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Posts de fevereiro 2010

Mestres de grandes obras

27 de fevereiro de 2010 4

"Se o meu recado fosse verbal, não faria sentido eu carregar uma máquina fotográfica pendurada no peito"

Foto Nauro Júnior

Eu iniciava na vida de fotógrafo de casamentos e festas infantis pelas vilas e bairros de Novo Hamburgo nos primeiros meses da década de 90, quando esta frase de Lewis Hine me caiu aos olhos pela primeira vez. Não sabia muito bem o que ela queria dizer. Iniciava em uma nova profissão muito mais por necessidade do que por vocação ou ideologia. Eu era mais uma vítima do desemprego da indústria calçadista de Novo Hamburgo, que entrava em crise.

Guardei aquela frase em um papel amassado na minha carteira durante muito tempo. Acabei virando repórter fotográfico do Grupo Sinos e a fotografia foi colocando a minha vida em movimento. Sem entender muito o que fazia, ia dando o meu recado, me comunicando e sendo aceito por imposição do meu trabalho. Até que me dei conta de que precisava saber mais sobre aquela profissão, que tinha entrado na minha vida quase sem querer, e que me atropelava todos os dias. Freqüentei lugares inimagináveis para um ex-operário. Visitei palácios e casebres. Fiz amigos de toda as raças, religiões e classe social e não me dava conta de que a máquina pendurada no peito era a minha credencial, como sentenciou Lewis Hine.

Comecei a comprar livros, muitos livros. Todos sobre fotografia. Queria os livros de Sebastião Salgado, um brasileiro que despontava como o melhor fotógrafo do mundo naquela época. Juntei dinheiro e consegui comprar o grande lançamento: “Trabalhadores”.

- O que era aquilo?

O homem era um monstro e fotografava em um Preto&Branco como eu nunca tinha visto.  No meio do livro tinha um ensaio sobre a indústria naval que me encantou. Na página 199 do livro, tinha uma foto de um estaleiro, em que um navio era lançado de uma rampa de lado na água. É uma das maiores obras-primas que eu já vi na fotografia. Me encantava ver a forma com que Salgado fotografava. Acabei comprando todos os livros dele lançados no Brasil, sempre o admirando e aprendendo ao ler suas fotos.

Foro Nauro Júnior

No dia 9 de abril de 1997,  já morando em Pelotas, recebi de presente do meu amigo Klécio Santos um livrinho, daqueles bem pequenininhos, do tamanho de um cartão postal. Na capa, uma foto de um operário em uma mega construção, do lado um nome: LEWIS HINE. Descobri então, que o autor da frase que eu guardei durante anos em minha carteira, tinha fotografado toda a obra do "The Empire State".

Eram fotos que me lembravam as de Sebastião Salgado. Ou vice-versa. Um ensaio em preto e branco, da construção do maior arranha céus do mundo até então. Fotos feitas em alturas, ângulos e perspectivas que eu nunca tinha visto. Algo que um dia eu gostaria de fazer, mas achei que uma obra naquelas proporções, eu nunca veria de perto.

Semana passada, eu de férias em casa, recebi uma ligação da minha amiga de longa data, Raquel Kote, assessora de imprensa da CGTEE. Há muito que pedia a ela para fotografar a obra da fase C da Usina Termelétrica Candiota III. Queria fotografar em preto e branco. Finalmente teria uma grande obra na mão para homenagear dois grandes mestres. Sebastião Salgado e Lewis Hine.

