O texto abaixo foi escrito pelo meu amigo e repórter em Rio Grande Guilherme Mazui.
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Compras com o capitão Deper
- Who is the captain? – pergunto, com uma folha em mãos trazendo 20 nomes turcos e dois do Azerbaijão. É terça-feira, tarde ensolarada em Rio Grande.
- I’m the captain – responde o baixinho, cheio da marra, quase um Romário dos mares.
Apresenta-se sobre meus olhos e os do fotógrafo Nauro Júnior um tipo no mínimo extravagante. Feições turcas, com cabelo crespo e negro raspado a zero, porém com um adorno: um tufo de cabelo na nuca. Um Cascão ao contrário. Além disso, traz um cavanhaque bem fininho. De parceria, tem duas tiras finas de barba nas bochechas. Na orelha esquerda vem um brinco de escorpião e no anelar direito um anel de cobra.
- Da onde saiu esse cara? – pergunta o Nauro, com a câmera já pronta, focando a lata do sujeito.
Trata-se do capitão Gürhan Deper, 34 anos. Um Jack Sparrow careca e sem barba. Mas tomado de trejeitos. Assim mesmo, como o personagem de Johnny Deep na trilogia Piratas do Caribe. Um homem do mar de olhar negro, profundo, lunático. Cheio de manias, estilo, apreciador de run, baccardi, whisky, tequila. E de mulheres brasileiras, segundo ele.
Nauro e eu estamos dentro de uma loja. Os 22 sobreviventes do incêndio no navio mercante Düden, a 260 quilômetros de Tramandaí, fazem compras. Claro, perderam tudo com o fogo. O Capitão Deper é o último a chegar. É jovem pelo posto que ocupa. E altamente marrento. Tem as respostas prontas e não gosta de receber ordens.
- Como foi o incêndio? Onde começou? – questiono, de olho na notícia do dia seguinte.
- Amigo, não quero falar. Não posso falar – responde.
- Mas tu não és o capitão? – insisto, observado pelo Nauro, que já dispara a câmera.
- Sou, mas não quero falar. Estou cansado. Muda de assunto. Preciso comprar roupas. Perdi tudo no incêndio do navio – despista Deper.
Ofereço ajuda. O Nauro vem junto, de máquina em punho. O capitão quer um tênis. Uma calça larga, uma bermuda, camisetas, cintos. Tudo do melhor. A camisa tem que ser justinha. A calça xadrez.
- Quero o melhor tênis. Qual a melhor marca do Brasil? – pergunta.
- Pega esse tênis Nike aqui – sugiro, para emendar. – E tu não te machucou no incêndio?
- Olhe meus braços (cheio de cortes). Quando o fogo começou eu pulei da cabine. Dava uns 4 metros de altura (...) Tá, mas muda de assunto. Esse tênis aqui é grande. Pede um menor. E pede para ele (Nauro) parar de tirar foto. Não quero. Sou feio. Não vai ficar bom.
O Nauro oferece outra coisa, tenta ser diplomático com o turco marrento.
- Capitão, precisa de camisa?
- Preciso. Mas não fala mais do incêndio. Vamos tomar uma cerveja de noite? A gente bebe e conversa sobre o incêndio.
O convite nos assustou. Casado, pai de família, o Nauro logo arrepiou. A Gabi mataria o fotógrafo caso ele chegasse carregado em casa após uma cervejada com um marujo turco que há mais de 15 dias não bebe e não vê mulher. Ficamos quietos, rindo. Seguimos ajudando o Jack Sparrow dos pobres. Camisa pra lá, tênis, bermuda. E uma pergunta nos corrói. Por que diabos alguém usa um cabelo daqueles? Pergunto.
- E esse cabelo?
- É uma questão privada, ok? – rebate Deper. O Nauro ficou rindo da minha cara, com aquele jeito bonachão, de dono de bolicho que ele tem.
A peregrinarão segue. Tudo por uma entrevista. O relógio corre. Das 14 chega até as 17h. E o Jack Sparrow só enrola. Chega no caixa, paga e só enrola.Na saída, a última tentativa do repórter e fotógrafo.
- E a cerveja?
- Liga pro hotel que a gente toma a cerveja e fala sobre o navio – promete o capitão.
Mais experiente, forjado na boa mesa, Nauro alerta:
- Cara, se tu for beber com ele tu morre! Esse cara fica são e tu morre – avisa, já exausto, sentado nos degraus próximo ao caixa. Entendo o recado. Fico de ligar, mas não ligo. Minha saúde agradece.
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