
Numa das cenas mais emblemáticas de Clube da Luta, Tyler Durden (Brad Pitt) pega a mão de, hã, do carinha interpretado pelo Edward Norton e joga soda caústica nela. A soda, explicou antes Durden, é a matéria-prima do sabão e foi descoberta pelas primeiras civilizações durante sacrifícios humanos _ grosso modo, ela é o resultado da mistura de gordura queimada e cinzas. Resumindo, gente morreu para que pudessemos tomar um banho decente.
Mas o foco é outro. O foco é a transcendência. Transcendência pelo sofrimento. Pela dor. A mesma dor que nos deu saponáceos, nos levaria a um outro nível. Por isso, enquanto o sujeito se debate tentando não pensar na dor da queimadura, Durden insiste que ele aceite o martírio. Aceite, principalmente que é mortal. Que vai morrer um dia. E que o deus que o criou pode não dar a mínima para ele:
"You have to consider the possibility that God does not like you. He never wanted you. In all probability, he hates you. This is not the worst thing that can happen. We don't need him! Fuck damnation, man! Fuck redemption! We're God's unwanted children, so be it!"
Agora pega Prometheus, que Ridley Scott acabou de entregar nos cinemas.
(E a partir daqui rolam alguns spoilers)
Qual o mote do filme? A busca pela resposta da primeira pergunta: de onde viemos. Por tabela: quem nos fez? E por que? Por que diabos estamos aqui? Logo, é a busca por deus. Um deus. Qualquer deus. Não importa o formato dele, importa é que ele nos de as respostas.
Só que o que Ridley Scott nos mostra é que, hey, esse deus pode não gostar da gente. Pode, inclusive, querer nos matar. Qualquer cosmogonia _ qualquer uma delas mesmo, dos gregos aos cristãos _ mostra que os caras (ou o cara) que nos criaram são uns baita sádicos. Ficam o tempo todo nos submetendo a todo tipo de provação _ sendo que a maioria delas acaba em morte ou, no mínimo, uns bons machucados. Mas é somente através desse tipo de situação que nós podemos _ na versão deles _ evoluir. Não há evolução sem dor. E é mister matar nossos criadores.
O problema é que, lógico, eles não querem ser mortos. O alien de Prometheus sai quebrando tudo quando percebe a presença dos humanos, da mesma forma que Zeus ou Deus vivem lançando monstros e pragas nas nossas cabeças sempre que desafiados ou questionados, porque sabem que nos devem respostas. Quem? Como? Por que? É o que faz a personagem central do filme de Scott pegar uma nave e rumar para o planeta dos engenheiros ao final do filme. Ela não quer evitar a pergunta, assim como o sujeito no Clube da Luta não deve evitar a dor da queimadura. Vai dor. Vai ser exaustivo. Mas não existe outra maneira de saber. A resposta só vira daí.
Prometeus, o titã da mitologia grega, nos criou e nos deu o fogo, roubado dos deuses. Nossa primeira tecnologia, o primeiro passo da nossa evolução como espécie, o poder que nos abriu infinitas possibilidades. O fogo nos libertou, assim como a queimadura química de Tyler liberta seu "amigo". Tyler é Prometeu, que usa o fogo para libertar. Para oferecer um caminho para respostas.
Respostas. É só o que procuramos. E exatamente o que nos leva além. Seja confrontando aliens nos confins do espaço, seja ganhando uma queimadura de terceiro grau.




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