Hoje falaremos de sexo. E de música. É que vamos falar sobre franceses, e para falar sobre a importância dos franceses na música, aí fica obrigatório falar de sexo.
Expliquemos: o Les Responsables(foto), banda de Porto Alegre cujo vocalista veio da França, está lançando o ótimo álbum La Vaporisation. Mais do que belas harmonias, a importância das 10 faixas ¿ todas entoadas em francês pelo vocalista Erwan Pottier ¿ resume-se à POSTURA, ao comportamento lascivo e controverso que provém de uma cultura pouco valorizada por aqui nas últimas décadas.
Les Responsables gostam muito de Serge Gainsbourg (1928 - 1991). Esse cara, vocês sabem, compôs aquela música Je T¿Aime… Moi Non Plus, que hoje a juventude chama de música de motel. Mas em 1969, quando o Papa ouviu aquele amontoado de gemidos, aquela ode ao sexo puramente carnal, e toda aquela fome de tesão evidente entre o cantor e a Jane Birkin ¿ que, depois de fazer esse excitante dueto com o Gainsbourg, não resistiu e virou mulher dele ¿, aí o Papa ficou brabo. O Vaticano emitiu um comunicado repudiando a música, e um monte de gente também se enfureceu: a imprensa do mundo inteiro, as famílias do mundo inteiro e até as rádios do mundo inteiro. Mas adivinhem quem gostou?
A juventude.
O Gainsbourg, dizem, era um animal do sexo. Ele só gravou Je T¿Aime… Moi Non Plus com a Jane Birkin porque a Brigitte Bardot ¿ com quem ele vinha fornicando fazia tempo ¿ não queria queimar o filme. Na verdade, ela não queria queimar mais ainda, porque todos diziam que era uma baita safadinha. E, assim como Brigitte e Gainsbourg, os principais expoentes da cultura francesa eram safados pra dedéu: fazia pouco que Jean-Paul Sartre ganhara o Nobel de literatura, e a juventude ainda reverenciava a libertina relação entre ele e Simone de Beauvoir.
Mas e o Les Responsables? Depois que os norte-americanos começaram a ditar os rumos da cultura mundial, nem na França viu-se uma banda de rock com tamanho orgulho dos relatos aí de cima. O quarteto liderado por Erwan ¿ que veio cursar um doutorado em Porto Alegre ¿ arremessa o rock sessentista do The Animals, às vezes num flerte com The Doors e Creedence, em direção à recauchutada chanson roqueira de Jacques Dutronc. Destaque para o suingue de Un Homme Différent. Dá uma ouvida aqui, no MySpace da banda, e depois vai na Livraria Saraiva comprar o disco.
Embora o guitarrista Pedro Pastoriz esteja (merecidamente) indicado ao Prêmio Açorianos na categoria instrumentista, não haveria grande sentido no Les Responsables sem o vocal: despretensioso, por vezes declamado ou sussurrado, busca mesmo é a valorização da libidinosa fonética do idioma de Erwan. E funciona. Safado como deveria ser.
É triste concluir que a cena roqueira de Porto Alegre segue uma porcaria. Não que as bandas sejam ruins, pelo contrário, o problema é que boa parte delas continua estimulando uma competição idiota e sem sentido. Desunidas desse jeito ¿ como o Remix já escreveu em outra ocasião ¿ não vão chegar a lugar algum. O que é uma pena: são artistas promissores boicotando o próprio talento.
Semanas atrás, uma pilha de bandas furibundas entupiu a caixa de e-mails da coluna. Contestavam a seleção dos cinco grupos que o Remix indicou para abrir o show do Franz Ferdinand em Porto Alegre. Não há nenhum problema em xingar a coluna, estamos mais do que acostumados com isso, mas será que ninguém entende o quanto a divulgação de cinco bandas, em uma página inteira com cinco fotos, é relevante PARA A CENA? Meu Deus!
Não entendem o quanto isso é interessante inclusive para as bandas que não figuraram na lista? Não entendem que se trata da valorização de um movimento que, mais cedo ou mais tarde, pode catapultar outras bandas, desde que todas trabalhem juntas? Acordem! Saco.
Esse negócio de ¿tendências¿ sempre foi de uma xaropice gigante.
