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Novo dos Strokes é um espelho

27 de março de 2013 0

Semana passada escrevi uma crítica sobre o novo disco dos Strokes, Comedown Machine. O texto, que pode ser lido aqui, partiu da análise do álbum, mas ampliou-se para o atual estado das coisas dentro da música pop _ que, vez ou outra, é um bom espelho do mundo contemporâneo. Comedown Machine é qualquer nota porque a música pop atual é qualquer nota. É feita para consumo rápido na mais estrita concepção do termo fast food, com o ouvinte sendo um cliente numa esteira de produção que oferece para ele uma infinita gama de sanduíches diferentes por fora, mas insossos por dentro.

Comedown Machine é descolado da função primordial da arte que é a de confrontar, a de provocar, chamar para o combate, plantar a dúvida. Em 2001, com Is This It, os Strokes fizeram justamente o contrário: lançaram um disco de garage rock quando o que todo mundo consumia era numetal e cantoras do Disney Club. Com todo o mérito, o disco está em todas as listas de mais relevantes da década passada _ e vai estar nas próximas, justamente porque teve um papel desestruturador. Os caras redefiniram o que seria o rock tanto no indie quanto no mainstream peitando o que era considerado econômica e esteticamente correto e viável na época.

Pra mim _ ou seja, na minha opinião _, um disco ou artista não pode ir a favor da corrente, não pode chancelar óbvio, mesmo que isso custe a própria cabeça. Se não houver risco, não vale a pena. Quer cafuné e Nescau quentinho fica morando com os pais _ não com os meus, que me mandavam embora de casa desde os 15 anos, veja bem.

E tudo o que os Strokes fazem nesse Comedown Machine é reproduzir o que já existe por aí, bem confortáveis e tranquilos. Você começa a ouvir o disco e dá uma preguiça do tamanho do ego do Julian Casablancas de tentar começar a entender o que está se passando. Mas depois de um tempo, percebe que não está se passando nada. É como tentar levar a sério uma discussão no Facebook: é tanta argumentação sem fundamento, tanta bobagem, que não dá vontade de ir adiante.

O disco dos Strokes _ da mesma forma que boa parte do quem sendo produzido _, não possui uma única partícula desafiadora, nada que te faça parar uma faixa e ouvi-la de novo, por exemplo. Qual o lugar dele no mundo? A que veio? Pra que serve? Talvez sirva para entretenimento, talvez sirva para fazer ginástica, ou talvez o lance seja só matar tempo, mesmo.

Porque não existe preocupação, não existe um penso. Não há seriedade. Não há responsabilidade. Ele está blindado pela ironia em cada piado dos seus sintetizadores, em cada acorde de guitarra. Comedown Machine é um abobado de bigodinho e calça skinny fazendo biquinho numa foto do Instagram. Só quer fazer festinha e ser taggeado pelo maior número de pessoas possíveis. E não faz o menor peso no mundo.

Casa de cinema

21 de março de 2013 2

Confesse: você já quis morar no apartamento dos Friends. Ou quem sabe visitar o apê do Seinfeld.

Pois o artista plástico espanhol Iñaki Aliste Lizarralde resolveu recriar as plantas baixas dessas e de outras residências famosas da TV e do cinema.

A imagem abaixo, por exemplo, é do primeiro andar da casa dos Simpsons.


Legal, hein? Dá para conferir mais na página dele.

Rage Against the Machine para maiores de 10 anos

15 de março de 2013 0


Essa semana chegou aqui pra redação a edição comemorativa dos 20 anos do lançamento do disco de estreia do Rage Against the Machine. Em um belo triple pack, a Sony botou o disco original acrescido de faixas bônus, um disco com as demos de cada uma das faixas e um DVD com videoclipes e trechos de performances ao vivo, além de um libreto com fotos e as letras _ com exceção de Killing in the Name, não me pergunte a razão.

E aí vem o espanto de constatar que já faz 20 anos que Zack de la Rocha e sua gangue fecharam aquele ano em que o rock se aventurou como nunca pela vida loka. Tivemos a estreia explosiva do Body Count com o controverso hino Cop Killer; o Pantera encheu o metal de groove em Vulgar Display of Power; os Beastie Boys voltavam inspirados com Check Your Head; o Faith no More lançava Angel Dust, seu disco mais bem sucedido; o Suicidal Tendencies provava estar vivo com The Art of Rebelion; o Biohazard estourava com o impecável Urban Discipline e até a molecada desmiolada teve vez com o Ugly Kid Joe e seu America's Least Wanted.