Foto Nauro Júnior

A obra da Usina Termelétrica de Candiota III é mais ou menos como se um grande disco voador tivesse pousado no meio da pampa. É um negócio faraônico. A obra já alcançou 80% de avanço físico entre obra civil e montagem de equipamentos e 99% dos equipamentos já estão no canteiro de obras. O investimento em Candiota III é superior a R$ 1,3 bilhão, sendo que deste valor já foram aplicados R$ 935 milhões. Hoje são 3.680 trabalhadores, durante 24 horas por dia, se revezando dentro do canteiro. Eles estão iniciando a montagem do conjunto turbina/gerador elétrico - principal equipamento do processo de geração de energia elétrica. A obra é uma torre de Babel: tem chineses, nordestinos, paulistas, gaúchos entre outros. A língua falada lá dentro é a da construção civil, da grande obra e todos se entendem.

Foi construída uma chaminé de 200 metros de altura. Eu subi em um elevador de carga, que levou dez minutos para chegar ao topo. De lá, da pra ver o infinito. Naquele dia, o vento soprava a uma velocidade de 80 km por hora lá de cima. Naquela perspectiva a imponência do canteiro de obra fica ainda maior. Assim como um guincho, que foi trazido da China, e mede 175 metros de altura. É o maior da América do Sul em funcionamento e o operador sobe de elevador para trabalhar nele. Na hora da entrada ou largada, os trabalhadores caminhando pelos corredores da obra lembram as imagens de Lewis Hine ou Salgado.

Eu, trabalhando à 200 metros do chão. Foto Solon

Com todos os tipos de equipamentos de segurança operários caminham sobre vigas ou se dependuram a dezenas de metros de altura do chão, trazendo ângulos e perspectivas que somente as grandes obras podem criar. Um caminhão, que nas ruas parece ser um gigante, parece mais um carrinho de brinquedo, e serve como segundo plano para algumas fotos. Fiquei sete horas fotografando. Aos 40 anos, não tenho mais toda aquela resistência que precisa para passar um dia inteiro subindo escadas, andaimes e apertado em elevadores minúsculos. Gostaria de ter ficado uma semana lá dentro, registrando em imagens o cotidiano daqueles operários que se universalizam através do trabalho. Queria homenagear aqueles homens que trabalham duro, para levar o sustento às suas famílias. Enfim, homenagear Lewis Hine e Salgado, que tanto me influenciaram nesta profissão de fotógrafo, iniciada um dia por pura necessidade e hoje, está entranhada na minha alma. Por mais que digam que os fotógrafos são artistas, eu me considero um operário da fotografia, e estou aos poucos construindo minha grande obra.

Veja mais fotos

Entrada de Bagé de cara nova

26 de fevereiro de 2010 2

Havia algum tempo que eu não aparecia pelas bandas de Bagé. Sempre que chegava lá, me causava uma má impressão aquele pórtico de entrada da cidade semipronto. Por que começam uma obra se não vão terminar? Ainda mais quando se trata do cartão-postal de uma cidade da importância da Rainha da Fronteira.

Hoje estive lá, e ao chegar fiquei contente de ver que Bagé está de cara nova.

Foto nauro Júnior

-Viajantes! Agora quando saíram de Porto Alegre pela BR 116, passando por Pelotas, pegando a BR 293 em direção a Livramento terão a oportunidade de apreciar dois pórticos. O de São Lourenço do Sul e agora o de Bagé.

Foto Nauro Júnior

Cuidem para não cruzarem reto por Pelotas, porque a única coisa que indica a entrada da cidade são uns mastros velhos sem bandeira que custaram os olhos da cara para os cofre públicos e nunca serviram para nada.

Foto Nauro Júnior

Bageense desgarrados. Se vocês não visitam sua terra natal há muito tempo, ai está a nova entrada da sua querida Rainha da Fronteira.

Bagé agora está bem na foto.

Foto Nauro Júnior

O Galo Pedro

25 de fevereiro de 2010 8
Estou publicando hoje outro texto da Gabi...
A Néia pediu para fazer foto com Pedro
Sei que ando estressada nos últimos dias e que quando isso acontece qualquer gotinha d´água parece um maremoto. Prova disso foi que me peguei há alguns minutos traçando um plano maquiavélico para acabar com a vida do nosso galo. Isso mesmo, para quem ainda não sabe, nós moramos para fora e temos um galinheiro habitado por três galinhas problemáticas e um galo destemperado.

