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Conheça os Walking Papers

29 de setembro de 2013 0

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O Marcel Bittencourt, chefão do destemido POA Show, nos apresenta os Walking Papers. Eu não conhecia, mas me divertiu. E vocês?

Muito mais que a nova banda de Duff McKagan

Mesmo com a velocidade da informação e com toda a rapidez proporcionada por nossa amada internet, alguns lançamentos chegam um pouco atrasado, por um motivo ou por outro. Foi assim que somente há poucas semanas chegou aos ouvidos deste que vos fala o álbum de estreia da excelente banda americana Walking Papers, lançado em outubro de 2012 nos Estados Unidos e ainda sem lançamento no Brasil. A banda, de Seattle conta com Duff McKagan (mundialmente famoso baixista do Guns N’ Roses) e Barrett Martin, do Screaming Trees. Completam o line-up o tecladista Benjamin Anderson e o excelente vocalista e guitarrista Jeff Angell.

O debut dos caras, autointitulado, contou com a produção de Angell e Martin e mixagem de Jack Endino. O resultado? Um álbum honesto, recheado de boas composições e com uma sonoridade cuidadosamente alocada entre o clássico e o moderno.  Tudo soa bem gravado e bem cuidadosamente escolhido, do timbre de bateria à performance vocal, passando pelos diferentes climas de Andrerson e pelas linhas ora minimalistas, ora ousadas de Duff no baixo. A banda, que começa a alçar vôos para fora dos Estados Unidos, chegou armada até os dentes com um trabalho que merece ser ouvido.

É óbvio que o nome de Duff McKagan (e, em menor escala, também de Barrett Martin) gera expectativas no público de rock ao redor do mundo. Porém, pela competência demonstrada em seu disco de estreia, os Walking Papers provam e comprovam ser muito mais do que a nova banda do cara. Se você espera ouvir algo na linha do Guns ou do Screaming Trees, se surpreenderá. O que os caras apresentam é um excelente álbum de rock, altamente recomendado por seus aspectos técnicos e artísticos, e não pelo passado de nenhum dos integrantes.

Interessou? Então confira abaixo a participação dos caras em um programa da rádio KEXP de Seattle, onde respondem perguntas e executam com perfeição milimétrica as faixas The Whole World’s Watching, The Butcher, Capital T e A Place Like This.

Meu momento com o Alice in Chains

26 de setembro de 2013 0

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O Alice in Chains começa a introdução de Nutshell e eu não faço questão de segurar as lágrimas. Só jeito o bloco de anotações no bolso de trás, me dou um abraço, inclino a cabeça pra frente e deixo rolar. Na sequência, estou soluçando com No Excuses. Estranho pensar que só fui conhecer o Alice in Chains pra valer em 2010.

E quando digo “pra valer” quero dizer que a banda, suas letras, sua música, sua postura, finalmente fizeram sentido pra mim. Aquele momento em que uma música fala contigo. Aquele momento _ desculpa a pieguice _ mágico, em que o cantor tá sentado do seu lado te dizendo aquela real. Te dando uma mijada, te aconselhando, te dizendo uma verdade que é só sua, que ele tá dizendo só pra você e só você entende. É um momento, creio, que se repete pouquíssimas vezes durante a vida da pessoa e você sabe o quanto ele é importante.

Comigo foi com o AiC.

E eu lembro do momento _ ou de um trecho crucial. Primeiro semestre de 2010, eu estava sentado no meu sofá-cama azul debulhando, arrancando fiapos da minha barba e escrevendo alguma coisa, ansioso, angustiado, ouvindo uma música qualquer. E eu estou lá, sentindo uma imensa pena de mim mesmo sei lá por qual motivo quando No Excuses pula das caixinhas do computador e me dá uma voadora no peito.

