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Um café com Galeano em Montevidéu

06 de julho de 2010 22

Eu e Eduardo GaleanoQuando saí de Pelotas, já sabia que o repórter que estava me esperando para trabalhar em Montevidéu, era o Diogo Olivier. Ele é um dos entrevistados do livro “A Noite que não Acabou”, escrito por mim e pelo Eduardo Cecconi.
Eu tinha só um exemplar do livro em casa, e quando estava saindo, peguei para trazer de presente para o Diogo. Conheço ele de longa data, e sei que faz parte da elite do jornalismo esportivo no RS. Mas passei a admirá-lo há bem mais tempo.

Eduardo Galeano

Houve um jogo, no estádio Olímpico, há muito tempo, onde o Brasil de Pelotas perdeu para o Grêmio, nos pênaltis. Era a semifinal do campeonato gaúcho daquele ano, quem ganhasse iria para a final. Luizinho era o craque do Brasil, e depois de uma seqüência de onze penalidades cobrados, Luizinho erra. O Grêmio festeja a vitória e vai para a final. O Diogo, incumbido de cobrir o jogo, fez a matéria pela ótica do perdedor. O texto era uma verdadeira obra prima. A Zero Hora deu o texto em uma página, com uma foto de José Duval, onde Luizinho saia de campo chorando e amparado pelos companheiro. Diogo ganhou o prêmio ARI daquele ano com a matéria.

Hoje pela manhã, quando cheguei no Hotel Holiday Inn, o Diogo estava no café. Fui direto encontrá-lo e começamos a programar o que iríamos fazer durante o dia. Ele me confidenciou que estava tentando entrevistar Eduardo Galeano. Fiquei nervoso, minhas mãos suadas, imaginando a possibilidade de poder ficar frente a frente com um dos maiores escritores da língua Ibero Americana no mundo.

Eduardo Galeano com o nosso livro na mão

Depois de vários telefonemas e recados na secretária eletrônica, Eduardo Galeano atente o telefone. O Diogo tentava falar em espanhol, quando o Galeano pede para ele se comunicar em português, que ele entendia bem. Educado e gentil, o ícone literário marcou a entrevista para às três da tarde, em um lugar chamado “Café Brasileiro”.

- Já que vou ser entrevistados por brasileiros, quero tomar o melhor café do mundo, que é o brasileiro.

Com a entrevista marcada, saímos os dois para almoçar no Mercado Del Puerto. No caminho já gravamos um vídeo com o taxista, que afirmava que o Uruguai passa pela Holanda, em um castelhano quase incompreensível. Depois conversamos com garçons, parrlleiro, vendedor de souvenirs, todos enlouquecidos com a possibilidade da Celeste ir para a final da Copa do Mundo. Após um assado de tiras com pomelo, voltamos para o hotel para organizar as coisas. Não sem antes passar pela Praça da Independência, e conferir como estava o clima por lá. Alguns operários aumentavam a torre onde será instalado o telão para o povo assistir ao jogo de amanhã. Um me disse que a cada jogo que passa, o telão aumenta. Se o Uruguai for para a final, terão que pendurar em um prédio, brincou.

Voltamos para o hotel, organizamos equipamentos e minha intenção era gravar toda a entrevista com o celular.

Eduardo Galeano

Quando estamos saindo o Diogo me pergunta por que eu não levo o meu livro para dar de presente para Galeano?

Eu fico com medo, nervoso, mas o Diogo argumenta que é um livro de futebol, e que se eu explicar para ele do que se trata, ele iria gostar.

- Mas eu trouxe este livro pra ti?,

-Depois tu me mandas outro pelo malote da Zero Hora.

Levei. Chegamos ao Café Brasileiro quinze minutos antes. Galeano foi pontual. Pedi um café cortado, Diogo pediu um “suave” e Galeano pediu um chá com leite quente. No início da conversa ele já foi mostrando sua genialidade nas respostas mais simples.

Eduardo Galeano

Como compreender está euforia que vive o povo uruguaio com a Celeste senhor Galeano?

- Nós, o povo uruguaio, somos incompreensíveis, somos apenas três milhões, e pensamos que podemos, mas proporcionalmente não podemos nada.

O que o futebol representa para o povo Uruguaio?