¿ Ai, tu sabes qual é a última tendência?
Bah, não amola! Quando alguém vem com esse papo, sério, dá vontade de ouvir Roupa Nova.
Mas, como toda regra tem uma exceção, o Remix vem se abrindo cada vez mais para uma turma especializada em festas, digamos, ¿inovadoras¿ aqui em Porto Alegre. Trata-se do mycool (www.mycool.com.br), um grupo genial de moderninhos enjoados da mesmice no circuito alternativo.
E olha que baita ideia eles tiveram para rolar no próximo sábado, no Beco DiskoClub (Rua Félix da Cunha, 977). O negócio se chama Shh! Club Silêncio, e funciona assim: o camarada entra na festa e depara com uma gurizada dançando, cantando, esperneando, se agarrando às ganhas numa pista… em silêncio! Ué.
É que, na real, todo mundo tem um fone sem fio no ouvido. E, em cada fone desses, tem três canais com um DJ discotecando em cada canal. Sacou? Cada DJ, obviamente, bota um estilo diferente de som ¿ um toca pop, o outro toca indie, o terceiro manda electro. Sério, o Remix achou emocionante esse troço. O ingresso é R$ 18.
Na verdade essa festa começou no Festival de Glastonbury, na Inglaterra, mas só o mycool vem se empenhando para trazer essas novidades malucas para cá. É nessas horas que eu digo: adoooro tendências! Ui.
Depois de anos cavoucando bandas novas, já tava na hora de o Remix dar um tempo para estampar por aqui uma foto da Pública ¿ que, não dá para negar, é uma das bandas mais criativas que o Rio Grande do Sul já produziu.
Na estrada há nove anos, o quinteto agora vai morar em São Paulo. Mas antes, numa despedida comovente da terra natal, Pedro Metz e sua gangue tocam hoje no Live Sport Pub (Doutor Barcelos, 435). Show imperdível ¿ porque tanto a Pública como esse bar, o Live, estão entre as melhores coisas que a cidade ainda oferece. Antes das 23h, custa R$ 12. Depois é R$ 15.
A Pública, que agora se atira em busca do mundo, chegará a São Paulo com três Açorianos e um VMB na bagagem ¿ isso para falar só nos prêmios de 2009.
18 de fevereiro de 2010 |
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“(…) a música começou a ser tutelada em termos do que vestir e não vestir em cima do palco, um absurdo. Qualquer adolescente urbano mediamente esclarecido, hoje em dia, se coloca a quilômetros de distância disso”.
O comentário acima foi feito pelo músico Nei Lisboa, no Segundo Caderno do dia 25 de janeiro, e gerou alguma polêmica por, de alguma forma, criticar o tradicionalismo gaúcho. Não vou entrar nesse mérito _ além de conhecer pouco sobre o assunto, sou paulista e, portanto, livre de qualquer amarra ideológica _ mas não tenho como discordar de Nei.
Até porque, sua posição vai além. Essa ditadura não é privilégio da música com viés regional. Na verdade, basta que existam “luminares” dentro de um gênero para que este comece a fazer reféns. O rock produzido no Rio Grande do Sul é um bom exemplo.
Nas últimas décadas do século XX, era quase uma obrigação, da parte de quem estava começando, pedir a benção de duas ou três bandas (sim, vocês sabem quem são) que tinham conseguido relativo sucesso fora do Estado. Nada era feito sem a aquiescência delas e até um termo foi cunhado: rock gaúcho.
Sintomático notar que alguns destes sujeitos estão aí até hoje, reivindicando crédito sempre que uma nova banda aparece, prontos a sacar sua velha cartilha de regras. E quem vai de encontro, navega solitário pelo subterrâneo _ por sinal, cada vez mais agitado e rico musicalmente.
Não que isso esteja restrito ao extremo sul do país. Quer mais que o Blue Sheep, trio de garotas que fazem um hard blues da maior qualidade na Paraíba? Confere o som delas no MySpace (www.myspace.com/bandabluesheep), inspire-se e pense que poderia ser pior: ao invés de reféns do eterno acento sessentista, a parada dominante seria o forró plastificado.
