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Posts de junho 2012

Azealia Banks de volta

29 de junho de 2012 0


Grande aposta na linha pop bagaceira de 2012, Azealia Banks foi confirmada para o Planeta Terra deste ano ao mesmo tempo em que acaba de lançar seu primeiro EP, 1991, e um novo vídeo. O clipe é para a faixa Liquorice e mostra a cantora aloprando elementos caros ao imaginário norte-americano, como baseball, hot dog, faroeste e a bandeira estrelada.

Saca:

Belo balanço, diz aí? Synth noventista e tal. Pra mim não chega perto de 212, mas pra quem é, tá mais do que bom.

E bom final de semana pra vocês!

Lá vem os homens de preto

28 de junho de 2012 5


Ainda é cedo para falar em cena, mas não dá para ignorar uma turma que anda pesando a mão nos instrumentos para dar um novo gás ao rock feito no Rio Grande do Sul.

Sem a pretensão de reinventar a guitarra elétrica (mas fazendo bom uso dela), bandas como Zerodoze (foto), Cartel da Cevada, Balde de Sangue Country Bar (melhor nome!), Draco e Galgos começam a se consolidar num circuito de shows na Região Metropolitana de Porto Alegre, são habitués na abertura de apresentações de artistas gringos e cativam um público que estava carente de rock pesado e desfirulado.

No tacho de influências deles, nada além do hardrock, punk e metal produzidos entre o final dos anos 1960 e meados de 1980.

Saca:

ZERODOZE

CARTEL DA CEVADA

BALDE DE SANGUE COUNTRY BAR

DRACO

GALGOS

A fórmula do Teatro Mágico

26 de junho de 2012 0


Sábado fui no show do Teatro Mágico, no Opinião. Dias antes, baixei o último disco deles, A Sociedade do Espetáculo, para escutar. Eu nunca tinha ouvido nada deles. Nem visto nenhum show. E confesso que gostei dos dois. Fiquei ouvindo em looping durante a sexta-feira e fui felizão para a apresentação _ que consegui ver apenas do meio para o final, já que havia tanta gente com mais de 1,90m que era difícil enxergar qualquer coisa além de nucas. Mas bastou para convencer o lado festivo da minha alma.

Porém, como qualquer produto de sucesso, o TM tem uma fórmula _ que eu não sei se foi pensada assim desde o início, mas que não vai ser deixada de lado tão cedo. Acompanhem:

Mistureba bem produzida: disco do Teatro Mágico tem de tudo. Guitarra distorcida. Percussão basiquinha. Violãozinho dedilhado. Baixo acompanhando a bateria. Acordeão de canto conferindo um DNA regionalista. Arranjos de cordas pra dar um verniz de delicadeza. Pianinhos diversos. Vocal cantado e vocal declamado. Backing vocal feminino. Scratchs e synths. Rock. Reggae. MPB. Bolero. Baião. É proibido proibir.

Mistureba bem produzida executada direitinho e com vigor ao vivo: no show do Opinião, a banda era composta pelo vocal empunhando violão, uma guitarra, um baixo, um tecladista, batera e violinista, mas parecia haver o dobro de gente. Era o que eu sentia lá das últimas fileiras, pelo menos. Havia peso e muita vontade de tocar, muita entrega _ e o fato de não fazerem alterações drásticas nas composições denota, pelo menos pra mim, profissionalismo e respeito pelos fãs. E o som estava excelente também.

Letras pseudo-intelectuais baseadas em jogos de palavras:
é a perna mais forte do TM. Djavan encontra-se com Gilberto Gil e os dois vão tomar chá de cipó com Carlinhos Brown. Algumas são quase um trava língua, outras chegam a ser engraças e a maior parte é puro absurdo, mesmo _ mas todas, sem exceção, calam fundo no coração dos fãs, que sabem cantar todas do começo ao fim (e devem escolher os melhores trechos para se tatuarem, claro...)

