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Posts na categoria "Arte"

O pó pop do Cidade em livro

23 de agosto de 2012 1

Crédito: Giovani Paim

Legítimo poeta do underground, Éverton Cidade lança neste sábado o livro SANTO PÓ/P. A função rola na bonita Casa da Traça (Independência, 450), a partir das 17h e com entrada franca.

O lançamento do livro, que tem ilustrações do Gabriel Renner, será acompanhado ainda de pocket show da Siléste, projeto que une Cidade, Magder, Leonardo Serafini e Cris. E playlist pela Gabi Tellini.

No mesmo espaço e na mesma pilha rola também a exposição Crônicas de Rodoviária, do Giovani Paim (foto acima).

Segue um dos poemas, pra sentir o tranco:

LAZARO
1.
Sou lazaro
O fracasso branco
Fodendo no banco
De trás do teu carro
Sou Lazaro vivo
Entre os mortos
E morto entre os vivos
Sou o produto
Único e inquestionável
De anos de facismo
Católico e capitalista
Sou o único infeliz
Com a bondade e seu
Preciosismo do consumo
Direto e adulto
Sou Lázaro
O fracasso branco
O grande fracasso branco
Com bom gosto
E mãos de santo
Machucadas com pelúcia
E costuradas com pelúcia
Numa emergência de
Hospital público
Sou a ciência
Sou também a violência
Nos milagres que publico
Como meus,
Mas que são teus
Porque todo que sou
Tudo que penso que sou
Que nego que sou
É teu e apenas teu
Pois, sou Lázaro
O fracasso branco
Sou a garganta
Que se fez autofalante
Do que tua voz menda
Sou quem te canta
Com mel e azeite
Com menta e marzipan
Com aftas na língua
Com enfeites baratos
De lojas de rodoviária,
De botecos, de camas,
Onde, apesar do toque,
Nossos sexos permanecem
Secos, miúdos, à míngua,
De beijos
De hóstias
De rezas
Que revelem
Cristo
Entre os mortos
Porque não há morte.
Há distância apenas.
Há rejeição apenas.
E falta de ar
A alegria há
Mas a tão duras penas
Que melhor é abandonar
A felicidade pela
Comodidade
De apenas dormir,
Comer, dormir, acordar,
Sou medíocre como são
Todos os meus,
Mas eles
Ainda tem o amor como benção
Para mim o que sobrou senão
O dom mal usado da pregação
E da escrita ruim
E que desperdícios os atos de amor
Que cometeram por mim
Que grande energia
Desperdiçada com
Essa máquina com
Essa máquina de desgosto
Que sou, essa piada
Essa alma descarrilada
Sobre girassóis e bíblias
Sobre poesias de colégio
Revistas pornográficas
E quem me dera, quem me dera
Ter eu, ainda, forças
Pra mais um sacrilégio
O último dessa minha visa
De asma e fossas.

El Mundo de Wander Wildner (nesta quinta, no Opinião)

26 de julho de 2012 0

Crédito: Fernanda Chemale

Por onde andou Wander Wildner nos últimos dois anos? A resposta está em Rodando El Mundo, DVD que o bardo porto-alegrense lança hoje no Opinião (José do Patrocínio, 834).

O disquinho traz o repertório que WW apresenta atualmente em seus espetáculos (incluindo o desta noite), misturando composições de agora e clássicos eternos, na forma de videoclipes, trechos de shows ao vivo, programas de TV e até audioslide.

Tipo:

Destaque para a ponta que o cantor faz em um quadro de humor na TV uruguaia e a emocionante interpretação de Amigo Punk com a participação de Frank Jorge e o gaiteiro nativista Gilberto Monteiro. Em resumo, uma revisão histórica sem saudosismo e cheia de energia e tesão. Como o concerto de logo mais.

A casa abre às 21h e os ingressos na hora custam R$ 30.

Quanto vale a sua arte?

20 de janeiro de 2011 1

Você que faz música. Você que escreve. Você que junta som e imagem. Você que lasca, pinta e borda. Você que arranca a lágrima e o sorriso. Você que acredita, como diria o Marcelo Nova. Quanto vale o que você faz, meu amigo? Quanto custa o seu trabalho? Dá para por preço na sua arte? Do que você vive, afinal?

