas mãos em mim, John F. Kennedy). Mas aí começa a bater uma certa paranoia _ devem ter batizado o drink dela! _ e aflora em Gaga duas personalidades, a da prostituta apaixonada e abandonada (Beberei minhas lágrimas esta noite / Beberei minhas lágrimas e vou chorar / Pois eu sei que você me ama, querido) e do cliente safardano (Prostituta! Sim, você é minha prostituta / Pare de me encher, prostituta do governo). A fantasia cresce de tamanho que ela pensa que é...
... Maria Madalena e está apaixonada por Judas (Eu amo Judas) mesmo tendo jurado amor por Jesus (Jesus é minha virtude). A nóia de ser uma prostituta é tamanha que ela começa a negar sua própria fantasia (Prostituta, vagabunda, vadia, vomitam na cabeça dela) e inventa uma outra rapidamente...
... um amante latino! Ela promete casamento à uma jovem dama (Se você me ama, nós podemos nos casar na costa oeste), mas avisa que pode não dar certo (Eu não falo sua língua, oh não!) porque ainda tem o antigo amante na cabeça (Eu não falo seu, eu não falo seu Jesus Cristo). As coisas começam a ficar confusas em sua mente intoxicada (E os rapazes (moças), os rapazes (moças) estão se beijando) que ela passa a relembrar sua adolescência...
... quando a educação castradora dos pais (Sempre que eu me visto bem / Meus pais brigam comigo / E se eu estiver toda gostosa / Mamãe cortará meu cabelo à noite) fez com que decidisse pela tragédia (Eu vou morrer vivendo tão livre quanto o meu cabelo), mesmo sabendo que o chumaço de pelos capilares que ostenta não é lá essas coisas (Na festa da escola / Minha franja está tão rebelde / Que eu não tenho chance). Ainda choramingando os dias de fracasso social (Quero muitos amigos que me convidem para suas festas / Não quero mudar, não quero ter vergonha), ela vai pro banheiro e conhece um carinha super legal, porém...
... por mais que ela prometa mundos e fundos ao pretê (Vou te levar pra sair hoje à noite / Dizer tudo o que você gosta), ele não parece disposto a ceder tão facilmente, o que a deixa puta da cara (Merda, seja meu!). Ela não se dá por vencida e...
... faz algumas ameaças típicas de uma psicopata doida de substâncias ilícitas (Quando você estiver longe, eu vou dizer a eles que a minha religião é você) e que se recusa a esquecer o ex-namorado que ela botou guampa (Eu vou dançar, dançar, dançar / Como Jesus disse). Em seguida, age como se nada tivesse acontecido (Eu não vou chorar por você / Eu não vou crucificar as coisas que você fez). Ela então reencontra as amigas...
... que, desconfiadas do que ela possa ter ingerido, a levam para fora da boate. Lá, ela volta a sofrer de crises de autoestima (Eu sou uma vadia, eu sou uma perdedora, talvez eu devesse desistir / Eu sou uma idiota, queria ter dinheiro, mas não consigo achar emprego), de identidade (Eu sou uma patricinha, eu sou uma punk egoísta, eu realmente devia ser espancada) e expõe traumas infantis (Meus pais tentaram até que se divorciaram porque eu estraguei a vida deles). O problema...
... é que ela não para de delirar, agora arrumando confusão com a polícia montada (Siga aquele unicórnio / Cavalgue, cavalgue, ponei, cavalgue, cavalgue). Como toda bêbada, diz que está tudo bem e quer voltar pra dentro do club de qualquer jeito (Tenha seu hot rod pronto para a batalha, porque nós vamos beber até morrer esta noite) atrás duma última chance de se dar bem...
... que é justamente com um headbanger (Amante do Heavy Metal), com quem pretende ficar chapada por tabela (Eu quero a sua boca de uísque) e sair aprontando (Vamos criar um inferno nas ruas / Beber cerveja e se meter em encrenca). O cara até está curtindo, mas aí ela começa a dar uma de louca novamente (Você me amaria / Se eu dominasse o mundo?) e ele sai fora, o que...
... não deixa ela muito feliz (Você quer meu mal, eu acho que você é legal / Mas não tenho certeza) pelo segundo toco da noite. Magoada e ficando sóbria, Gaga se lembra do namorado caipira que conheceu certa vez (Meu cara legal do Nebraska) e não conseguiu segurar (Faz dois anos desde que eu deixei você partir). Por um instante, acha que um pouco de submissão não seria nada mal (Eu daria qualquer coisa para ser sua bonequinha) _ o problema é justamente esquecer aquele velho romance e os traumas da infância (Há apenas três homens que eu vou servir por toda minha vida / São meu pai, Nebraska e Jesus Cristo). É quando ela se dá conta que saiu de casa justamente...
... pra queimar o próprio filme (Não faz mal se todo mundo souber meu nome esta noite), pegando o primeiro que cruzar seu caminho (Preciso de um homem que transforme erros em acertos esta noite). Uns bons goles depois, ela já está botando pra quebrar com categoria (Outra dose antes de beijarmos o outro lado) e pronta para se acabar na pista com um maçarico (Coloque seus óculos escuros porque dançarei nas chamas).
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