É uma melhor que a outra:

Nosso ex-quadro
Nossa moldura
Se nosso amor durar
Sem armadura
(Tática e Estratégia)

Reconsiderar o ar, o andar, nossa absolvição, a escuta e a fala
Nos amorizar o dia, fio, corredor, a calçada, o passeio e a sala
Se perder sem se podar e se importar comigo
Aprender você sem te prender comigo
(Você Me Bagunça)

Aturando o tom
De vil alegoria
Maturando o bom
Se acontecendo
(Além, Porém Aqui)

O post é voz que vos libertará
Descendentes tantos insurgirão
A arma, o réu, o véu que cairá
Cravos e tulipas bombardeiam
um jardim novo se levantará
O jasmim urge do solo sem medo
(Amanhã... Será?)

Todo ser seria
Todo rio riria
Toda flor folia
Abajour pra escuridão
(Folia No Quarto)

Consciência social: se mostrar preocupado com o próximo é um valor nobre e que conta pontos com fãs "engajados". Em A Sociedade do Espetáculo temos Canção da Terra (que fala sobre, hã, reforma agrária) e Esse Mundo Não Vale o Mundo (que versa basicamente sobre justiça social). Bonitinhas e que devem fazer um baita sucesso em encontros de estudantes de Comunicação Social, Sociologia, História e afins. Já vejo as faixas pintadas com "Somos massas e amostras!" e "Esse mundo não vale o mundo, meu bem!".

Um certo ar de coitadice: o coração hipster, por definição, é saudosista e carente de tudo o que ele não conhece/viveu. E pincelado por uma dose de culpa cristã, ele se apaixona perdidamente. Daí o TM vestir-se de circo, uma instituição sucateada no Brasil, sinônimo da beleza que vem da penúria, exemplo da força de vontade em meio as adversidades, o palhaço que se pinta no camarim para apresentar-se para ninguém, o mestre do picadeiro que relembra os tempos de glória, o trailer caindo as pedaços coberto de cartazes antigos, os parcos caraminguás recolhidos ao final da noite, e você, o que está fazendo para ajudar esses artistas?, é difícil segurar as lágrimas, diz aí? O grupo também não toca no rádio ou na TV e é a favor da música livre e gratuita, o que mostra a força dos independentes e dos fãs que os sustentam, o valor da liberdade artística conquistada através do enfrentamento pela poesia contra o julgo opressor do capital e das instituições falidas que representam o estrangulamento do verdadeiro artista.

O luau ambiental de Jack Jonhson

22 de junho de 2012 0

Foto: Jamm Aquino

Em tempos de Rio+20, que tal ouvir um pouco de música ambientalmente engajada? Pois acabou de ser lançada no Brasil uma coletânea do Kokua Festival, evento que reúne músicos para arrecadar fundos para a Kokua Hawai'i Foundation. Criada em 2003 pelo nativo e astro de luau Jack Johson, a ONG apoia programas de educação ambiental no arquipélago norte-americano, atuando principalmente dentro das escolas.

E o festival, promovido por Johnson desde 2004, é uma maneira de chamar a atenção do mundo para os problemas ambientais, de quebra, recolher uma grana. A escolha dos convidados e do repertório parece meio aleatória, mas não é ruim. Os números escolhidos para compor a seleção do disco trazem sempre Johnson em parceria com alguém, ora interpretando uma canção sua, ora uma cover.

Daí temos Take It Easy com Jackson Browne e John Cruz; Further On Down the Road, com Taj Mahal; I Shall Be Released, de Bob Dylan, com Eddie Vedder e Zach Gill; Blue Eyes Crying in the Rain, com Willie Nelson e Ben Harper; A Pirate Looks at Forty, com Dave Matthews e Tim Reynolds. Além da família Marley em peso: High Tide or Low Tide, de Bob Marley, cantada por Johnson e Harper; Cry! Cry! Cry!, de e com Ziggy Marley; e Welcome to Jamrock, de e com Damian "Jr. Gong" Marley.

Como um bom festival sustentável (a embalagem do CD é feita de material reciclável, vai vendo), o Kokua usa o mínimo de eletricidade, ou seja, tudo acústico, no maio clima de luau havaiano. É por o disquinho para rodar e começar a sentir o cheiro de... praia! Eu sei que não tem nada a ver com inverno, mas não é por isso que estamos aqui, certo?

Um pouco de música erudita, meu povo!

22 de junho de 2012 0

Sexta-feira, pessoal, SEXTA-FEIRA! Bora ouvir coisa boa? Música de qualidade, com a chancela dos grandes mestres da música clássica, que tal?

