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Sobre o Lollapalooza

03 de abril de 2013 1

Crédito: Cambria Harkey / LollapaloozaBR

Habitual colaboradora deste espaço, a chapa Janaína Azevedo se bandeou para os lados de cima do Mampituba e voltou com este pujante e honesto relato sobre o Lollapalooza _ que bem pode servir como um guia para quem ficou de mimimi com o festival.

Confiram:

Janaína Azevedo

Hoje eu vim aqui pra contar uma coisa: eu não fui maltratada no Lollapalooza. Nenhum direito meu foi atingido, não precisei testar a minha dignidade em qualquer ocasião. Tá, vou confessar logo: eu curti o Lollapalooza. Me diverti do início só fim, não fritei em fila, padeci de fome ou outros imprevistos. E os shows que queria? Assisti a todos.

Eu sou uma sortuda que saiu do interior do RS, pediu hospedagem pros amigos, economizou três meses de ceva artesanal e tava lá, no segundo dia (escolhi bem escolhidinho hein), pronta pra assistir às bandas que tanto gosto.

Tá, tá, ok. Reconheço que o festival não foi 100% firmeza.  Me emputeci com umas coisas lá. O esquema das fichas pra comprar bebida e comida, por exemplo: se tu tivesse comprado na sexta, teria que gastar tudo no dia mesmo, porque no sábado já não ia mais valer. Sabia disso quando fui comprar as minhas (sem nenhuma fila), mas, marotamente, fiquei quieta, pra testar se a moça atendente me orientaria sobre isso. Ela não falou nada. Sacanagem, sabe. Quem quis comprar ficha pros três dias só descobriu que não conseguiria usá-las quando tentou de fato. No domingo, a organização reconsiderou e permitiu que os papeizinhos (aliás, pra que um nome tão ridículo: Pillapalooza? Eu chamei apenas de FICHA) fossem usados, pra quem já tinha comprado. Mas aí eu já tava em casa, com duas fichas sobrando na bolsa. Dei pra minha sobrinha brincar junto com o ingresso e o programa do festival.

E também vi a filonas pra pegar o ingresso comprado na internet ou comprar ali na hora. Bah, era o horror. Ouvi falar dos seguranças que cobravam cem paus pra quem quisesse passar na frente. Cadê civilidade? Bem, eu era uma das que tinha deixado pra comprar o ingresso na última hora. Me deu aquela coisa no peito: e agora, se eu não conseguir?

Foi aí que decidi apelar pra amigos e redes sociais na busca de uma entrada inteira a um preço não absurdo e sem filas. Sempre tem aquele pessoal que prefere garantir o ingresso antes da própria possibilidade de ir, e por um infortúnio da vida mudam de planos, precisando se desfazer do bilhete de alguma forma. Acho que pelo fato do Lolla não ter chegado nem perto de esgotar, consegui um  preço bem bom e meu ingresso tava na mão. Não recomendo seguir o meu exemplo. Mas é que eu realmente nasci virada pra lua.

Fui cedo, de metrô, entrei na boa, controlei bem as questões de alimentação e bebida, levei um boné e calcei um tênis que uso pra correr, calculei distâncias entre palcos e horários de shows. Opa, acho que passei aqui a receita do meu sucesso no festival. Porque foi assim que fiquei entre meio-dia e nove da noite, passeando pelo Jockey, vendo shows, curtindo com os amigos e tendo um sábado bem mais legal que tô acostumada.

Eu pelo menos não costumo ver um show do Tomahawk todo sábado, com trilha do Morricone no início e no fim. Com o Trevor Dunn tocando um baixo quase maior que ele  e o Jon Stainer esticando o braço pra alcançar a baqueta no prato, vocês já repararam? Ele deixa lá em cima! Prefiro mil vezes o Mike Patton gritando PORRA CARALHO na letra de uma das músicas da banda do que assistir Caldeirão do Huck. E nem vou contar que quase chorei quando vi o QOTSA inteirinho passando no lado no palco pra assistir ao show. Ver Tomahawk junto com o Josh Homme, de certa forma: não teria rolado se eu tivesse ficado em casa.

Aliás, aqui devo dizer que 90% da razão de eu ter ido no Lolla foi o QOTSA. É aqui que eu também explico que essa é a minha banda preferida dos últimos anos, e que eu nunca tinha conseguido vê-los. Vi o Kyuss, vi o Mark Lanegan. Faltava o Queens.

