
Sempre falo que a melhor coisa da minha profissão é conhecer as histórias gigantes que existem nas pessoas mais simples. No ano passado, tive o privilégio de conhecer o jóquei Vilmar Nunes. Até aí tudo bem, o que tem de gigante em o cara ser um jóquei? Mas o "seu" Vilmar é um jóquei que está em atividade e completou 70 anos de idade em junho do ano passado. Aí vem a pergunta: O que este velho está fazendo que não vai pra casa cuidar dos netos e para de correr risco de vida?
A mesma pergunta já foi feita pelos filhos, netos, amigos e até pelo médico do Seu Vilmar, que cuidou dele esses tempos quando caiu de um cavalo e amassou três vértebras.
Sabe o que ele respondeu?
- Se eu parar de montar eu vou morrer, doutor. Quando corro e o vento bate no meu rosto, eu me sinto vivo.
- Mas se tu cair do cavalo, tu morre Vilmar! - falou o médico.
- Eu morro é se eu não montar mais doutor, eu já to no lucro....
Então, todos passaram a admirar e respeitar o Vilmar. E sabe como ele agradecia? Ganhando corridas. E vinha ganhado um monte. E os outros jóqueis todos têm 20, no máximo 30 anos. Poderiam ser filhos ou netos dele. E o seu Vilmar era o mestre de todos eles.
Durante a semana, antes das corridas, o velho jóquei ficava tomando mate e conversando com os seus cavalos... Isso mesmo, ele conversa com os cavalos.
O Black Tie, que é o preferido do Seu Vilmar, leva ao pé da letra esse negócio de tomar chimarrão com o jóquei. Enquanto o veterano corredor sorve um amargo na porta da cocheira, o gigante cavalo preto fica lambendo a cuia e comendo erva. E quando e Seu Vilmar se afasta um pouco, Black Tie fica espichando o pescoço para alcançar a cuia.
Ano passado passei uma tarde ouvindo histórias que o Seu Vilmar contava, cheio de orgulho de sua cumplicidade conquistada com os cavalos nestes 54 anos de prados e carreiras.
Só que desde ontem, o seu Vilmar está calado. Porque uma portaria do Ministério da Agricultura, acabou com as corridas de cavalo aos domingos no Hipódromo da Tablada, em Pelotas.
Alguns vivaldinos vinham há muito saqueando e usando em benefício próprio, um patrimônio que apesar de ser privado é de todos os pelotenses. A antiga diretoria locou todas as dependência do Jockey Club de Pelotas, incluindo vila hípica, salão social e exploração de corridas, tudo (pasmem!), tudo mesmo, por R$ 350,00. E para um cara que atende pelo apelido no mínimo estranho de "Paulinho Fio Dental".
O atual administrador, além de explorar jogos de azar dentro das dependência do Jockey (o que é ilegal), não cumpriu com o básico, que seria manter em dia a Carta Patente no Ministério da Agricultura. Existe um contrato de cinco anos, assinado pela antiga diretoria, que apesar de ser legal é imoral, e levou ao fim as atividades em um dos mais bonitos hipódromos do país.
A atual diretoria, que ganhou a eleição no voto, tenta desde o dia que assumiu colocar a casa em ordem. Mas o contrato feito pela antiga gestão é tão estapafúrdio, que os próprios diretores não podem ter acesso aos documentos do clube.
Foi pedida a reintegração de posse de todas as dependências do hipódromo, mas a justiça achou que não deveria dar. Tinha um prazo dado pelo Ministério da Agricultura para atualizar a documentação, mas o tal administrador não cumpriu.
Agora o seu Vilmar não vai mais poder correr nos páreos de domingo como vem fazendo nos últimos 55 anos. Agora seu Vilmar e toda a sua família que vive do Jockey Clube a várias gerações, não terão mais o que fazer. Agora, a família do seu Vilmar e mais mil famílias, que direta ou indiretamente viviam do Jockey Club de Pelotas, ficarão sem renda.
Penso que em Pelotas todos tem uma capacidade infinita de sobreviver às crises. Mas não podemos subestimar a paixão pela vida e pelos cavalos de um velho jóquei de 70 anos, que um dia disse para o seu médico.
- Se eu parar de montar eu vou morrer doutor. Quando corro e o vento bate no meu rosto, eu me sinto vivo!
A quadrilha que tomou o Jockey Club de Pelotas há um tempo acabou com o sonho do mestre Vilmar, de montar uma escolinha de jóqueis e passar sua experiência para crianças carentes da região.
Durante os próximos dias, quando o seu Vilmar for tomar mate em frente à cocheira do seu amigo Black Tie, penso que o silêncio deva imperar. Quando for tomar chimarrão, o velho jóquei deverá olhar para o companheiro e confidenciar, que alguns espertos que encheram os bolsos de dinheiro enquanto os dois corriam, acabaram com os sonhos de muita gente. Enquanto o veterano corredor sorver um amargo na porta da cocheira, o gigante cavalo preto ficará lambendo a cuia e comendo erva sem entender porque os dois não saem mais para treinar nos finais de tarde.
Hoje, foi o primeiro dia que o Jockey Club de Pelotas esteve fechado. O que se via, eram velhos treinadores, jóqueis e cavalos, todos de cabeça baixa, em uma vila hípica triste e nostálgica, que depois de 80 anos de corridas não vai assistir páreos no próximo domingo.
O que se via, era o velho encantador de cavalos Vilmar pensando que um dia declarou para o seu médico:
- Se eu parar de correr eu morro doutor.
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