It’s alright
There comes a time
Got no patience to search
For peace of mind

Opa. Aí tem coisa. Isso é comigo. Isso é pra mim. Outra bofetada:

Layin’ low
Want to take it slow
No more hiding or
Disguising truths I’ve sold

E o golpe final:

Everyday it’s something
Hits me all so cold
Find me sittin’ by myself
No excuses, then I know

Tá aí sentado, dia após dia, sentado no seu sofá cama furado e desconfortável, num JK bolorento, gelado e barulhento, aquele frio na barriga, esperando por qualquer coisa que te tire dali. Mas, você sabe, e Layne vem te dizer, não há desculpas. Não há. E…

It’s okay
Had a bad day
Hands are bruised from
Breaking rocks all day

Sim, meu filho, você é um peão nessa vida e, como tal, terá dias ruins nessa vida. E tá tudo bem. Mas para agora de sentir pena de você mesmo. Para agora de ficar esperando. Aceita o que tiver que aceitar, faz as trocas que precisar fazer, mas continua seguindo.

Fui imediatamente procurar toda a discografia da banda. E ouvir e ouvir e ouvir e ouvir. E quanto mais ouvia, mais sentido fazia. Mais eu mergulhava naquele lodaçal de distorção, sludge com doom, sumidouro de toda e qualquer alegria, arrastando tudo pro esgoto das desilusões. Dramático, íntimo e precioso. Como eu precisava daquilo e não sabia.

Ali o Alice in Chains deixou de ser um fato histórico, um dado profissional, para ser parte da minha vida. Para servir de trilha sonora. Para ter o refrão cantado enquanto espero o ônibus. Para acordar com um solo na cabeça e ficar com ele martelando o resto do dia.

Talvez se eu tivesse ouvido a banda em seu auge, nos anos 1990, ela não tivesse batido tanto quanto bateu em 2010. Mas como, em 1994, eu poderia entender, como fui entender em 2010, sobre a dor de não ter ninguém para chorar e nenhum lugar para chamar de lar? E que é melhor morrer do não ser eu mesmo.

Há 20 anos eu jamais choraria como chorei na última terça-feira. Porque na época não havia a conexão, a verdade e o sentido como agora, naquela música que emanava dos amplificadores e refletia na minha história. Que momento.

O voo lisérgico dos Vespas

19 de setembro de 2013 3

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É mais um caso de banda que eu demoro a escutar porque encasqueto com o nome e depois me arrependo. Os Vespas chegaram até a minha caixa de e-mail faz mais de uma semana mas eu só fui ouvir há uns dias. Antes tarde do que nunca, porque os caras são muito bons e eu vou passar o final de semana todo com eles de trilha sonora.

E que trilha sonora. Rock viajandão sessentista, pesado e descompromissado, com uma pegada jazzy, que remete a um tempo em que o lance era experimentar até o fio virar. Mas os Vespas,  Grei Silvanno, Marcelo Acosta e Marcio Erdmann, se mantêm firmes e não escorregam pro virtuosismo _ erro maior de qualquer músico de rock que, lá pelas tantas, começa a achar que é mais importante que o ouvinte. Não é. E os Vespas sabem disso e fazem questão de envolver o plateia, respeitando seus limites e sua inteligência.

Boneca Inflável, por exemplo. Tem um vocal que lembra o jovem Lobão de Corações Psicodélicos, estrilando as cordas vocais enquanto canta dores de um amor renegado, um sax maroto de canto, daquele que indica o começo do fim, manja?

O clima segue na melhor faixa, que dá nome ao disco, Guitarra, Whisky e Blues _ porque, sim, estamos falando disso, de rock distorcido e encharcado de destilado. Aqui as linhas lembra um Doors apimentado (libidinosa ausência / deleitar na horizontal / se o passado condena / falar do teu não vale a pena não) e de levado manhosa, com a guitarra rangendo no fundo, a bateria só conduzindo e abrindo caminho para um solo vocal de arrepiar e fazer você entornar todo o resto de qualquer coisa que você tiver a mão lembrando do menor pé na bunda que você já tomou. Só acho que a guitarra na finaleira podia continuar ressoando até explodir o amplificador ou os tímpanos do ouvinte, mas aí é só uma sugestão. :)

Bons Estragos, pegada George Thorogood, é sobre o caminho para a perdição, letra pesada e provocativa de contemplação nublada, mas dentro da proposta _ Chega sexta-feira, sem um puto na carteira / chora o telefone, vem convite pra besteira / rola o mito que não quero, mas na fila ou o primeiro / mente suja, empoeirada, enrolada num dinheiro.

A nuvem etílica só se afasta em Três Patas, faixa instrumental e número mais dançante e divertido do disco.