Essa era a minha missão ali, e por essa missão enfrentei adversidades: perdi Alabama Shakes e Nas, tive que aturar o Two Door Cinema Club, tudo em nome de conseguir um bom lugar. A banda do cinema ali era ruim? COM CERTEZA. O público era formado por jovens com roupas estranhas e pinturas no rosto? COM CERTEZA. Isso deveria me incomodar naquele momento? NEM UM POUCO. Consegui um lugar bom pra ver e ouvir o show que me importava? Sim, e o resto é a história que vocês sabem. Batera novo, música nova, primeiro show completo em dois anos. Josh Homme ergue a cabeça pra cantar e olha o público de cima, porque ele sabe que o que tá fazendo ali é tão bom que obriga as pessoas a cantarem os solos. Bem, eu cantei os solos. Ouço aquelas músicas há anos, é como se fossem minhas também. Daquela noite em diante, elas fazem parte da minha história. Eles podiam ter tocado alguma do primeiro disco, ah, eles podiam. Mas tudo bem. Não pretendo que esse seja o único show deles que eu assista.

Terminando o Queens, eu atravessei o Jockey igual um cavalo brabo pra chegar a tempo de ver o A Perfect Circle, última banda que eu pretendia por ali. Na verdade nem precisava, porque cheguei lá enquanto eles tocavam uma versão pavorosa de Imagine. Tirando isso, foi um baita de um show, que não aproveitei mais porque ainda estava obliterada pelo Queens. Mas ver o James Iha tocando teclado e guitarra meio que ao mesmo tempo foi sensacional. Grande banda, grandes músicas, grande Maynard James Keenan, cantor e produtor de vinho. Enquanto a última atração do dia (que eu chamo carinhosamente de Blargh Keys) entrava no palco, eu entrava no trem pra voltar pra casa, sem tumulto, sem problema nenhum, e cheguei em tempo de pegar parte do show na TV.

Depois do festival começaram a surgir vários relatos dos problemas ocorridos. Sem ironia, fiquei bem chateada em saber de gente que passou mal, teve o celular roubado, precisou jogar o tênis fora ou simplesmente desistiu de pegar o ingresso na confusão das filas. Meu amigo passou o maior trabalho pra voltar depois do show do Black Keys. Infelizmente ir a um evento desse tamanho, sabendo que terá muita, mas muita gente envolvida, acarreta em alguns desses riscos.

Isso porque o Lollapalooza é a legítima experiência coletiva, mas a tua atitude também vai determinar se tu vai aproveitar pra valer ou voltar pra casa arrependido. Ciente de que as condições eram essas, eu me programei com calma, e agora só tenho história boa pra levar adiante. Por isso, se tu tá planejando ir a algum festival, seja o Coachella, seja a Festa da Bergamota de São Sebastião do Caí, presta atenção. Garante o ingresso antes, te alimenta e descansa bem no dia anterior, leva chocolate e água de copinho. Vai com os teus amigos, cuida deles. Carrega bem o celular se precisar pegar fila, fica ligado quando usar ele, e pelamordedeus, só tira foto de show se não atrapalhar os outros. Escolhe o show que tu quer ver, pensa se realmente vai valer a pena dadas as condições. Não fica torcendo o nariz pro público, pra quem é indie, hipster, punk, headbanger, pessoa física ou jurídica: ele tá ali pelo mesmo motivo que tu. E se pra ti é o fim da picada pisar na lama ou sentir cheiro ruim, cara, pensa que logo isso vai acabar. Tu pagou caro pra tá lá, sim. Mas ninguém te obrigou, então é feio ficar fazendo beicinho depois.

Eu vou certo no Lollapalooza do ano que vem, se a escalação for boa que nem a desse ano. E, caso alguém encontre o roadie vestido de amish, por favor, me mostre esse cara, que vou eu mesma fazer uma entrevista com ele.

The Hives em Porto Alegre: neopentecostalismo aplicado ao rock

02 de abril de 2013 2

Entre o megalômano exibicionista e o frontman irônico e carismático, Pelle Almqvist comandou uma das multidões mais engajadas dos últimos tempos em Porto Alegre – não a manifestação democrática de milhares de porto-alegrenses pelas ruas do Centro na mesma noite de segunda-feira, mas outra, também bela e poderosa: foi a uma hora e meia de show no Opinião lotado, em que o The Hives apresentou sucessos de quatro discos, ficando a estreia punk Barely Legal de fora (valeu a correção de Pedro Petracco). A Maria Joana (@mj8) bem definiu: desde Paul McCartney não se via um vocalista de rock com tanto domínio do público passar pela Capital – veja bem, estou falando da hipnose, não propriamente da música.

