"Se o meu recado fosse verbal, não faria sentido eu carregar uma máquina fotográfica pendurada no peito"

Eu iniciava na vida de fotógrafo de casamentos e festas infantis pelas vilas e bairros de Novo Hamburgo nos primeiros meses da década de 90, quando esta frase de Lewis Hine me caiu aos olhos pela primeira vez. Não sabia muito bem o que ela queria dizer. Iniciava em uma nova profissão muito mais por necessidade do que por vocação ou ideologia. Eu era mais uma vítima do desemprego da indústria calçadista de Novo Hamburgo, que entrava em crise.
Guardei aquela frase em um papel amassado na minha carteira durante muito tempo. Acabei virando repórter fotográfico do Grupo Sinos e a fotografia foi colocando a minha vida em movimento. Sem entender muito o que fazia, ia dando o meu recado, me comunicando e sendo aceito por imposição do meu trabalho. Até que me dei conta de que precisava saber mais sobre aquela profissão, que tinha entrado na minha vida quase sem querer, e que me atropelava todos os dias. Freqüentei lugares inimagináveis para um ex-operário. Visitei palácios e casebres. Fiz amigos de toda as raças, religiões e classe social e não me dava conta de que a máquina pendurada no peito era a minha credencial, como sentenciou Lewis Hine.
Comecei a comprar livros, muitos livros. Todos sobre fotografia. Queria os livros de Sebastião Salgado, um brasileiro que despontava como o melhor fotógrafo do mundo naquela época. Juntei dinheiro e consegui comprar o grande lançamento: “Trabalhadores”.
- O que era aquilo?
O homem era um monstro e fotografava em um Preto&Branco como eu nunca tinha visto. No meio do livro tinha um ensaio sobre a indústria naval que me encantou. Na página 199 do livro, tinha uma foto de um estaleiro, em que um navio era lançado de uma rampa de lado na água. É uma das maiores obras-primas que eu já vi na fotografia. Me encantava ver a forma com que Salgado fotografava. Acabei comprando todos os livros dele lançados no Brasil, sempre o admirando e aprendendo ao ler suas fotos.

No dia 9 de abril de 1997, já morando em Pelotas, recebi de presente do meu amigo Klécio Santos um livrinho, daqueles bem pequenininhos, do tamanho de um cartão postal. Na capa, uma foto de um operário em uma mega construção, do lado um nome: LEWIS HINE. Descobri então, que o autor da frase que eu guardei durante anos em minha carteira, tinha fotografado toda a obra do "The Empire State".
Eram fotos que me lembravam as de Sebastião Salgado. Ou vice-versa. Um ensaio em preto e branco, da construção do maior arranha céus do mundo até então. Fotos feitas em alturas, ângulos e perspectivas que eu nunca tinha visto. Algo que um dia eu gostaria de fazer, mas achei que uma obra naquelas proporções, eu nunca veria de perto.
Semana passada, eu de férias em casa, recebi uma ligação da minha amiga de longa data, Raquel Kote, assessora de imprensa da CGTEE. Há muito que pedia a ela para fotografar a obra da fase C da Usina Termelétrica Candiota III. Queria fotografar em preto e branco. Finalmente teria uma grande obra na mão para homenagear dois grandes mestres. Sebastião Salgado e Lewis Hine.

A obra da Usina Termelétrica de Candiota III é mais ou menos como se um grande disco voador tivesse pousado no meio da pampa. É um negócio faraônico. A obra já alcançou 80% de avanço físico entre obra civil e montagem de equipamentos e 99% dos equipamentos já estão no canteiro de obras. O investimento em Candiota III é superior a R$ 1,3 bilhão, sendo que deste valor já foram aplicados R$ 935 milhões. Hoje são 3.680 trabalhadores, durante 24 horas por dia, se revezando dentro do canteiro. Eles estão iniciando a montagem do conjunto turbina/gerador elétrico - principal equipamento do processo de geração de energia elétrica. A obra é uma torre de Babel: tem chineses, nordestinos, paulistas, gaúchos entre outros. A língua falada lá dentro é a da construção civil, da grande obra e todos se entendem.
Foi construída uma chaminé de 200 metros de altura. Eu subi em um elevador de carga, que levou dez minutos para chegar ao topo. De lá, da pra ver o infinito. Naquele dia, o vento soprava a uma velocidade de 80 km por hora lá de cima. Naquela perspectiva a imponência do canteiro de obra fica ainda maior. Assim como um guincho, que foi trazido da China, e mede 175 metros de altura. É o maior da América do Sul em funcionamento e o operador sobe de elevador para trabalhar nele. Na hora da entrada ou largada, os trabalhadores caminhando pelos corredores da obra lembram as imagens de Lewis Hine ou Salgado.

Com todos os tipos de equipamentos de segurança operários caminham sobre vigas ou se dependuram a dezenas de metros de altura do chão, trazendo ângulos e perspectivas que somente as grandes obras podem criar. Um caminhão, que nas ruas parece ser um gigante, parece mais um carrinho de brinquedo, e serve como segundo plano para algumas fotos. Fiquei sete horas fotografando. Aos 40 anos, não tenho mais toda aquela resistência que precisa para passar um dia inteiro subindo escadas, andaimes e apertado em elevadores minúsculos. Gostaria de ter ficado uma semana lá dentro, registrando em imagens o cotidiano daqueles operários que se universalizam através do trabalho. Queria homenagear aqueles homens que trabalham duro, para levar o sustento às suas famílias. Enfim, homenagear Lewis Hine e Salgado, que tanto me influenciaram nesta profissão de fotógrafo, iniciada um dia por pura necessidade e hoje, está entranhada na minha alma. Por mais que digam que os fotógrafos são artistas, eu me considero um operário da fotografia, e estou aos poucos construindo minha grande obra.








































Comentários