Eis a íntegra da entrevista que o Jeff Ament, baixista do Pearl Jam, me concedeu horas antes do show que a banda dele fez no Zequinha.
O Pearl Jam fez um show histórico na última sexta-feira (11), no Estádio Passo D'Areia, em Porto Alegre. Duas horas antes de a banda subir ao palco, o baixista Jeff Ament concedeu uma entrevista exclusiva a Zero Hora em uma pequena sala montada no estádio que abriga o Sport Club São José. .
Jeff Ament não é apenas o baixista do Pearl Jam. Depois de tocar no Green River, no Mother Love Bone e no Temple of the Dog - três bandas responsáveis por grande parte do que viria a ser chamado de grunge - ele fundou o Pearl Jam, ao lado dos guitarristas Stone Gossard e Mike McCready. Eddie Vedder veio em seguida, e desde então, o quarteto se manteve unido. Quando Ament disse que a banda está em sua melhor forma - nos bastidores do que viria a ser um show de rock antológico - tivemos de acreditar.
A última passagem de vocês pelo Brasil foi em 2005. O que lhe pareceu ter mudado no país?
O lugar onde eu mais percebi diferença foi o Rio de Janeiro. A infraestrutura da cidade me pareceu melhor, a cidade pareceu mais limpa, parecem estar consertando as coisas. Certamente tem a ver com as Olimpíadas. E com a economia que todos sabem estar indo muito bem. Na última vez, fomos andar de skate em alguns parques e pistas e o clima foi meio grosseiro.
Tendo feito parte de bandas que criaram o que viria a ser chamado de grunge, você se sente de certa forma responsável pela dimensão que o gênero tomou?
Você sabe, quando eu penso no Green River, no Mother Love Bone, a gente estava apenas fazendo música a partir do que a gente gostava. Todo tipo de coisa: Black Sabbath (mal sabia Jeff que a banda oficializara sua volta horas antes) , Metallica, Iggy Pop, o que fosse. Éramos caras diferentes, ouvindo coisas diferentes, e ninguém sabia tocar muito bem. Nós sempre quisemos ser uma banda pesada, mas não uma banda de metal.
O baixo não costuma ser o primeiro instrumento em que um adolescente se interessa. Como você chegou até ele?
Foi meio por acaso. Eu estava na faculdade, ouvindo Black Flag. Um cara passou por mim, ouviu e falou, "Sabe, eu vi o Black Flag ao vivo neste verão". E isso em Montana, onde ninguém imaginava o que era punk rock no início dos anos 1980. Ele era de Los Angeles, a gente resolveu formar uma banda. Eu disse que só sabia tocar um pouco de piano. Ele disse que tinha um baixo. Eu tinha uma guitarra, porque tinha feito umas aulas no high school (equivalente ao Ensino Médio). Ele sabia tocar os dois instrumentos, e ele acabou com a guitarra. Nós aprendemos a tocar umas dez músicas e foi isso, eu já estava viciado naquilo. A gente formou uma banda e precisava aprender a compor.
O que é preciso para ser um bom músico?
Você precisa ser um grande ouvinte. As melhores pessoas com quem já toquei sabiam ouvir muito bem. Matt Cameron (baterista do Pearl Jam), um dos melhores músicos-ouvintes com quem já toquei, você pode tocar muito alto e se ele ver você fazendo um floreio, na próxima vez que você tocar com ele, ele vai saber o que fazer quando chegar a hora do floreio.
Isto é parte do prazer em tocar. São os pequenos detalhes que surgem em certos momentos de improvisação durante os shows. Isso é o melhor de estar em uma banda _ é um pouco como estar em uma relação: você não quer ser a pessoa que fala o tempo todo, você quer ouvir e encontrar os espaços em que mais pode contribuir.
Houve um período em que o Pearl Jam trocou de baterista algumas vezes e lançou alguns discos mais experimentais _ Vitalogy, No Code e Yield. O que você acha desses discos hoje em dia?