A Sofia as batizou de Taliba, Luluca e Nine. Tínhamos também a Bira-bira, mas foi dada como desaparecida na enchente de janeiro do ano passado. Testemunhas ouviram seus gritos de socorro nas proximidades da figueira, mas com a força das águas o pessoal da Defesa Civil achou melhor incluí-la na lista dos desaparecidos. Bom, mas voltando a vaca fria. Ou melhor, ao galo Pedro. Isso mesmo, minha filha quis homenagear seu primo mimosos dando esse lindo nome ao penoso-histérico. Ele é mais um dos animais que o Nauro insiste em colecionar. Aqui em casa já tivemos uma ovelha chamada “Me”. Isso mesmo, super original!!! Ela foi convidada a “não fazer mais parte da família” depois que comeu 98,8% das árvores que plantamos com carinho, por longos meses. Foi preciso isso para o Nauro se convencer que seria mais apropriado doá-la. Mas, quem pensa que a Mé virou churrasco, está redondamente enganado. Mesmo que nossos animais gerem desavenças familiares e causem transtornos, depois que pisam nesse terreno, passam a fazer parte da família. Então, demos a ovelha para um senhor com cara de honesto, que assinou um termo de compromisso de que nunca olharia para ela de um “jeito diferente”.

Essa casa vive num entra e sai de bichos. Na última Expofeira foi a vez da coelha Luluca. Seguindo a tradição imposta pela Sofia ela recebeu o mesmo nome da galinha, re-homenageando a prima Luisa, de Jaguarão. Pois então, a Luluca veio para casa em pleno inverno. Primeiro morou no alpendre, mas como fazia muita sujeira, passou para parte térrea da casa. Conheceu aquele universo verde e se deslumbrou. Em menos de uma semana entrou na lista dos desaparecidos. Só que desta vez, suspeitamos que tenha sido um caso passional, já que tinha uma lebre rondando a casa durante a noite. Tudo bem, o que importa é que ela seja feliz. Sem preconceitos.

Mas tudo isso para chegar novamente ao galo Pedro. Eu tenho um sono super leve, qualquer coisa me acorda. Ultimamente o Nauro achou mais produtivo deixar o pessoal do galinheiro solto todo dia e a noite. Com isso, as galinhas colocam ovos nos lugares mais inusitados. Dia desses, tinha um dentro da gaveta de uma escrivaninha velha, no porão. O Nauro adora, e tem mil teorias sobre a psicologia animal. Para se ter uma idéia, outra noite, quando o Pedro começou a cantar destemperado, ele atirou um resto de bauru para o galo. O bicho não só calou a boca como se regalou.

Mas essa manhã o mundo animal me atormentou além dos limites. Eu estava no bom do sono, daqueles necessários, já que o ritmo de trabalho dos últimos meses tem sido intenso. Com o calor que tem feito, uma noite fresca como a de hoje é quase um presente dos céus. Eu estava literalmente nas nuvens. Até acordar com aquela goela desafinada, em um tom grave:

- Cuuuucuruuucuuuuu!!!

Pequei o relógio e constava: 5h43. Abri os olhos com uma fúria e me atinei só fechar a janela. Não foi suficiente para o danado do Pedro conter o seu show matinal. Eu não sei como ele sabe, mas se abala lá do galinheiro e fica postado exatamente na minha janela. Como ele sabe, tem um GPS no meio daquelas penas?

Coloquei um travesseiro na cabeça, esbravejei, e nada adiantou. Não consegui mais dormir e acordei num baita mau-humor. Até meia hora atrás eu estava pensando maneiras cruéis de me vingar do Pedro. Mas como esse é um espaço terapêutico e prometi a mim mesma que seria um blog-divã, estou mais calma. Agradeço aos ouvidos de vocês. Foi bom desabafar. Mas sei que caso ele suma misteriosamente serei a primeira suspeita da lista. Posso até vir a ser indiciada. Tudo bem, só não posso deixar de gritar beeeeeeemm altoooo:

- Mata esse galo e faz uma caaaaanja!!!!