Elenquei abaixo trabalhos bem contemporâneos de três gigantes da música erudita mundial. Imortais que se notabilizaram por fazer obras gigantescas para orquestras, mas que tinham também um lado mais, digamos, pop.

Começamos com Wolfgang Amadeus Mozart:

Aposto que vocês não conheciam essa, hein? Agora, Chopin:

Coisa boa, né? Quem sabe um pouco de Johann Sebastian Bach, para dar um colorido especial:

É isso. Bom final de semana pra vocês.


Offspring grava disco da Katy Perry

20 de junho de 2012 2

Sério. Deve ter havido algum engano. Essa música liberada pelo Offspring, há coisa de um mês no Soundcloud, não pode ser deles. Deve ser parte de algum projeto do tipo "bandas punk californianas gravam Katy Perry para custear a aplicação de botox em estrelas de reality show".

Tentem ouvir até o fim:

Então descobri que tem até um VÍDEO dessa naba:

Sério, nego ultrapassou a linha entre o deboche e a auto-depreciação sem olhar pros lados e foi atropelado pela locomotiva da falta de noção. Só falta o Snoop Dogg!

Agora essa outra. Violãozinho e tudo:

E tem vídeo também:

Mas não é pegadinha, não, esse são os dois primeiros singles do novo disco do grupo, que será lançado na próxima semana e foi colocado para audição completa no site da Rolling Stone. Days Go By é o nome da bolacha e a capa é essa parada estranhíssima aí embaixo:


Tem algo mais anti-Offspring que a fotografia sombria de um guri encasacado e um velho janota sentado num banco em meio a uma floresta tétrica?

Eu sei que isso de banda acabar é coisa do passado, mas coisas assim que me fazem acreditar que, sim, chega um momento em que a sua vontade de "fazer coisas diferentes", de "ousar", não pode ser maior que _ ou colocar em risco _ a reputação que você construiu. E não é mimimi de fã ou de crítico, é uma constatação à luz dos acontecimentos. Que bad.

Rock Ballads e o fim do romance nas festinhas

19 de junho de 2012 5

Na segunda metade dos anos 1990, todo mundo da minha turma tinha dois CD obrigatórios: o álbum duplo ao vivo Vamo Batê Lata, dos Paralamas do Sucesso, e a coletânea Rock Ballads. O primeiro era pra parte agitada da festinha. E o segundo, claro, pra hora de puxar a guria pra dançar uma música. Sim, dançava-se música lenta nos anos 1990 e era como "o momento" de algo acontecer. E o não tinha disco melhor que o Rock Ballads.

O Rock Ballads era um apanhado de _ isso mesmo! _ baladas. Nem todas necessariamente de gente ligada ao rock. Não era também o recorte de um tempo, uma geração ou uma cena. Parece que os executivos da gravadora simplesmente se reuniram e disseram "ok, o que temos de música pra beijar na boca no nosso acervo?" e aí fizeram um salamê minguê para escolher 18 faixas e mandaram prensar.

Mas se não havia SENTIDO, havia SENTIMENTO (vish...). O repertório abria com Always, do Bon Jovi, que encabeçava a lista de canções preferidas de 11 entre 10 adolescentes na época. Tu podia ser um rockerzinho viciado em Raimundos e NOFX, mas não pegaria ninguém se não respeitasse Always e soubesse a hora certa de usá-lo. Conheço casamentos que começaram ao som daquela bateria bagaceira do Tico Torres. Não tinha pra ninguém.

Depois vinha One Of Us, a balada gospel da Joan Osborne, I Still Haven't Found What I'm Looking For, do U2, Ode To My Family, dos Cranberries, Behind Blue Eyes, do The Who, Wonderful Tonight, do Eric Clapton, a estupenda regravação do Faith no More para Easy, a baba More Than Words, do Extreme, a rainha das FMs Wind of Change, do Scorpions, entre outras. Era botar o disquinho pra rodar, baixar a iluminação e torcer pra gatinha topar dançar uma delas contigo. Daí por diante, meu amigo, era torcer pra ela cair na tua LÁBIA e nos teus LÁBIOS (tô péssimo hoje, desculpem...).

