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Posts de julho 2011

Tirando o cigarro da boca de Page Hamilton

30 de julho de 2011 0

Gustavo Mini, vocalista e guitarrista do Walverdes, relata a insólita trip com o Helmet durante o verão de 1994 em pleno M2000 Summer Concerts, na Praia do Barco, em Capão da Canoa.

"Bandas novas e ativas, ainda no seu primeiro ou segundo disco, tocando no Rio Grande do Sul, é um fenômeno recente que já está quase se tornando comum. Mas em 1994 isso era um verdadeiro acontecimento. Acho que o Helmet foi uma das poucas, senão a única banda dessa safra que tocou aqui no momento em que "as coisas estavam acontecendo".

Por isso, a vinda dos caras provocou uma certa movimentação do "povo alternativo" local para ir ao "show do Helmet". Eu e meus colegas de banda, por exemplo, partimos a pé de Capão da Canoa acompanhando o imenso engarrafamento que se arrastava até a Praia do Barco. No meio do caminho, pegamos carona num microônibus alugado por uma turma de conhecidos da "cena underground" portalegrense e que rodava a 10 km/h. Foi um aquecimento à altura do evento. Traduzindo para os dias de hoje, é como se fosse um open do Beco ou uma quarta do Jekyll sobre rodas.

Por uma série de iniciativas e oportunidades bizarras, chegamos a ter contato direto com alguns membros do Helmet. Achando que o nosso som tinha a ver com o deles (e tinha), entregamos uma fita cassete com nossas primeiras gravações na recepção do hotel deles em Porto Alegre. Acho que a nossa esperança é que a banda convencesse os organizadores do festival que as outras atrações não tinham a ver com eles (não tinham mesmo) e substituíssem todas por nós. O que, claro, não aconteceu.

Na passagem de som, entramos no palco por trás como se fôssemos da equipe e chegamos a travar um estimulante diálogo com o baterista John Stanier (hoje no Battles). Não lembro exatamente o que conversamos, mas me marcou a franqueza dele ao comentar as características do nosso litoral. Durante o show, o vocalista Page Hamilton chegou a nos dedicar uma música.

No fim, não sei como, fomos parar atrás do palco (de novo) e ficamos de papo com o baterista (de novo). Também não lembro quais eram os assuntos, mas não creio que tenha sido algo relevante à humanidade. Só lembro que eu roubei o cigarro da boca dele e joguei fora. Até hoje não sei por que fiz isso e se teve alguma influência no período de baixa que a banda enfrentou alguns anos depois. Mas foi isso que aconteceu."

O filme do Capitão América é um videogame bem do meia boca

29 de julho de 2011 3

Fui assistir ao filme do Capitão América. E fui crente que nada poderia ser pior do que o que o trailer mostrara, ou seja, um sujeito vestido de bandeira fazendo acrobacias e arremessando seu escudo em soldados nazistas. Mas Joe Johnston, o diretor da bagaça, superou minhas expectativas. Capitão América - O Primeiro Vingador, é possivelmente o pior filme que assistirei este ano _ e olha que eu vejo muita porcaria...

A história todo mundo conhece _ e quem não conhece não está perdendo nada. Steve Rogers é um guri raquítico que sonha em servir a pátria na Segunda Guerra, mas seu físico o torna inapto para a tarefa. que o que falta em massa muscular sobra em, hã, MASSA CARDÍACA, uma vez que o rapaz é um patriota com o coração do tamanho do seu Brooklyn natal.

Tal distinção é notada por um cientista, que convida o franzino Steve para um experimento que lhe dará músculos proporcionais ao seu, hã, CORAÇÃO. Também irá lhe conferir desenvoltura de ginasta olímpico, força e velocidade sobre humanas e ampliará sua tara por escudos e seu gosto duvidoso para roupas _ além de, é lógico, o tornar apetitoso para as mulheres, afinal ninguém se submete a uma sessão de acupuntura radioativa só pra salvar o mundo.

ATENÇÃO: É POSSÍVEL QUE HAJA SPOILERS ADIANTE. É SÉRIO. MUITOS.


