Na infinita lista de desejos da minha infância, o primeiro item foi, por muito tempo, uma jaqueta preta coberta de tachinhas. Não porque eu passasse frio _ inverno em Americana é um estado de espírito, nunca uma condição climática, acreditem _, mas por representar tudo o que havia de mais legal no meu mundo até então: Michael Jackson.
Lembrei disso enquanto fazia a capa desta quinta-feira do Segundo Caderno, sobre um grupo norte-americano que paga tribo ao rei do pop com o projeto Who's Bad. Ao mesmo tempo, descobri que Bad completa 25 anos este ano. Vinte e cinco anos! Bad foi o primeiro disco do Michael Jackson que eu tive. Na verdade, uma fita, que ganhei do cabeleireiro aos 8 ou 9 anos se prometesse ficar quieto enquanto ele me escalpelava em formato de tigela.
Ouvi aquela fita até ela literalmente estourar. Eu e todo mundo em casa _ uma casa onde o que predominava era o sertanejo e um ou outro Roberto Carlos, vejam bem. Ninguém se opunha, mas também não fazia questão. E Michael naquela jaqueta preta de tachinhas dançando num metrô durante o Fantástico era o meu green card para um outro mundo. Um mundo bem mais legal que o meu, sem dúvida.
Sei que muita gente quando criança sonha o sonho do rockstar, guitarra, palco e tudo mais. Eu, não. Eu queria dançar igual ao Michael Jackson. Queria me vestir igual a ele _ com exceção das luvas de brilhantes, que eu naquela época já achava um pouco demais. Mas a jaqueta de couro preta com tachinhas, meu amigo, aquilo era o fino da bossa. Bem melhor que os meus moletons e agasalhos com estampas coloridas, pra começar.
E havia a música também, prova incontestável da genialidade de Michael. Quantas pessoas conseguem criar uma música que se comunica, sem facilitador algum, com um capiau incrustrado num rincão do terceiro mundo? Eu podia não entender as letras, mas sabia o que estava rolando ali. Sentia aquela vibração fazendo sentido em todos os meus 27kg de pele e ossos. Uma relação puramente sinestésica.
O Humberto Gessinger, no seu novo livro Nas Entrelinhas do Horizonte, diz que deixamos de e voltamos a ser crianças em vários momentos da nossa vida. E uma das vezes em que deixei de ser criança foi justamente quando fui zoado exaustivamente numa festinha enquanto tentava imitar os passos do MJ. Esta semana, ouvindo Bad de novo, do começo ao fim, voltei a ser criança.
E pela primeira vez em muito tempo, gostei desse retorno. Mas sem a mesma vontade pela jaqueta. Na boa, ela envelheceu mal pacas. A música, no entanto, continua me fazendo bem.




Boa, meu velho! Tive relação similar com esse disco, e ainda possuo minha cópia em vinil surradíssima. O encarte vinha com aquelas fotos do Michael fazendo as poses, e eu achava que era tipo um manual de instruções da dança dele, mas que eu era criança demais pra dominar aquilo com simples poucas fotos. Esse disco e o "Stay On These Roads" do A-Ha foram os maiorais da minha infância.
Sério, bicho? Pô, baita raridade! E como nossas percepções mudam com o avançar da idade, não?
Te confesso que não ouço o disco do A-Ha desde aquela época. Se topar com ele em algum sebo, comprarei pelo sentimentalismo e já confiro como se alterou a percepção sobre ele.