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Posts de novembro 2011

Porque rock é coisa de criança

28 de novembro de 2011 0

A Miniband vocês já conhecem:

Agora, pintou a Unavailable. Saca a pegada da molecada:

O mais velho é o baixista, com 15 anos e jeitão de Joey Ramone. O mais novo é o vocalista, Ryan Watson, 10 anos e moicano que certamente não foi inspirado em algum boleiro mercenário.

Dá vontade de ter uma meia dúzia de filhos só pra incentivar eles a montarem uma parada dessas e depois dizer, orgulhoso, "tudo filho meu! tudo filho meu!".

MAS

Não dá pra ignorar que, por razões que só a razão conhece, o time vire isso aqui:

O que escutava o Pavement

25 de novembro de 2011 0

Pavement se apresentando no Coachella 2010


Em 2010 o Pavement fez uma turnê de retorno. Dei um jeito de ir no Planeta Terra daquele ano pra ver o show dos caras. Foi o melhor da noite, deixou o Billy Corgan borrado pra fazer um show mediano na sequência.

O Stephen Malkmus vai tocar com a banda dele, os Jicks, no festival Le Guess Who?, em Utrecht, na Holanda. A produção pediu pra ele uma playlist, ele entregou a lista com os sons que rolavam antes de o Pavement subir ao palco na tour do ano passado.

Rola até a trilha brasileira da antiga série de TV do Batman.

Enfim, leitores headbangers do meu colega Gustavo Brigatti, escutem por sua conta e risco.


Resenha de livro da quarta: "O Barulho em Minha Cabeça Te Incomoda?", Steven Tyler

23 de novembro de 2011 2


Fosse Steven Tyler outra pessoa que não Steven Tyler, O Barulho em Minha Cabeça Te Incomoda? teria 250 páginas e não 500. Mas essa é a autobiografia do líder do Aerosmith e ele a escreveu da mesma maneira como escreve a maioria de suas letras, quer dizer, um jorro suficientemente grosso de palavras (reais ou criadas por ele...) capaz de formar uma parede de texto cujo sentido, a mensagem, a ideia básica que seja, precisa ser encontrada nas entrelinhas à base de marretada. Esse é um dos "problemas" a serem considerados.

O outro é uma dúvida constante em biografias de velhos astros do rock: se aquilo que o sujeito está contando aconteceu mesmo, se é um simples exagero ou não passa de fruto duma mente fertilizada por décadas de psicotrópicos. E não estou falando de estripulias sexuais, mas sim de fatos envolvendo pessoas e lugares reais. Mesmo que seja bacana e romântico o "entre a verdade e a lenda, publique-se a lenda", eu gosto de, às vezes, não ter a sensação de estar sendo enganado. Já tenho bastante disso quando vou ao supermercado, enfim...

Ou seja, relevando o texto em algum nível incompreensível e a veracidade do que está escrito, digo que o livro é bem interessante. Tyler é tão ligado ao Aerosmith que fica difícil (quando não impossível) separar a trajetória de ambos, fazendo de O Barulho... uma espécie de relato da formação de um supergrupo de rock. Estão lá os perrengues para pagar o aluguel do quarto-sala que o grupo dividia em Boston no início da carreira, o primeiro sucesso (Dream On) e contrato com uma gravadora, os sonhos adolescentes sendo destruídos pela realidade, os bastidores da vida na estrada, drogas, namoradas e ego em excesso, os primeiros shows em botecos para meia dúzia de bêbados passando para dezenas de milhares de pessoas em estádios, entradas e saídas de clínicas de reabilitação, processos de composição e gravação, a magia da música que só o encontro das pessoas certas pode resultar...

Da parte "solo", as melhores são os trechos que dedica a relação de amor e ódio que mantém com Joe Perry, assumidamente sua contraparte, parceiro, irmão e amigo. Além da pequena aula sobre como ele, Steven, constrói suas letras em cima de uma capacidade sobrehumana de rimar qualquer coisa o tempo todo.

Outra: Tyler pode ser um tresloucado assumido, mas dá nomes aos bois sempre que possível _ ou quando seus advogados liberam. Ex-namoradas e ex-mulheres, atuais e antigos colegas de banda, familiares, empresários, agentes, roadies, motoristas, médicos, outros artistas, fãs, jornalistas, todo mundo que já passou pela vida do cantor divide um pouco da conta por suas dores e alegrias. Mas é inegável que ele é quem paga a maior parte.

