
Segunda-feira quente e eu vou pro Opinião assistir ao projeto O Maestro, O Malandro e O Poeta. Releitura de músicas de Chico, Vinícius e Tom, bacana, bem feito, público animado e tal. Na saída, por volta da meia-noite, me deparo com um grupo de garotas vestidas de preto armando acampamento na grade de entrada da casa. Pelo logotipo das camisetas, saco que são fãs do Black Veil Brides.
– Mas o show não é na quarta? – questiono uma delas, já colocando em dúvida a data que eu tinha na cabeça.
– Sim, mas a gente quer ficar bem na frente, vai lotar – me respondem.
Fiquei intrigado e decidi que iria ao show. Não é qualquer banda que arrasta fãs para dormirem ao relento três dias antes, e o BVB havia me cativado pelo seu visual de cosplay de Mötley Crue. E a música não era assim tão ruim. Me soava um hardão puxado pro glam, lembrava My Chemical Romance e todas as bandas emos lá da primeira parte dos anos 2000. Tá, não era genial, mas parecia divertido.
Vou ao show, então.
Na quarta-feira, horas antes de abrir o Opinião, a fila dobrava a esquina da José do Patrocínio com Lopo Gonçalves. "Legal, vai encher mesmo", pensei.
O show estava marcado para às 22h. Escaldado pelo atraso que é habito em eventos do tipo na cidade, chego às 22h20 e eis que sou supreendido pelo show já começado. Bem feito pra mim, claro. Entro e o baterista está no meio de um solo. Dou uma olhada e a área em frente ao palco está tomada _ casa cheia, mas não lotada. Legal, confortável.
Dez minutos de solo de bateria e a banda volta completa. O vocalista, uma versão pele e osso do personagem principal de Fantasmas de Marte (do John Carpenter, assistam, é demais), chega fumando e se dependura no pedestal do microfone para cantar. "Um hardrocker blasé?", pensei, já antevendo que aquilo não seria bom.
Com a maior cara de quem não está nem um pouco a fim de estar ali, o vocal vai declamando as letras, acompanhado em coro pelo plateia. Às vezes, puxa um refrão. Em outras, bota a mão na orelha como se não estivesse ouvindo o público. Atrás dele, guitarristas e baixista fazem o básico, tocando ombreados, botando o pé no retorno, aquelas firulas todas.
Meio irritado com a postura do vocal e com o som todo embolado que só me permitia ouvir a bateria e uns fiapos de guitarra, vou pro bar pegar uma cerveja – no que sou informado que não estão vendendo nada alcoólico. Claro, a esmagadora maioria do público era de menores de idade ou com pouco mais de 18 anos. Decisão acertada. Pego um refrigerante ruim e volto pro show.
Mas foi só _ juro _ girar os calcanhares para a banda abandonar o palco. Incrédulo, olhei para o relógio: 22h39min. Olhei de novo: 22h40min. Não podia acreditar que os caras tinham feito um show de míseros 40 minutos! QUARENTA MINUTOS! Pasmo, inconformado, encontro um camarada que diz que o show foi, na verdade, de 50 minutos, porque a banda começou com 10 minutos de antecedência. Aí eu desabei no alambrado com meu refrigerante ruim ainda pela metade.
O público, amontoado em frente ao palco, gritava a plenos pulmões pela banda, enquanto os rodies calmamente desmontavam a bateria. Eu olhava praquilo e não conseguia acreditar como um artista podia tratar seus fãs de maneira tão desrespeitosa, tão acintosa, tão baixa. Daí não estava mais puto, estava triste pela molecada que tinha dormido na rua esperando para ver seus ídolos e tinha sido exposta a um espetáculo tão deprimente.
A galera desmontando o palco, a porta de saída aberta, mas ninguém se mexia, esperando que fosse, sei lá, alguma pegadinha. Só que era real. A banda tocou 12 músicas _ 12 MÚSICAS _ e foi embora. Tentei me colocar no lugar dos fãs, mas só conseguia imaginar eu subindo no palco, catando os caras pelo colarinho e gritando VADA A BORDO, CAZZO!, seguido de uns sopapos e pontapés.
Tudo o que fiz, no entanto, foi voltar pra casa e ficar com um pouco de vergonha de ter caído nessa. Mas passou. Assim como o BVB.
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