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O maquinista de Rio Grande

08 de junho de 2010 4

Em Rio Grande, no encontro das ruas Duque de Caxias e General Bacelar há um maquinista encostado ao lado do seu trem desde o distante 1973. Negro, de cabelos brancos, fala mansa, quase sussurada.

Engana-se quem pensa que Valdeci Bezerra da Silva, 65 anos, é em um maquinista tradicional, que comanda locomotivas sobre trilhos, forradas por cereais, combustível ou congelados, que serpenteiam pelo meio das coxilhas e planíces da pampa gaúcha. Sua rotina é fixa, estática, como se definida pelo linear de trilhos imaginários, onde o passado é distante e o futuro anda a passos lentos. O trêm Rio Grandino carrega há oito décadas empadinhas e panelinhas de côco.

Torélio, como é conhecido pelos amigos, é o homem do trem, alcunha herdada do pai de criação, Antônio. Foi o pai quem encomendou a máquina azul com detalhes em bronze cuidadosamente polido, inaugurada em 7 de setembro de 1924. Vendeu empadas em frente aos teatros e cinemas. Com a velhice, passou ao filho o comando da locomotiva, que acompanhou a derrocada das casas de espetáculo. Acabou montando uam estação fixa na esquina do Calçadão.

Sempre bem lustrado, o trem octogenário é ponto turístico de Rio Grande. Atrai olhares dos curiosos e o estômago dos transeuntes. No braseiro, como a caldeira de uma velha Maria Fumaça fica instalado na parte inferior da máquina, Torélio esquenta as empadas de frango. R$ 0,50 a unidade. Atende o cliente manso, escolhe as peças, empacota e entrega. Certo do retorno.

É assim que há quase 40 anos sustenta a família. Sempre rodeado de amigos, que circundam a locomotiva em longas prosas rio-grandinas. Eu e o Guilherme Mazui, meu colega de Rio Grande, conversamos com Torélio. Com vocês, o homem do trem. 

Retratos da Vida – O que representa este trem?
Torélio – Muita coisa. Foi do meu pai, está na ativa há mais de 80 anos, alimentou gerações. É parte da minha família, um filho, companheiro.

Retratos da Vida – Quanto tempo de parceria com o trem?
Torélio – Eu, 37 anos. Meu pai ficou mais. Mandou fazer o trenzinho em 1924. Periodicamente dou uma geral na máquina.

Retratos da Vida – O senhor mesmo que leva e traz o trem?
Torélio – Claro. Ele tem as rodas. Pego e vou empurrando. Não moro muito longe. Dá uns dez minutos daqui.

Retratos da Vida – E quando chove?
Torélio – Não venho.

Retratos da Vida – Claro. E quem faz as empadas, queijadas e os amendoins?
Torélio – Eu mesmo. Faço pela manhã e vendo à tarde. Fico aqui da uma até as sete.

Retratos da Vida – As empadas são famosas em Rio Grande. Vende quantas por dia?
Torélio – Umas 200. Tem muita gente que é daqui, vai morar fora e quando volta vem comprar umas empadas. São feitas com cuidado e as mantenho quentinhas com o braseiro. Não vendo empada fria.

Retratos da Vida – Qual o segredo da empada?
Torélio – É segredo. Só faço com cuidado e atenção.

Retratos da Vida – Com quase 40 anos como maquinista, já pensa em parar?
Torélio – Claro. Só não sei quando. Vai demorar.

Retratos da Vida – E passará o trem para algum filho?
Torélio – Não. O trem vai se aposentar comigo. Vai parar em algum museu.

Comentários (4)

  • sergio henriques diz: 8 de junho de 2010

    caro amigo sera que deve ir a um museu . faça o que teu coraçao mandar amigo .do tempo de quartel .lenbra do quebra osso. ficou na historia ,talves o trem deva ficar em um museu para a historia de rio grande.abraços amigo.

  • Edu Jacques Filho diz: 8 de junho de 2010

    Boa, Nauro. Ótimo resgate. O maquinista faz parte do centro de Rio Grande. Não me lembro de ter visto qualquer publicação sobre ele. Outro que faz parte da nossa identidade é a carrocinha de doces da igreja do cassino. O Pingo Doce. Enfim, eles são o retrato de nossa vida…

  • Luis Carlos Martins diz: 17 de junho de 2010

    Confesso que me emocionei e muito com essa justa homenagem do Nauro Junior ao Torélio. Qual Riograndino, papareia juramentado, não lembra dessa pessoa terna e educada com sua Maria Fumaça, réplica daquela que muitos de nos viajamos(no meu caso, meu pai, o velho Carlos Arcebispo foi um ferroviário) para Santa Maria ou a fronteira. Torélio nesse momento tu representas a minha Rio Grande, do cais do entreposto onde eu pescava peixe-rei… da URE’s e das praças

    Obrigado Nauro Junior e Torélio, por esse momento de saudosimo, porque não? mas de felicidade.

  • Roger diz: 21 de junho de 2010

    Parabéns pelo resgate Nauro. Gostaria de saber se permites que eu utilize o material para editar um programete especial para a TV Câmara do Rio Grande.

    Obrigado e aguardo resposta.

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