- Somos muito futebolizados. As crianças uruguaias, quando nascem, gritam gol, por isso nossas maternidade são tão barulhentas.

E assim Galeano vai divagando sobre literatura, futebol e o povo uruguaio.

Eduardo Galeano

Consegui gravar toda a entrevista, com a autorização dele, é claro. Encostei o celular em um copo de água e o enquadrei. E deu 38 minutos de gravação.

No final da entrevista me deu aquele aperto no peito quando peguei livro para entregá-lo. Expliquei do que se tratava o livro, e ele me escutou com atenção. Falou que conhece a cidade de Pelotas, mas não lembrava o nome dos times de lá. Quando lhe estendi a mão e entreguei o livro, o velho Galeano que fará 70 anos em setembro, abriu um sorriso, como uma criança que ganha um presente esperado hà tempos. Deu uma folhada e me perguntou quem era o jogador uruguaio que tinha morrido no acidente.

Mostrei a foto do Milar para ele.

Galeano me disse que vai ler o livro. Se ler o prefácio já seria a glória.
Falei então que a Gabi, minha esposa, lia seus livros desde a adolescência. Ele humilde, como só os gênios são me disse:

Eduardo Galeano

- Coitada da moça, é uma vítima.

Depois falei que ela tinha me pedido para mandar-lhe um beijo, foi quando ele virou para a câmera e disse olhando nos olhos dela.
- Gabriela, Gabriela, que emoção, eu estou lhe enviando um beijo.

E olhou para mim e disse:

- Não seja ciumento.

Eu argumentei que não poderia sentir ciúmes dele, porque o amor dela por ele era muito mais antigo do que por mim. Foi quando ele me disse:

- Não te preocupes que eu te autorizo a amá-la como se fosse eu!

Depois demos boas risadas. Galeano nos convidou para ir até sua casa, para ver uma placa que ele pendura na porta durante as Copas do Mundo. Ele se enclausura e avisa:

-Cerrado por Futbol.

Eduardo Galeano

Depois nos despedimos e voltamos para o hotel. Senti que tive um dia histórico em minha vida. Tenho a certeza que passei um dia mágico, daqueles que a gente conta para os netos depois de velho. Hoje fiz uma daquelas fotos que valem muito mais pelo fotografado, do que pela própria foto. Hoje fiz uma foto daquelas que quando a gente mostra para um aluno de jornalismo, ele pensa.

Eduardo Galeano

- Como este cara é importante, já fotografou até o Eduardo Galeano.

Mas na realidade, o que fica de um dia como hoje, não são as fotos, nem o que os alunos irão achar um dia, mas sim o que eu vivi.

Eduardo Galeano em um Café de Montevidéu

Veja a entrevista com Eduardo Galeano na integra amanhã em www.zerohora.com

Siga Retratos da Vida no twitter: @nauropelotas

Comentários (22)

  • Ceres diz: 6 de julho de 2010

    maravilhosa crônica. Galeano ficará feliz! é sensível e humana como ele. obrigado por me dar este lindo amanhecer :) beijos

  • Jeandro diz: 6 de julho de 2010

    Puxa Nauro, nem tem o q se comentar num post desses, já se auto-comenta, muito bom mesmo…

    Está sendo belíssima essa sua viagem.

    Abraços

    Jeandro

  • Jeandro diz: 6 de julho de 2010

    Achei essa frase e queria deixar aqui pra ti:

    “Viajar é fazer uma jornada para dentro de si mesmo.” (Dena Kaye)

    Jeandro http://www.caminhosdosul.com.br/

  • Fabrício Marcon diz: 6 de julho de 2010

    Que momento, Nauro! Muy especial.

  • andréia pires diz: 6 de julho de 2010

    Que dia incrível, Nauro. Essas fotos… esse encontro… coisa para não esquecer mais. Parabéns!

  • Fernanda diz: 6 de julho de 2010

    Nauro,
    Que inveja (mas é uma inveja boa, viu?!)
    E estas fotos… Como não querer um Galeano particular para nos fazer rir, pensar e querer agir depois de uma simples conversa!!

  • Equipe Digital diz: 6 de julho de 2010

    Ótimo post !
    Aproveito para convidar você a visitar o site do Deputado Federal Beto Albuquerque
    http://www.betoalbuquerque.com.br

    Obrigado !
    Abraços da Equipe Digital do Beto Albuquerque

  • Gustavo Peralta ( verde amarelo) diz: 6 de julho de 2010

    buen día Nauro

    Felicitaciones por la narración de ese encuentro!