O rock direto do Hives fala a adolescentes e coroas (mais aos primeiros), e seu vocalista tem a cara do pop: meio Mick Jagger, meio Iggy Pop, meio Malcom McDowell revivendo Alex, protagonista de Laranja Mecânica. É andrógino e afirmativo, e parece não dar a mínima para o que você pensa.

A verve exibicionista de Almqvist vai de encontro à crueza da música de sua banda, essencialmente punk e garageira, e deste choque advém a energia atômica do Hives, que mais de uma década depois de surgir como uma promessa de um hit só – Hate to Say I Told You So – ainda consegue contrariar essa previsão, que morreu de velha e improcedente.

Em determinado momento de seu show, Almqvist clamou ao público que se abaixasse. Uma espectadora relutante foi repreendida por parte do povo, e o frontman interveio com algo como "deixem a dama de calça vermelha em paz", como que consciente da faceta ridícula de sua ambiguidade hipnotizante.

Roubando fragmentos da perspicácia da mj8, dá para dizer que falta ao rock o mesmo que falta à igreja católica: (re)incorporar a catarse aos seus shows/cultos. Para o corpo, pouco importa a ética do frontman/pastor, conquanto seja contundente sua performance. Como disse Almqvist a certa altura, "é segunda, mas vamos fazer de conta que é sábado à noite".

Ou domingo de manhã, tanto faz, amém.

Deixa a música falar

13 de março de 2013 0

Crédito: Tiago Trindade

Nenhuma novidade ou espanto quanto a Porto Alegre ter uma cena (cena de verdade) instrumental quentíssima. Só que, não bastando ser formada por bandas do mais alto calibre, com produção própria e público cativo, essa turma agora começa a se organizar (e se unir) para ampliar a visibilidade do seu trabalho.

E, neste final de semana, rola uma destas iniciativas com o Projeto Conexões Instrumentais, capitaneado pelo estupendo Quarto Sensorial e que vai receber outras bandas tão incríveis quanto: Marmota Jazz (foto) na sexta, Urso no sábado e Sopro Cósmico no domingo. Ou seja, três noites de jam sessions de primeira qualidade, sem pose, sem mimimi, sem blá-blá-blá, só música.

Tudo no Teatro de Arena (Borges de Medeiros, 835), a partir das 20h. O passaporte para as três noites custa R$ 40. Ingressos individuais a R$ 20.

A Quarto Sensorial já é conhecida do Remix _ seu disco, inclusive, foi eleito o melhor álbum gaúcho de 2012, nada além. Mas a Sopro Cósmico e a Marmota Jazz eu não conhecia E que grata supresa!

Vamos combinar que não é preciso ser um profundo conhecedor para gostar dessa sonzera extra-cool dos Marmota:

E olha a classe desse som da Sopro:

Vai perder?

Na base da patada

24 de janeiro de 2013 0

Foto: Caroline Corso

Uma das grande bandas instrumentais do Rio Grande do Sul, a Pata de Elefante está de volta. E não está sozinha. Antes um trio, a Pata entra 2013 experimentando novas possibilidades em sua formação _ que poderão ser conferidas em dois shows no Ocidente (João Telles esquina com Osvaldo Aranha).

No primeiro, marcado para esta quinta-feira, 24, o trio original (Daniel Mossmann, Gabriel Guedes e Gustavo "Prego" Telles) ganha o reforço de Edu Meireles no baixo. Para o show da próxima quinta, 31, a Pata acrescenta Luciano Leães nos teclados e Júlio Rizzo no trombone e vira um sexteto.

Em ambos, a banda tocará canções de seus três primeiros trabalhos nas versões originais e com novos arranjos _ além de possivelmente adiantar faixas de seu próximo disco, que foi gravado a 12 mãos e tem previsão de lançamento para abril. Os dois shows estão marcados para às 22h e custam R$ 25.

Rock ácido no interior

10 de janeiro de 2013 2

Crédito: Eduardo Biermann

Enquanto você fica esperando pela confirmação de mais um show da sua banda decadente favorita em Porto Alegre, o interior do Estado se movimenta para celebrar o novo.