Em momento algum o bocudão deixa de se considerar o gênio por trás da máquina de sucessos que é o Aerosmith, desde a composições das letras, arranjos das músicas, os figurinos, cenário das turnês e tudo mais. Mas também admite que é um viciado em drogas incorrigível, maníaco controlador e obcecado pela vida de rockstar que o impede de, muitas vezes, agir como o adulto sexagenário que é. Às vezes soa engraçado, às vezes, triste. Como em tudo na vida.

O avanço dos coxinhas

22 de novembro de 2011 10

Publicado originalmente no Segundo Caderno do dia 21 de novembro.

Recentemente, o site do The Guardian causou certa polêmica ao criticar a queridinha e best seller Adele cunhando o termo New Boring. Numa tradução livre, o jornal inglês chamou a cantora _ e alguns outros _ de coxinha, uma nomenclatura popular por aqui para se referir a artistas que não representam nenhum tipo de "perigo" _ a não ser o de estragar qualquer tentativa de renovação, inclusive fora da música.

A exemplo da intérprete de Rolling in the Deep, a turma dos coxinhas não se arrisca musical ou esteticamente, procurando sempre agradar o máximo de audiência possível. Como dá resultado _ 21, o disco mais recente de Adele, foi lançado em fevereiro e vendeu até agora mais de 2,5 milhões de cópias _, ocorre uma consequente homogenização das paradas de sucesso. Quem tencionava fazer algo diferente, pensa duas vezes antes de se arriscar num projeto de repercussão duvidosa.

No Brasil, diferente do que ocorre nos mercados que criam os grandes fenômenos do pop mundial, os coxinhas não estão no mainstream, hoje dominado por sertanejos, cantoras de um tema só e padres. Eles estão numa espécie de divisão de acesso, lutando para ter um pouco de projeção e engatar uma carreira minimamente segura. Para isso, não fazem nenhum movimento que possa desagradar a audiência e impedir sua ascensão à Série A da música brasileira.

Fulmegando nesse tacho de óleo está, por exemplo, o paulistano Marcelo Jeneci. Músico de apoio da cantora Vanessa da Mata, ganhou notoriedade ao compor o hit Amado, que na voz dela virou tema de novela em 2009 e lhe rendeu o apoio de figurões como Arnaldo Antunes e Zélia Duncan. No final de 2010, lançou o disco Feito Para Acabar, que ganhou resenhas positivas em quase todos os grandes jornais e veículos especializados.

Jeneci ainda não é uma estrela ainda, mas persegue o sucesso calcado na excelência da produção e mistura conservadora (para não dizer aguada) de gêneros aliado a um bom tino comercial. Nessa mesma linha estão nomes que começaram a ficar em evidência após a primeira metade dos anos 2000, como Tiê, Nina Becker, A Banda Mais Bonita da Cidade, Tulipa Ruiz e Thiago Pethit. Todos se valem do modelo "canto afinado + letras fofas + bom-mocismo", perfeitos para tocar no rádio e agradar tanto a vovó saudosista quanto o netinho hipster.

A representante de maior sucesso dessa turma talvez seja Maria Gadú, que bebendo das mesmas fontes e com igual atitude de reverência ao passado, vendeu mais de 160 mil cópias de seu primeiro disco ao vivo, em 2010. E tal qual seus colegas, só pegou o que era conveniente de suas influências para manter-se presente no sem número de trilhas de novelas que participa.
Da MPB, por exemplo, pegam o apreço pela canção, mas nada da postura combativa que ajudou a popularizar o gênero. Da bossa nova só apreciaram os devaneios poéticos, esquecendo de sua revolução estilística. O samba, que traduziu com exatidão a dureza da vida no morro, foi relegado a um gingado alegre, síntese do ritmo do povo cordial. E quase nada da visceralidade da chanson de que eles tanto gostam é ouvida _ com exceção do cantar em francês, claro.

E como menos parece ser mais, eles cativam um público fiel que os apoia não apenas indo aos shows e comprando os discos, mas também bancando seus trabalhos. A Banda Mais Bonita da Cidade, que depois do hit de internet Oração _ que resume com perfeição o espírito coxinha, aliás _, conseguiu dinheiro dos fãs para custear a produção do primeiro disco, disponível agora para download gratuito em seu site oficial.