Zona do Porto em Pelotas

24 de fevereiro de 2010 6

Tenho andado pelas ruas de Pelotas durante as minhas férias e observo que na correria do dia-a-dia passam cenas do cotidiano despercebidas aos nossos olhos. A zona do Porto, em Pelotas, é a região onde a cidade se desenvolveu. Lá está guardado, às margens do canal de São Gonçalo, um pouco de uma era que Pelotas deixou para trás.

 

Hoje a matriz econômica da cidade mudou. Onde tínhamos indústrias, temos um polo de educação. A maioria dos campi da UFPel se encontram por lá. Antigamente era o Frigorífico Anglo, hoje existe um prédio moderno, onde funciona a reitoria da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Mas os navios ainda entram e saem do Porto de Pelotas, em um movimento silencioso. Uma dança nas águas, muitas vezes não admirada pelos habitantes da cidade. Estive por lá e encontrei alguns ângulos inusitados daquela região tão bela de nossa cidade.

 

Todas as fotos foram feitas do terraço da antiga fábrica de massas Cotada.

Foto Nauro Júnior

Foto Nauro Júnior

Foto Nauro Júnior

Foto Nauro Júnior

Foto Nauro Júnior

Foto Nauro Júnior

Foto Nauro Júnior

Foto Nauro Júnior

Dois ângulos do mesmo instante

24 de fevereiro de 2010 2

O fotógrafo Vinícius Costa me mandou a foto abaixo, onde apareço com minha máquina por trás de uma cortina buscando um ângulo diferente de uma cena comum.

Hoje, quando aproveitava as férias para organizar meus arquivos, encontrei a foto que tentava fazer naquele dia. Foi durante o show beneficente “Aí que eu me refiro”, organizado pelo músico Joca Martins, que aconteceu no dia 20 de dezembro de 2009, no Teatro Guarany, em Pelotas.

Na foto, os músicos nativista, Joca Martins e Cristiano Quevedo, com o Teatro Guarany lotado ao fundo.

Foto Vinícius Costa

Em busca do melhor ângulo. Foto Nauro Júnior

O ângulo ideal. Foto Nauro Júnior

Ensaio do Espetáculo da Vida

23 de fevereiro de 2010 3

Um pequeno ensaio no "Gran Circo de Rodeio Fernandes" com seus personagens, suas alegrias, suas incertezas e encantos.

Gran Circo de Rofeio Fernandes

O veículo de transporte e moradia dos artistas

Dona Carmem na bilhteria com a neta

Velha lona furada do circo

Bisneto de Dona Carmem no palco

Treino de malabarismo nas cordas que prendem a lona

Nora de Dona Carme com a velha lona ao fundo

Portaria central do circo

Crianças brincam nas cordas da lona

Crianças do circo, com suas alegrias e incertezas

Espetáculo da vida I

23 de fevereiro de 2010 5

Gran Circo de Rodeio Fernandes

O que leva alguém que viaja sozinho de carro por uma BR, ao ver a lona de um cirquinho, daqueles bem pobres, socado dentro de uma vila às margens da rodovia, sentir um gosto de infância na boca e uma dor de nostalgia no peito?

 

Semana passada eu voltava da região da Campanha, quando cruzei pela vila Operária, em Candiota. Meus olhos ficaram inebriados pela imagem de bandeirinhas que tremulavam na ponta da velha e furada lona do quase centenário “Gran Circo de Rodeio Fernandes”.