Em pleno Carnaval, de 8 a 10 de fevereiro, a escaldante Entre-Ijuís receberá o Acid Rock Festival, que em sua terceira edição traz 15 bandas com franca produção autoral _ entre elas, os barbudos do trio instrumental Mar de Marte.

Além dos shows, o ARF terá apresentações de teatro, exibição de curtas-metragens independentes e oficinas de grafite, ioga e _ a melhor de todas _ carteiras feitas a partir de caixas de leite. O primeiro lote de ingressos custa R$ 25 e está à venda pelo e-mail acidrockfestival@hotmail.com.

Outras informações podem ser acessadas no site oficial do evento: www.acidrockfestival.com.

Saca a escalação completa:

1. Mar de Marte
2. Os Vespas
3. Os Guaipecas
4. Superfusa
5. Giancarlo Oliveira
6. Decoders
7.  Frida
8.  Xispa Divina
9.  Velho Lobo
10. Cattarse
11. Rocartê
12. Bardoefada
13. Velho Hippie
14. Lugh
15. Sopro Cósmico

Madonna, cala a boca e toca os hits!

10 de dezembro de 2012 105

Crédito: Félix Zucco

O título do filme que documenta o último show do LCD Soundsystem deveria ser um mantra para todo artista de carreira considerável que se aventura em turnês pelo mundo: Shut Up and Play the Hits. Cala a boca e toca os hits. Os Rolling Stones fazem isso. O U2 faz isso. Os Ramones fizeram isso até seu último show. Paul McCartney, que tem uma longa e consistente carreira solo, passa mais da metade de suas apresentações tocando Beatles. Mas Madonna, não.

Mesmo com hits suficientes para um show de três horas, ela obriga seu público a excruciantes duas horas divididas em sets que privilegiam músicas novas (ruins e desconhecidas) enquanto esmola dois ou três sucessos. Tudo intercalado por teatrinhos longos e soporíferos. Faz lembrar aqueles games de ação que sujeitam o jogador a longos minutos de cutscenes entre uma missão e outra _ um recurso interessante de início, mas que depois de um tempo, irrita mais do que diverte.

Com Madonna é o mesmo: "ok, entendemos, tu tem um corpo de dançarinos que sabem deslocar os braços e sua bunda parece incrível para um coroa, então quem sabe agora tu toca uma música legal, uma daquelas que a gente conhece e sabe cantar contigo".

Mas ela não toca. Ela precisa provar que ainda é capaz de criar hits que façam um estádio de 43 mil pessoas tremer _ o que, ela mesma sabe, é tarefa ingrata. Para não dizer impossível. Então, para não dar o braço a torcer e cantar seus antigos sucessos _ o que só coroaria o passado e comprovaria sua irrelevância atual _ ela investe pesado em espetáculo. Telão de alta definição, palco cheio de compartimentos, efeitos especiais, números de dança em cima de videoclipe, trocentas trocas de roupas, discursinho feminista, tudo o que possa ajudar a preencher o vácuo que as novas canções deixam o espectador.

Só que isso _ a exemplo das cutscenes de games de ação _ funciona por um tempo. Depois, é a receita do fracasso. Tanto que o público não só não pediu bis como, antes da última música, já estava dando o fora para disputar os minguados táxis.

O que salva, obviamente, são os poucos hits que ela pinça da sua discografia dos anos 80/90 e oferece ao público de maneira decente _ casos de Vogue e Like a Prayer. Passado o transe inicial causado pela superprodução (um mérito da tecnologia, e não da arte, mesmo que uma esteja a serviço da outra), são esses os únicos momentos que a plateia vê seu investimento ter algum retorno. E fazem pensar o quão divertido seria se Madonna fizesse um show só com suas grandes músicas. sem pirotecnia, só uma boa banda e, vá lá, um playback maroto.

Setlist pra isso ela tem. É só seguir o conselho de James Murphy: cala a boca e toca os hits.

Curumin sopra bons ventos no Beco

12 de outubro de 2012 0



Foto: Henry Soares


O show de Curumin, na semana passada, no Beco, na mesma quinta-feira em que tocaram os porto-alegrenses da Wannabe Jalva – e em que, a uns 2km dali, manifestantes apanharam feio da Brigada Militar em pleno Largo Glênio Peres – mostrou algumas coisas bacanas. A primeira é que o baterista, compositor e cantor paulistano tem seus admiradores por aqui, por mais que tivesse vindo à cidade muito mais vezes como baterista de artistas populares – Arnaldo Antunes, Vanessa da Matta – do que para apresentar seu trabalho autoral.

