
Final de semana de luxo para os fãs de quadrinhos em Porto Alegre. Joe Prado, um dos nomes brazucas de referência na indústria de HQs internacional, vem neste domingo à Capital falar sobre sua experiência no ramo, num bate-papo que rolará às 16h, na Livraria Cultura (Túlio de Rose, 80). A entrada é franca. Um dia antes, ele ministra uma oficina, cujas inscrições estão esgotadas.
O Remix falou por e-mail com o ilustrador a agenciador de talentos, cujo traço pode ser visto atualmente nas minisséries A Noite Mais Densa, que terminou no início deste ano, e O Dia Mais Claro, que começou a ser publicada em março, ambas reunindo o time de heróis da DC Comics.
Remix - Você trabalha com o mercado de quadrinhos dos EUA desde quando? Como foi sua entrada nele? Quais os principais personagens com que já trabalhou?
Joe Prado - Comecei meu trabalho como coordenador do estúdio Art&Comics em 2002. Depois de alguns anos cuidando do tráfico de trabalho entre nosso estúdio e as editoras americanas, os editores viram que eu entendia de desenho e me pediram para mandar algumas amostras de meu trabalho. Eles gostaram do que viram e continuei a fazer amostras por mais algum tempo. Quando em 2004, o desenhista e meu amigo, Ivan Reis sugeriu ao seu editor na revista Action Comics da DC Comics que eu poderia ajuda-lo em algumas páginas da edição que ele estava fazendo. Eles aceitaram, e gostaram do resultado. De lá para cá fiz bastante coisa. Entre os títulos estão Action Comics, Superman, Rann & Thanagar War, Birds of Prey, Red Sonja, The Phantom, Teen Titans, Green Lantern, The Warlord e mais recentemente Blackest Night e Brightest Day.
Remix - A última notícia que tenho é que você estaria argumentando histórias do Gavião Negro. Ser um argumentista é ainda bem raro para estrangeiros na indústria norte-americana. Como foi essa oportunidade e o que você pode adiantar sobre o que está escrevendo?
Prado - Na verdade, isso foi um mal-entendido. Não me tornei o roteirista oficial do Gavião Negro. O que aconteceu foi um convite para escrever e desenhar uma história-curta para uma edição especial da Liga da Justiça onde aparecem o Gavião Negro e Etrigan, O Demônio. Foi uma experiência bem recompensadora e diferente para mim. Não escrevia nada desde começo da década de 90, quando fazia fanzines. E poder trabalhar com dois dos meus personagens favoritos foi sensacional.
Remix - Além de trabalhar como ilustrador, você também é agenciador. Como é esse trabalho? O que é preciso, em linhas gerais, para se dar bem com quadrinhos no mercado estrangeiro?
Prado - Sim, como disse acima, comecei no estúdio Art&Comics, aonde ainda hoje faço o papel de coordenador de trabalhos, fazendo a ponte entre os artistas brasileiros e as editoras americanas. Também é um trabalho super-recompensador por eu poder ajudar artistas a conseguirem realizar seus sonhos e poderem trabalhar com personagens e editoras que admiram. O profissional hoje precisa ser muito dedicado e estar sempre crescendo como artista. Pesquisando, tentando novas técnicas, e estar antenado com o Mercado com o qual trabalha. Sem falar também nos prazos. Cumprir os prazos é um fator vital para as editoras. Alem disso, hoje se aprecia o fato do artista ser único e original, sem copiar estilos.
Remix - Ainda sobre o mercado internacional de quadrinhos, hoje se trabalha com gente do mundo todo graças as novas tecnologias. Dá pra dizer, então, que gigantes do setor mainstream, como Marvel e DC, não são mais empresas norte-americanas, e sim multinacionais?
Prado - Com certeza, hoje em dia, com as novas tecnologias e a acessibilidade as grandes editoras são sim grandes multinacionais, expandindo suas áreas de atuação. Quadrinhos hoje em dia geram um sem-número de produtos periféricos que alimentam outros mercados. video games, brinquedos, vestuário, DVDs, animação, download de aplicativos para celulares e tablets, etc.
Remix - O mercado de quadrinhos no Brasil é uma alternativa sólida para quem quer trabalhar na área ou é apenas uma plataforma de lançamento para o exterior? O que é preciso fazer, na sua opinião, para termos um mercado de quadrinhos nacional mais forte?
Prado - O mercado nacional está em franca expansão hoje em dia. É só ver o numero de publicações de quadrinhos nas livrarias. Agora competir com as revistas nas bancas é um outro assunto. Os quadrinhos mainstream são muito
mais baratos de se publicar, pois as editoras brasileiras já os compram prontos, pagando somente direitos e uma parcela da vendagem. Produzir algo mensalmente 100% Nacional eu ainda acho bem complicado, sem mencionar com alto custo. Agora, os artistas Brasileiros tem um mercado ativo aqui, que podem sim explorar. O artista de quadrinhos pode fazer ilustrações, trabalhar com publicidade, arquitetura, e muitas outras coisas. E com isso, se estabilizar para poder tentar publicar algo próprio.
Remix - Com tantos talentos brasileiros sendo exportados para fora, não seria o caso de editoras daqui segurarem essa gente e fortalecer _ ou criar _ uma indústria de quadrinhos nacional? Conseguiríamos, de algum modo, competir com os gringos?
Prado - Para mim, esta pergunta tem tudo a ver com o que citei acima. Depende 100% das editoras nacionais apostarem nos artistas. O que vem acontecendo com edições mais luxuosas e de sucesso como Cachalote de Rafael Coutinho,
Bando de Dois de Danilo Beyruth e as muitos publicações dos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá.
Remix - O seu trabalho, até onde sei, é bem focado nos quadrinhos mainstream. É possível ter personalidade, manter seu traço característico, dentro dessa indústria? Até onde, na sua opinião, o artista deve se submeter para ter seu nome impresso num gibi da Marvel ou DC?
Prado - Com certeza é possível ter personalidade no seu trabalho quando se está na indústria mainstream. Como disse no começo, o artista hoje é valorizado pela sua originalidade. É claro que sempre haverão aqueles que são influenciados pelos trabalhos de seus ídolos e pela "moda". O artista é um ser criativo, e sujeito às mais diferentes influências, então é normal vermos sempre artistas que tem um ou outro detalhe cunhados nos estilos de seus ídolos. O que atrapalharia sim, seria o artista querer ser uma cópia de outro artista, pois iria bater de frente com o que já disse sobre ser original e "único", hoje em dia.
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