Fato é que, depois da morte do tal cientista responsável pelo experimento, Steve, sabe-se-lá-por-que, não tem outra opção a não ser virar animador de auditório vestindo aquela malha que todo mundo conhece com as cores da bandeira americana. Mas ele fica incomodado, porque o negócio dele é ir ferver no front. E quando seu amigo é dado como desaparecido atrás das linhas inimigas, ele não pensa duas vezes: bota uma jaqueta por cima da malha, pega um escudo (óbvio) e vai botar sua novas habilidades à prova (óbvio x2).

E o que ele faz? Sozinho, põe abaixo uma fortaleza da Hidra _ espécie de unidade de elite do exército nazista _ e resgata 400 soldados prisioneiros de guerra (incluindo o bróder de fé americano, um negro, um oriental, um francês, um italiano e um britânico) das garras do Caveira Vermelha. O Caveira, coitado, só tinha nas mãos o Cubo Cósmico, que dentro da mitologia Marvel confere ao seu possuidor nada menos que os poderes de um deus. Mas o que o Caveira, esse nazistinha de meia-pataca faz com ele? Ele faz RIFLES LASERS! E pior: lasers que resvalam no escudo do Capitão.

Quer dizer, dá pra respeitar um vilão desses? Não, não dá. E aí o Cap _ com um uniforme igual ao anterior, só que diferente _ começa a tocar o terror em todas as bases do Caveira até o derradeiro confronto. O que rola até o final é mais ou menos o que rola durante todo o filme: um amontoado de diálogos confusos, atuações precárias e sequências de um sentimentalismo tão piegas que faz a gente torcer pro Caveira matar o próprio diretor _ se ele não fosse, claro, um nazi tão incompetente no manejo de artefatos provenientes das estrelas.

Ao final, a impressão que se tem é que Capitão América - O Primeiro Vingador não passa de um videogame muito do meia boca, desses que você só compra se não experimentar o demo antes. E o trailer do filme taí pra isso. Confie nele.

Um papo com Rafael Albuquerque

28 de julho de 2011 0

O quadrinista gaúcho Rafael Albuquerque acabou de ganhar o prêmio Eisner, considerado o Oscar dos quadrinhos, na última ComiCon. A distinção veio pelo álbum American Vampire, coleção de histórias de horror escrita por Scott Snyder cujos primeiros números traziam roteiros de Stephen King. No Brasil, a série foi publicada na revista Vertigo com o título Vampiro Americano.

No dia em que voltou de San Diego (EUA), onde esteve para receber o prêmio, o quadrinista falou com o Remix por e-mail. Confira:

Remix - Você ganhou o Eisner, o Oscar dos quadrinhos. O que muda na sua relação com a indústria depois disso?
Rafael Albuquerque
- Acho que o prêmio dá mais visibilidade para o nosso trabalho. É cedo ainda para dizer, mas, na própria convenção, no dia seguinte a premiação, muita gente veio no nosso estande, comprou os livros. Ficou interessada no que estávamos fazendo.

Remix - Você ganhou o Eisner por um álbum de quadrinhos, digamos, adulto. Ao mesmo tempo, trabalha desenhando super-heróis no mainstream. Quais as diferenças entre estes dois mundos? Qual te dá mais prazer?
Rafael
- É, a série é sim, focada no público adulto, e desde que comecei a trabalhar na revista, me afastei um pouco dos quadrinhos de super-herói, exceto por uma ou outra participação especial. Acho que a diferença é a maturidade do público, mesmo. No American Vampire, temos uma liberdade total de fazer o que quisermos, sem restrições de faixa etária ou público alvo. Não temos o objetivo de vender brinquedos ou games na Vertigo, o que é muito diferente quando se trabalha com personagens conhecidos e estabelecidos como fiz em Superman/Batman ou X-Force. Haviam mais limites criativos.

Remix - Ainda sobre o mercado internacional de quadrinhos, hoje se trabalha com gente do mundo todo graças as novas tecnologias. Dá pra dizer, então, que gigantes do setor mainstream, como Marvel e DC, não são mais empresas norte-americanas, e sim multinacionais? A relação com elas é diferente hoje por conta disso?
Rafael -
As empresas lá funcionam como conglomerados de entretenimento e mídia. A DC/Vertigo é parte da Warner Bros, que é parte da AOL. A Marvel recentemente foi comprada pela Disney. Não sei o que define uma empresa multinacional, mas certamente eles trabalham com profissionais criativos do mundo todo.