Acho que, fora as quatro ou cinco músicas mais estranhas de Vitalogy, ele é um disco bem direto de rock. Eu não gosto de ouvir para essas partes mais estranhas, mas acho que foram muito importantes naquele momento para mostrar para as pessoas que nós não seríamos apenas uma banda de rock direto, que haveria momentos em que nós soaríamos estranhos e experimentais. E desde então, sempre que compomos um disco, há três ou quatro músicas que passam por terrenos em que não havíamos pisado antes. Isso é uma das melhores partes. É excitante e muitas vezes saem daí as grandes músicas.
Vocês estão finalizando o próximo disco? Como ele está saindo?
Me parece que chegamos a uma versão melhor desenvolvida de nosso disco anterior. Nós trabalhamos com Brendan (O'Brien, que tem produzido discos do Pearl Jam desde Vs., de 1993), e ele desenvolveu um estilo único de gravar e arranjar. Nós entendemos isso cada vez melhor, então chegamos com ideias mais completas, então será mais maduro que Backspacer. Nós temos a primeira metade do disco pronta. Temos cinco ou seis músicas muito boas prontas. A segunda metade deve ser mais experimental, tentaremos algumas coisas diferentes, mas o tempo dirá. Olé (lançada com PJ20) é uma canção à parte dentro do que temos prontos, porque é direta, mas tem umas partes estranhas.
O processo de gravar é como uma repetição de algo que vocês fizeram uma dezena de vezes ou ele mudou ao longo dos anos?
É mais ou menos parecido. Nós nos vemos como uma banda ao vivo, dentro do estúdio, na maior parte do tempo. Nós queremos ser uma banda que realmente toca juntos, então é sempre importante pra a gente estar juntos no estúdio, se comunicar, decidir juntos como uma música deve soar.
Quando o Pearl Jam parou de gravar clipes, você disse que não queria que a banda fosse lembrada pelos vídeos, e sim pela música. Vocês lançaram o documentário PJ20 com uma grande retrospectiva em vídeo, dirigida pelo Cameron Crowe. O que você esperava desse DVD?
A ideia surgiu dez anos atrás. Kelly (Curtis, agente da banda) falou, "No aniversário de 20 anos, vamos fazer um vídeo". Voltamos a falar disso há uns três anos e, para ser sincero, eu fui contra, eu não queria fazer. Mas começaram a falar, "Olha, nós temos muito material filmado que vai acabar em lugar nenhum". E eu entendia essa ideia de "limpar a prateleira". Quando eu fiz meu disco solo, Tone (2006), foi nesse espírito. Então fazer o filme teve esse sentido, de se livrar da bagagem para poder ir adiante. Está feito.
E você gostou?
Quer saber? Acho que como uma peça de arte, ficou muito bom. Eu me senti desconfortável me vendo, vendo a gente. E ver as filmagens de Roskilde (festival dinamarquês, cuja edição de 2000 foi marcada pela tragédia que deixou nove mortos sufocados pela multidão no show do Pearl Jam), e ver imagens de Andy (Andrew Wood, parceiro de Ament no Green River e no Mother Love Bone, morto por overdose de heroína em 1990), essas coisas te atingem com muita força. Cada um tem sua maneira de se manter em contato com essas coisas. Eu tenho memórias visuais muito fortes das pessoas que foram prensadas contra a barreira de contenção naquela noite, eu vejo seus rostos. Mas ver a filmagem daquilo é muito difícil.
Mas você sabe, meus amigos do Mudhoney fizeram um vídeo parecido, e eu assisti com eles, com minha esposa. E vendo o vídeo deles e o que eles passaram nos últimos 20 anos, me fez sentir melhor e pensas, "Bem, nós não somos os únicos, tem esses outros amigos que passaram pelos seus próprios traumas e turbulências". Eu me sinto melhor agora. Não sei por que razão, é estranho.
E tem outras momentos muito bons, que os fãs poderão ver para sempre...
