Crédito: Cambria Harkey / LollapaloozaBR
Habitual colaboradora deste espaço, a chapa Janaína Azevedo se bandeou para os lados de cima do Mampituba e voltou com este pujante e honesto relato sobre o Lollapalooza _ que bem pode servir como um guia para quem ficou de mimimi com o festival.
Confiram:
Janaína Azevedo
Hoje eu vim aqui pra contar uma coisa: eu não fui maltratada no Lollapalooza. Nenhum direito meu foi atingido, não precisei testar a minha dignidade em qualquer ocasião. Tá, vou confessar logo: eu curti o Lollapalooza. Me diverti do início só fim, não fritei em fila, padeci de fome ou outros imprevistos. E os shows que queria? Assisti a todos.
Eu sou uma sortuda que saiu do interior do RS, pediu hospedagem pros amigos, economizou três meses de ceva artesanal e tava lá, no segundo dia (escolhi bem escolhidinho hein), pronta pra assistir às bandas que tanto gosto.
Tá, tá, ok. Reconheço que o festival não foi 100% firmeza. Me emputeci com umas coisas lá. O esquema das fichas pra comprar bebida e comida, por exemplo: se tu tivesse comprado na sexta, teria que gastar tudo no dia mesmo, porque no sábado já não ia mais valer. Sabia disso quando fui comprar as minhas (sem nenhuma fila), mas, marotamente, fiquei quieta, pra testar se a moça atendente me orientaria sobre isso. Ela não falou nada. Sacanagem, sabe. Quem quis comprar ficha pros três dias só descobriu que não conseguiria usá-las quando tentou de fato. No domingo, a organização reconsiderou e permitiu que os papeizinhos (aliás, pra que um nome tão ridículo: Pillapalooza? Eu chamei apenas de FICHA) fossem usados, pra quem já tinha comprado. Mas aí eu já tava em casa, com duas fichas sobrando na bolsa. Dei pra minha sobrinha brincar junto com o ingresso e o programa do festival.
E também vi a filonas pra pegar o ingresso comprado na internet ou comprar ali na hora. Bah, era o horror. Ouvi falar dos seguranças que cobravam cem paus pra quem quisesse passar na frente. Cadê civilidade? Bem, eu era uma das que tinha deixado pra comprar o ingresso na última hora. Me deu aquela coisa no peito: e agora, se eu não conseguir?
Foi aí que decidi apelar pra amigos e redes sociais na busca de uma entrada inteira a um preço não absurdo e sem filas. Sempre tem aquele pessoal que prefere garantir o ingresso antes da própria possibilidade de ir, e por um infortúnio da vida mudam de planos, precisando se desfazer do bilhete de alguma forma. Acho que pelo fato do Lolla não ter chegado nem perto de esgotar, consegui um preço bem bom e meu ingresso tava na mão. Não recomendo seguir o meu exemplo. Mas é que eu realmente nasci virada pra lua.
Fui cedo, de metrô, entrei na boa, controlei bem as questões de alimentação e bebida, levei um boné e calcei um tênis que uso pra correr, calculei distâncias entre palcos e horários de shows. Opa, acho que passei aqui a receita do meu sucesso no festival. Porque foi assim que fiquei entre meio-dia e nove da noite, passeando pelo Jockey, vendo shows, curtindo com os amigos e tendo um sábado bem mais legal que tô acostumada.
Eu pelo menos não costumo ver um show do Tomahawk todo sábado, com trilha do Morricone no início e no fim. Com o Trevor Dunn tocando um baixo quase maior que ele e o Jon Stainer esticando o braço pra alcançar a baqueta no prato, vocês já repararam? Ele deixa lá em cima! Prefiro mil vezes o Mike Patton gritando PORRA CARALHO na letra de uma das músicas da banda do que assistir Caldeirão do Huck. E nem vou contar que quase chorei quando vi o QOTSA inteirinho passando no lado no palco pra assistir ao show. Ver Tomahawk junto com o Josh Homme, de certa forma: não teria rolado se eu tivesse ficado em casa.