Jeneci e Tiê são outros que apostam na mão aberta dos ouvintes. Ambos recorreram a sistemas de crowdfunding para viabilizar suas próximas turnês. Nada a estranhar, afinal, coxinhas não se fritam sozinhas.

IDENTIFIQUE UM COXINHA

O MUNDO É UM BRECHÓ
Referências a um passado quase nunca vivido pelos artistas – mas sempre lembrado com saudade – são feitas nas letras, vídeos, roupas e até nos instrumentos tocados. Referência: TULIPA RUIZ.

VIA WEB
O sucesso via de regra começa no boca a boca pela internet, nas redes sociais. Dali os coxinhas se espalham em som e imagem, acumulando números que quase sempre precedem sua fama. Referência: A BANDA MAIS BONITA DA CIDADE.

FRANCOFILIA
A França parece ser um norte para essa turma, que não raro insere composições em francês em seus discos e cita constantemente artistas franceses como referência. Letras em inglês também aparecem. Referência: TIÊ.

VIDA EM INSTAGRAM
Parece regra: fotos de divulgação e videoclipes precisam de filtros de imagem para ganharem ares “vintage” ou “retrô”, como se retirados do baú da vovó. Referência: MARCELO JENECI.

FAÇA AMOR, NÃO FAÇA GUERRA
O conteúdo das letras nunca jamais sequer passar perto de qualquer tipo de crítica social ou política. O lance deles é poetizar as dores do coração. E olhe lá. Referência: THIAGO PETHIT.

SIGNO: VIRGEM
Palavrões e menções a sexo de maneira mais explícita também estão fora. O amor dos coxinhas é platônico, quase assexuado. Sua reprodução segue sendo um mistério, portanto. Referência: MARCELO JENECI (ele, de novo).

Resenha de show da quinta: Down em Porto Alegre

17 de novembro de 2011 8

Se tem uma coisa que não precisa de explicação pra fazer sentido pra mim, essa coisa é música. A primeira vez que notei isso foi num show do Arcade Fire, em 2005, no Tim Festival. Não conhecia a banda, mas lá pela metade do show já estava desidratado de tanto chorar. Emoção, caras, pura e simples emoção. O mesmo rolou ontem no show do Down, no Pepsi On Stage.

Não, eu não chorei pro Phil Anselmo, mas a situação era a mesma. Não conhecia o som da banda, mas acreditava piamente nas indicações dos bróders de que aquela seria uma baita noite. Relatos empolgados sobre a apresentação da banda no SWU misturavam reverência com sangue escorrendo da testa do vocalista malencarado. Então eu fui.

Antes, rolou uma hora da banda do Duff McKagan, mais conhecido como ex-baixista do Guns n'Roses. Vou resumir o show da Loaded assim: quando tocou So Fine, da antiga turma, luzes rosas se acenderam. Sacaram? Legenda: luzes ROSAS para uma música do Guns n' ROSES. Sem mais.

Trinta minutos pra troca de palco e o Anselmo aparece enrolado com uma bandeira do RS. Que figura esse Felipe, viu? Nunca vi um frontman tão empolgado pelo simples fato de estar tocando. A impressão era que se tivesse metade das 500 pessoas que estavam ontem no Pepsi On Stage o tesão do cara seria o mesmo. Ainda com o talho que abriu na testa durante o show no SWU cicatrizando, ficou o tempo todo puxando a massa, aplaudindo, socializando, zoando os próprios músicos, fazendo "joinha", não perdendo o bom humor nem quando a plateia pediu por Pantera. Deu vontade de voltar no tempo praquele show patético do Oasis no Gigantinho, grudar os Gallahger pelo pescoço e dizer "OLHA COMO FAZ! OLHA!".

Como eu disse, não conhecia nada do Down, mas foi impossível ficar indiferente. Sem saber nenhuma música, estava eu lá batendo cabeça como se 15 anos tivesse, feliz e excitado só de sentir o baixo e o bumbo batendo no peito, as guitarras serrando os tímpanos e aquele monstro do Anselmo comandando a massa como se fosse um general orc urrando em direção à última resistência humana em Minas Tirith. Meu pescoço vai precisar de uma semana para se recuperar, e mais não preciso dizer.