Sim, eu acho inclusive que tem muitas imagens nos extras que são até melhores que o filme em si. Prefiro apenas nos ver tocando.
Vocês começaram tocando embebidos no espírito niilista do punk rock, e acabaram tornando-se embaixadores do rock. Você imaginava isso acontecendo?
É interessante. As coisas que eram importantes para a gente quando começamos a tocar _ muito disso era respeitar as pessoas ao seu redor, respeitar quem ajuda o show a acontecer, a banda de abertura _ esse etos do punk rock ainda é ainda uma parte tão grande do que somos. Somos amigos da nossa equipe, fazemos turnês com pessoas que respeitamos muito. Não se comportar como um rock star. É quase hippie, pode parecer anti-punk. E tudo é possível. Você pode mudar o mundo, mesmo que um pouquinho, por meio da música. E o punk rock sempre se tratou disso.
A música acabou se tornando um produto que se difunde tão facilmente, mas que ao mesmo tempo parece ter um impacto menor do que tinha antigamente. Você ainda acredita que ela possa estar à frente de alguma mudança social ou política?
Eu acho que pode, sim, mais do que nunca. A internet fez a música perder um pouco da mágica, mas ao mesmo tempo, se alguém está fazendo algo incrível, se alguém tem uma grande voz, se é articulado e fala com vistas à mudança, não há momento melhor para que essa mensagem se espalhe. É o que está acontecendo no Egito, na Líbia, tem tando acontecendo nesses lugares. O que está acontecendo em Wall Street, por que não?
E é assustador, ao mesmo tempo, porque um iPhone pode captar tantas coisas verdadeiras e mostrar ao mundo. Mas a tecnologia também pode ser usada para disseminar mentiras.
E como mudou a maneira que vocês enxergam o mundo?
Eu cresci no meio do nada, tenho quase 50 anos, cresci na era pré-tecnológica. Porto Alegre, Brasil, eu não sabia nada sobre esses lugares. Dois dias atrás, sabendo que eu vinha à Porto Alegre, fiz uma busca por "Porto Alegre skatepark", e apareceram montes de pistas e parques, e esses vídeos de YouTube com skatistas. Eu acabei encontrando um dos caras. Isso é a internet. É incrível, mas também acaba um pouco com o mistério do mundo. Quando eu era criança, ocasionalmente meu pai pegava o carro e nos levava para lugares como a Disney. E nós não tínhamos dinheiro, então acampávamos. Mas era incrível acordar de manhã e estar na Califórnia. E depois voltávamos para casa e levaria mais três anos para viajarmos novamente. Então sempre existia aquela mágica na sua cabeça, do tipo, "Califórnia, uou". E não sei se isso existe hoje em dia. Eu tinha minhas revistas de música e de skate, e eram minha conexão com o mundo.
E se tivesse que escolher entre mp3 ou vinil?
Vinil, sem nem pensar. Mas o bom do mp3 é poder gravar alguma coisa no meu estúdio e, num estalar de dedos, isso ter se espalhado. Mas no vinil, você presta mais atenção aos detalhes, você examina a capa, tem que esperar para virar o lado.
E a banda ainda se dá bem?
Melhor do que nunca. Existe pressão para que sejamos uma grande banda, para que toquemos bem. Mas as demais pressões, a gente não as sente. Quando você é jovem, você não entende, todo mundo tem mais ego e não entende de onde esse ego vem. Você quer se sentir mais importante que as outras pessoas. Não nos preocupamos mais ocm isso. Eu só quero escrever boas músicas, fazer bons shows e dar umas boas risadas. Nesse sentido, estamos em nossa melhor forma.
Existe algum lugar em que vocês não tocaram e gostariam de visitar?
Eu queria tocar em algum lugar da África. Já fui para lá algumas vezes. Adoraria tocar no norte, amo Mali, Marrocos, Egito _ se bem que é bom não ir para lá por um tempo. Espero que façamos isso. É nossa segunda vez no Brasil, então ainda nos sentimos muito empolgados de tocar aqui.
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