Na hora fui remetido à infância. Lembro que meu sonho era fugir de casa e ir embora com um daqueles circos, que para mim eram gigantes e poderosos. Lá as mágicas eram inexplicáveis, as feras eram selvagens e as bailarinas embalavam meus sonhos de menino em uma vila pobre.

 

Mas o que realmente me encantava, era a hora que entravam os palhaços. Eles eram tudo que eu queria ser na vida. Misteriosos e engraçados. Quando entravam no picadeiro, meu coração disparava e meu mundo se transformava em um misto de alegria e ansiedade. Queria estar no lugar deles, dirigir aqueles carros que jogavam água pelo radiador e explodiam fazendo os palhaços correrem do picadeiro para o meio da platéia. Lembro de dia em que o “Zé Fulia”, meu ídolo da infância, correu e sentou do meu lado na velha e frouxa arquibancada.

 

Dias depois, tentei ir embora com o Circo do “Zé Fulia”, que estava montado lá no campinho, perto do seu João Viana. Mas minha mãe descobriu meu plano de fuga á tempo de impedi-lo. Eu sempre arrumava um jeito de vender pipoca ou algodão-doce nos circos que apareciam lá no Morro do Lampião (a vila que nasci em Novo Hamburgo), para ficar perto dos artistas. Lembro da “Nice Vanderlã”, bailarina do “Circo Theatro Teleco”, que foi meu primeiro grande amor. Todas as noites eu trabalhava de vendedor para não precisar gastar um dinheiro que eu não tinha para o ingresso. Me imaginava sendo o palhaço principal do circo, a grande estrela, e eu ea  Nice viajando pelo mundo - apesar de eu achar que já naquela época ela devia ter uns vinte anos a mais que eu.

 

Já adulto, em Pelotas, exorcizei meus traumas fazendo um curso de claw com o grande mestre Alexandre Coelho. Pratiquei técnicas de palhaço de circo durante três meses, no antigo “Mafuá da Artes”. No dia da formatura não tive coragem de me apresentar com os outros alunos no palco do Theatro Sete de Abril e me transformei no primeiro claw autodidata do mundo. Chego a conclusão de que foi toda essa energia que me arrastou para dentro da Vila Operária, para ver de perto aquele cirquinho que acampava ali. Eu queria fotografá-lo, queria saber mais sobre aquelas pessoas nômades que vivem e viajam felizes por um mundo de desilusões.

 

Meninos do circo, com suas alegrias e incertezas 

 

Quando tirei a máquina da bolsa, já fui cercados pelas crianças do circo. Todas queriam ser fotografadas. Depois fui conhecendo uma a uma, e suas histórias envoltas naquele lugar mágico. Fui tratado por com muito respeito e apresentado para a dona Carmem de Moura Fernandes que me contou sua história.

Dona Carmem na bilheteria com a neta

 

Ela levava sua vida pacata em uma cidade qualquer deste mundo de Deus, quando há 60 anos atrás o “Gran Circo de Rodeio Fernandes” aportou para acabar com a rotina de sua pequena e pacata cidadezinha. O grande toureiro e domador do circo era Rodolfo Ribeiro Fernades, o homem poderoso que montava e domava cavalos e touros bravios. Os homens da cidadezinha o invejavam e as moças suspiravam ao ver Rodolfo Ribeiro entrar no picadeiro. Porém Rodolfo Ribeiro, que era o proprietário do “Gran Circo Fernandes” viu a menina de dezoito anos que o observava na primeira fila. No final do espetáculo foi atrás dela e a levou para sempre, transformando-a na principal e mais bonita bailarina do circo.

 

Eles eram admirados e invejados e viveram por 22 anos junto, até que o grande domador faleceu e dona Carmem teve que continuar o espetáculo sozinha. O circo ganhou a concorrência do cinema, da televisão, dos shoppings e da internet, mas dona Carmem continua firme, como matriarca de uma família de mais de trinta pessoas entre, filhos, noras, netos, bisnetos. Todos vivem do circo.