Outra: que um power trio subvertido pode ser muito divertido. Além de Curumin baterista-vocalista, seus dois parceiros no palco manipulam, além de guitarra e baixo, dois samplers com os quais dão vida às composições multicamadas dos três discos do artista – Achados e Perdidos (2005), Japan Pop Show (2008) e o recente Arrocha (2012).

Mais uma: a de que gêneros diferentes podem ser misturados em um mesmo show sem que isso precise ser transformado em uma bandeira. Quer dizer que Curumin escolhe texturas sonoras como escolhe palavras. O funk carioca, a soul music, a música nordestina, o rap, tudo está a serviço de uma arte não meramente conceitual, ou metida a moderna. É visceral, necessário. Curumin canta e sua música bate no peito e concorda com ele.

Justiça seja feita: o show no Beco contou com som de primeira. Não sei se o técnico de som era de Curumin ou da casa. Mas sendo a música de Curumin cheia de graves e pressão – em Arrocha, mais do que nunca – , contar com caixas que transmitam esse peso, seja ele produzido pelo baixo, pela bateria ou pelas MPCs, é essencial.

Quando encontrei Titi, produtor do show, no Opinião no início da semana passada (na noite em que o Siba fez um puta show pra pouca gente), ele temia que o show do Curumin não enchesse. Por sorte, o grande disco que é Arrocha parece chegado a bastante ouvidos em Porto Alegre. E a galera da Wannabe Jalva, que vem fazendo um trabalho caprichado e de qualidade, atraiu  seus admirados, que também se multiplicam a olhos vistos. Esses, que estavam lá sem imaginar quem era o tal de Curumin, saíram sabendo que dá pra fazer música brasileiríssima com os mesmos equipamentos que se faz indie rock moderno.

Por fim, fica um obrigado ao mestre Henry Soares pela foro.

Marcelo Nova e um precioso ensinamento

05 de outubro de 2012 2


Marcelo Nova foi o primeiro músico profissional que entrevistei na vida. Foi em 2002, eu havia acabado de me formar e ser promovido de auxiliar de redação a repórter. Ele ia fazer um show em Limeira, cidade vizinha de Americana, e eu decidi falar com ele. Peguei o telefone cheio de medo, tinham me dito que o cara adora esculachar jornalista _ principalmente os iniciantes, que via de regra faziam perguntas que ele já estava cansado de responder.

O modus operandi para falar com ele era o seguinte: você ligava, caia direto na secretária eletrônica e aí uma gravação (feita, se não me engano, pela filha dele, a Penélope Nova) pedia para deixar o nome, nome do veículo de comunicação e motivo da ligação que ele ligaria de volta. Quando eu estava explicando a razão do contato ele atendeu o telefone:

_ Faaaaaaaaaaaaaaala, Gustavo. Como é que você esta, rapaz? _ disse.

Aquilo me relaxou a ponto de, sério, eu quase chorar, pra vocês terem ideia do meu nível de tensão. A entrevista transcorreu lindamente, Marcelo Nova não é somente um sujeito fundamental para o rock brasileiro, mas também um artista que dá gosto de conversar. Não existe lugar comum com ele, não tem frase de efeito, não tem texto ensaiado. Hipocrisia é mato nesse meio, mas com Marceleza isso não existe. O que ele tiver que falar ele vai falar _ o que não significa, nem de longe, grosseria ou falta de educação.

Daquela entrevista, me lembro dele dizer que o que estavam fazendo em termos de rock no Brasil era pura repetição. Pouca coisa o atraia e era por isso que ele preferia ficar com seus velhos LPs a perder seu tempo com porcaria. E o tempo sempre foi um elemento constante na obra de Nova. Seus último disco de estúdio, não por acaso, se chama O Galope do Tempo (2005) _ desde então, ele não lançou mais nada inédito.

Daí que entrevistei ele novamente para o show que faz nesta sexta-feira no Showrrasco do pessoal do Cartel da Cevada. De início, ele solta que seu próximo trabalho está previsto só para depois do Carnaval do ano que vem. Fico espantado. Já se passaram sete anos desde o último álbum. Tamanho intervalo não é só incomum, mas pode ser considerado suicídio artístico nos atuais termos da indústria fonográfica e sua lógica de retroalimentação: artista que não lança disco não aparece. Se não aparece, não é lembrado. Se não é lembrado, não vende disco. Se não vende disco, não lança mais disco.

