Legítimo poeta do underground, Éverton Cidade lança neste sábado o livro SANTO PÓ/P. A função rola na bonita Casa da Traça (Independência, 450), a partir das 17h e com entrada franca.
O lançamento do livro, que tem ilustrações do Gabriel Renner, será acompanhado ainda de pocket show da Siléste, projeto que une Cidade, Magder, Leonardo Serafini e Cris. E playlist pela Gabi Tellini.
No mesmo espaço e na mesma pilha rola também a exposição Crônicas de Rodoviária, do Giovani Paim (foto acima).
Segue um dos poemas, pra sentir o tranco:
LAZARO
1.
Sou lazaro
O fracasso branco
Fodendo no banco
De trás do teu carro
Sou Lazaro vivo
Entre os mortos
E morto entre os vivos
Sou o produto
Único e inquestionável
De anos de facismo
Católico e capitalista
Sou o único infeliz
Com a bondade e seu
Preciosismo do consumo
Direto e adulto
Sou Lázaro
O fracasso branco
O grande fracasso branco
Com bom gosto
E mãos de santo
Machucadas com pelúcia
E costuradas com pelúcia
Numa emergência de
Hospital público
Sou a ciência
Sou também a violência
Nos milagres que publico
Como meus,
Mas que são teus
Porque todo que sou
Tudo que penso que sou
Que nego que sou
É teu e apenas teu
Pois, sou Lázaro
O fracasso branco
Sou a garganta
Que se fez autofalante
Do que tua voz menda
Sou quem te canta
Com mel e azeite
Com menta e marzipan
Com aftas na língua
Com enfeites baratos
De lojas de rodoviária,
De botecos, de camas,
Onde, apesar do toque,
Nossos sexos permanecem
Secos, miúdos, à míngua,
De beijos
De hóstias
De rezas
Que revelem
Cristo
Entre os mortos
Porque não há morte.
Há distância apenas.
Há rejeição apenas.
E falta de ar
A alegria há
Mas a tão duras penas
Que melhor é abandonar
A felicidade pela
Comodidade
De apenas dormir,
Comer, dormir, acordar,
Sou medíocre como são
Todos os meus,
Mas eles
Ainda tem o amor como benção
Para mim o que sobrou senão
O dom mal usado da pregação
E da escrita ruim
E que desperdícios os atos de amor
Que cometeram por mim
Que grande energia
Desperdiçada com
Essa máquina com
Essa máquina de desgosto
Que sou, essa piada
Essa alma descarrilada
Sobre girassóis e bíblias
Sobre poesias de colégio
Revistas pornográficas
E quem me dera, quem me dera
Ter eu, ainda, forças
Pra mais um sacrilégio
O último dessa minha visa
De asma e fossas.












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