Roberto Scopel e Swami Sagara estavam registrando imagens e depoimentos de músicos para um DVD do seu projeto de música eletrônica, Ccoma, quando essas perguntas se impuseram. E o que seria um simples filmete sobre a banda, virou uma investigação que terminou no documentário Profissão: Músico.

Entre entre outubro de 2009 e dezembro de 2010, a dupla de Caxias do Sul, em parceria com o cineasta colombiano Daniel Vargas, falou com instrumentistas do Brasil, Uruguai, Colômbia, Alemanha, Grécia, França e Inglaterra buscando entender porque catzo alguém decide virar músico numa época onde as gravadoras faliram, ninguém está mais disposto a pagar por música e o glamour e afetação que sempre acompanharam a parada deram lugar a muito trabalho.

– O próprio título é um deboche. Aqui, todo mundo pergunta a sua profissão quando você diz que é músico, não importa se você tem 10 anos de conservatório – explica Sagara.

Na Europa, durante o giro que fizeram no final de 2009, mesmo músicos de rua encaravam com estranheza os questionamentos da dupla. Tocando no metrô, em praças ou esquinas, ninguém ali tinha dúvidas que tirava o sustento da própria arte. No Brasil, a reação só encontrava resposta igual vinda de gente tarimbanda, como o guitarrista Edgar Scandurra e o percussionista Naná Vasconcelos.

– Pra esse pessoal é natural viver da música, mas deixam claro que o trabalho hoje é bem diferente e mais pesado do que na época em que começaram – diz Sagara.

As mais de 400 horas de imagens captadas em busca de respostas (e mais perguntas) foram compiladas em 45 minutos de edição nervosa, que conta ainda com depoimentos de profissionais da comunicação e trilha original do Ccoma. A estreia está marcada para o dia 1º de março no Zarabatana (Luiz Antunes, 312), em Caxias.


A REDE ANALÓGICA

A mesma busca por respostas dá o rumo de Fanzineiros do Século Passado, mas o trabalho do paulistano Márcio Sno segue para outro lado. Sem se preocupar tanto em entender porque alguém gastava (gasta?) tempo e dinheiro produzindo publicações restritas a um nicho específico e mais nas histórias das pessoas envolvidas, ele consegue um retrato do que pode ser considerada a primeira tentativa de rede social da história.

O documentário reúne gente de todo o país que dedicou boa parte de seu ócio juvenil a espalhar um conteúdo que não estava no noticiário habitual e, assim, criar uma rede de troca de conhecimento e informação movida a pesquisa, redação, recortes, grampos, cola, envelopes e selos.

– Os fanzines eram porta-vozes de resistência e subversão, um lugar onde você encontrava coisas que jamais encontraria em jornais e revistas vendidos em bancas – explica Márcio.

O primeiro capítulo, As Dificuldades Para Botar o Bloco na Rua e a Rede Social Analógica, estreia no dia 12 de fevereiro, no 1º Ugra Zine Fest, em São Paulo.

Violada no róque

01 de dezembro de 2010 0

(Foto meramente ilustrativa do cantor Sérgio Ricardo quebrando seu violão no Festival da Música Brasileira em 1967)

Eu já devo ter dito aqui uma cacetada de vezes que sou paulista do interior. Caipira, capiau, matuto, essas paradas todas. E como todo guri de interior (força esse "r" aí, rapá!), gosto de botas (que eu adaptei para coturnos) e chapéu (que eu larguei de mão, mas pretendo retomar um dia), dispensando, no entando, o lance das calças apertadas, fivelas do tamanho de frigideiras e o gosto por caminhonetes do tamanho de tanques de guerra.

Embora também passe longe do sertanejo romântico que tomou conta do país lá pelo final dos anos 1990, tenho especial apreço pela moda de viola. Moda de viola, manja? Tião Carreiro & Pardinho, Tonico & Tinoco, Pena Branca & Xavantinho, Pedro Bento & Zé da Estrada, Craveiro & Cravinho, essa galera que gostava de contar histórias usando principalmente violas. E moda de viola, grosso modo, é isso, um sujeito (ou dois...) contando uma história (normalmente com final trágico) levada por violas. Manja Faroeste Caboclo? Se o Renato Russo tocasse viola, aquilo seria uma legítima moda de viola...