Só que Marcelo Drummond Nova passa ao largo desse esquemão. Sempre passou. Artista com "A" maiúsculo e dono do seu próprio nariz desde sempre, ele me respondeu que não gravou nada de novo nos últimos anos porque simplesmente não tinha o que dizer. Entenderam o recado? Se não há o que dizer, não diga nada. Mesmo que você seja um músico conceituado e com todo o respaldo possível para rasgar as maiores asneiras por aí.

Não faça. Apenas, não faça.

O Morrostock vem aí!

04 de outubro de 2012 0

Crédito: Junia Mortimer

Outubro chegou e com ele o tradicional e sempre bem-vindo Morrostock. Em sua 6ª edição, o festival mais bonito do Rio Grande do Sul começa a agitar Sapiranga a partir da próxima segunda-feira e segue até o dia 14. Nos três primeiros dias, ele ocupa a Praça da Bandeira, no Centro da cidade, com uma programação voltada para atividades cênicas.

Depois, a festa se muda para o Sítio Picada Verão (Guilherme Engelmmann, 5.145) e segue num palco que reúne de Wander Wildner e Invasores de Cérebros (SP) a Macaco Bong (MT) e Petit Mort (ARG), passando por Badhoneys e Chá das Cinco. Também rolam debates e painéis sobre economia solidária, redes e coletivos e acesso à tecnologias sociais.

Para você que estava reclamando de pagar R$ 900 para ver um monte de banda que nem são assim tão legais, o passaporte para os quatro dias de música boa e clima bucólico do Morrostock sai por R$ 75 ou R$ 30 por dia separadamente (valores antecipados, com acréscimo de R$ 10 na hora para cada modalidade). A programação completa você confere o site oficial do Morrostock.

Siba para poucos na Segunda Maluca

02 de outubro de 2012 0



Foto: Maria Joana Avellar


Correção: tinha errado feio e estipulado em 30 o número de pessoas no show do Siba, mas o Márcio Ventura me alertou e agora está corrigido para 150.


Segunda-feira de Opinião vazio. Em torno de 150 pessoas para assistir ao show de um homem de outro extremo do país. Siba, ex-Mestre Ambrósio – grupo seminal do manguebit –, apresentando Avante (escuta aqui), seu novo disco, em que volta a empunhar a guitarra depois de muitos anos cantando maracatu e tocando rabeca.

Anos esses em que morou em Nazaré da Mata, "Capital do Maracatu", onde mergulhou de cabeça no ritmo tradicional pernambucano. Depois de se tornar mestre de maracatu e ciranda, Siba decidiu "recriar-se", romper com o modelo que tinha feito de si mesmo. Avante é isto: um homem que viveu a tradição e quer retomar um contato próximo com o presente, onde vive seu filho de seis anos. Traz do momento anterior a intensidade poética das letras, cuja herança do maracatu e da ciranda significa discurso simples, mas de profundo significado existencial, nada de mimimi.

A pena é que um cara que já não tenha muito público em Porto Alegre venha para uma cidade que parece não ter curiosidade. E aí vai todo o mérito para Márcio Ventura, da Rei Magro Produções, que toca o projeto Segunda Maluca no Opinião e heroicamente mantém a capital do sul do Brasil em contato com o que se produz acima da linha do calor. O porto-alegrense em geral é que não parece lá muito curioso – e, com casa vazia, mesmo a galera que vai ao show resulta menos animada.

O sujeito no palco estava de peito aberto, declarando uma "saudade da porra de Porto Alegre". Mas seu maracatu roqueiro (em que a tuba substitui o baixo e em que há toques indie, como uma bateria eletrônica tosca, que por vezes busca ritmos "meio frevo, meio bolero") rebatia nas paredes do Opinião.

Acostumado a ver sua música e poesia em perfeita sinergia com os movimentos dos corpos que a ele assistem, Siba encontrou em Porto Alegre uma situação insólita. Mas, seguindo a tradição do maracatu, de um povo que faz arte apesar das adversidades, não se mixou. Fez um belo show, aplaudido até o fim pelos presentes. Estes viram Siba, mas testemunharam apenas uma fração do potencial do artista, que desabrocharia de vez, estivesse a plateia balançando feito um pêndulo, como ele mesmo sugeriu mais de uma vez, sem muita resposta.