A falta de equalização dos instrumentos acabou compensada pela empolgação da banda e público, em nítida sintonia, abrindo rodas, socando o ar, cantando junto, saltando e chacoalhando cabeças. Nítida e íntima, já que o que voo de sutiãs pro palco foi uma coisa impressionante. Sobrou até pro batera, que botou uma das peças e seguiu tocando, travestido, até o final. Uma fã também subiu pra ter o braço autografado _ deve virar tattoo _ e tirar fotos, sem, no entanto, atender aos pedidos do público de "tira! tira! tira!" para outras coisas. Acontece, não dá pra ganhar todas.

No final, músicos do Loaded _ sem Duff _, roadies e sabe-se-lá-quem-mais entraram palco para tocar, ao mesmo tempo que uma espécie de dominatrix, vestindo máscara de gás!, ficava batendo em todo mundo com um chicotinho de couro. Pra mim, já entrou na categoria de show do ano que todo mundo deveria ter visto.

Ellen Jabour OU Enterrem meu coração na curva do rock

17 de novembro de 2011 13

Bandas de rock, a priori, sempre foram montadas por perdedores. Eram (são) a última opção para que sujeitos sem traquejo social, habilidades de relacionamento ou mesmo capacidade motora, se dessem bem na vida. E  em "se dar bem na vida" leia-se ganhar dinheiro, conseguir drogas e, claro, sair com belas mulheres.

O problema é que, com o tempo, o rock deixou de dar dinheiro. As drogas também ficaram mais difíceis. Pelo menos as garotas continuaram a existir nessa mitologia. É só ler qualquer autobiografia de astro de rock  para sacar que eles só se viram como tais quando havia mulheres nuas em seus camarins. É isso que te faz um rockstar, certo?

Mas e quando um sujeito como o Pe Lanza, vocalista do Restart, aparece dando uns malhos numa garota do quilate da Ellen Jabour? Pois foi o que aconteceu no início da semana, durante a última noite do SWU. E aí, meu bruxo? Você começa a chamar o que ele faz de rock? Você passa a respeitar ele ou pelo menos considerar que suas calças justas e coloridas tenham lá seu valor? Quem sabe fazer um penteado igual ao dele?

Por que raciocina comigo: Pe Lanza, em último caso, está numa banda. Ao dar uns pegas no Pe Lanza, Ellen o alçou a uma categoria onde 99,99% dos homens gostaria de estar. A categoria dos losers que, por se tornarem músicos (ou algo assim...), ganharam a oportunidade de se dar bem com mulheres bonitas e gostosas. E serem obviamente invejados pelo restante da matilha.

O problema é COMO invejar o Pe Lanza? Como QUERER ser o Pe Lanza? Sem querer, Ellen ajudou a destruir um dos últimos baluartes do rock. Agora, não resta mais nada.

Resenha de show da quarta: Kyuss Lives, em São Paulo

16 de novembro de 2011 1

Por Janaina Azevedo

Imagino eu que deva ser muito bom subir no palco com a tua banda após 16 anos de recesso, sem uma única música recente, e ver uma casa lotada de fãs com o sangue na garganta, se contorcendo no pogo ou paralisados na emoção e na nostalgia.

Domingo agora foi isso mesmo que o Kyuss Lives viu de cima do palco do Carioca Club. O set list não mudou muito desde o início dessa turnê que tá levando os quatro (sendo o Bruno Fevery  substituto do Josh Homme) de volta aos shows ao vivo. Parece ritual, pra marcar o retorno e deixar comprovado que eles continuam sendo os melhores no que inventaram. Só quem esteve lá poderá ser capaz de dimensionar a força que tem, na prática, o tão difuso stoner metal.

Algo que misturasse peso com psicodelia não poderia provocar algo diferente nas pessoas. Eu vi gente chorando, headbangers malvados se abraçando, cantando todo o repertório palavra por palavra, segurando o queixo de não acreditar. Brant Bjork toca de bandana e faz as mais variadas caretas pra dar vazão ao ódio com que esmurra aquelas peles. Nick Oliveri pode ter cara de craqueiro, mas foi vendo ele tocar que eu realmente entendi o que é um GRAVE. Bruno Fevery tá ali pra cumprir um papel, e o faz direitinho, quase sem aparecer por baixo do cabelo. E o John Garcia, cantando com os olhos vidrados no teto, poderia tranquilamente liderar uma rebelião.