Aliás, aqui devo dizer que 90% da razão de eu ter ido no Lolla foi o QOTSA. É aqui que eu também explico que essa é a minha banda preferida dos últimos anos, e que eu nunca tinha conseguido vê-los. Vi o Kyuss, vi o Mark Lanegan. Faltava o Queens.
Essa era a minha missão ali, e por essa missão enfrentei adversidades: perdi Alabama Shakes e Nas, tive que aturar o Two Door Cinema Club, tudo em nome de conseguir um bom lugar. A banda do cinema ali era ruim? COM CERTEZA. O público era formado por jovens com roupas estranhas e pinturas no rosto? COM CERTEZA. Isso deveria me incomodar naquele momento? NEM UM POUCO. Consegui um lugar bom pra ver e ouvir o show que me importava? Sim, e o resto é a história que vocês sabem. Batera novo, música nova, primeiro show completo em dois anos. Josh Homme ergue a cabeça pra cantar e olha o público de cima, porque ele sabe que o que tá fazendo ali é tão bom que obriga as pessoas a cantarem os solos. Bem, eu cantei os solos. Ouço aquelas músicas há anos, é como se fossem minhas também. Daquela noite em diante, elas fazem parte da minha história. Eles podiam ter tocado alguma do primeiro disco, ah, eles podiam. Mas tudo bem. Não pretendo que esse seja o único show deles que eu assista.
Terminando o Queens, eu atravessei o Jockey igual um cavalo brabo pra chegar a tempo de ver o A Perfect Circle, última banda que eu pretendia por ali. Na verdade nem precisava, porque cheguei lá enquanto eles tocavam uma versão pavorosa de Imagine. Tirando isso, foi um baita de um show, que não aproveitei mais porque ainda estava obliterada pelo Queens. Mas ver o James Iha tocando teclado e guitarra meio que ao mesmo tempo foi sensacional. Grande banda, grandes músicas, grande Maynard James Keenan, cantor e produtor de vinho. Enquanto a última atração do dia (que eu chamo carinhosamente de Blargh Keys) entrava no palco, eu entrava no trem pra voltar pra casa, sem tumulto, sem problema nenhum, e cheguei em tempo de pegar parte do show na TV.
Depois do festival começaram a surgir vários relatos dos problemas ocorridos. Sem ironia, fiquei bem chateada em saber de gente que passou mal, teve o celular roubado, precisou jogar o tênis fora ou simplesmente desistiu de pegar o ingresso na confusão das filas. Meu amigo passou o maior trabalho pra voltar depois do show do Black Keys. Infelizmente ir a um evento desse tamanho, sabendo que terá muita, mas muita gente envolvida, acarreta em alguns desses riscos.
Isso porque o Lollapalooza é a legítima experiência coletiva, mas a tua atitude também vai determinar se tu vai aproveitar pra valer ou voltar pra casa arrependido. Ciente de que as condições eram essas, eu me programei com calma, e agora só tenho história boa pra levar adiante. Por isso, se tu tá planejando ir a algum festival, seja o Coachella, seja a Festa da Bergamota de São Sebastião do Caí, presta atenção. Garante o ingresso antes, te alimenta e descansa bem no dia anterior, leva chocolate e água de copinho. Vai com os teus amigos, cuida deles. Carrega bem o celular se precisar pegar fila, fica ligado quando usar ele, e pelamordedeus, só tira foto de show se não atrapalhar os outros. Escolhe o show que tu quer ver, pensa se realmente vai valer a pena dadas as condições. Não fica torcendo o nariz pro público, pra quem é indie, hipster, punk, headbanger, pessoa física ou jurídica: ele tá ali pelo mesmo motivo que tu. E se pra ti é o fim da picada pisar na lama ou sentir cheiro ruim, cara, pensa que logo isso vai acabar. Tu pagou caro pra tá lá, sim. Mas ninguém te obrigou, então é feio ficar fazendo beicinho depois.
Eu vou certo no Lollapalooza do ano que vem, se a escalação for boa que nem a desse ano. E, caso alguém encontre o roadie vestido de amish, por favor, me mostre esse cara, que vou eu mesma fazer uma entrevista com ele.
Comentários