Too old to rock 'n' roll, too young to die, era esse o espírito.

Musicalmente, a origem direta era o funk metal que vinha sendo produzido nas duas costas dos EUA desde meados dos anos 1980 _ no Leste, o Living Colour, no Oeste, Red Hot Chili Peppers, Jane's Addiction e o próprio Faith No More. Mas o que torna a turma de 1992 diferente é o conteúdo politizado de suas letras e postura combativa _ para não dizer agressiva e perigosa. Os temas deixam de ser as divagações de praxe e os problemas sociais, políticos e raciais entram na pauta.

Uma das razões para essa guinada estão nos conflitos raciais que tomaram Los Angeles naquele ano. Se você é jovem demais para saber do que se trata, em 1992 um grupo de policiais brancos foi inocentado de espancar um jovem negro chamado Rodney King durante uma abordagem um ano antes. O resultado do julgamento mergulhou a cidade em seis dias de distúrbios, que começaram na região sul e se espalharam pelo resto da cidade. Coloque Los Angeles Riots no YouTube e sinta o drama.

Essa tensão está presente na mensagem passada por muitas dessas bandas em 1992. Foi o Verão do Amor, só que muito pelo contrário. E qual não é o meu espanto ao constatar que, no relançamento do disco do RATM, está impressa a seguinte classificação etária: NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 10 ANOS.

Eu não sei o que pensar exatamente: se os assuntos abordados ali são agora considerados inofensivos ou se nossas crianças hoje estão mais espertas que as de 20 anos atrás. Quero acreditar na segunda opção, mas é difícil. Pra mim, o verdade é que ninguém se importa. Não quero ser pentelho e entrar naquela lenga-lenga de "geração perdida", mas dá uma olhada no que era dito há 20 e olha agora. Mesmo com toda a informação do mundo na ponta dos dedos, olha o nível do que é dito na música pop _ ou mesmo no rap _ hoje.

É preciso uma outra batalha campal para mostrar que as coisas estão erradas? Eu acho que não. É preciso só um tiquinho assim ó de indignação e vontade de fazer. Falar menos e fazer mais. Valeu classe de 1992.

Deixa a música falar

13 de março de 2013 0

Crédito: Tiago Trindade

Nenhuma novidade ou espanto quanto a Porto Alegre ter uma cena (cena de verdade) instrumental quentíssima. Só que, não bastando ser formada por bandas do mais alto calibre, com produção própria e público cativo, essa turma agora começa a se organizar (e se unir) para ampliar a visibilidade do seu trabalho.

E, neste final de semana, rola uma destas iniciativas com o Projeto Conexões Instrumentais, capitaneado pelo estupendo Quarto Sensorial e que vai receber outras bandas tão incríveis quanto: Marmota Jazz (foto) na sexta, Urso no sábado e Sopro Cósmico no domingo. Ou seja, três noites de jam sessions de primeira qualidade, sem pose, sem mimimi, sem blá-blá-blá, só música.

Tudo no Teatro de Arena (Borges de Medeiros, 835), a partir das 20h. O passaporte para as três noites custa R$ 40. Ingressos individuais a R$ 20.

A Quarto Sensorial já é conhecida do Remix _ seu disco, inclusive, foi eleito o melhor álbum gaúcho de 2012, nada além. Mas a Sopro Cósmico e a Marmota Jazz eu não conhecia E que grata supresa!

Vamos combinar que não é preciso ser um profundo conhecedor para gostar dessa sonzera extra-cool dos Marmota:

E olha a classe desse som da Sopro:

Vai perder?

Que peleia

10 de março de 2013 1

Deu gosto de ver o show de retorno aos palcos da Ultramen. Escrevo 'show' no singular porque fui apenas à primeira das duas noites, 6 e 7 de março, embora tenha saído do Opinião com vontade de voltar no dia seguinte.

Ficava difícil  saber se os caras seriam capazes de repetir um show tão intenso. Eles mesmos brincaram com a condição de "tiozões" ao longo da noite. Se a energia já não é a mesma da banda que arejou as estruturas da música gaúcha nos anos 1990, de algum lugar eles tiraram forças para enfileirar hits pescados do primeiro ao mais recente disco, sempre com aprovação unânime.

Alguns tiveram impacto especial. Peleia foi uma delas: desde o momento em que DJ Anderson, que comemorava a indicação ao Açorianos de Música, soltou o sample da gaudéria Não Podemo Se Entregá Pros Homi, o Opinião lotado começou a soltar faísca. Em determinado momento, Tonho Crocco – que aguentou o tranco até o fim – coroou a noite com a declaração:

– A gente tá de volta, rapazeada.