Remix - O mercado de quadrinhos no Brasil é uma alternativa sólida para quem quer trabalhar na área ou é apenas uma plataforma de lançamento  para o exterior? O que é preciso fazer, na sua opinião, para termos um mercado de quadrinhos nacional mais forte?
Rafael -
Acredito que no Brasil temos um mercado em expansão, mas não uma indústria. Existem trabalhos, pode se ganhar algum dinheiro com quadrinhos, mas quem faz sabe que é pouco para o trabalho que é publicado. Isto não é culpa das editoras, é apenas um reflexo de quanta HQ se consome no Brasil. Acredito, entretanto, que é uma boa porta de entrada para se fazer HQ, seja lá onde for.

Remix - Com tantos talentos brasileiros trabalhando para companhias de fora, não seria o caso de editoras daqui segurarem essa gente e fortalecer _ ou criar _ uma indústria de quadrinhos nacional? Conseguiríamos, de algum modo, competir com os gringos?
Rafael -
Como eu disse, a formação de uma indústria não é uma decisão das editoras. É reflexo de uma demanda que, infelizmente, no Brasil, ainda é pequena. Acho também, errada a ideia de "segurar" o artista. As editoras tem sim, que oferecer opções viáveis de publicação aqui no Brasil, e acredito que as editoras sérias já têm isso em mente.

Remix - Sobre o mercado nacional, tenho a impressão que o caminho para os quadrinistas daqui é investir em álbuns de luxo, como o Cachalote. Existiria um outro caminho 100% nacional?
Rafael
- Cachalote é uma publicação (excelente) de mais ou menos 300 páginas, que teve subsídio para ser produzida. Dentro do mercado que possuímos dificilmente isso seria possível sem este apoio de verba externa. As editoras não tem condições de bancar a produção de um livro desses sozinha. Acredito que as publicações de álbuns menores via editoras, ou até mesmo produções independentes, possam ser uma alternativa para aquecer as coisas. No momento, o público está indo procurar HQs nas livrarias. Antigamente, procurava em bancas. Acho que as bancas podem ser, novamente, uma maneira de popularizar os quadrinhos.

Remix - Tem algum personagem ou universo com o qual você gostaria de trabalhar?
Rafael -
Diversos. Adoro personagens clássicos como Spirit e Batman, e adoraria poder fazer a minha versão desses personagens, porém, no momento, minha atenção está completamente focada em American Vampire, e Tune 8, projeto autoral que publico no site jovem.ig.com.br

Encontrando Joe Prado

28 de julho de 2011 1

Final de semana de luxo para os fãs de quadrinhos em Porto Alegre. Joe Prado, um dos nomes brazucas de referência na indústria de HQs internacional, vem neste domingo à Capital falar sobre sua experiência no ramo, num bate-papo que rolará às 16h, na Livraria Cultura (Túlio de Rose, 80). A entrada é franca. Um dia antes, ele ministra uma oficina, cujas inscrições estão esgotadas.

O Remix falou por e-mail com o ilustrador a agenciador de talentos, cujo traço pode ser visto atualmente nas minisséries A Noite Mais Densa, que terminou no início deste ano, e O Dia Mais Claro, que começou a ser publicada em março, ambas reunindo o time de heróis da DC Comics.

Remix - Você trabalha com o mercado de quadrinhos dos EUA desde quando? Como foi sua entrada nele? Quais os principais personagens com que já trabalhou?
Joe Prado
- Comecei meu trabalho como coordenador do estúdio Art&Comics em 2002. Depois de alguns anos cuidando do tráfico de trabalho entre nosso estúdio e as editoras americanas, os editores viram que eu entendia de desenho e me pediram para mandar algumas amostras de meu trabalho. Eles gostaram do que viram e continuei a fazer amostras por mais algum tempo. Quando em 2004, o desenhista e meu amigo, Ivan Reis sugeriu ao seu editor na revista Action Comics da DC Comics que eu poderia ajuda-lo em algumas páginas da edição que ele estava fazendo. Eles aceitaram, e gostaram do resultado. De lá para cá fiz bastante coisa. Entre os títulos estão Action Comics, Superman, Rann & Thanagar War, Birds of Prey, Red Sonja, The Phantom, Teen Titans, Green Lantern, The Warlord e mais recentemente Blackest Night e Brightest Day.