Lúgubre, encerra com a vinheta Na Hora do Adeus. Violão de aço e vocal abafado para narrar o desfecho de quem percorreu a história de GWeB, que no final, se revela um belo e duro tratado sobre os perigos de viver no limiar.

Os Minimalistas estão chegando

16 de setembro de 2013 0

THE MINIMALISTAS - 3

A bossa cool e sussurrada que deu a Ale Vanzella o Prêmio Açorianos de Revelação este ano, encontrou a bateria insinuante Rogério “Cachaça” Bento e transformou-se no que talvez possa ser considerado o primeiro projeto de indie bossa rock nova que se tem notícia. A dupla já tem nome e resumo de espírito: The Minimalistas.

Mas não julgue antes de ouvir. Os Minimalistas são precisos, talvez delicados, mas focados e cheios de energia. Vanzella se mostra à vontade tirando riffs garageiros de sua Epiphone Archtop, enquanto Cachaça investe no seu lado mais técnico, deixando o rock diretaço e explorando caminhos mais complicados _ mas sem chatice.

Os Minimalistas deverão disponibilizar ainda nesta segunda-feira quatro músicas para audição e download gratuito em seu site oficial. Em outubro vem o disco completo. Enquanto isso, dá um bico no videozinho de Fire:

Canal Bis é quase só o que importa no meu pacote de TV a cabo (e você deveria experimentar)

09 de setembro de 2013 2

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Não adianta o tamanho do seu pacote de TV: em algum momento, você vai ficar zapeando sem parar em nenhum canal esbravejando entredentes que “não tem nada que presta nessa porcaria”. Eu faço isso o tempo todo _ e deixo minha mulher louca da cara, se querem saber. Mas se existe um canal que eu sei que vai deixar o controle remoto quieto é o Bis. A impressão que tenho é que mesmo quando eles deixam apenas clipes e trechos de shows rolando _ dentro da faixa Setlist _ é melhor do que qualquer superlançamento da HBO ou do Telecine Premium.

Ontem, por exemplo.  Chego do trabalho, abro uma lata e o que está passando? A íntegra do insuperável show de 2004 de Elvis Costello, Live in Memphis. É uma aula de rock, Costello acompanhado dos The Imposters (Steve Nieve no teclado, Pete Thomas na bateria e Davey Faragher no baixo), tocando num palco minúsculo e emendando um petardo atrás do outro como se tivessem 18 anos. Dá um bico nessa sequência de Waiting for the End of the World, Radio Radio e Mystery Dance.

Fica esperto que ele vai ser reprisado nesta quarta às 10h!

Mas tem mais. O canal exibe documentários (filmes sobre os discos Paranoid, do Black Sabbath, e Wish You Were Here, do Pink Floyd estão sempre dando sopa na grade de programação), shows quentíssimos velhos e novos, além de programas de entrevistas (se estiver em casa amanhã, não perde, às 9h30min, o The Ronnie Wood Show, onde o guitarra dos Rolling Stones vai receber o vocalista do Simply Red, Mick Hucknall) e produções próprias, como a série Música na Mochila, Contos do Rock e Por Trás da Canção.

Quer dizer, sempre vai estar rolando algo legal. Claro, pode ser alguma coisa que você não goste ou não se interesse, mas eu te garanto que, pelo menos até hoje, nada ofendeu a minha inteligência _ o que é mato dentro da programação de emissoras musicais, a gente sabe.

Dá para se programar pelo site oficial deles. Vai na boa.

A Motor City Madness não precisa de explicações

30 de agosto de 2013 2

Algumas coisas nessa vida prescindem de explicações. Você pode ter a opinião que quiser a respeito delas, mas não precisa de muito para entender o que está rolando. Para mim, boas bandas de rock são assim. E a Motor City Madness é assim. Dá para gostar, dá pra não gostar, mas não tem como se fazer de desentendido.

Começa pela capa. Me diga, sinceramente, se eu preciso te explicar mais alguma coisa sobre eles:

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Uma caveira de três olhos cruzada por dois braços de guitarra arrebentados. Paleta de cor mínima, remetendo a filmes B dos anos 1970. Referências etílicas. Fonte que remete aos Misfits. E está feito o carreto.