Isso tudo sem inventar (algumas músicas ganharam umas frases diferentes, umas improvisações, nada de muito inesperado),  e, atentem, sem falar um Oi ao público, só com a vontade de tocar e um punhado de clássicos desse "nicho". E claro, a guitarra assustadora de tão psicodélica, por cima da cozinha de dois homens sem nada no coração. No meu conjunto de conceitos, isso consta ao lado do verbete A Banda Perfeita.

Preciso me desculpar por não conseguir descrever tão bem o show do Kyuss Lives. Ninguém nunca estará preparado para assistir a banda preferida, ainda mais compreendendo que essa possibilidade era quase zero, e dificilmente se repetirá. Imagino eu que deva ser muito bom voltar pro deserto consciente de que deixou as pessoas sem palavras. Olhem o que o Josh Homme tá perdendo. Foi algo de sentir literalmente no coração: as notas do baixo reverberavam no piso de madeira, tremiam o corpo inteiro, e dava pra perceber o ritmo pela batida no peito.

Entrevistão: Pearl Jam

14 de novembro de 2011 2

Eis a íntegra da entrevista que o Jeff Ament, baixista do Pearl Jam, me concedeu horas antes do show que a banda dele fez no Zequinha.

Jeff Ament dá autógrafos durante passagem do Pearl Jam por Porto Alegre

O Pearl Jam fez um show histórico na última sexta-feira (11), no Estádio Passo D'Areia, em Porto Alegre. Duas horas antes de a banda subir ao palco, o baixista Jeff Ament concedeu uma entrevista exclusiva a Zero Hora em uma pequena sala montada no estádio que abriga o Sport Club São José. .