Remix - A última notícia que tenho é que você estaria argumentando histórias do Gavião Negro. Ser um argumentista é ainda bem raro para estrangeiros na indústria norte-americana. Como foi essa oportunidade e o que você pode adiantar sobre o que está escrevendo?
Prado -
Na verdade, isso foi um mal-entendido. Não me tornei o roteirista oficial do Gavião Negro. O que aconteceu foi um convite para escrever e desenhar uma história-curta para uma edição especial da Liga da Justiça onde aparecem o Gavião Negro e Etrigan, O Demônio. Foi uma experiência bem recompensadora e diferente para mim. Não escrevia nada desde começo da década de 90, quando fazia fanzines. E poder trabalhar com dois dos meus personagens favoritos foi sensacional.

Remix - Além de trabalhar como ilustrador, você também é agenciador. Como é esse trabalho? O que é preciso, em linhas gerais, para se dar bem com quadrinhos no mercado estrangeiro?
Prado -
Sim, como disse acima, comecei no estúdio Art&Comics, aonde ainda hoje faço o papel de coordenador de trabalhos, fazendo a ponte entre os artistas brasileiros e as editoras americanas. Também é um trabalho super-recompensador por eu poder ajudar artistas a conseguirem realizar seus sonhos e poderem trabalhar com personagens e editoras que admiram. O profissional hoje precisa ser muito dedicado e estar sempre crescendo como artista. Pesquisando, tentando novas técnicas, e estar antenado com o Mercado com o qual trabalha. Sem falar também nos prazos. Cumprir os prazos é um fator vital para as editoras. Alem disso, hoje se aprecia o fato do artista ser único e original, sem copiar estilos.

Remix - Ainda sobre o mercado internacional de quadrinhos, hoje se trabalha com gente do mundo todo graças as novas tecnologias. Dá pra dizer, então, que gigantes do setor mainstream, como Marvel e DC, não são mais empresas norte-americanas, e sim multinacionais?
Prado -
Com certeza, hoje em dia, com as novas tecnologias e a acessibilidade as grandes editoras são sim grandes multinacionais, expandindo suas áreas de atuação. Quadrinhos hoje em dia geram um sem-número de produtos periféricos que alimentam outros mercados. video games, brinquedos, vestuário, DVDs, animação, download de aplicativos para celulares e tablets, etc.

Remix - O mercado de quadrinhos no Brasil é uma alternativa sólida para quem quer trabalhar na área ou é apenas uma plataforma de lançamento para o exterior? O que é preciso fazer, na sua opinião, para termos um mercado de quadrinhos nacional mais forte?
Prado -
O mercado nacional está em franca expansão hoje em dia. É só ver o numero de publicações de quadrinhos nas livrarias. Agora competir com as revistas nas bancas é um outro assunto. Os quadrinhos mainstream são muito
mais baratos de se publicar, pois as editoras brasileiras já os compram prontos, pagando somente direitos e uma parcela da vendagem. Produzir algo mensalmente 100% Nacional eu ainda acho bem complicado, sem mencionar com alto custo. Agora, os artistas Brasileiros tem um mercado ativo aqui, que podem sim explorar. O artista de quadrinhos pode fazer ilustrações, trabalhar com publicidade, arquitetura, e muitas outras coisas. E com isso, se estabilizar para poder tentar publicar algo próprio.

Remix - Com tantos talentos brasileiros sendo exportados para fora, não seria o caso de editoras daqui segurarem essa gente e fortalecer _ ou criar _ uma indústria de quadrinhos nacional? Conseguiríamos, de algum modo, competir com os gringos?
Prado -
Para mim, esta pergunta tem tudo a ver com o que citei acima. Depende 100% das editoras nacionais apostarem nos artistas. O que vem acontecendo com edições mais luxuosas e de sucesso como Cachalote de Rafael Coutinho,
Bando de Dois de Danilo Beyruth e as muitos publicações dos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá.