Mas quem entende do riscado sabe que a viola é instrumento dos mais versáteis e arrojados. Por trás de todo preconceito e desinformação, existe uma fábrica de melodias complexas e bonitas.

O que eu jamais esperava, no entanto, era ver clássicos do rock pesado em versões para viola. Quer dizer, eu já conhecia sertanejo moderno em versão hardcore pelos aloprados do Hardneja Sertacore, agora Master of Puppets com arranjo para viola me fez cair pra trás.

Primeiro por ser inédito. Segundo, por ter ficado de muito bom gosto.

O Moda de Rock é um trabalho dos violeiros Ricardo Vignini e Zé Helder. No site dos caras dá para saber um pouco mais do projeto, comprar e ouvir o disco _ além do MySpace.

Saca a lista de músicas convertidas para uma roda de viola:

Kashimir - Led Zeppelin
Master of Puppets - Metallica
Norwegian Wood - Beatles
In The Flesh - Pink Floyd
Kaiowas - Sepultura
May This Be Love - Jimi Hendrix
Aces High - Iron Maiden
Mr. Crowley - Ozzy Osbourne
Smells Like Teen Spirit - Nirvana
Hangar 18 - Megadeth
Aqualung - Jethro Tull

O que primeiro me saltou aos ouvidos foi a riqueza de detalhes que os arranjos para viola trouxeram à tona. Uma canção simples como Smells Like Teen Spirit soa como um labirinto sonoro, enquanto Kaiowas perdeu sua capa de distorções e a gordura pesada para transformar-se numa faixa melodiosa e elegante.

Incrível também sacar como May This Love e Norwegian Wood, inspiradas pelo blues negro norte-americano, e Kashimir, toda cheia de atmosferas e toques orientais, cabem perfeitas nas cordas dos caipiras brasileiros. É como se tivessem sido escritas para elas, tamanha perfeição de intercâmbio.

Há quem veja sacrilégio ou coisa do tipo. Eu vejo uma oportunidade para ampliar horizontes. Tenta aí.

Laerte, hors concours da vida

29 de outubro de 2010 0

Dia desses, eu e os colegas e amigos Luís Bissigo e Carlos André (do Mundo Livro) discutíamos amenidades durante a volta do almoço, entupidos de carne depois de uma pajelança na churrascaria aqui perto do jornal. Aí o assunto foi para quadrinhos e, sabe-se-lá como, lembramos do troféu HQ Mix.

É talvez o único prêmio de quadrinhos do Brasil. Se não for o único, é o mais famoso. Ou o que se dá mais atenção. Sei lá. O fato é que toda edição do HQ Mix o Laerte tá lá. Ele ganha sempre. Toda vez. Lembro de ler, em algum lugar, ele pedindo que o tirassem do concurso. Ou era alguém pedindo que não o considerassem mais? Bom, era algo assim, o que importa é que o sujeito é uma unanimidade.

O Laerte é hors concours. É como naqueles papos calhordas entre homens, quando se discute preferência anatômicas femininas. Uns gostam de mulheres com mais peito. Outros, com mais bunda. Mas todos, sem exceção, gostam de... bem, entenderam. É isso, o Laerte não tem discussão.

E como todo grande artista, ele é o que menos tenta explicar o que faz. Só fala quando perguntam, e mesmo assim, sem nenhuma gota de arrogância ou pretensão. Ler suas entrevistas é quase como enxergá-lo desenhar, é natural, transparente, despido de qualquer rococó, mas ao mesmo tempo de uma riqueza e complexidade de pirar.

Essa semana ele voltou a ser notícia quando revelou-se um entusiasta do crossdressing. Quer dizer, ele gosta de se vestir de mulher _ já falamos disso aqui , lembra? Não igual ao Dustin Hoffman em Tootsie ou o Robin Williams em Uma Babá Quase Perfeita, mas como o Kurt Cobain em shows e entrevistas.