 

Dona Carmem me disse que várias famílias ainda vivem do circo pelas cidades do interior, onde o progresso ainda não tirou o encanto e a pureza da vida. Os belos olhos azuis da bailarina ainda brilham ao falar de um tempo em que quando o Circo chegava na cidade, a alegria chegava junto. Ela ainda esboça um sorriso nostálgico quando fala do dia em que o grande domador Rodolfo Ribeiro chegou em sua cidadezinha e entrou em sua vida para um espetáculo que ainda existe em sua lembrança.

 

Esses são os personagens que não deixam o circo morrer. São estas pessoas abnegadas que mantém vivo o espetáculo. E foi a energia destes sonhadores que me fizeram deixar a BR, entrar na vila Operária e descobrir porque estava sentindo aquele gosto de infância na boca.

 

-No próximo post um pequeno ensaio que fiz. Não pude ficar para o espetáculo, porém prometi a todos que um dia volto para fotografar-los picadeiro.

Cordão umbilical

21 de fevereiro de 2010 6

Hoje vou publicar um texto que a Gabi escreveu sobre a nossa filha Sofia. São angustias e medos que compartilhamos e que ela conseguiu expressar de uma forma tão simples. Eu gostaria de tê-lo escrito. Mas como foi escrito pelo meu amor e fala da nossa filha, me dou ao direito de publica-lo aqui no blog.

Foto Nauro Júnior

Texto: Gabriela Mazza(meu amor e mão da Sofia). http://adoromelancia.blogspot.com/

Discordo dessa visão histórica de que as mulheres precisam lutar pela igualdade. Pelo simples motivo de que homens e mulheres jamais serão iguais, em todos aspectos. Cada gênero tem suas particularidades, exatamente como o azeite e o vinagre. Juntos dão o tempero exato para a salada. Mas uma coisa faz de nós mulheres verdadeiras privilegiadas: a maternidade. A barriga crescendo, o corpo mudando, um ser dentro da gente, se formando. Por mais cotidiano que seja se falar em gravidez, quando acontece com a gente não há como não se emocionar. É um milagre, a ciência que me perdoe.

O cordão umbilical é um laço que a vida jamais consegue cortar. As mães que perderam seus filhos sabem o quanto. As que diariamente acordam, alimentam, vestem e mimam seus rebentos também. Nesse kit singular de que fomos abençoadas, ainda tem a amamentação e a intuição, aquele sentimento que não sabemos explicar e que o mundo batizou de “instinto materno”. Escrevo tudo isso para dizer que meu coração anda apertado nos últimos dias. É uma bobagem, coisa de mãe babona, sei lá. Não é por nada ruim, a Sofia está ótima, há meses sem nenhuma intercorrência, feliz e saudável. Mas na semana que vem finalmente vai para o colégio. Depois de quatro anos debaixo das nossas asas, vai dar seu primeiro passo no mundo coletivo. Vai pisar no universo regido por diferentes modos, gostos e filosofias de vida. Provar refrigerante, comer chiclete, ouvir gente que fala palavrão. Mas sei também que vai descobrir o convívio dos amigos, aprender o mundo das letras e construir o seu mundinho de sonhos. Nesses quatro anos de vida, procuramos mostrar a ela o quanto essa vida vale a pena.

Daqui para frente sei que será um piscar de olhos até a faculdade. Meu peito se enche de angústia e felicidade, se é possível que estes sentimentos antagônicos possam ser companheiros. Me arrepia ter a certeza de que a partir da próxima segunda-feira o tempo vai voar. Minha “minhoca” vai vestir o uniforme do “pré” e pisar o mundo cheia de autonomia. Sei que vai ser muito feliz. Que essa luz que ilumina nosso cotidiano vai irradiar por outros pagos também.

