Há coisa de 15 dias, eu estava no Planeta Atlântida assistindo ao show do Lulu Santos quando uma garota chegou em mim e, com a melhor das caras de paisagem, perguntou "quem é esse cara no palco?". Quando eu respondi, ela manteve a cara de paisagem e seguiu adiante. Naquele momento, Lulu estava tocando Descobridor dos Sete Mares, hit do tamanho de um elefante africano.
Daí que no último final de semana, durante a transmissão do Grammy, Paul McCartney virou Trending Topic no Twitter de tanto os usuários perguntarem _ ou repercutirem _ "quem é Paul McCartney?". Teve gente que se zangou de verdade, teve gente que achou que tudo não passou de trollagem e teve gente que, como eu, achou engraçado de uma maneira algo histérica.
Vejam: se é possível que no Brasil exista quem não conheça o maior hitmaker da música pop brasileira, não é de se estranhar que no mundo (ou no mundo conectado à internet) o Paul McCartney seja só uma tiazinha inglesa. Lembrando que os Beatles não são o Paul McCartney, tá? _ ou seja, ignorar a existência de PMC não significa desconhecer seu grupo, por mais desconcertante que isso pareça (e de fato o é). O que me leva a pensar que deve existe gente, por exemplo, que sabe cantar Tempos Modernos sem fazer ideia de quem seja seu autor e principal intérprete.
Donde me permito questionar, com um sorriso histérico nos lábios: onde Paul McCartney e Lulu Santos estão errando? Porque, ao meu ver, guardadas as devidas proporções, ambos fazem (ou deveriam fazer) parte do DNA musical de todo mundo. E não estamos falando de gostar ou não dos caras, mas de simplesmente saber de quem se trata.
Não vamos, aqui, levantar aquele velho papo de "ah, essa nova geração, tão alienada e mimimi", ok? Acomodação não é privilégio de quem não viu filme em moviola, assim como o ímpeto de buscar conhecimento (alô ET Bilú!) não distingue idade. Ela depende de vontade individual. E aí que mora o perigo pra esses dinossauros.
Dinossauros, aliás, é a melhor definição para eles neste momento. E não apenas pelo tamanho, mas, por já não "existirem" mais, precisam ser escavados. Quer dizer, só quem se dispuser a tirar toneladas de terra é que vai encontrá-los _ e mesmo assim, só a ossada. Precisa ter muito tesão na coisa pra desencanar do surfe no shuffle e montar um sítio arqueológico.
Claro, não é novidade alguma que dispomos de toneladas de informação e meios para obtê-la como nunca. Mas só agora comecei a me dar conta que esse movimento pode soterrar gente importante como Paul McCartney e Lulu Santos. O desconhecimento deles por parte de uma fatia do público é legítimo e só tende a crescer. Logo, serão artistas quase tão de nicho quanto qualquer outra bandinha surgida nos recônditos da internet.







Gustavo Brigatti pilota a coluna impressa, toda quinta-feira, no Segundo Caderno de Zero Hora e, junto com Fernando Corrêa, desdobra ela de quando em quando aqui no blog, Twitter e Facebook. Todo o ruído que se faz pelos pampas e além sob um olhar nada convencional, altamente opinativo, sinestésico e subjetivo. E sem ninguém ter realmente pedido.



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