Remix - O seu trabalho, até onde sei, é bem focado nos quadrinhos mainstream. É possível ter personalidade, manter seu traço característico, dentro dessa indústria? Até onde, na sua opinião, o artista deve se submeter para ter seu nome impresso num gibi da Marvel ou DC?
Prado -
Com certeza é possível ter personalidade no seu trabalho quando se está na indústria mainstream. Como disse no começo, o artista hoje é valorizado pela sua originalidade. É claro que sempre haverão aqueles que são influenciados pelos trabalhos de seus ídolos e pela "moda". O artista é um ser criativo, e sujeito às mais diferentes influências, então é normal vermos sempre artistas que tem um ou outro detalhe cunhados nos estilos de seus ídolos. O que atrapalharia sim, seria o artista querer ser uma cópia de outro artista, pois iria bater de frente com o que já disse sobre ser original e "único", hoje em dia.

O Ok Go não é mais uma banda

27 de julho de 2011 0

Agora é oficial. O Ok Go não é mais uma banda.

Olhem o novo vídeo do quarteto pra música All Is Not Lost:

Sério, os caras viraram uma companhia de balé, um grupo de coreografia, uma trupe circense, cheerleaders fazendo cosplay de banda... menos uma, hã, banda.

Mas eles estão ficando cada vez melhores nisso, é preciso admitir...

Patrulha noturna

27 de julho de 2011 1


O papo sobre o que quer o público de Porto Alegre em relação a espetáculos musicais rendeu uma excelente troca de ideias no blog e me fez pensar em outra coisa. Tomando por base que muita gente disse que a maioria das pessoas vai a shows por qualquer razão que não a de prestigiar o artista ali dando duro sobre o palco, eu pergunto: existe um conjunto de regras que condicionam quem deveria ir ou não ver um show?

Minha experiência em cobertura de shows me ensinou uma lição preciosa: jamais confie no público quando se trata de saber o nome das músicas. Como jornalista, muitas vezes preciso assistir a espetáculos de artistas que não conheço nada além dos hits mais óbvios. E para uma eventual resenha, é essencial saber o que foi executado.

Então, há duas maneiras: a primeira, anotar uma estrofe ou duas e jogar no Google para tentar descobrir. A segunda é perguntar para quem está no seu raio de alcance. E aí eu digo que cansei de abordar gente que estava se descabelando de cantar e dançar e ouvir um "ai, não sei" a respeito do nome da canção que a estava comovendo tanto.

Quer dizer, o sujeito estava curtindo o show, parecia gostar do que ouvia, mas não tinha se preocupado em gravar o nome da música. Seria ele um fã menor por isso, digno de ser colocado pra fora? Ora, ele se dignou a sair de casa para ir ver e ouvir alguém tocando ao vivo. Não é suficiente?

Donde pergunto: quem vai a show precisa necessariamente conhecer o artista? E conhecer quanto? Não pode ir pela pura e simples badalação, ver e ser visto e contar pra todo mundo que foi? Está errado em pagar para não ver a banda tocar e sim apenas encontrar os amigos, beber uma cerveja e fazer check-in no Foursquare? Isso atrapalha o artista ou o restante do público? Certamente não facilita o trabalho do jornalista desinformado, mas ninguém disse que seria fácil, mesmo...

Até onde minha experiência me credencia dizer, espetáculos de música _ com alguma exceção de guetos completos, como metal extremo ou erudita _ atraem todo tipo de gente. Gente que está lá curtindo.

E não é isso que todo mundo quer?

Garota, interrompida

26 de julho de 2011 0


Texto meu sobre a Amy Winehouse, publicado no Segundo Caderno de segunda-feira.

Ninguém duvida que foi o talento para a música que lançou Amy Winehouse ao estrelato mundial. Mas poucos questionam que foi um talento ainda maior para se autodestruir que a manteve em evidência. Drogas, brigas, prisões, bebedeiras, escândalos e fiascos transformaram a jovem e promissora diva da soul music numa mera inquilina de tabloides.

Do início de carreira cheio de Grammys até seus derradeiros dias, Amy foi, aos poucos, chamando mais a atenção por seu pendor para se meter em encrenca do que propriamente fazer música. E diferentemente de outras artistas que planejam um comportamento inadequado para render notícia, como Lady Gaga, ela sempre foi natural em seus excessos _ natural até demais.