Jeff Ament não é apenas o baixista do Pearl Jam. Depois de tocar no Green River, no Mother Love Bone e no Temple of the Dog - três bandas responsáveis por grande parte do que viria a ser chamado de grunge - ele fundou o Pearl Jam, ao lado dos guitarristas Stone Gossard e Mike McCready. Eddie Vedder veio em seguida, e desde então, o quarteto se manteve unido. Quando Ament disse que a banda está em sua melhor forma - nos bastidores do que viria a ser um show de rock antológico - tivemos de acreditar.
A última passagem de vocês pelo Brasil foi em 2005. O que lhe pareceu ter mudado no país?
O lugar onde eu mais percebi diferença foi o Rio de Janeiro. A infraestrutura da cidade me pareceu melhor, a cidade pareceu mais limpa, parecem estar consertando as coisas. Certamente tem a ver com as Olimpíadas. E com a economia que todos sabem estar indo muito bem. Na última vez, fomos andar de skate em alguns parques e pistas e o clima foi meio grosseiro.
Tendo feito parte de bandas que criaram o que viria a ser chamado de grunge, você se sente de certa forma responsável pela dimensão que o gênero tomou?
Você sabe, quando eu penso no Green River, no Mother Love Bone, a gente estava apenas fazendo música a partir do que a gente gostava. Todo tipo de coisa: Black Sabbath (mal sabia Jeff que a banda oficializara sua volta horas antes) , Metallica, Iggy Pop, o que fosse. Éramos caras diferentes, ouvindo coisas diferentes, e ninguém sabia tocar muito bem. Nós sempre quisemos ser uma banda pesada, mas não uma banda de metal.
O baixo não costuma ser o primeiro instrumento em que um adolescente se interessa. Como você chegou até ele?
Foi meio por acaso. Eu estava na faculdade, ouvindo Black Flag. Um cara passou por mim, ouviu e falou, "Sabe, eu vi o Black Flag ao vivo neste verão". E isso em Montana, onde ninguém imaginava o que era punk rock no início dos anos 1980. Ele era de Los Angeles, a gente resolveu formar uma banda. Eu disse que só sabia tocar um pouco de piano. Ele disse que tinha um baixo. Eu tinha uma guitarra, porque tinha feito umas aulas no high school (equivalente ao Ensino Médio). Ele sabia tocar os dois instrumentos, e ele acabou com a guitarra. Nós aprendemos a tocar umas dez músicas e foi isso, eu já estava viciado naquilo. A gente formou uma banda e precisava aprender a compor.
O que é preciso para ser um bom músico?
Você precisa ser um grande ouvinte. As melhores pessoas com quem já toquei sabiam ouvir muito bem. Matt Cameron (baterista do Pearl Jam), um dos melhores músicos-ouvintes com quem já toquei, você pode tocar muito alto e se ele ver você fazendo um floreio, na próxima vez que você tocar com ele, ele vai saber o que fazer quando chegar a hora do floreio.
Isto é parte do prazer em tocar. São os pequenos detalhes que surgem em certos momentos de improvisação durante os shows. Isso é o melhor de estar em uma banda _ é um pouco como estar em uma relação: você não quer ser a pessoa que fala o tempo todo, você quer ouvir e encontrar os espaços em que mais pode contribuir.
Houve um período em que o Pearl Jam trocou de baterista algumas vezes e lançou alguns discos mais experimentais _ Vitalogy, No Code e Yield. O que você acha desses discos hoje em dia?
Acho que, fora as quatro ou cinco músicas mais estranhas de Vitalogy, ele é um disco bem direto de rock. Eu não gosto de ouvir para essas partes mais estranhas, mas acho que foram muito importantes naquele momento para mostrar para as pessoas que nós não seríamos apenas uma banda de rock direto, que haveria momentos em que nós soaríamos estranhos e experimentais. E desde então, sempre que compomos um disco, há três ou quatro músicas que passam por terrenos em que não havíamos pisado antes. Isso é uma das melhores partes. É excitante e muitas vezes saem daí as grandes músicas.
Vocês estão finalizando o próximo disco? Como ele está saindo?
Me parece que chegamos a uma versão melhor desenvolvida de nosso disco anterior. Nós trabalhamos com Brendan (O'Brien, que tem produzido discos do Pearl Jam desde Vs., de 1993), e ele desenvolveu um estilo único de gravar e arranjar. Nós entendemos isso cada vez melhor, então chegamos com ideias mais completas, então será mais maduro que Backspacer. Nós temos a primeira metade do disco pronta. Temos cinco ou seis músicas muito boas prontas. A segunda metade deve ser mais experimental, tentaremos algumas coisas diferentes, mas o tempo dirá. Olé (lançada com PJ20) é uma canção à parte dentro do que temos prontos, porque é direta, mas tem umas partes estranhas.
O processo de gravar é como uma repetição de algo que vocês fizeram uma dezena de vezes ou ele mudou ao longo dos anos?
É mais ou menos parecido. Nós nos vemos como uma banda ao vivo, dentro do estúdio, na maior parte do tempo. Nós queremos ser uma banda que realmente toca juntos, então é sempre importante pra a gente estar juntos no estúdio, se comunicar, decidir juntos como uma música deve soar.
Quando o Pearl Jam parou de gravar clipes, você disse que não queria que a banda fosse lembrada pelos vídeos, e sim pela música. Vocês lançaram o documentário PJ20 com uma grande retrospectiva em vídeo, dirigida pelo Cameron Crowe. O que você esperava desse DVD?
