4 de fevereiro de 2010 |
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Foto: Gabriela Dias, Divulgação
Que a foto acima é de uma tosquice sem tamanho, disso não resta dúvida, mas o leitor desconhece a genialidade entressachada nessa bizarrice. Portanto, expliquemos.
Há anos o rock brasileiro é dominado pelo extremo oposto dos cabeludos que, na foto acima, exultam metendo os dentes em costelas de porco, todos com os umbigos à mostra numa espelunca onde um pano úmido ¿ encardido e rodeado por uma dúzia de moscas ¿ pinga do varal sobre a mesa da carne. Uma beleza. Uma celebração do ¿dane-se¿. Uma celebração do ¿prefiro meus amigos¿. Uma celebração do ¿não vou ficar chorando pelos cantos feito um borra-botas¿.
Percebem que, às vezes, é isso que faz falta?
O quarteto de Porto Alegre chama-se Cartel da Cevada(www.myspace.com/carteldacevada). E, falando sério, que banda! Não apenas por ser boa. Especialmente porque representa uma reação legítima ¿ mesmo que involuntária ¿ ao amontoado de grupelhos que, desde o início dos anos 2000, repete o mesmo discurso sofredor e coitadinho. Ok, talvez existam bandas legais no meio disso tudo, mas, por favor, onde está a saudável fúria roqueira?
Com tanta melação, quando o extremo oposto aparece ¿ e aí vem o peso metaleiro do Cartel da Cevada que, numa mistura de Pantera com AC/DC, canta refrões tão bagaceiras quanto inteligentes, como em A Puta Mais Feia ¿, quando surge esse contraponto absurdo, a vontade é aplaudir de pé.
Não que a podreira seja a salvação do rock, nada disso. O lance é que uma noite em frente ao Orkut ainda vale bem menos que uma noite em frente à churrasqueira.
Se eu fosse um colunista descolado, coolzão mesmo, e hypado por “antecipar tendências”, eu diria que esse tal de Hadouken! faz nu-indie. Saca essa Turn the Lights Out, do recém-lançado disco do grupo, For the Masses.
Pô, nu-indie é um rótulo que poderia pegar, diz aí? Mistura do punk eletrônico do Prodigy com Franz Ferdinand com uma pitada de Fred Durst, o que me dizem? Posso imaginar a galere super animada, de mãozinhas pra cima e chacoalhando a cabeça baixa de um lado por outro, só levantando o coco pra gritar “Go!Go!Go!”.
Pra quem se interessou, o MySpace da banda é esse e o canal no YouTube, aqui.
Manja os Los Hermanos? Lembra do primeiro disco? Puta pegada. Marcelo Camelo chorava as pitangas fazendo hardocore e não soava emo. Era bom pra caramba, divertido, maroto, descompromissado. Aí, do nada, de repente, sem mais nem menos, vira o maior bunda mole do pop rock nacional. Troca a guitarra pelo violão de nylon, cruza as pernas num banquinho e inventa de fazer bossa nova.
A minha vontade é de pegar o sujeito pelo colarinho, dar dois tabefes com as costas da mão e perguntar:
- Onde tá doendo, meu filho? Fala pra mim, por que tu tá chorando desse jeito? Fala, ô m****!
Tá reclamando de mulher? Que tomou um pé, não é “compreendido”, é sensível e tímido demais, não sabe como chegar nelas, é esnobado e coisa e tal? Então ouve o que Jay-Z tem a lhe dizer e some da minha frente:
Nem vou citar toda essa geração de guris que mais parecem gurias, vestindo calças coloridas justas e cabelos cheios de pomada, que tocam seus instrumentos como se comessem manga com garfo e faca. E ainda se intitulam “banda de rock”, “músicos”, o tipo de coisa que o Código Penal qualifica como estelionato.
Então não sei se é pelo fato de eu estar a uma semana jogando Brütal Legend sem parar _ aliás, vocês conhecem Brütal Legend? É o Rock´n´Roll Racing do novo milênio, se é que vocês me entendem _ ou ter sido obrigado a ouvir justamente essa galera supracitada para uma matéria, mas meu nível de tolerância com o politicamente correto na música é cada vez menor.
O que nos leva ao Cartel da Cevada. Sim, banda de nome algo engraçadinho, foi o que eu pensei quando li a respeito. Por isso mesmo não fui atrás antes, eu tenho meus preconceitos e não abro mão deles assim de primeira _ até porque, são eles que me protegem…
Mas então bati bom um papo com Igor Assunção, vocalista e guitarrista da gangue, composta também por Nando Rosa (guitarras), Richard Zimmer (baixo) e Samuel Sbaraini (bateria). E me interessei em ouvir, e ouvi e TOF! que alívio. Riffs de verdade, grave comandando do começo ao fim, clima de confraternização ginasial, letras incorretas (palavrões, meu deus, a quanto tempo eu não ouvia um palavrão saindo dos meus falantes!) e cheias de histórias que eu e você, movidos a testosterona, já vivemos algum dia.