Quem garante é a própria Eveline, guitarrista da Blue Sheep:
_ A ditadura de ritmos nordestinos de que falo é: para ganhar alguma grana como músico, você tem que fazer forró de plástico ou algo assim. E o que mais tem é banda desse estilo por aqui. Até mesmo o forró pé de serra, típico daqui, só um trio com zabumba, triângulo e pifano, é pouco valorizado. A forma de pensar culturalmente falando daqui é bem pequena. Mas nem falo apenas do nordeste, é o Brasil em si.
Duas coisas que vocês não podem perder _ e que se relacionam.
A primeira, o curto _ porém grandioso e esclarecedor _ texto de Nei Lisboa na central do Segundo Caderno desta terça-feira, dia 16/02, repercutindo uma nova rusga com os tradicionalistas. De arrasar.
Segue ele aqui abaixo:
Não aos ¿patrões da cultura¿
Não estou subestimando a inteligência de ninguém ao dizer que a música gaúcha torna-se intragável para um adolescente esclarecido. Estou é afirmando que as gerações do século 21 não irão compactuar com os preconceitos, os estereótipos e o regramento artístico do movimento tradicionalista. Alguém (mais esclarecido) dirá que essa é uma generalização equivocada, já que nem toda a música regional se submete ao perfil do MTG, e que ela abriga outros movimentos como o nativismo, a tchê music, a projeção folclórica etc.
Está certo. Mas, cá entre nós, essas diferenças não são sempre cristalinas para o público. E se há de fato aqueles que refugam o modelo oficialista e conservador, pouco se escuta sua voz. Onde está essa contestação? No espaço mais visível da mídia, o que predomina é uma nebulosa monotemática, sempre pilchada a rigor e exaltando aquele Rio Grande que, sabe-se bem, nunca existiu. Sejam obras-primas e virtuoses, ou melodias e intérpretes canhestros, pouco importa: ficam todos cooptados por essa mitificação e perdem igualmente substância ao se enquadrar em tal moldura.
Usei a exata expressão ¿a música gaúcha torna-se¿ (e nunca ¿a música gaúcha é¿) ao comentar meu desagrado por isso tudo que a envolve. Há uma sutileza gigante entre as duas formas, dentro da qual tentei ser gentil com colegas músicos, e muito duro com pretensos patrões da cultura.
Por óbvio, o gosto de cada um deve imperar na avaliação do que escuta, e isto aqui nem vem ao caso. Não estou recomendando que o gaúcho aprimore a sua técnica musical. Estou sugerindo que atualize a percepção de si mesmo. Que refine com verdade, razão e autonomia a sua trajetória. Aqueles poucos que, adulterando a frase, se apressaram em amesquinhar o tema são os interessados de sempre em insuflar a defesa da ¿valorosa honra do Rio Grande¿, e dela extrair audiência e patrocínio. Talvez esteja aí o melhor exemplo do que é realmente difícil de engolir.
Vale a pena uma visita ao blog do Nei, onde a caixa de comentário mostra em que nível está esse debate.
A segunda vem acompanhada de um dúvida: o que causa mais estranheza nessa combinação: power trio de garotas tocando hard blues, cantando em inglês e francês, direto de João Pessoa, capital da Paraíba.
Foto: Rafael Passos
Acertou quem precisou recolher o queixo depois de ler a localização delas. Tal como o Rio Grande do Sul, a patrulha deve ser forte lá por aquelas bandas. O que significa dizer que o Blue Sheep voltará em breve a ser assunto aqui no Remix. Enquanto isso, sente a pegada no MySpace delas.
Aqui, Eveline (Guitarra), Gabi (Bateria) e Béa (Baixo e Vocal) manda um som ao vivo:
Trabalhei na cobertura desse último Planeta Atlântida. E um dos palcos que mais frequentei foi o Voador, que propunha trazer bandas novas. Mas o que vi e ouvi mesmo foi a exaltação de uma banda antiga, que atualmente anda meio perdida por aí, mas cujos dias de glória dão saudade até naqueles que nem eram nascidos. Quando o DJ atacava nos intervalos entre as bandas, flagrei gente mais feliz cantando alguma faixa dos Raimundos que com a atração que tinha acabado de tocar.