Mas se você quiser mais, eu te digo que eles abrem o disco com uma citação emblemática de O Planeta dos Macacos, o original de 1968. Antes de Schizoid, dá para ouvir Charlton Heston, no auge da sua canastrice, travando o primeiríssimo diálogo entre um humano e um macaco _ que não poderia ser outro que não “Take your stinking paws off me, you damned dirty ape!” ou “Tire suas patas fedorentas de mim, seu maldito macaco sujo!”.

Ou seja, já começamos bem, já começamos com sangue nos olhos, e daí por diante é só paulada, hard rock de dois minutos e meio com aquele caldo proto punk grosso de Stooges e MC5 _ e eu quero acreditar que a Motor City Madness tirou seu nome justamente de Motor City Five, o que deixa tudo muito coerente e, como eu disse, carece menos ainda de explicações. Você já ouviu esse som, você sabe como se (não) se comportar quando ele estala nos alto-falantes, então porque perder tempo divagando.

Mas não acredite em mim: ouça aqui e torne seu final de semana melhor. O meu já melhorou pacas.

De Miley Cyrus a Herbie Hancock passando por Lady Gaga e chegando em lugar algum

26 de agosto de 2013 5

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Passo o final de semana sem acessar a internet. Daí chego no trabalho e descubro a Miley Cyrus obstruíndo todas as minhas vias de informação. E claro que não por causa da sua música, mas por praticar bizarrice. O que me leva a concluir que essa gente toda _ Miley Cyrus, Lady Gaga, Justin Timberlake _ não pode mais ser tratada pela editoria de música. Sequer deveriam estar sob o guarda-chuva de cultura.

O G1 tem a editoria perfeita para eles: Planeta Bizarro.

Porque é só isso que é: bizarro. A música, pelo amor do bode, não dá nem para dizer que é ruim. A música tá ali pra conduzir o festival de insultos que é a coisa toda. Ela não tem qualquer razão de existir. Tira a música e o espetáculo continua. Tá valendo a guria se contorcendo no palco e a timeline explodindo como se fosse a coisa mais incrível desde a invenção do isqueiro.

E não é moralismo, por favor. Se fosse um cara dava no mesmo _ o Justin Timberlake se enquadra nessa mesma categoria, de artista sem qualquer conteúdo musical cercado de bambas do marketing. É só uma constatação triste pra caramba de como a música pop se tornou uma parada tão plastificada que fica difícil encontrar qualquer coisa que não… bizarrice.

Olha o que diz o Herbie Hancock nessa excelente entrevista para a Época:

” Porque não é mais a música que importa. As pessoas não querem mais saber da música em si, mas sim de quem faz a música. O público está mais interessado nas celebridades e em como determinado artista é famoso do que na música. Mudou a maneira como o público se relaciona com a música. Ele não tem mais uma ligação transcendental com a música e sua qualidade. Quer apenas o glamour. O jazz não quer fazer parte disso. Sabe por quê? Não se trata de humildade, nem de arrogância, de uma postura “não queremos ser famosos, somos underground”. Nada disso. O jazz é sobre a alma humana, não sobre a aparência. O jazz tem valores, ensina a viver o momento, trabalhar em conjunto e, especialmente, a respeitar o próximo. Quando músicos se reúnem para tocar juntos, é preciso respeitar e entender o que o outro faz. O jazz em particular é uma linguagem internacional que representa a liberdade, por causa de suas raízes na escravidão. O jazz faz as pessoas se sentirem bem em relação a si mesmas.”

Esse trecho em especial me diz muito: “O jazz faz as pessoas se sentirem bem”. Não me lembro mais, como ouvinte descompromissado ou como profissional, de quando a música pop me fez bem. Vejo os trechos da performance da Miley Cyrus e tenho a mesma sensação de quando fui no dentista tirar molde de aparelho dentário, aquela massa gelada tentando escorrer para dentro da garganta, o desespero de engolir aqui misturado com vontade de vomitar e falta de ar. É um troço que faz mal, que agride fisicamente até. Por mais que você abstraia a inútil _ mas necessária e inevitável _ busca pela boa música, pela música de qualidade, pelo trabalho que vale a pena ser ouvido, que te arranca do chão, que te faz acreditar que há vida criativa e pulsante para além do seu umbigo.

Mas esse lance todo. Cara, que depressão.

Você sabe que está ficando velho quando...