Só que em 2012 ninguém mais faz festinha em garagem. Ninguém mais dança música lenta. Música lenta, aliás, virou sinônimo de música depressiva pra molecada que não têm louça pra lavar ficar lamentando sua vidinha pequeno burguesa. Rômantico hoje ou é brega ou é um banana de franja lambida. E pra piorar, mataram o que restava de romance na noite institucionalizando a brutalidade contra as meninas nas micaretas e nos bailões do sertanejo universitário _ que, não se enganem, é a mesma coisa.

Por isso não me espantei ao receber o novo lançamento da Deck Disc, Rock Ballads Brasil. Saquem o repertório:

Pescador De Ilusões - O Rappa
Isso - Titãs
Me Adora - Pitty
Nostalgia - Vivendo do Ócio
Sinceramente - Cachorro Grande
Saw You Saying (that You Say That You) - Raimundos
Fala - Ritchie
Sentimental - Los Hermanos
Mulher - Rancore
Asas - Maskavo
Você Pode Ir Na Janela - Gram
Vida Passageira - Ira!
Ciúme - Ultraje A Rigor
Tudo Que Vai - Capital Inicial

Nada de rock. Nada de balada (com exceção rara aí pros Cachorro e os Titãs...). Puro Brasil anos 2000. Vão nessa, mas não me chamem.

Promessa é dívida

18 de junho de 2012 0


Numa das cenas mais emblemáticas de Clube da Luta, Tyler Durden (Brad Pitt) pega a mão de, hã, do carinha interpretado pelo Edward Norton e joga soda caústica nela. A soda, explicou antes Durden, é a matéria-prima do sabão e foi descoberta pelas primeiras civilizações durante sacrifícios humanos _ grosso modo, ela é o resultado da mistura de gordura queimada e cinzas. Resumindo, gente morreu para que pudessemos tomar um banho decente.

Mas o foco é outro. O foco é a transcendência. Transcendência pelo sofrimento. Pela dor. A mesma dor que nos deu saponáceos, nos levaria a um outro nível. Por isso, enquanto o sujeito se debate tentando não pensar na dor da queimadura, Durden insiste que ele aceite o martírio. Aceite, principalmente que é mortal. Que vai morrer um dia. E que o deus que o criou pode não dar a mínima para ele:

"You have to consider the possibility that God does not like you. He never wanted you. In all probability, he hates you. This is not the worst thing that can happen. We don't need him! Fuck damnation, man! Fuck redemption! We're God's unwanted children, so be it!"

Agora pega Prometheus, que Ridley Scott acabou de entregar nos cinemas.

(E a partir daqui rolam alguns spoilers)

Qual o mote do filme? A busca pela resposta da primeira pergunta: de onde viemos. Por tabela: quem nos fez? E por que? Por que diabos estamos aqui? Logo, é a busca por deus. Um deus. Qualquer deus. Não importa o formato dele, importa é que ele nos de as respostas.

Só que o que Ridley Scott nos mostra é que, hey, esse deus pode não gostar da gente. Pode, inclusive, querer nos matar. Qualquer cosmogonia _ qualquer uma delas mesmo, dos gregos aos cristãos _ mostra que os caras (ou o cara) que nos criaram são uns baita sádicos. Ficam o tempo todo nos submetendo a todo tipo de provação _ sendo que a maioria delas acaba em morte ou, no mínimo, uns bons machucados. Mas é somente através desse tipo de situação que nós podemos _ na versão deles _ evoluir. Não há evolução sem dor. E é mister matar nossos criadores.

O problema é que, lógico, eles não querem ser mortos. O alien de Prometheus sai quebrando tudo quando percebe a presença dos humanos, da mesma forma que Zeus ou Deus vivem lançando monstros e pragas nas nossas cabeças sempre que desafiados ou questionados, porque sabem que nos devem respostas. Quem? Como? Por que? É o que faz a personagem central do filme de Scott pegar uma nave e rumar para o planeta dos engenheiros ao final do filme. Ela não quer evitar a pergunta, assim como o sujeito no Clube da Luta não deve evitar a dor da queimadura. Vai dor. Vai ser exaustivo. Mas não existe outra maneira de saber. A resposta só vira daí.