Raimundos em sua formação original
Foi quando entrei numa espécie de transe e me coloquei a pensar. Os Raimundos _ me corrijam se eu estiver errado _ foram os últimos sujeitos a vender discos fazendo rock de verdade no Brasil. E rock, rock mesmo, vocês sabem, é coisa de moleque. Desbocado, descabido, tocado o mais rápido e alto possível, proibido de ser ouvido no carro quando a vó estiver junto, essas coisas. E Rodolfo, Canisso, Fred e Digão eram/faziam tudo isso _ e ainda tinham a manha de aparecer no rádio, vejam só vocês.
E não estou falando da última fase, com aquele medonho Só no Forévis, tão inofensivo e abobado quanto um… sei lá… Mamonas Assassinas. Porque uma coisa é ser engraçadinho, pagar de palhaço e ser motivo de chacota. Outra é ser debochado, saber trabalhar humor e malandragem e incutir nisso peso e pegada. E naquela sofrível primeira metade dos anos 90, quando os cacarecos da década anterior reclamavam o status de deuses, fazendo rock “sério, adulto, evoluído”, chega um bando de maluco cantado que “Eu queria ser o banquinho da bicicleta, pra ficar bem no meio das pernas e sentir o seu ânus suar”.
Ninguém nunca havia ouvido nada igual. O primeiro disco do quarteto, lançado em 1994 _ produzido inclusive pelo gaúcho Carlos Eduardo “Pedro de Lara” Miranda _ caiu feito uma bomba nos pátios dos colégios, onde era cantado do começo ao fim (entendam “fim” como quando o diretor chegava e confiscava a fita K7 da galera). Eu mesmo tive várias fitas destruídas pelos meus pais, horrorizados com aquilo tudo.
ADENDO IMPORTANTE ==> Pais emputecidos + filhos enlouquecidos = rock´n´roll. É assim desde o começo. Se não for, peça seu tédio de volta.
Entretanto, os caras ainda estavam restritos àqueles que tinham acesso ao underground _ numa época em que a inexistência de internet e TV a cabo justificavam o termo. Nenhum jornal ou revista tinha dado muita bola pra eles, eram só uns guris boca suja. Até o lançamento do segundo trabalho, Lavô Tá Novo, em 1995. Rapaz, era mais fácil encontrar um moleque que não tivesse espinhas do que um que não tivesse esse CD.
Nós não sabíamos, mas Lavô Tá Novo era tudo o que a gente queria e esperava. Doze faixas que viraram hinos e, junto com Usuário, do Planet Hemp, e Da Lama ao Caos, do CSNZ, salvaram toda uma geração do bom-mocismo dos Skank e Jota Quest que começavam a despontar.
De repente, o rock voltava a ser perigoso, indecente, proibido e atraente como há muito não era. Até Pitando no Kombão, eu nunca tinha ouvido a palavra “buceta” numa música, pra vocês terem uma ideia. O máximo era um “puta que pariu” que o Evandro Mesquita soltava no final de Chacal Blues e olha lá.
Os Raimundos ainda quebraram tabus. Era com Tora! Tora! que as primeiras rodas de pogo começavam a abrir nas festinhas, substituindo _ heresia das heresias _ a versão ramônica de Surfin Bird. Aos poucos, os brasilienses entravam em coletâneas que antes eram dominadas apenas por Rancid, NOFX, Iron Maiden, Guns n´Roses e Metallica. E até as garotas mais púdicas, que no início repudiavam a baixaria, começaram a gostar e pediam por I Saw You Saying (That You Say Thay You Saw) e O Pão da Minha Prima.
Perdeu? Então ouve inteiro ele aí embaixo:
A festa durou até o Lapadas do Povo (1997). Assim como eu, pouca gente entendeu o disco, muito mais pesado e sombrio, ranzinza diriam alguns. Sem sua marca registrada, o bom humor, os Raimundos estavam a um passo do ostracismo quando decidiram que era hora de voltar ao topo. Problema é que fizeram isso da pior forma possível, com o inominável Só no Forévis. Lembram da diferença entre fazer graça e ser engraçadinho? Pois é, eles optaram pela segunda opção.
Ok, o disco tem faixas boas _ não me lembro quais agora e não vou perder tempo procurando _ e deu oportunidade para que mais gente conhecesse os caras e seu passado. Mas mais importante, me deu a chance ver os caras ao vivo. Na noite fria do dia 10 de junho de 2001, um domingo, eu entrava na malcheirosa arena da Festa do Peão Boiadeiro de Americana para meu primeiro _ e também último _ show deles.