    Esta vivencia, inolvidable por cierto, son las que un periodista guarda y atesora para siempre!

    Gracias por compartir estos momentos tan especiales en momentos previos a un hecho socialmente históricopara Uruguay, con un referente como Eduardo Galeano.-

    Un abrazo Nauro y favor, si deseas y cuando puedas escribime a mi correo para mantenernos en comucación.

    cordialmente un uruguayo admirador de Brasil y su gente!

    Gustavo Peralta

  • eduardo diz: 6 de julho de 2010

    Que inveja, tomar um cafe com o Galeano. Parabens pela materia.
    Estive com Galeano no Gigantinho com outras milhares de pessoas, foi durante o Forum Social Mundial . Lembro da espectativa de todos pela sua palestra. Quando iniciou sua fala o silêncio era ensurdecedor. Li todos seus livros.
    Um abraço
    eduardo

  • Charles Guerra diz: 6 de julho de 2010

    Momentos como esse, merecem pessoas iluminadas e de coração como tu.
    Parabéns pelas imagens e pelo excelente post.
    Estou acompanhando de perto.
    Valeu Dani Xú por ter me dado o toc!!!!
    Sucesso ai meu querido NJ!!!!

  • Alexandre Amaral diz: 6 de julho de 2010

    Brilhante !! Simplesmente brilhante !! O texto é primoroso. És um grande fotógrafo, mas teu talento com as palavras já demanda textos teus no jornal. Que uma mente iluminada na RBS possa enxergar isso. Dale Celeste !!! Hoy somos todos uruguayos.

  • ana diz: 6 de julho de 2010

    lindíssimo texto!!! uma pessoa com tamanha sensibilidade só podeia ganhar da vida um presente como esse. parabéns.

  • Roberto Jardim diz: 6 de julho de 2010

    Nauro, genial o texto e as fotos. Sou fanzaço do Galeano, tenho todos os livros dele, e senti, lendo o teu texto, como se eu também tivesse conhecido esse grande escritor uruguaio pessoalmente.
    Grande abraço

  • Sérgio diz: 6 de julho de 2010

    Nauro, nunca tinha lido teu blog. Vou resumir numa palavra o que senti ao ler essa crônica: CHOREI.

  • Jorge Passos diz: 6 de julho de 2010

    De luxo Nauro!
    Parabéns pelo trabalho que vens realizando!
    Dignifica o jornalismo!
    Abração e Dá-lhe Uruguay!

  • Andréa Heidrich diz: 6 de julho de 2010

    Nauro!

    Coisa mais linda. Se eu fosse a Gabi iria ficar toda exibida!
    Beijo, querido!

  • Wesley Santos diz: 6 de julho de 2010

    Bahhhh Naurinhoooo…
    Sem Palavaras!!!!

    Texto/Fotos/história…… Muito Bommm
    Parabéns!!!!

  • Roberta diz: 7 de julho de 2010

    Parabéns! sempre torço, eu que sou meia uruguaya e meia brasileira, pelo sucesso do Galeano. Ninguém melhor que ele sabe contar a nossa história, a história da América Latina. Ele é um patrimonio de todos nós. Um abraço

  • Gonzalo diz: 7 de julho de 2010

    Gênio!

    Saudades do Mario Benedetti, também.

  • meandros diz: 7 de julho de 2010

    Nossa, que delícia! Quando fui para Montevideo, fiquei hospedado no hostel em frente ao Cafe Brasileiro e, sabendo que o Galeano era frequentador, torcia para que aparecesse quando eu estava tomando um café por lá (ou sempre dava uma olhadinha quando passava pela porta). Não o encontrei, mas com este post é como se eu também estivesse junto.

  • Santiago Gomez. diz: 7 de julho de 2010

    Muy lindas fotos en el Cafe.

  • Daiane Colla diz: 14 de julho de 2010

    Nossa Nauro! Que emoção.. emoção essa que você passou pra gente nas fotos e também no texto! Amo Galeano assim como sua esposa e imagino a invejinha que ela sentiu de ti por não estar junto!

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