Prometeus, o titã da mitologia grega, nos criou e nos deu o fogo, roubado dos deuses. Nossa primeira tecnologia, o primeiro passo da nossa evolução como espécie, o poder que nos abriu infinitas possibilidades. O fogo nos libertou, assim como a queimadura química de Tyler liberta seu "amigo". Tyler é Prometeu, que usa o fogo para libertar. Para oferecer um caminho para respostas.

Respostas. É só o que procuramos. E exatamente o que nos leva além. Seja confrontando aliens nos confins do espaço, seja ganhando uma queimadura de terceiro grau.

O rock gaúcho dos 2000: um projeto

14 de junho de 2012 0

Crédito: Fábio Codevilla

Estão lembrados da banda acima? É a Procura-se Quem Fez Isso, uma das formações mais legais que surgiram nos anos 2000 no Rio Grande do Sul. Só que a gente sabe como funciona esse negócio de música, nem sempre dá pra viver dela e aí que iniciativas bem legais, como a PQFI, acabam perdidas no tempo.

Pensando nisso, o jornalista Cristiano Bastos e a produtora e agitadora cultural Dani Hyde começaram um levantamento iconográfico do rock produzido no RS na última década para um projeto especialíssimo que está sendo gestado. Legal, hein?

Por isso, se você teve banda nesse período, entra em contato com eles pelo e-mail danihyde@gmail.com para saber como incluir a sua gangue no lance. Mas não enrola, porque o prazo é o final de julho.

O Abaporu devorou Votorantim (e o meu coração)

13 de junho de 2012 2

Crédito: Bea Rodrigues, We Shot Them

Grande filósofo da música contemporânea, o vocalista da Cachorro Grande, Beto Bruno, diz que o artista independente é o que mais depende. Depende de um desconto camarada do estúdio, de lei de incentivo pra gravar CD, dos amigos pra carregar equipamento pro show e até da brodagem do chefe pra liberar mais cedo na sexta-feira e dar início à função do final de semana. O que dirá, então, de um evento que pretende festejar essa cultura em todas as suas formas, cores e sonoridades?

O pessoal do Rasgada Coletivo, lá de Sorocaba, interior de São Paulo, foi buscar inspiração na Semana de 22 para compor o Abaporu, o festival comedor de gente, que rolou nos dias 2 e 3 de junho em Votorantim. A antropofagia, lema dos modernistas e proposta do coletivo, começou pela mistura de sabores: quem compareceu à charmosa Pedreira do Icatu pode degustar do reggae à moda de viola, do noise ao hard core, do experimental ao tradicional. Tudo num mesmo palco, num mesmo espaço, democrático e aberto, mas ao mesmo tempo aconchegante e integrador.

Por isso, quem foi ver o Mukeka di Rato acabou ouvindo antes o Grupo de Violeiros de Votorantim. Os fãs do Z'África Brasil tomaram contato com o maracatu dos Leões da Vila. Esse ousado cozido poderia dar errado se o que desse liga não fosse o trabalho sério desenvolvido por todos ali.

É possível falar em discurso, em proposta, em ideias, mas o que eu enxerguei foi trabalho. Trabalho pesado. Trabalho de quem desistiu de esperar e decidiu botar a mão na massa e fazer acontecer. Trabalho de quem não tá dando a mínima pro hype e decidiu investir em qualidade, respeitando o público e também provocando ele. Com respeito, rola afinidade. Com afinidade, poucas coisas são impossíveis.

E foi essa a afinidade que rolou entre os grupos que se apresentaram e os organizadores do Abaporu _ e que foi celebrada pelo público. Quem compareceu às duas noites do festival não apenas entendeu e aprovou a iniciativa como uma alternativa ao que é feito, mas pode fazer parte da construção continua da cultura independente. Por isso o sucesso do Abaporu: sincronia entre festival e público. Afinidade.

Os ganhos virão a médio e longo prazo, como a garotinha que assistia, hipnotizada, ao show do power trio The Biggs. Vendo as duas excelentes e furiosas fronwomen, o que impederia àquela pequena espectadora de pensar "hey, então quer dizer que eu não preciso rebolar numa garrafa ou cantar em falsete para ser artista!". É isso aí.

A curto prazo, pelo menos pra mim, ficou a lição da sintonia e honestidade necessária para seguir em frente. E o cachorro-quente delicioso a 3 pilas.