Tá, eu já havia visto o quarteto em 1996 no jurássico Programa Livre, comandado pelo Serginho “Fala Garoto” Groismann, no SBT, mas era outra pilha. Em 2001 eu vestia coturnos (ai…), calça jeans rasgada (ai, ai…), camiseta do Kiss (ai, ai, ai…) e tinha os cabelos pintados com papel crepom azul (PÓF!). Lindo de matar minha mãe do coração, eu me enfie numa van com mais outros tantos iguais e rumei praquele mar de chapéus, fivelas do tamanho de frigideiras, bêbados e cheiro de estrume no ar.
Da apresentação me lembro de areia voando pra todo lado durante as rodas, a galera virando de costas e cruzando os braços durante a execução de Mulher de Fases e de que apenas Digão conversava com o público. Ninguém percebeu, mas era claro que Rodolfo já não curtia mais a parada. Tanto que exatamente um mês depois, o vocalista anunciava sua saída e, a banda, uma dissolução que se mostrou temporária.
Meu transe terminou quando outra banda subiu ao palco e o vocalista pediu para que o público acendesse isqueiros e celulares, pois era “o momento intimista do show”. Atrás dele, bíceps e peitoral trabalhados, braços fechados de tatuagens, cabelos muderninhos, piercings e alargadores a granel, roupinhas justas e descoladas, letras oscilando entre “sou fodão e passo o rodo” e “vou morrer, ela me deixou”.
Não que eu estivesse procurando, mas a resposta para que, dez anos depois do seu fim, os Raimundos ainda despertem simpatia, admiração e até saudade numa turma que nasceu junto com a banda, havia acabado de se materializar na minha frente. Coisa triste.
Que a foto acima é de uma tosquice sem tamanho, disso não resta dúvida, mas o leitor desconhece a genialidade entressachada nessa bizarrice. Portanto, expliquemos.
Há anos o rock brasileiro é dominado pelo extremo oposto dos cabeludos que, na foto acima, exultam metendo os dentes em costelas de porco, todos com os umbigos à mostra numa espelunca onde um pano úmido ¿ encardido e rodeado por uma dúzia de moscas ¿ pinga do varal sobre a mesa da carne. Uma beleza. Uma celebração do ¿dane-se¿. Uma celebração do ¿prefiro meus amigos¿. Uma celebração do ¿não vou ficar chorando pelos cantos feito um borra-botas¿.
Percebem que, às vezes, é isso que faz falta?
O quarteto de Porto Alegre chama-se Cartel da Cevada(www.myspace.com/carteldacevada). E, falando sério, que banda! Não apenas por ser boa. Especialmente porque representa uma reação legítima ¿ mesmo que involuntária ¿ ao amontoado de grupelhos que, desde o início dos anos 2000, repete o mesmo discurso sofredor e coitadinho. Ok, talvez existam bandas legais no meio disso tudo, mas, por favor, onde está a saudável fúria roqueira?
Com tanta melação, quando o extremo oposto aparece ¿ e aí vem o peso metaleiro do Cartel da Cevada que, numa mistura de Pantera com AC/DC, canta refrões tão bagaceiras quanto inteligentes, como em A Puta Mais Feia ¿, quando surge esse contraponto absurdo, a vontade é aplaudir de pé.
Não que a podreira seja a salvação do rock, nada disso. O lance é que uma noite em frente ao Orkut ainda vale bem menos que uma noite em frente à churrasqueira.
Se eu fosse um colunista descolado, coolzão mesmo, e hypado por “antecipar tendências”, eu diria que esse tal de Hadouken! faz nu-indie. Saca essa Turn the Lights Out, do recém-lançado disco do grupo, For the Masses.
Pô, nu-indie é um rótulo que poderia pegar, diz aí? Mistura do punk eletrônico do Prodigy com Franz Ferdinand com uma pitada de Fred Durst, o que me dizem? Posso imaginar a galere super animada, de mãozinhas pra cima e chacoalhando a cabeça baixa de um lado por outro, só levantando o coco pra gritar “Go!Go!Go!”.
