# toda vez que ler Satolep, leia Pelotas. É assim que Vitor chama o lugas que nasceu.

Liguei pra casa do Vitor Ramil e ele me atendeu com aquela voz calma.
- Alô?
- Vitor é o Nauro.
- E ai cara?
- Meu, eu preciso fazer umas fotos tuas para a matéria que a gente ta fazendo, do lançamento do teu disco novo.

- Nauro, pode ser amanhã a tarde? Tenho um monte de coisas para fazer hoje e amanhã de manhã tenho que sair com a Ana. Depois durmo um pouco para não ficar com aquela cara de morto nas fotos.
- Por mim tudo bem. Que horas te pego?
- Pode ser às quatro da tarde? Onde tu ta pensando as fotos?
- Pois é irmão, não sei ainda, mas se tu tiveres tempo à gente da uma volta por Satolep e vai fotografando. O que tu achas?
- Legal, é tu que manda.

O Vitor é um resumo de tudo que quero e penso sobre Satolep. Acredita que o seu trabalho pode ecoar pelo mundo, sem que ele precise deixar de morar neste lugar que ama e se sente tão bem. Ele é uma espécie de referência deste lugar tão singular.
Por isso que a pergunta do Vitor não me saia da cabeça.
- "Onde tu tá pensando em fazer as fotos?"

Pensei em andar pelo centro histórico de Satolep onde a umidade do ar combina com nostalgia da sua música. Pensei em ir para o Bairro Porto, onde ele fez a capa do novo CD. Pensei até em levá-lo para o Café Aquários, ponto de referência de todos os habitantes de Satolep. Mas qualquer uma destas idéias não seriam originais.

Liguei para o Araújo do Segundo Caderno da ZH, em Porto Alegre, e ele me falou que as fotos tinham que ser bem conceituais. O délibáb é um disco de milongas, que foi gravado em Buenos Aires. O Vitor musicou poemas do argentino Jorge Luis Borges, e do poeta gaúcho João da Cunha Vargas e não tem muito a ver com Pelotas.

Me derrubou, pensei. As fotos que eu tinha programado não têm nada a ver com o que eles querem.
Fiquei a noite matutando e acordei de manhã ainda sem nenhuma ideia. Assim fui para a casa do Vitor Ramil, às quatro da tarde.
Bati na porta, ele me atendeu e convidou para entrar. Fomos até uma varanda onde fica o piano de calda. A Ana Rute, sua mulher, me mostrou uma máquina fotográfica nova, que o Vitor trouxe pra ela na última turnê que fez pelo Japão. A Ana fotografa tri bem. É dela a capa do CD délibáb, e também aquelas fotos do Vitor no estúdio com o Caetano Veloso.

Bom, mas e as fotos que eu tinha que fazer para o Segundo Caderno da ZH, seriam onde? Ainda não tinha uma idéia final.
Falei pra ele que eu precisava fazer um vídeo com o meu celular, dele cantando uma música inédita do délibáb, para a zerohora.com. Disse a ele que tinha pensado em fazer no Theatro Sete de Abril, mas como o "Sete" está fechado, poderíamos fazer ali, ao lado do piano mesmo.
Ele cantou e tocou violão, eu gravei.
Depois saímos e entramos no carro, foi quando ele me perguntou o que eu tinha pensado.

Centro histórico, Sete de Abril, zona do Porto, não, nada disso. e me veio na hora: minha casa. Lá é o porto seguro de todos os Desgarrados de Satolep que chegam na cidade. Foi construída em 2005, ou seja, nasceu junto com a Sofia e desde então abriga nossos sonhos e acolhe nossos amigos.
Então tá decidido. O melhor lugar para fotografar o Vitor poderia ser a minha casa. Meu mundo, e canto cativo dos que amam Satolep.

Nos dirigimos então para o “Areal Fundos” e nisso até a tarde nublada resolveu nos presentear com um céu azul e um sol morno, para dar cor áquela ideia. Chegamos e a sintonia rolou. O Vitor se sentiu em casa, ficou bem à vontade. Começamos a fotografar e as imagens começaram a fluir. Cada foto batida me dava a certeza de que eu tinha escolhido o lugar certo.
Fotografei ele no campo, sem que as fotos ficassem campeiras. Surgiam imagens que poderiam ter sido tiradas em Pelotas, Porto Alegre, Buenos Aires ou até na Hungria. Mas eram aqui em casa e o Barão de Satolep estava visitando meu castelo. Estava vislumbrando nosso arroio e tocando para os meus cachorros, em plena tarde de terça-feira.

Tomamos mate, fotografamos mais um pouco e conversamos por um bom tempo. No final, o Vitor me contou que no DVD dele, as primeiras e as últimas cenas são gravadas na praia do Laranjal. Olhei para o céu e vi que tinha um bom tempo de luz até o sol se por. Perguntei a ele, se não se importava de a gente dar um pulo lá na praia. Como ele, além de concordar se empolgou com a ideia, entramos no carro e fomos.

Chegamos ao Laranjal e as últimas matizes do dia se desfaziam. Como já estávamos sintonizados, descemos do carro fotografando. No final, senti a mesma sensação de antes. As fotos eram nas margens da Lagoa dos Patos, mas poderiam ser no Rio da Prata, em Buenos Aires, ou qualquer outro lugar do mundo.
Já anoitecia quando voltamos para cidade, para leválo em casa. Cruzamos a cidade, e quando entravamos na avenida Bento Gonçalves, o trânsito parou. O Vitor perguntou por que a gente não desviava pela Domingos de Almeida que tinha menos carro. Olhei para a direita e vi que no carro ao lado estava a minha amiga Silvinha. Gritei o nome dela, e pedi para cruzar pela sua frente para desviarmos para outra rua.
O Vitor comentou:
- Só em Satolep para ti olhar para o lado e ver alguém que tu conheces pelo nome no engarrafamento. Se fosse em São Paulo seria mais fácil ser assaltado no trãnsito.

Larguei o Barão de Satolep em casa, me despedi e fui embora pensando.
Por isso tudo e muito mais que Satolep é um lugar especial. Moramos em uma cidade histórica, onde a cultura germina em cada esquina. Moramos em um lugar onde temos tudo que precisamos sem pagar todo o preço de morar em uma metrópole. Dirigimos pelas ruas de um lugar que conhecemos o nosso vizinho de engarrafamento.
Vivemos em um lugar que bem poderia ser Porto Alegre, Buenos Aires ou Hungria. Mas é Pelotas e o melhor, somos vizinhos de Vitor Ramil.
Assista um clipe que gravei especialmente para Zero Hora com Vítor Ramil, ao violão, em Pelotas, um dos cenários de referência de seu novo CD, délibáb. www.zerohora.com
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