A ideia surgiu dez anos atrás. Kelly (Curtis, agente da banda) falou, "No aniversário de 20 anos, vamos fazer um vídeo". Voltamos a falar disso há uns três anos e, para ser sincero, eu fui contra, eu não queria fazer. Mas começaram a falar, "Olha, nós temos muito material filmado que vai acabar em lugar nenhum". E eu entendia essa ideia de "limpar a prateleira". Quando eu fiz meu disco solo, Tone (2006), foi nesse espírito. Então fazer o filme teve esse sentido, de se livrar da bagagem para poder ir adiante. Está feito.
E você gostou?
Quer saber? Acho que como uma peça de arte, ficou muito bom. Eu me senti desconfortável me vendo, vendo a gente. E ver as filmagens de Roskilde (festival dinamarquês, cuja edição de 2000 foi marcada pela tragédia que deixou nove mortos sufocados pela multidão no show do Pearl Jam), e ver imagens de Andy (Andrew Wood, parceiro de Ament no Green River e no Mother Love Bone, morto por overdose de heroína em 1990), essas coisas te atingem com muita força. Cada um tem sua maneira de se manter em contato com essas coisas. Eu tenho memórias visuais muito fortes das pessoas que foram prensadas contra a barreira de contenção naquela noite, eu vejo seus rostos. Mas ver a filmagem daquilo é muito difícil.
Mas você sabe, meus amigos do Mudhoney fizeram um vídeo parecido, e eu assisti com eles, com minha esposa. E vendo o vídeo deles e o que eles passaram nos últimos 20 anos, me fez sentir melhor e pensas, "Bem, nós não somos os únicos, tem esses outros amigos que passaram pelos seus próprios traumas e turbulências". Eu me sinto melhor agora. Não sei por que razão, é estranho.
E tem outras momentos muito bons, que os fãs poderão ver para sempre...
Sim, eu acho inclusive que tem muitas imagens nos extras que são até melhores que o filme em si. Prefiro apenas nos ver tocando.
Vocês começaram tocando embebidos no espírito niilista do punk rock, e acabaram tornando-se embaixadores do rock. Você imaginava isso acontecendo?
É interessante. As coisas que eram importantes para a gente quando começamos a tocar _ muito disso era respeitar as pessoas ao seu redor, respeitar quem ajuda o show a acontecer, a banda de abertura _ esse etos do punk rock ainda é ainda uma parte tão grande do que somos. Somos amigos da nossa equipe, fazemos turnês com pessoas que respeitamos muito. Não se comportar como um rock star. É quase hippie, pode parecer anti-punk. E tudo é possível. Você pode mudar o mundo, mesmo que um pouquinho, por meio da música. E o punk rock sempre se tratou disso.
A música acabou se tornando um produto que se difunde tão facilmente, mas que ao mesmo tempo parece ter um impacto menor do que tinha antigamente. Você ainda acredita que ela possa estar à frente de alguma mudança social ou política?
Eu acho que pode, sim, mais do que nunca. A internet fez a música perder um pouco da mágica, mas ao mesmo tempo, se alguém está fazendo algo incrível, se alguém tem uma grande voz, se é articulado e fala com vistas à mudança, não há momento melhor para que essa mensagem se espalhe. É o que está acontecendo no Egito, na Líbia, tem tando acontecendo nesses lugares. O que está acontecendo em Wall Street, por que não?
E é assustador, ao mesmo tempo, porque um iPhone pode captar tantas coisas verdadeiras e mostrar ao mundo. Mas a tecnologia também pode ser usada para disseminar mentiras.
E como mudou a maneira que vocês enxergam o mundo?
Eu cresci no meio do nada, tenho quase 50 anos, cresci na era pré-tecnológica. Porto Alegre, Brasil, eu não sabia nada sobre esses lugares. Dois dias atrás, sabendo que eu vinha à Porto Alegre, fiz uma busca por "Porto Alegre skatepark", e apareceram montes de pistas e parques, e esses vídeos de YouTube com skatistas. Eu acabei encontrando um dos caras. Isso é a internet. É incrível, mas também acaba um pouco com o mistério do mundo. Quando eu era criança, ocasionalmente meu pai pegava o carro e nos levava para lugares como a Disney. E nós não tínhamos dinheiro, então acampávamos. Mas era incrível acordar de manhã e estar na Califórnia. E depois voltávamos para casa e levaria mais três anos para viajarmos novamente. Então sempre existia aquela mágica na sua cabeça, do tipo, "Califórnia, uou". E não sei se isso existe hoje em dia. Eu tinha minhas revistas de música e de skate, e eram minha conexão com o mundo.
E se tivesse que escolher entre mp3 ou vinil?
Vinil, sem nem pensar. Mas o bom do mp3 é poder gravar alguma coisa no meu estúdio e, num estalar de dedos, isso ter se espalhado. Mas no vinil, você presta mais atenção aos detalhes, você examina a capa, tem que esperar para virar o lado.
E a banda ainda se dá bem?
Melhor do que nunca. Existe pressão para que sejamos uma grande banda, para que toquemos bem. Mas as demais pressões, a gente não as sente. Quando você é jovem, você não entende, todo mundo tem mais ego e não entende de onde esse ego vem. Você quer se sentir mais importante que as outras pessoas. Não nos preocupamos mais ocm isso. Eu só quero escrever boas músicas, fazer bons shows e dar umas boas risadas. Nesse sentido, estamos em nossa melhor forma.
Existe algum lugar em que vocês não tocaram e gostariam de visitar?
Eu queria tocar em algum lugar da África. Já fui para lá algumas vezes. Adoraria tocar no norte, amo Mali, Marrocos, Egito _ se bem que é bom não ir para lá por um tempo. Espero que façamos isso. É nossa segunda vez no Brasil, então ainda nos sentimos muito empolgados de tocar aqui.