Uns mininu bunitu, viu...
Quer um exemplo? Olha o que diz a letra de A Puta Mais Feia (construída, a propósito, sobre uma estupenda base hardrock setentista. Alguém aí falou em Motörhead?):
E quando a vi esperando em seu ponto
E no meu bolso eu só tinha 15 conto
Mesmo sabendo o perigo, eu arrisquei
Mesmo sendo tudo aquilo, eu paguei
“Ai, quanta besteira, credo, ui, nossa, que grosseria, nada a ver, mãe vem me limpar”, dirá o mancebo de madeixas descoloridas e munhequeira de veludo. É, é baixo, violento, vulgar, direto, o tipo de música que nunca vai tocar no rádio. A trinca mulher-trago-rock´n´roll permeia todas as outras faixas disponíveis no MySpace _ que apesar de serem demos, impressionam pela boa qualidade.
Você também pode linkar com as Velhas Virgens, mas diferente dos paulistas, que viajam pela bluseira eletrificada, os gaúchos do Cartel se puxam no metal. A minha preferida é Caminhoneira, número perfeito para um bom bate-cabeça OU pegar a estrada com os amigos rumo a qualquer lugar onde tenha, ãh, mulher-trago-rock´n´roll.
Segundo Igor, o grupo deve preparar um EP melhor gravado ainda neste início de ano. Se mantiver a pegada, vai servir de guia espiritual pra essa molecada entender o que é rock de verdade.
Infinitas parecem ser as camadas do underground. E insondáveis suas razões de existir. O que leva, por exemplo, um bando de magrões pegar em instrumentos e misturar o mais profundo country-bluegrass hillbilly redneck norte-americano com rock pesado? E ainda fazer dar certo, o que é mais impressionante.
Sem muitas explicações, o saloon Dr. Jekyll abrigará duas boas representantes dessa turba para uma noite, digamos, temática. Nesta quinta, a partir das 23h, sobem no elevado os Hellbelicos e a Diablo Fuck Show, contando histórias de bebedeiras homéricas, encontros insólitos com o coisa-ruim, acerto de contas sangrentos, mais bebedeiras, fêmeas fatais e por aí. Clima do conhecido Titty Twister, se é que estamos sintonizados.
Os Diablos apostam num som limpo e econômico, deixando evidente uma forte raiz punk e oi!. As três faixas disponíveis no MySpace da banda, por exemplo, parecem na medida para serem curtidas numa boa roda de pogo. É simples e eficaz, direto mesmo.
Já os Hellbelicos trabalham um pouco mais seus instrumentos e influências, construindo com muita propriedade o cenário de suas crônica. Dá para sentir o gosto do pó quente que impregnava todos e tudo naquelas cidadezinhas do velho oeste americano. Ou as praias terríveis da Escandinávia, porque eles também incorporam elementos de metal nórdico _ é sério!
Foto: Kasha
Só um alerta: se for levar mulher, ouça as letras dos caras antes. Depois, eu não vou colaborar com vaquinha para o dinheiro do resgate…
Confesso que ainda não sei o que fazer com o meu coturno. Tá lá em casa, secando na sombra, para ver se depois eu consigo arrancar a lama. A calça jeans também, tá de molho em água de bateria. Os ouvidos estão recuperados, mas a garganta e as costas precisam de mais uma noite de sono.
E, por deus, como valeu a pena. Nem o caos da saída é capaz de superar a alegria que foi ter vivido o show do Metallica, ontem, em Porto Alegre. Vivido, sim, porque uma apresentação como aquela você não assiste, passivo, batendo o pezinho. Ela é sentida com cada músculo, osso e órgão, tudo junto, dialogando direto com cada um dos integrantes e seus instrumentos.
Que potência. Ouvir Ride the Lightning foi como ser atingido por um milhão de cavalos do inferno disparando direto das colinas depois de terem devastado o Olímpo e comido a cabeça de todos os deuses. E fale o que quiser, James Hetfield ainda é a voz mais mauzona do rock. E os velhos se puxam muito, tocando de verdade, te convencendo que tu não gastou seu dinheiro a toa e eles ainda estão no topo, que aquela lama toda é só para resfriar o caldeirão que eles estão evocando dentro do seu cérebro.