Mas isso é só factóide, é manchete de tablóide (fiz uma rima, SOCORRO!). No final da semana passada uma galera botou um material bem mais legal sobre ele, um mini-documentário onde Allan Sieber, Angeli, André Dahmer, entre outros, falam do mestre:

Banksy ou me engana que eu gosto

15 de outubro de 2010 0

Você não sabe quem (ou o que) é Banksy. Mas se estava conectado no início da semana, provavelmente sabe o que ele faz. Ou o que o projetou para o público consumidor de cultura pop. Banksy está sendo creditado como o responsável pela abertura dos Simpsons transmitida no último domingo nos EUA e que caiu na rede no dia seguinte.

Nela, é mostrado aquele famoso estereótipo ocidental de uma linha de produção oriental: gente trabalhando exaustivamente em regime semi escravo, num ambiente insalubre e vigiado, para produzir quinquilharias. Quinquilharias, no caso, dos Simpsons.

Na vinheta, ainda aparecem crianças mexendo com produtos tóxicos, bichos fofinhos triturados para estufar bonecos de Bart, um panda sendo chicoteado para puxar carroça e até um unicórnio usado como perfurador de DVDs.

O negócio pegou fogo, e a Fox, emissora dos Simpsons, mandou o YouTube retirar o vídeo. Os produtores da série, que vivem às turras com o canal, devem estar felizes das vidas.

O humor politicamente incorreto e apontado para o próprio peito não é novidade para quem acompanha o seriado. A surpresa foi a suposta aliança com o artista mais controverso do momento e as circunstâncias desse acordo. Ao The New York Times, Al Jean, produtor dos Simpsons, diz que chegou até Banksy depois de assistir ao filme Exit Through the Gift Shop. Aí dá para entender que eles sabiam no que estavam se metendo quando chamaram o sujeito.

Banksy, responsável pela renovação da arte urbana a partir do início dos anos 2000, é uma incógnita. Não dá entrevistas, não se deixa fotografar e ninguém sabe onde vive, embora suas obras _ originais ou intervenções, sobretudo com grafite e estêncil _ sejam vendidas por milhares de dólares. Mesmo expostas nas ruas.

Ainda inédito no Brasil, Exit... mostra o excêntrico francês Thierry Guetta, dono de um brechó em Los Angeles, que de repente se vê envolvido com a cena de artistas urbanos na Europa e EUA. Sempre com uma câmera na mão, ele acompanha grafiteiros e interventores por toda parte até topar, também "ao acaso", com Banksy _ que continua sem mostrar o rosto.

No filme, Banksy sugere a Thierry que esqueça a filmadora e se concentre em fazer "um pouco de arte". Ele obedece, cria um pseudônimo (Mr.BrainWash), copia descaradamente obras de Andy Warhol e do próprio Banksy e arma uma vernissage gigantesca em Los Angeles.

Tudo leva a crer que a oportunista e picareta empreitada de Thierry vai fracassar. Mas a exposição, graças a uma ajudinha esperta dos amigos famosos, não apenas triunfa como alça Mr.BrainWash ao estrelato. Suas "obras" são vendidas a preços exorbitantes, e até para criar a capa da última coletânea de Madonna ele é chamado. O problema é que até o lançamento do filme nos cinemas, em março, ninguém sabia de nada disso.

Mas Exit..., dirigido por Banksy (a-há!), é mais do que a revelação de uma pegadinha. Ele documenta como o hype em torno de alguma manifestação artística (artes plásticas, mas pode ser música, cinema...) é criado, vendido e consumido como se fosse legítimo.

E propõe pelo menos três discussões: 1) Delatada a farsa, as peças de Thierry perdem seu valor? O que ele fez deixa de ser arte? 2) Depois do mictório de Duchamp, quem pode dizer o que é arte ou dizer quem pode ou não fazer arte? As mesmas pessoas que estava extasiadas na vernissage de Mr.BrainWash, talvez? 3) Alguém, hoje, ainda se preocupa com autoria e originalidade?

A resposta para esta última, a julgar pelas reações a abertura dos Simpsons: sim. Ponto para Bansky. Seja ele quem for.