16 de agosto de 2013 0

… te mostram isso daqui:

… e te dá uma vontade incontrolável de ouvir isso:

O primeiro é uma dessas novas bandas incrivelmente hipster, um salada com tanta coisa, mas que, no final, é uma salada. Ou seja: não sustenta. É mato, não tem nenhuma caloria. Talvez dê pra salvar a vocalista, que parece uma cruza de Lana Del Rey com aquela atriz que todo mundo gosta e também tem banda, a Zooey Deschanel _ que, aliás, parece que tá virando um padrão de beleza insossa. Se já não virou. Desculpa.

E o segundo é um remix do mais fuleiro de uma balada do Bryan Adams, que remete à minha adolescência porque tocava nas domingueiras que eu frequentava e na programação das FMs horríveis que eu ouvia quanto tinha 14 anos.

A razão disso, pra mim, é simples: cada vez que sou apresentado a algo que me agride, me ofende, como é o caso dessa Foxes, eu procuro refúgio na minha memória _ mesmo que seja entre as minhas piores lembranças.

E eu acho que isso só tende a piorar. Sei lá.

Feliz Dia dos Pais (punks)

09 de agosto de 2013 3


Dia desses me deparei, assistindo ao GNT, com o documentário Pais e Punks _ tradução bobinha para The Other F Word _ que narra os percalços da paternidade vividos por grandes ícones do punk rock norte-americanos das décadas de 80 e 90. E a ideia do filme, dirigido por Andrea Blaugrund Nevins, é exatamente essa: mostrar como iconoclastas despirocados como Fat Mike (NOFx), Jim Lindberg (Pennywise), Ron Reyes (Black Flag), Brett Gurewitz (Bad Religion), Lars Frederiksen (Rancid) se viram como pais.

Pais e Punks me pegou de várias maneiras. A primeira, foi notar como funciona bem a indústria da música nos EUA: com raras exceções, todos os músicos entrevistados estão muito bem de vida. Lembrem-se, os caras são punks, fazem uma música que não é exatamente popular e que vende horrores _ só que estão escorados por um sistema eficiente de recolhimento de direitos autorais. Quer dizer, o cara botou meia dúzia de faixas pra rodar no rádio ou num filme, durante 30 anos de carreira, e hoje vive praticamente desses royalities.

Outra é como um gênero está intrinsicamente ligado a idade _ mesmo que de maneira cosmética. Numa das cenas, Jim Lindberg mostra os produtos que leva para a gigantesca turnê que está prestes a fazer com o Pennywise e, entre desodorante, escova de dente e shampoo, está tinta para cabelo! E ele explica: “a molecada, os novos fãs, não podem ver um cara de cabelo e cavanhaque branco no palco”. É aquilo que uma vez falei: rock é coisa de moleque _ e se você quer continuar nessa vida, precisa pelo menos parecer como um e convencê-los de que você faz parte da turma. Mesmo que, ao final de um show, precise tomar uma cartela de relaxante muscular.

O estresse das turnês com o Pennywise, aliás, é o que acaba sacando Lindberg da banda _ o documentário registra o exato momento.

A educação dos filhos é o ponto central de Pais e Punks. Afinal, como dizer para o seu filho não falar palavrões quando praticamente todas as suas músicas contém pelo menos um “foda-se”? Ou como ensiná-los a te respeitar como autoridade quando justamente tudo o que você e sua música pregam é o enfrentamento, a desobediência e a anarquia? A maioria dos entrevistados ilustra essa questão dando-se como exemplo: viraram punks porque tinham pais com os quais não concordavam. E agora?

Mas o filme também é engraçado. Engraçado ver Lars Frederiksen passeando com o seu filho, vestindo calças rasgadas, o cabelo colorido e ostentando tatuagens pelo rosto. “Quer espantar as crianças do playground? Leve um pai punk para lá”, graceja ele, enquanto brinca sozinho com o filho num playground público. Fat Mike não passa por menos quando leva a filha para a escola.

Imagens e fotos de arquivo ajudam a contar a história e contextualizar o atual momento de cada pai punk _ com destaque para os chocantes depoimentos de Art Alexakis (Everclear), que confessa ter sido estuprado por colegas de escola durante a infância, e Duane Peters (U.S. Bombs), lembrando do filho adolescente morto durante um acidente de carro.

