
Terminei agora de ler Metallica: A Biografia, de Mick Wall. Já havia, no final de maio, publicado uma nota sobre o livro no Mundo Livro, estimado blog do colega e amigo Cazandré Moreira. Sim, é uma leitura densa e demorada, quase 500 páginas de um texto nada acadêmico e bem pessoal, às vezes íntimo demais _ natural, já que o autor faz parte da extinta linhagem dos jornalistas de rock formanda entre o final da décade de 1970 e início de 1980 que aprendeu o ofício frequentando bastidores e convivendo de perto com as bandas.
Daí que, por um lado, essa promiscuidade permite que Wall mostre um Metallica que pouca gente conhece, em especial Lars Ulrich, seu artíficie e grande responsável por tornar o grupo o maior empreendimento de heavy metal do mundo. O outro lado é o autor se colocando como personagem da história _ principalmente na introdução dos capítulos, quando pontua situações sem nenhuma relação com o que vem a seguir, mas que serve para mostrar que ele esteve lá. Desnecessário, mas não estraga o todo. Metallica: A Biografia é honesto e sério o suficiente para os dois públicos a que se destina: o fã de longa data e o neófito.
O fã de longa data, que acompanha a banda desde a explosão do thrash, talvez _ TALVEZ _ se surpreenda com o fato de que a banda não foi feita para ele. Lars sempre teve em sua cabeça que o Metallica seria a maior banda de rock do mundo custasse o que custasse. Se nesse trajeto eles criassem um gênero e dessem voz para toda uma geração de moleques cabeludos ao redor do globo, ótimo. Mas se tivessem que se maquiar e fazer baladas melosas para se manter no topo, não hesitariam em fazer _ como de fato fizeram. Ir na onda, aproveitar oportunidades, se aliar ao sistema, sempre fez parte do plano. Se tornar referência foi acidente _ um feliz acidente, muito graças a junção de quatro músicos talentosos, não há como negar.
O mais revelador _ pra mim ao menos _ foi descobrir parte do modus operandi de Lars. Mick mostra como o baterista fazia suas "pesquisas de campo" junto das bandas que admirava e de onde poderia tirar alguma coisa para aplicar no Metallica. Primeiro foi o Diamond Head, depois o Guns 'n Roses, o pessoal de Seattle e até o Oasis. Se você estivesse em algum pico de popularidade, pode ter certeza que o nanico dinamarquês estaria nos teus calcanhares, vendo o seu show e depois te pagando uma cerveja. Sem contar o enorme senso de oportunidade que ele possuia: se no começo dos 2000 ele declarou guerra a internet por meio da batalha judical contra o Napster, em 2008 aliou-se a ela para fazer de Death Magnetic um dos discos mais vendidos daquele ano.
Para os neófitos, que como eu conheceram a banda pelo Black Album e depois se aprofundaram (e se assustaram) na discografia pregressa do grupo, é um prazer (re)descobrir a gênese do grupo e de onde veio sua música, os early years na San Francisco Bay e Los Angeles comprando os discos de todas a bandas de NWOBHM que chegassem, o contexto histórico e social em que seus integrantes estavam inseridos, os outros grupos locais e sua ligação com eles.
Essa conexões, aliás, são boa parte do sucesso do Metallica, mostra Mick. Se a banda é o monstro que é hoje, deve muito ao empenho dos primeiros admiradores, que inseriram o grupo no forte mercado de trocas de fitas K7, que popularizou suas músicas. Depois, os empresários que apostaram e deram suporte aos quatro moleques de cabelos ensebados quando ninguém dava a mínima para eles, gravando seus discos a troco de nada e agendando shows em buracos impossíveis. Ou os artists de grande porte _ como o próprio Diamond Head, Ozzy e outros _ que permitiram que o Metallica abrisse seus espetáculos quando ainda eram ilustres desconhecidos.
Metallica: A Biografia só peca mesmo na excessiva reverência a Cliff Burton. O baixista é tido como a alma pura no meio de uma conclave de hereges, o mais sábio, inteligente, honesto, legal, bacana, melhor músico e preferido pelas groupies por ter o maior membro entre os integrantes da banda (é sério!). Diante de um disco ruim ou de uma atitude polêmica, sempre surge a pergunta: "O que Cliff pensaria disso? Cliff teria deixado isso acontecer?". Ao que tudo indica, segundo os próprios integrantes e gente chegada da banda, o baixista ripongo era fortemente inclinado à mudanças e não deveria se opôr aos caminhos que o Metallica seguiu nos anos 1990. Talvez fosse diferente, talvez não. Nunca saberemos, porque Cliff morreu.
E o Metallica continua mais vivo do que nunca.
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