Lana Del Rey posta à prova

08 de novembro de 2011 1

Aconteceu no final da semana passada, em Manchester, o primeiro show pós-hype da nova-iorquina Lana Del Rey.

Pós-hype porque quem leu a matéria que saiu na Zero Hora semanas atrás sabe que a garota tá na batalha faz uns anos.

Ontem mesmo eu tava lembrando da Lana Del Rey e me perguntando, "será que essa mulher vai sumir antes mesmo de mostrar serviço?". Eis que surgem os primeiros vídeos da apresentação no Ruby Lounge e, deixando de lado toda desconfiança acerca da legitimidade da garota - e o fato de que ela deixou o ultracool Brooklyn pra começar sua escalada, digo, carreira na Inglaterra -, até que ela canta bem.

Agora quero ver manter essa rouquidão sexy depois de um ano fazendo turnê sem parar. No cover de Blue Jeans ela já dá umas vaciladas.

E quero ver o público segurar mais de uma hora de show nessa pilha "alucinação no deserto californiano".


Quem é esse cara?
Me chamo Fernando Corrêa, me tornei repórter de ZH recentemente. De hoje em diante passarei a postar aqui no Remix, para dividir apreciadores e detratores com o Gustavo Brigatti. Segue o baile.

Comentário da terça: "Beavis and Butt-Head", nova temporada

08 de novembro de 2011 3


Nunca fui um grande fã de Beavis and Butt-Head quando eles surgiram, no início dos anos 1990. Mas talvez só porque não havia parabólica em casa, equipamento necessário para sintonizar a MTV. Assistindo aos primeiros capítulos da nova temporada _ e sabendo de antemão que o tom do programa não mudara uma vírgula _, tenho certeza de que eu teria pequenos espasmos de tanto rir se tivesse entre 10 e 14 anos _ minha idade quando a série foi ao ar originalmente.

Só que hoje não consegui assistir a mais do que 10 minutos do show. Não que as piadas tenham ficado sem graça ou que meu senso de humor refinou-se ao extremo. É só que B&BH realmente parece ser feito para uma audiência entre 10 e 14 anos. As situações vividas pela dupla continuam a oscilar entre a idiotice completa e a ingenuidade, o traço é o mesmo, a dublagem também, mas pra mim não bateu.

E ao mesmo tempo que fico feliz _ não tenho mais 14 anos, oba! _, também noto um derradeiro sinal dos tempos. Se nos anos 1990 Beavis e Butt-Head zuavam clipes de rock _ especialmente as bandas de Seattle _, hoje o alvo são vídeos de música eletro-qualquer-coisa e trechos de reality shows. Entendam que 14 anos depois do último episódio da série clássica eles não mudaram o canal da TV, ou seja, continuam a assistir a MTV _ que, como sabemos, mudou como nunca para acompanhar sua audiência. E quem assistia a MTV há 15, 20 anos atrás provavelmente não dá mais bola para o canal hoje.

Ou seja, Beavis e Butt-Head não são mais os adolescentes de duas décadas atrás. Eles são os adolescente de agora, que não têm mais acesso a uma programação, digamos, rocker. Quem liga a MTV hoje encontra exatamente o que B&BH estão assistindo, que é o que tem espaço também no rádio e nas listas de mais vendidos no mundo todo. É o pop farelento da Katy Perry, o eletro do LMFAO, a chatice do MGMT, além de reality shows na linha de Jersey Shore, Grávida aos 16 e outros.

Claro, nada disso é novidade. Faz um tempo que quem quer ver clipes ou se inteirar de novidades fora do mainstream não recorre mais a MTV _ e esta é uma das razões mais fortes da mudança de postura da emissora, aliás. Mas é inegável que o canal, em qualquer parte do mundo, ainda possui o seu valor dentro da cultura pop. Pode não ter mais a capacidade de formar como antes, mas ampliou o alcance de deformar.

Beavis e Butt-Head, sentados no seu velho sofá esfarrapado, mantiveram intacta sua capacidade de rir de tudo isso. Eu, longe dos meus 14 anos, não mais.