Se puder, vá atrás e assista. Não é um documentário perfeito, mas mostra uma face genuína e real de um gênero (e seus personagens) que é mais especulado do que de fato compreendido.

Laura Marling é o mais perto que dá pra chegar de Led Zeppelin sem parecer ridículo

29 de julho de 2013 1


Grande e mais importante descoberta desse ano que me lembro agora, sem fazer esforço: Laura Marling. Britânica, cantora, uma orquídea loura nascida numa geleira nas encostas de Londres no dia 1 de fevereiro de 1990. Embrenhou-se pela música folk na segunda metade dos anos 2000 e já tem na conta de suas conquistas amorosas músicos do Mumford & Sons e Noah and the Whale _ o que diz muito sobre onde busca referências e material para escrever. Levou um pé na bunda _ parece, não se sabe em com certeza _ e mudou para Los Angeles depois de lançar três premiados discos _ não sei se são bons, não ouvi.

Desse retiro para lamber as feridas, nasceu Once I Was An Eagle, relato de sua dor de cotovelo em três atos. Sublime é só o que me ocorre agora. Led Zeppelin com Bob Dylan é o que me ocorre quando toca a sexta faixa, Master Hunter. Por favor, ouça essa música. Só ouça. Mais de uma vez se for preciso, mas ouça. Esquece o vídeo, concentra na música.

Volto a ela depois. Primeiro preciso dizer que Once… é um único ato em suas quatro primeiras faixas. Laura, acompanhada de uma cozinha oriental pesadona e um cello que lhe manda direto para o seus mais retumbantes pesadelos, toca direto, subindo e descendo, mastigando as palavras, cheia de uma ironia mordaz que esconde aquilo que todo mundo esconde quando lança mão de ironia mordaz: mágoa, ranco, ódio, tristeza, the dark side of the moon, o que nos diferencia do animais, o que nos faz seguir em frente e o que nos faz escrever as melhores músicas. Se tristeza é o combustível das melhores composições, Laura está extraíndo as suas utilizando uma plataforma de prospecção em oceano aberto. E ela vai fundo, subindo e descendo com sua orquestra, bota uns sininhos de vez em quando para dar a impressão de que está tudo bem, mas é mentira, não está, é só aquele fôlego que você toma antes de começar a botar pra fora tudo de novo.

Aí vem Master Hunter. Começa com o violão e aí lataria batendo. Para tudo e ela dá a real: I’m the master hunter, I cured my skin, now nothing gets in, nothing not as hard as it tries. E em seguida debocha, ela não é a garota que você escolheu para chamar seu nome, não é mesmo. E tá tudo tocando junto, batera, violão, baixo, percussão, sítar, bandolim e a voz dela sai da garganta _ sem forçar, só deixando escorrer, tipo aquele último fio de fel depois que tudo já foi privada abaixo. É aliviante, mas também aviltante. Parece que vai entrar o Robert Plant e meter um agudo MAMAMAMAMAMAMAMAMAMMAMA, mas é só o instrumental que cresce prum final que te deixa meio zonzo, meio “sim, sim, sim, continua a me bater, por favor”.

Mas a Laura é gente fina. Ela não quer o seu mal. Ela quer é te mostrar o caminho. O caminho dela. Cheio de sombras e pedregoso, árido, malicioso e frio. E ela só chama uma vez. Vai atrás. Vai. Porque ela pegou a moral do Led Zeppelin sem guitarrada, sem descer o pé na bateria, ela focou no Zep acústico, na alma folk nórdica que o quarteto sempre teve que formatou boa parte do seu caráter. Embaixo das distorções, embaixo da quebradeira, embaixo das lendas, embaixo das cabeleiras, havai um violãozinho pulsando, um coração magoado que criava a base pras gargantas e cordas trinarem no palco. Em estúdio, em casa, nos quartos de hoteis, havia um Zep que não era gigantesco, não era AUMENTA QUE ISSO É ROCK’N’ROLL, era uma roda de bróders tirando um sonzinho despretensioso, mas tétrico, angustiado, mistura do blues e do folk, das histórias de amor que não dão certo, de perda, de dor, de tristeza e de muita beleza. O Zep que a Laura sacou muito.