Este texto que reproduzo abaixo publiquei no meu antigo blog no dia 5 de agosto de 2009. Esta semana estive na inauguração da Sala de exposições Chico Madri e me emocionei com as palavras do seu Bruno Salésio, pai do Fred. Coloco na íntegra o texto do seu Bruno abaixo do meu.
Saudades do Fred
Nauro Júnior
A algum tempo tento assimilar a perda do nosso amigo Fred, o fotografo Chico Madri. Ontem revirando alguns papéis lá em casa encontrei um bilhete escrito a mão por ele, me pedindo desculpas por ter pedido o meu Bomb e demorado três meses para entregar. Eu tava furioso com ele, mas o bilhete e aquele jeitão desleixado, me amoleceram o coração. Até hoje me questiono, porque Deus em sua divina sabedoria leva um figuraça igual ao Fred lá pra cima? Será que o paraíso andava muito chato e precisava de um pouco de irreverência? Não sei.
Não pude ir ao funeral do Fred, estava viajando a trabalho. Penso que foi bom, assim guardo aquela imagem dele que encontrei dias antes da sua partida, quando nos encontramos lá na Fenadoce. Nós fotografávamos o show do Marcos Gottinari.
Ouvi dizer que velório dele foi um evento. Tinha gente de tudo quanto era pêlo, as mais variadas tribos. Gente de gravata e gente de bermuda e havaianas, doutor e cuidador de carros, gente de todo tipo que conviveu com ele durante este curto período de vida bem vivida aqui nesta dimensão.
Hoje recebi por acaso um e-mail onde me indicaram ver o Blog do Chico Madri, http://farofino-farofino.blogspot.com/ . Comecei a viajar com ele pelos lugares onde ele andou, com suas angústias, medos, alegrias e amigos em comum. Vi lá o grande amor da vida do Fred, a mulher que ele considerou única, enfim... Matei a saudade deste cara que um dia me emprestou sua máquina fotográfica Rebel, depois foi lá em casa, buscou, e foi embora pra não voltar mais.
Ele sempre gostou de fotografar os astros, hoje Fred está entre eles.
Abaixo o texto que extraí do blog farofino, uma foto que fiz dele quando fotografávamos a procissão de Corpus Christi e outra no Café Aquários. E no final, texto do seu Bruno. Fred faria 29 anos no último dia do amigo.
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Contudo, não se diga que não quero iludir
"Hoje , quero a solidão para divagar. Os dias de angústia foram muitos e os passos remoeram pelas ruas em esquinas para o descanso. Não me diga que eu não queria uma mulher para o entretenimento do sexo. Nem tampouco que eu não queira um copo com vinho para voejar. Não. Não é bem isso. Quero amargurar um silêncio ou uma saudade, a fim de passear pelos confrontos e pensar. E quando tudo for apenas uma pedra e a conquista for apenas vazios, então jogarei o meu corpo no carnaval da vida".

Senhoras e Senhores:
No momento em que a Sociedade Científica Sigmund Freud-SCSF inaugura o ESPAÇO ARTE CHICO MADRID é necessário que se ponha em palavras um pouco do que se passa dentro de nós, pais, irmãos, cunhada e sobrinhos de Frederico Anderson Madrid Francisco. É necessário dizer que o gesto da SCSF, por sua espontaneidade e carinho, significa para nós, familiares do Fred, um suporte para superarmos nossa dor, uma ajuda no duro trabalho interno de transformarmos o convívio diário de que desfrutávamos com nosso querido Fred, num símbolo tão querido. Nossas primeiras palavras são de gratidão a toda a Diretoria da SCSF, responsável por este ato de criação e, em especial à atual Presidente e amiga da família, Lauren Wagner da Silva Cavalheiro, por sua fina elegância no modo como nos mima, em nossa hora de profunda dor. Nosso agradecimento também a Eduardo Devens, do Departamento Cultural da SCSF, participante incansável na organização e execução da primeira exposição individual com fotos do Fred. Como se sabe, nossa relação com a SCSF vem de longa data, desde quando chegamos nesta cidade, há vinte e dois anos, a convite de Sérgio Roberto Abuchaim. Posteriormente a mãe de Frederico aqui exerceu as funções de Presidente, por alguns períodos, dedicando-se ao desenvolvimento científico desta casa, muito bem ajudada por uma equipe de colegas e amigas.