Prometendo para 2013 o DVD que registrou o show derradeiro de 2008, a vontade que Tonho deixou na galera, no entanto, foi de olhar para frente e deixar essa velha despedida no passado. A Ultramen deve emendar uma sequência de shows no Interior e, quem sabe, noutras capitais do Brasil.


Vídeo da Lidy Araújo

Saiu a trilha do "Sound City"

04 de março de 2013 0

Sound City, documentário que Dave Grohl produziu sobre o lendário estúdio, acaba de ter sua trilha sonora disponibilizada. São 11 faixas originais feitas em parceiras com músicos chegados de Grohl, como Joshua Homme (Queens of the Stone Age), Corey Taylor (Slipknot) e Trent Reznor (Nine Inch Nails), além dos bróders do Foo Fighters, o amigo e ex-companheiro de Nirvana Krist Novoselic e o gigante Paul McCartney – que participa em Cut Me Some Slack, genial copy+paste de Helter Skelter.

O lançamento oficial de Sound City: Real to Reel é 12 de março nos EUA.

De ouvir ajoelhado.

Filme do Pirate Bay é chato pacas

01 de março de 2013 3


Depois de três tentativas, finalmente consegui terminar de assistir a TPB AFK: The Pirate Bay Away from Keyboard. Não sei se eu criei muita expectativa ou entendi errado a proposta do filme, mas achei tudo muito chato. Esperava uma documentário sobre o Pirate Bay, um contexto mínimo sobre o impacto que causou e continua a causar, esperava depoimentos de gente apoiando e gente criticando, esperava uma linguagem fluida, esperava, sei lá, um pouco de jornalismo. Mas o que o diretor Simon Klose entrega não é nada além de hora e meia de JOÃO-SEM-BRACISSE.

O filme se concentra no processo movido pelos estúdios de Hollywood contra os três garotos identificados como fundadores do Pirate Bay, Gottfrid Svartholm, Peter Sunde e Fredrik Neij, que vai de 2008 a 2009. Durante esse tempo, o trio frequenta os tribunais suecos para dizer que basicamente não tem nada a ver com as milionárias perdas da indústria de cinema norte-americana. O discurso do trio é "criamos um eficiente site de troca de arquivos. Se as pessoas _ que não sabemos quem são _ estão usando ele para trocar filmes, a culpa não é nossa". Na hora me lembrei disso:

E essa ladainha se arrasata até o final do filme, com os três dando declarações desconexas e, não raro, se alfinetando. Em muito momentos, dá vontade de torcer a favor de Hollywood _ o que não é preciso, já que o desfecho do processo não é nada bom para eles...

Mas há bons momentos. Poucos, mas há. Quando não está transformando o documentário em um filme de tribunal tosco, o diretor Simon Klose até consegue interromper o sono do espectador ao mostrar, por exemplo, as manobras que foram feitas para esconder o servidor do Pirate Bay da polícia. O aparelho vai sendo trocado de lugar a medida que as investigações avançam, e termina escondido em uma espécie de bunker encravado numa montanha. Não deixa de ser bizarro pensar que o maior servidor de conteúdo do mundo está enterrado num monte gelado na Suécia.

Mais bizarro ainda é notar a afinidade que Gottfrid, Peter e Fredrik tem com o... Camboja! Os três viajam o tempo todo pra lá _ Fredrik chega até a casar e fazer um filho com uma nativa cambojana e Gottfrid falta a uma das sessões do julgamento por estar internado por lá com uma infecção. Claro que nada disso é explicado, tudo é só jogado na cara do espectador e ele que se lasque pra entender o que está acontecendo _ provavelmente nada, mas aí não custava nada avisar.

Ao final, fica-se com a impressão de que esse barco pirata está mais a deriva do que gostaríamos. Ou talvez esse seja o objetivo do documentário, mostrar que alguns dos responsáveis por mudar a maneira como consumimos cultura na virada do século não são os gênios engajados que pensávamos. São, se muito, uns guris querendo tocar o terror no mundo por não terem mais o que fazer – e se tremendo todos quando o bicho pega.

Estamos bem de revolucionários.