Estou feliz e triste. Mas me vem na memória o texto de um quadro que tinha no corredor da charqueada que nasci e cresci. Era o famoso poema do Kalil Gibran, que durante minha infância li e reli milhares de vezes, sem compreender. Hoje penso na profundidade daquelas frases e me apego a elas para amenizar meus medos. Desejo com todo meu amor que o mundo trate minha amada filha com carinho e que ela siga tendo a certeza de que essa vida é maravilhosa.

P.S.: E quando menos a gente imaginar, ela vai trazer aquele cabeludo, todo tatuado, para apresentar à família. Socorro!!!!

"Seus filhos não são seus filhos.
São os filhos e filhas da vida, desejando a si mesma.
Eles vêm através de vocês, mas não de vocês. E embora estejam com vocês, não lhes pertencem.
Vocês podem lhes dar amor, mas não seus pensamentos, pois eles têm seus próprios pensamentos.
Vocês podem abrigar seus corpos, mas não suas almas, pois suas almas vivem na casa do amanhã, que vocês não podem visitar, nem mesmo em seus sonhos.
Vocês podem lutar para ser como eles, mas não procurem torná-los iguais a vocês. Pois a vida não volta para trás, nem espera pelo passado.
Vocês são o arco de onde seus filhos são lançados como flechas vivas. O arqueiro vê o alvo no caminho do infinito, e Ele curva vocês com Seu poder, para que suas flechas possam ir longe e rápido. Deixem que o seu curvar-se na mão do arqueiro seja pela alegria: Pois mesmo enquanto ama a flecha que voa, Ele também ama o arco que é firme."
KALIL GIBRAN

Flor gaúcha

20 de fevereiro de 2010 2

Uma paisagem gaúcha para acalmar os olhos em uma tarde de vento. Uma flor da pampa para amainar os corações.

Foto Nauro Júnior

Foto Nauro Júnior

Gaúcho sobre os trilhos

20 de fevereiro de 2010 11

Ontem à tardinha, eu voltava de Candiota quando me deparei com a cena insólita de um gaúcho montado em seu cavalo, andando sobre os trilhos do trem. A subjetividade daquela imagem me fez parar o carro e iniciar um pequeno ensaio  sobre: o que um gaúcho andando com o seu cavalo sobre os trilhos de trem, no interior do Rio Grande do Sul, pode representar?

Foto Nauro Júnior

Para mim estas imagens captadas, em não mais do que cinco minutos, representam a busca de um rumo deste povo Riograndense.

Foto Nauro Júnior

 

Quem somos?

Somos uruguaios? Somos brasileiros?

Somos rurais? Somos urbanos?

Somos MTG? Somos "magros do bonfa"?

Somos interioranos? Somos metropolitanos?

Somos nativistas? Somos roqueiros?

Somos farroupilhas? Somos imperiáis?

Somos chimangos? Somos maragatos?

Somos de esquerda? Somos de direita?

E onde queremos chegar?

 

Foto Nauro Júnior

Basta Nei Lisboa dizer que “A música gaúcha se torna intragável para qualquer pessoa mais esclarecida”, para que o MTG resolva se manifestar. Mas Nei é regionalista.

Basta que os tais Tchê Music façam algo diferente, que vem um tal instituto gaúcho de tradição e folclore dizer que isto não é música gaúcha. Basta um gaúcho de coração não estar  pilchado, que ele não pode entrar em um fandango.

Foto Nauro Júnior

Aonde quer chegar este povo gaúcho que está tão perto da América Latina e não consegue cruzar o Mampituba. Este povo que se acha tão mais politizado e culto que o resto do Brasil, mas não consegue uma representação de respeito no cenário nacional. Este povo que se orgulha tanto de seus políticos, porém importa políticos de outro Estado.

Foto Nauro Júnior

Penso que precisamos encontrar um rumo. Carecemos de andar nos trilhos, como este gaúcho de Candiota.

Só devemos tomar cuidado para não sermos atropelado pelo trem (da história)!

Foto Nauro Júnior