O chapa Caue Fonseca foi assistir ao show do Fito Paez em Porto Alegre no último domingo e escreve sobre a importância do disco como álbum. Uma reflexão importante para dias de decadência musical.
A ordem das coisas
Houve um tempo em que ter uma banda de respeito significava lançar um álbum. Sob capa e nome, apresentar um conjunto de músicas que se comunicam umas com as outras e se complementam. Uma obra que separa algumas faixas para fazer sucesso, outras para convidar parceiros e ídolos para canjas e outras para torturar os fãs mais fiéis com solos e o que mais der na telha, azar de quem ouve.
Mais do que um disco histórico, a turnê de Fito Páez comemorativa aos 20 anos de El Amor Después del Amor resgata um grande barato que se perdeu no labirinto dos ipods poluídos pela falta de amor: o de ouvir todas as músicas concebidas pelo artista e – importante – na sequência em que ele escolheu.
É perceber que os gemidos de Dos Días en La Vida ficam ainda mais divertidos quando ainda reverberam os acordes de El Amor Después del Amor. Que só La Rueda Mágica para te salvar os pulsos depois de Un Vestido y Un Amor e Tumbas de la Gloria. E que encerrar com a música certa fará você cantarolar "a rodar, a rodar mi vida..." praticamente pelo resto da vida.
A moda, felizmente, pegou. Os Titãs passaram por Porto Alegre soprando velinhas pelo trintão Cabeça Dinossauro. Antes deles, em 2011, os gringos do Primal Scream celebraram as duas décadas de Screamadelica. Além dos próprios artistas, bandas cover como a Império da Lã, semana sim, semana não, celebram álbuns clássicos de cabo a rabo na noite roqueira da Capital.
Claro que nem só da previsibilidade vive um show. Fito Páez, no domingo, arrancou lágrimas justamente no momento em que surpreendeu cantarolando Desde que o Samba é Samba naquele portunhol que deixa tudo tão mais bonito.
Mas o grande legado que ele, os Titãs e etc nos deixam de suas recentes passagens por Porto Alegre é a exaltação do conceito de disco. Talvez seja exagero voltarmos a ninar os aparelhos de vinil, mas muito se ganha quando se compreende que um bom álbum é como um livro. E que músicas merecem ser ouvidas assim, como capítulos, uma después da outra.
caue.fonseca@zerohora.com.br





Muito legal sua análise! Fito é um grande músico, grande artista. Eu adoro música e não tenho conseguido gostar de quase nada ultimamente.... estaria faltando consistência, autenticidade, ou está difícil criar coisa nova ou se destacar em meio a tanto lixo, tanta postagem, tanta inutilidade? Cantei da primeira a última faixa e me encantei com a segunda parte. seja flashback total de quem tem mesmo o que mostrar, vale a pena ver de novo, onda retrô, não me importa, eu adorei.
Faltou citar aquele que é provavelmente o exempo mais óbvio: Roger Water e seu The Wall, executado na íntegra em março no Beira Rio.
Estive ontem no show do Fito e foi muito bom.