Ramones: entenda o caso

28 de fevereiro de 2013 0


Na mitologia grega, Prometeu foi um titã que roubou o fogo dos deuses e o entregou aos homens. Na mitologia pop, os Ramones fizeram o mesmo: pegaram a música, antes restrita ás divindades, e a deu aos mortais. Como algo dessa importância não pode ser deixado no esquecimento, o Mondo Cane (João Alfredo, 325) apresenta o Rock'n'Roll High School, projeto que pretende dissecar a vida e a obra do quarteto nova-iorquino com debates, música, vídeos e memorabilia.

O primeiro ato está marcado para esta sexta-feira, às 20h, e terá o ramonesmaníaco Paulo Caramês (do excelente blog Sequela Coletiva) como convidado e curador. O investimento é de R$ 5, por isso é bom chegar cedo.

O novo disco do David Bowie vai ser normal (excelente notícia)

26 de fevereiro de 2013 0

Primeiro foi uma baladinha melancólica, Where Are We Now?. Agora, um rock radiofônico, como The Stars (Are Out Tonight). David Bowie indica que The Next Day, seu próximo disco, previsto para a primeira quinzena de março, não indicará o futuro. Depois de décadas adiantando as próximas ondas, se arriscando, ousando, rompendo limites e criando outros, parece que Bowie só quer, agora, fazer umas paradinhas redondinhas, sem galhos, sem grilos.

É só ouvir essa The Stars. É um lance tão óbvio, tão 3x4, tão certinho, tá fácil, tão previsível, tão... normal, que mesmo você identificando ela em trocentas outras canções, não se cansa de ouvir. Dá pra ficar escutando ela o dia todo, sem parar. É possível enxergar preguiça ou esgotamento criativo, mas eu entendo o contrário. Bowie sacou como as coisas funcionam agora e tá dizendo que não é preciso fazer mais nada de diferente _ basta fazer com qualidade, bem feito, audível. Menos doidice e mais foco. Menos discurso e mais música. E estamos falando de um monstro sagrado da música pop, que já contribuiu tanto que teria carta branca pra fazer a porralouquice que quisesse.

Mas, não. Prefere fazer um rockinho papai-e-mamãe de primeiríssima qualidade, com espaço pra coro, pra palminha, pra air guitar _ guitarras, sim, guitarras, temos guitarras em toda a faixa. E um baixo bem marcado, cordas que não entojam e um tecladinho ali de canto, só pra dar um brilho. The Stars é uma aula de música pop boa de ouvir, daquelas que poderiam inundar o rádio e a genta não teria mais vergonha de sintoniar o dial no FM.

Pra mim, isso é um indicativo de que The Next Day vai ser um daqueles discos que não precisam de mais do que três ou quatro parágrafos para ser resenhado, de tão simples e fácil. Eu não vejo a hora.

O fim inevitável do Garagem Hermética

20 de fevereiro de 2013 3

Crédito: Emilio Pedroso

Eu não frequentei o Garagem Hermética. Fui uma única vez, eu acho. E não lembro o que fui assistir. Pra mim, foi só um bar como outro qualquer. Mas sei que, pra muita gente, foi um espaço privilegiado de convivência e descoberta. No seu palco, bandas locais iniciaram carreiras e bandas gringas debutaram em Porto Alegre. E seu fechamento definitivo _ independentemente do seu sarcasmo, leitor _ é lamentável.

Lamentável mas, vamos combinar, previsível. Não é preciso ser um rato de inferninho pra sacar que casa de show em Porto Alegre que vive em função de rock e adjacências está fadada ao fracasso _ e esse nem era o caso do Garagem, que nos últimos tempos alugava o salão pra formaturas e até festas de casamento. Mas o Garagem _ com todas as benesses e problemas que isso pode acarretar _ era um ponto reconhecido da cena alternativa da cidade. Só que pra onde foi essa cena? Eu não faço ideia, porque quando eu cheguei, no final de 2007, já não havia mais traço do que me contavam existir.

E esse é justamente o ponto: cenas nascem e morrem o tempo todo, levando junto o que foi construído ao redor ou a partir delas. Certos lugares simplesmente não conseguem existir fora de um determinado contexto. O que se poderia fazer, transformar o Garagem numa casa genérica pra festas qualquer nota? Posso estar errado, mas se eu sou produtor de festa qualquer nota, não vou fazer uma balada num lugar tão fortemente identificado com uma cena ou um gênero _ eu vou atrás de uma lugar genérico por natureza.

Tenho certeza que a cidade já teve outros picos históricos que acabaram tragados com o fim de um determinado período e que hoje são lembrados com saudade e reverência _ da mesma forma que, tenho certeza, será feito com o Garagem.