A vida em estúdio estava parada desde Back to Black (2006), enquanto o palco transformara-se num desafio sobre-humano, sendo poucos os shows em que a cantora conseguia terminar sem pelo menos errar alguma de suas letras.  Ao mesmo tempo, tornou-se uma fonte inesgotável de manchetes para jornais sensacionalistas cada vez que tirava o pé pra fora de casa.

Todos queriam (e conseguiram) uma foto de Amy esquálida, cheia de hematomas, com os cabelos desgrenhados, a maquiagem borrada, trançando as pernas ao sair de algum pub ou arrumando confusão com estranhos. E quando ser flagrada em desalinho e caindo pelas tabelas em público deixou de ser novidade, passou a render factoides por usar drogas em festas privadas, experimentar novas modalidades de trago (beber vodca pelos olhos foi uma delas) e ser presa por agredir fisicamente fãs e desconhecidos.

O vórtice de autodestruição era tamanho que até um site para especular o dia de sua morte foi criado, o When will Amy Winehouse die? (Quando é que Amy Winehouse vai morrer?).

No epicentro de tudo estava Blake Fielder-Civil, inspiração para a poesia sofrida que resultou em alguns dos maiores hits de Amy (Back to Black, Love Is a Losing Game, Tears Dry on Their Own) e responsável confesso por franquear sua entrada ao mundo das drogas pesadas. O divórcio, quando veio, abriu então a possibilidade de um reinício para Amy, com uma nova turnê e disco em fase de preparação.

Mas não foi suficiente. A excursão acabou abortada logo no primeiro show e ela voltou ao noticiário novamente pela razão errada, como uma artista incapaz de lutar contra seus vícios e retomar sua carreira. No sábado, quase um mês depois, ela voltou ao topo das páginas pelo pior motivo possível: uma morte melancólica e solitária.

Inverno: Bright Eyes

25 de julho de 2011 0

Com alguns dias de atraso, posto aqui o segundo texto do Quatro Estações. É o inverno. É o Bright Eyes.

Para ler os outros textos da série é só clicar aqui.

Conor Oberst, vocalista do Bright Eyes, no show de Berlim

Bright Eyes é uma banda que conseguiu evoluir da sonoridade crua e fria das angústias adolescentes de músicas como The Joy in Forgetting, The Joy in Acceptance e Lover I Don't Have to Love para um folk moderno focado em letras densas. The People's Key (2011), o último disco da banda, é como ficar adulto: Connor Oberst (vocalista e autor das letras) aprendeu camuflar os sentimentos, não se ouvem mais os gritos e nem toda raiva tristonha do início do Bright Eyes, mas os sentimentos seguem ali,  entretanto sofisticadamente mimetizados. E é ao vivo que todos eles vêm à tona.

Foi no único dia chuvoso e frio de Berlim em junho que eu vi o Bright Eyes ao vivo em uma noite de domingo. Não podia ser mais propício. Já tinha tido uma prévia do que poderia ser a banda ao vivo em 2008, quando a Conor tocou com a sua Mystic Valley band em Porto Alegre. Diferentemente de 2008, o palco era grande com um telão para projeções coloridas e disformes e um cenário que deixava tudo parecendo uma nave espacial.  No ginásio, não cabia mais ninguém. O telão começou a brilhar e todo o "sermão" sobre tempo e espaço na voz de Randy Brewer - músico do Texas convidado a fazer algumas intervenções faladas em The People's Key -  antes dos acordes de Firewall avisou que o show começava. No fim da música, Oberst fez a primeira das inúmeras interações com o público. Ele fez questão de contar que aquele era o segundo show do dia (eles tocaram em um dos maiores festivais da Alemanha na madrugada de domingo). O cansaço do qual ele tanto falava era imperceptível.