Eu não vou citar todas as músicas, o set list é conhecido a horas e amanhã sai resenha certinha no Segundo Caderno. Mas não posso deixar de dizer que verti copiosas lágrimas logo nos primeiros acordes de Nothing Else Matters. C******, aquilo ali era a minha adolescência toda, de cabo a rabo ouvindo o Black Album e pensando como tinha vivido até então sem aquilo. E de repente estava acontecendo, ali, na minha frente, pelos quatro cavalheiros de preto rufando alto.
E pode me chamar de palha, mas juro que rezei secretamente para que eles tocassem The Unforgiven e eu me acabasse de chorar junto com outros tantos headbangers que, eu sei, também tem nessa faixa na trilha sonora de seus momentos mais noturnos. Aqueles que não contamos pra ninguém, mas são tão grandes e gritam tão alto que não tem como esconder.
Fora a produção: fogos, fogo no palco, efeitos sonoros para receber One igual ao original… profissionais no melhor sentido da palavra. Podiam ter cagado e feito um show de merda, já tinham ganho o deles e vocês sabem disso. Mas, eu senti isso, foram lá e moeram de verdade. Acreditei em cada palavra e nota que era cuspida daquelas imensas caixas de som.
Obrigado, Metallica, por adiantar o meu trabalho de escolher o melhor show do ano em Porto Alegre.
Então eu tô de rolê por aí e topo com esse curta do Slipknot:
A parada foi feita para divulgar a faixa Snuff, do último disco de estúdio dos caras, All Hope is Gone. A despeito da qualidade musical do grupo, que muitos consideram duvidosa e até picareta, eu gosto deles. Me agradam, e essa música em especial é bonita, me diz muita coisa e tem essas infalíveis alternações de dedilhados com pauladas.
E o filminho é interessante, mostra o hoje esquecido Malcom McDowell, que em tempos áureos tornou-se ícone da cultura pop como o líder dos drugs de Laranja Mecânica (Stanley Kubrick, 1971).
Mas um conselho: segure seus pensamentos a respeito da louraça belzebu. O final pode revelar-se particularmente incômodo. Ou não. E aí não sei o que pode ser mais, hã, confuso…
A MESS, você sabe, é a banda de coração do Remix. Então quando eles disponibilizam outra faixa do mais do que esperado disco de estreia, é claro que a gente vai falar dela.
Accelerate entrou no ar ontem, quinta-feira, e estreou em palco no mesmo dia, durante o show que o grupo fez no Porão do Beco abrindo para o Império da Lã. Se você perdeu, vai ter outra chance semana que vem, quando eles tocam junto com Fernando Aragones nas sempre bem vindas Las Locas Quartas del Dr. Jekyll.
Vai lá e ouve. Saca o vocal funcionando como um instrumento, entrelaçado com guitarra, baixo e bateria? Não se sobressai, não fica por baixo nem cansa. Até quando é reforçado por um breve backing no refrão ele permanece no seu lugar de marcação. E quando sai, é para permitir 40 segundos de “quebra tudo ai, meu filho!”.
Abaixo, o grupo no Camarote TVCOM, interpretando Don´t Mess With My Heart. Fino, muito fino.
A produtora Day 1, que está trazendo o Franz Ferdinand para o Brasil, está procurando bandas locais para a abertura dos shows. E isso inclui Porto Alegre, onde Alex Kapranos e cia. tocam no dia 18 de março.
Ou seja, mais uma chance pra quem quer (e tem coragem de) mostrar seu trabalho diante de uma platéia que, definitivamente, não quer ouví-los. É batismo de fogo, pergunta pra galera da Véspera, que abriu para o Faith No More…
De qualquer forma, não há nada oficial ainda. Apenas a intenção. Quando e se rolar mais informações, atualizamos por aqui mesmo no blog.
Stay tuned.
UPDATE 22/01
Turminha, a Day 1 lançou o site oficial do show. Lá dá para indicar a banda que você quer que abra para o FF. Vai por aqui.
Depois de duas semanas espinafrando o Bono Vox, o Remix vai se redimir sabe como? Adivinha.
Falando bem do David Bowie.
Uma boa, né? Afinal, também se trata de um veterano que vendeu disco pra burro ¿ e ponto, acabaram-se as semelhanças.
Bueno, o fato é que hoje e amanhã o StudioClio (José do Patrocínio, 698) recebe o ator e cantor paulista André Frateschi, que há seis anos comanda um espetacular tributo a um dos maiores gênios da arte contemporânea, ao pai da androginia e do glamour roqueiro, ao dono daquela voz que ¿ segundo garantiu ontem uma colega de Zero Hora ¿ ¿emana a fúria sexual adormecida em qualquer senhorinha¿. Deusolivre!