A fotografia sempre teve uma importância em nossa família, como forma de manter presentes os entes queridos que a vida separava ou a necessidade de fixar, num lapso de tempo, acontecimentos que gostaríamos de perpetuar. Foi por uma razão deste tipo que tive vontade de fotografar o nascimento dos meus filhos. Do primeiro, Bruno, não consegui, por pura emoção. Da segunda, não consegui, porque ela adiantou-se e quando chegamos na maternidade, eu e o irmão mais velho dela, Anna já havia nascido. Para o terceiro filho preparei-me todo, como a recuperar as impossibilidades anteriores. Fotografei todo o parto do Fred. Parto cesáreo. Lembro-me de sua cabeleira basta e arruivarada, saindo do útero de sua mãe e de suas bochechas róseas, de bem nutrido. Foi o único filho cujo parto fotografei. Em troca ele nos fotografou e, por extensão, o mundo, como atividade artística e profissional mais importante, na sua vida. Haverá algum elo de compreensibilidade entre ele ser fotografado ao nascer e ter-se tornado um fotógrafo? Os profissionais da psicanálise, como nós, temos nossas hipóteses...
Na evolução do que se passa dentro de nós, familiares do Fred, hoje está cada vez mais claro alguns ideais e objetivos de vida que ele nos sinalizou. Mantive com o Fred longas conversas sobre temas da vida, que lhe eram essenciais. Deduzo que ele se dedicou à fotografia, por ser sua forma de comunicar condensadamente muitos conteúdos, através da imagem, como só a imagética faz. Nós que comunicamos nossas ideias escrevendo, levamos um tempo longo para nos explicarmos. O profissional da imagem, o fotógrafo, consegue sintetizar seu intuito num gesto rápido, criativo e artístico. Esta ligação com os amplos significados da imagem levou-o a interessar-se por semiótica da comunicação, nos últimos anos de sua vida. Costumava ler um autor dinamarquês, Louis Hjelmslev. Poderíamos falar muito mais sobre nossas conversas, noite a dentro, a respeito da ligação do Fred com a imagem. Sintetizaria dizendo que a fotografia foi a forma de comunicação encontrada por ele para comunicar-se com o mundo: mostrou-nos como admirava o mundo; mostrou-nos o que criticava no mundo; mostrou-nos como vivia o mundo; mostrou-nos como sonhava um outro mundo. Tudo através da linguagem fotográfica.
É necessário também por em palavras nossos sentimentos de comovida gratidão em relação ao grupo de amigos do Fred, responsáveis pela ampla e carinhosa divulgação da criação do ESPAÇO ARTE CHICO MADRID na imprensa local. Fred trabalhou no Diário Popular, onde foi muito bem recebido, tanto pela instituição, como pelo grupo de profissionais que ali trabalha. Entre todas as categorias de funcionários do Diário Popular Fred amealhou amigos. Na intimidade do dia-a-dia, seu grupo mais próximo era o da fotografia, com quem viveu pautas, churrascos e cervejadas. Desde que Fred faleceu, o grupo de amigos do Diário Popular tem dedicado a nós familiares uma atenção terna de cuidadores solidários.
Agradecemos aos amigos do Fred, aos nossos amigos e aos amigos do Fred que se tornaram nossos amigos. Estamos aqui presentes, num ato que poderá perenizar o Fred conosco. Quando quisermos vê-lo, lembrá-lo ou simplesmente demonstrar nosso carinho por ele, teremos esta possibilidade simbólica, a partir de hoje.
Muito obrigado!
Pelotas, 20 de julho de 2010
Bruno Salésio da Silva Francisco
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