Pra quem se interessou, o MySpace da banda é esse e o canal no YouTube, aqui.
Manja os Los Hermanos? Lembra do primeiro disco? Puta pegada. Marcelo Camelo chorava as pitangas fazendo hardocore e não soava emo. Era bom pra caramba, divertido, maroto, descompromissado. Aí, do nada, de repente, sem mais nem menos, vira o maior bunda mole do pop rock nacional. Troca a guitarra pelo violão de nylon, cruza as pernas num banquinho e inventa de fazer bossa nova.
A minha vontade é de pegar o sujeito pelo colarinho, dar dois tabefes com as costas da mão e perguntar:
- Onde tá doendo, meu filho? Fala pra mim, por que tu tá chorando desse jeito? Fala, ô m****!
Tá reclamando de mulher? Que tomou um pé, não é “compreendido”, é sensível e tímido demais, não sabe como chegar nelas, é esnobado e coisa e tal? Então ouve o que Jay-Z tem a lhe dizer e some da minha frente:
Nem vou citar toda essa geração de guris que mais parecem gurias, vestindo calças coloridas justas e cabelos cheios de pomada, que tocam seus instrumentos como se comessem manga com garfo e faca. E ainda se intitulam “banda de rock”, “músicos”, o tipo de coisa que o Código Penal qualifica como estelionato.
Então não sei se é pelo fato de eu estar a uma semana jogando Brütal Legend sem parar _ aliás, vocês conhecem Brütal Legend? É o Rock´n´Roll Racing do novo milênio, se é que vocês me entendem _ ou ter sido obrigado a ouvir justamente essa galera supracitada para uma matéria, mas meu nível de tolerância com o politicamente correto na música é cada vez menor.
O que nos leva ao Cartel da Cevada. Sim, banda de nome algo engraçadinho, foi o que eu pensei quando li a respeito. Por isso mesmo não fui atrás antes, eu tenho meus preconceitos e não abro mão deles assim de primeira _ até porque, são eles que me protegem…
Mas então bati bom um papo com Igor Assunção, vocalista e guitarrista da gangue, composta também por Nando Rosa (guitarras), Richard Zimmer (baixo) e Samuel Sbaraini (bateria). E me interessei em ouvir, e ouvi e TOF! que alívio. Riffs de verdade, grave comandando do começo ao fim, clima de confraternização ginasial, letras incorretas (palavrões, meu deus, a quanto tempo eu não ouvia um palavrão saindo dos meus falantes!) e cheias de histórias que eu e você, movidos a testosterona, já vivemos algum dia.
Uns mininu bunitu, viu...
Quer um exemplo? Olha o que diz a letra de A Puta Mais Feia (construída, a propósito, sobre uma estupenda base hardrock setentista. Alguém aí falou em Motörhead?):
E quando a vi esperando em seu ponto
E no meu bolso eu só tinha 15 conto
Mesmo sabendo o perigo, eu arrisquei
Mesmo sendo tudo aquilo, eu paguei
“Ai, quanta besteira, credo, ui, nossa, que grosseria, nada a ver, mãe vem me limpar”, dirá o mancebo de madeixas descoloridas e munhequeira de veludo. É, é baixo, violento, vulgar, direto, o tipo de música que nunca vai tocar no rádio. A trinca mulher-trago-rock´n´roll permeia todas as outras faixas disponíveis no MySpace _ que apesar de serem demos, impressionam pela boa qualidade.
Você também pode linkar com as Velhas Virgens, mas diferente dos paulistas, que viajam pela bluseira eletrificada, os gaúchos do Cartel se puxam no metal. A minha preferida é Caminhoneira, número perfeito para um bom bate-cabeça OU pegar a estrada com os amigos rumo a qualquer lugar onde tenha, ãh, mulher-trago-rock´n´roll.
Segundo Igor, o grupo deve preparar um EP melhor gravado ainda neste início de ano. Se mantiver a pegada, vai servir de guia espiritual pra essa molecada entender o que é rock de verdade.
Toda a lama e todo o glamour do mundo alternativo estão Blog do Remix, a versão online da coluna Remix, publicada todas as quintas-feiras no Segundo Caderno do jornal Zero Hora. Aqui você encontra as últimas sobre música e cultura alternativa de Porto Alegre e do mundo.