¿ Interpretar o Bowie é como montar uma peça de Shakespeare. Estudo profundamente, me debruço sobre o personagem como faço para encenar Hamlet ¿ diz André Frateschi, que o leitor pode ter visto na novela Páginas da Vida.
André encarna Bowie na banda Heroes, um dos melhores projetos cover do país. Mas nos shows por aqui ¿ que começam às 21h, a R$ 40 ¿, pela primeira vez todas as versões serão acústicas, com piano e violão. O que, falando sério, deve ficar massa. Até porque, segundo André, ¿não vamos destruir obras-primas com versões bossa nova¿. Ufa.
Aliás, esse negócio de interpretações desplugadas do Bowie tem uma história bizarra. O Seu Jorge, vocês sabem, fez a trilha acústica do filme A Vida Marinha com Steve Zissou (2004) cantando em português 13 músicas do londrino. Espertalhão que é, pegou a versão do Nenhum de Nós para Starman, batizada O Astronauta de Mármore, e gravou como sendo dele!
Rapaz, deu um rebuliço do cão aquela coluna da semana passada. Tudo porque o Remix expressou uma opinião que agora vai repetir aqui, ó: Bono Vox disse uma montanha de idiotices sem nenhum fundamento quando, num artigo do New York Times, condenou o download gratuito de músicas.
Teve gente bem braba.
Alguns defenderam Bono Vox canonicamente, afinal ele merece respeito por ser preocupado com o futuro da humanidade, da natureza, das crianças, das baleias e dos pigmeus. Bom, com isso o Remix também se preocupa. Mas aí disseram que ele deixou de ser Bono Vox faz tempo, agora é só Bono. Bom, com isso o Remix se preocupa menos ¿ embora U2 seja tri.
Esclarecido isto, vamos nos ater à segunda parcela de leitores furibundos, aqueles que entenderam a coluna da semana passada como uma defesa à pirataria. Não foi a intenção. O Remix apenas contestou os argumentos disparatados empregados por Bono ¿ que, honestamente, são de doer no rim. Ao tentar defender seus próprios interesses, o sabichão disse que os maiores prejudicados pelo download gratuito são os “jovens compositores”. Por favor, que papo é esse?
Fosse verdade, a piazada da Fresno ¿ que há quatro anos teve uma única música baixada gratuitamente UM MILHÃO de vezes _ não seria uma das mais bem-sucedidas bandas do Brasil. Fosse verdade, a piazada do Arctic Monkeys, um fenômeno do MySpace, não teria se tornado a banda cujo disco de estreia mais vendeu na história do Reino Unido. Enquanto isso, Bono Vox fica defendendo a vida socada numa loja de discos, o que é muito legal, mas definitivamente parece meio fora de moda.
Não quer dizer que devam liberar o download gratuito, nada disso. Mas a resistência à se adaptar a uma nova realidade fonográfica ¿ postura exclusiva de veteranos como Bono, e jamais de “jovens compositores” ¿ funciona apenas como murro em ponta de faca. Prova disso é uma pesquisa encomendada em novembro pelo selo inglês Think-Tank Demos.
Conduzido pelo instituto Ipsos Mori, o estudo revela que os internautas “ilegais”, aqueles que baixam músicas gratuitamente, são justamente os que mais gastam comprando discos. O que parece meio óbvio: o sujeito vai lá, ouve de graça uma ou duas músicas da nova bandinha e, se gostar, bingo: vai atrás da bolacha. Olha o que diz o Peter Bradwell, dono do Think-Tank:
¿ O governo e as empresas precisam reconhecer que a natureza do consumo de música mudou, e que os consumidores exigem preços mais baixos e acesso mais fácil.
Resumindo: ao atacar esses “delinquentes” da internet, Bono e sua turma açoitam quem mais lhes dá dinheiro. É lógico que o download gratuito implica prejuízos, mas apenas porque não houve uma força-tarefa para pensar em como se aproveitar dele. O Radiohead, no ano passado, ganhou rios de dinheiro ao liberar o disco inteiro para os fãs baixarem, sob o preço que bem entendessem. Sensacional!
Não dá para liberar o download gratuito, com isso o Remix concorda. Mas também não dá para liberar um artigo para o Bono Vox.
Toda a lama e todo o glamour do mundo alternativo estão Blog do Remix, a versão online da coluna Remix, publicada todas as quintas-feiras no Segundo Caderno do jornal Zero Hora. Aqui você encontra as últimas sobre música e cultura alternativa de Porto Alegre e do mundo.