Durante as músicas mais agitadas, especialmente em Jejune Stars e Shell Games, o Bright Eyes se mostrou vibrante e arrancou palmas e pulos do ginásio lotado. Entre uma música e outra, Oberst fazia questão de falar sobre as letras. Ele, que se apresentou no comício do então candidato Barack Obama em 2008, pediu a saída dos Estados Unidos das guerras antes de tocar a apocalíptica Four Winds. O músico se dizia cansado, mas não parava de fazer perguntas ao público, corria de um lado para o outro, andava e se escondia entre os membros da banda (pelo menos dois deles, são amigos de infância de Oberst, como ele fez questão de comentar). Ao cantar e reinterpretar as suas letras biográficas ao vivo, fica evidente que aquilo é exatamente o que ele queria estar fazendo, coisa que não se vê em qualquer show por aí.

O setlist teve escolhas inesperadas, músicas antigas pouco conhecidas como The Calendar Hung Itself e Falling Out of Love at This Volume ganharam versões mais aceleradas e melancólicas em que as distorções eletrônicas foram trocadas pelo trompete de Nathaniel Walcott. No show, o Bright Eyes soou tão bem quanto nos discos, com a diferença de que, no palco, a banda tem alma, tem coração. As histórias sobre solidão, descontentamento, amores perdidos e culpa foram cantadas em coro.

Ao final das duas horas de apresentação,  depois de da  explosão desencantada de Road to Joy, ao som da piedosa One For You, One For Me, as luzes se apagaram e a voz de Brewer ecoou novamente no ginásio lotado. As palmas não pararam até que tudo se iluminasse para marcar que acabou, mesmo. Acabou e, no fim, o sentimento era mais do que o deixado por um simples bom show, era quase o do fim de uma libertadora sessão de terapia.

Assista Road to Joy e One For You, One For Me (a qualidade do som não é das melhores, mas vale pelo registro)

e uma versão limpinha de No One Would Riot For Less

Molejo é melhor que Beatles

23 de julho de 2011 15


E alguém aí duvida?

Uma nova musa geek

21 de julho de 2011 1

Noomi Rapace é daquelas atrizes que vêem para confundir. No primeiro frame, é uma baranga. Dois minutos depois, fica esquisita. Aí vira exótica, "de beleza enigmática". Quinze minutos depois, sua presença visceral arrebatou o espectador, que já não se importa com a plástica na telona. Quer é mais de Noomi, atriz sueca que destruiu bilheterias na Europa com os filmes da trilogia Millenium e que agora começa a dominar Hollywood como uma espécie de nova musa geek.

Só para contextualizar: a trilogia Millenium é um dos maiores fenômeno da literatura neste século. Seus três volumes _ Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, A Menina que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar _ venderam milhões de cópias e renderam milhões de dólares ao seu autor, Stieg Larsson (que morreu antes da publicação do primeiro livro...). A série, óbvio, virou filme, rodada na Suécia onde se passam as histórias. Nos três, Noomi interpreta Lisbeth Salander, anti-heroína hacker, punk e bissexual que se vê no meio de uma trama que envolve tráfico e exploração de mulheres na Europa gelada.

O sucesso foi tão grande que Hollywood tratou de comprar os direitos pra fazer um remake com atores norte-americanos _ o primeiro sai no final do ano, com Daniel Craig e a gracinha Rooney Mara na pele de Lisbeth, que vai precisar mastigar pregos para chegar ao nível de interpretação de Noomi. Uma dica: desista enquanto há tempo.

Cooptada pelos grandes estúdios, Noomi agora estreia no final do ano seu inglês de sotaque carregado ao lado de Robert Downey Jr. e Jude Law na continuação de Sherlock Holmes, A Game of Shadows. O blockbuster será só o primeiro da atriz, que já está filmando dois outros longas do mesmo alcance (embora ambientados em tempo/espaço distintos) e voltados para o mesmo público sedento por cultura pop.

Um deles é Prometheus, o aguardado prólogo de Alien - O Oitavo Passageiro (1979), dirigido pelo mesmo Ridley Scott e onde será protagonista ao lado de Michael Fassbender e Charlize Theron. O outro é The Last Voyage of the Demeter, longa de horror baseado num trecho do livro Drácula, de Bram Stocker _ no caso, o capítulo que narra a viagem do navio russo Demeter da Transilvânia até a Inglaterra transportando o caixão do Conde sugador de sangue. No elenco, Jude Law novamente e Ben Kingsley.

Ambos tem estreia prevista para 2012, mas já deixam claro uma coisa: Hollywood já elegeu sua nova estrangeira favorita.