
Sábado fui no show do Teatro Mágico, no Opinião. Dias antes, baixei o último disco deles, A Sociedade do Espetáculo, para escutar. Eu nunca tinha ouvido nada deles. Nem visto nenhum show. E confesso que gostei dos dois. Fiquei ouvindo em looping durante a sexta-feira e fui felizão para a apresentação _ que consegui ver apenas do meio para o final, já que havia tanta gente com mais de 1,90m que era difícil enxergar qualquer coisa além de nucas. Mas bastou para convencer o lado festivo da minha alma.
Porém, como qualquer produto de sucesso, o TM tem uma fórmula _ que eu não sei se foi pensada assim desde o início, mas que não vai ser deixada de lado tão cedo. Acompanhem:
Mistureba bem produzida: disco do Teatro Mágico tem de tudo. Guitarra distorcida. Percussão basiquinha. Violãozinho dedilhado. Baixo acompanhando a bateria. Acordeão de canto conferindo um DNA regionalista. Arranjos de cordas pra dar um verniz de delicadeza. Pianinhos diversos. Vocal cantado e vocal declamado. Backing vocal feminino. Scratchs e synths. Rock. Reggae. MPB. Bolero. Baião. É proibido proibir.
Mistureba bem produzida executada direitinho e com vigor ao vivo: no show do Opinião, a banda era composta pelo vocal empunhando violão, uma guitarra, um baixo, um tecladista, batera e violinista, mas parecia haver o dobro de gente. Era o que eu sentia lá das últimas fileiras, pelo menos. Havia peso e muita vontade de tocar, muita entrega _ e o fato de não fazerem alterações drásticas nas composições denota, pelo menos pra mim, profissionalismo e respeito pelos fãs. E o som estava excelente também.
Letras pseudo-intelectuais baseadas em jogos de palavras: é a perna mais forte do TM. Djavan encontra-se com Gilberto Gil e os dois vão tomar chá de cipó com Carlinhos Brown. Algumas são quase um trava língua, outras chegam a ser engraças e a maior parte é puro absurdo, mesmo _ mas todas, sem exceção, calam fundo no coração dos fãs, que sabem cantar todas do começo ao fim (e devem escolher os melhores trechos para se tatuarem, claro...)
É uma melhor que a outra:
Nosso ex-quadro
Nossa moldura
Se nosso amor durar
Sem armadura
(Tática e Estratégia)
Reconsiderar o ar, o andar, nossa absolvição, a escuta e a fala
Nos amorizar o dia, fio, corredor, a calçada, o passeio e a sala
Se perder sem se podar e se importar comigo
Aprender você sem te prender comigo
(Você Me Bagunça)
Aturando o tom
De vil alegoria
Maturando o bom
Se acontecendo
(Além, Porém Aqui)
O post é voz que vos libertará
Descendentes tantos insurgirão
A arma, o réu, o véu que cairá
Cravos e tulipas bombardeiam
um jardim novo se levantará
O jasmim urge do solo sem medo
(Amanhã... Será?)
Todo ser seria
Todo rio riria
Toda flor folia
Abajour pra escuridão
(Folia No Quarto)
Consciência social: se mostrar preocupado com o próximo é um valor nobre e que conta pontos com fãs "engajados". Em A Sociedade do Espetáculo temos Canção da Terra (que fala sobre, hã, reforma agrária) e Esse Mundo Não Vale o Mundo (que versa basicamente sobre justiça social). Bonitinhas e que devem fazer um baita sucesso em encontros de estudantes de Comunicação Social, Sociologia, História e afins. Já vejo as faixas pintadas com "Somos massas e amostras!" e "Esse mundo não vale o mundo, meu bem!".
Um certo ar de coitadice: o coração hipster, por definição, é saudosista e carente de tudo o que ele não conhece/viveu. E pincelado por uma dose de culpa cristã, ele se apaixona perdidamente. Daí o TM vestir-se de circo, uma instituição sucateada no Brasil, sinônimo da beleza que vem da penúria, exemplo da força de vontade em meio as adversidades, o palhaço que se pinta no camarim para apresentar-se para ninguém, o mestre do picadeiro que relembra os tempos de glória, o trailer caindo as pedaços coberto de cartazes antigos, os parcos caraminguás recolhidos ao final da noite, e você, o que está fazendo para ajudar esses artistas?, é difícil segurar as lágrimas, diz aí? O grupo também não toca no rádio ou na TV e é a favor da música livre e gratuita, o que mostra a força dos independentes e dos fãs que os sustentam, o valor da liberdade artística conquistada através do enfrentamento pela poesia contra o julgo opressor do capital e das instituições falidas que representam o estrangulamento do verdadeiro artista.
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