Quando iniciei em uma redação, no finalzinho da década de 80, lá no Jornal NH, as redações eram preto em brando. O burburinho de vozes, o tilintar de xícaras e o tec-tec-tec das máquinas de escrever, eram a trilha sonora do ambiente.
Os fotógrafos Miro de Souza, Juarez Machado, Inézio e Ivan Duarte, entravam e saiam toda hora embarcados nas kombis que durante a noite entregavam os jornais, e de dia eram as viaturas oficiais da redação. Eu, que trabalhava no 3º andar, onde ficava o silencioso semanário Jornal Exclusivo, sempre que podia descia até a do NH para me alimentar daquele ambiente denso e morno que era a redação.
Naquela época, se podia fumar nas redações. Isso fazia com que as luzes que teimavam entrar por algumas frestas, criassem um pintura impressionista, onde jornalistas, suas máquinas e suas laudas se misturavam na penumbra.
As raras fotos que eram feitas na redação, eram P/B. Porque naquela época, só existiam fotos em preto e branco. Quando algum fotógrafo, chegado de alguma pauta, passava pela redação e flagrava algum jornalista boêmio cochilando antes de escrever seus textos, as velhas Pentax K1000, com filme TRI X 400 já funcionavam, misturando um instinto jornalístico com um pouco de sacanagem com os colegas.
Logo depois, no laboratório, a galera entre risos assistia a alquimia, transformando a brincadeira em fotografia P/B. O cheiro do Dektol, do fixador, dos negativos, me fizeram daltônico em relação às redações.
Quando, há 15 anos vim trabalhar na sucursal da Zero Hora, em Pelotas, recém os filmes preto e branco tinham sido abandonados. Nos primeiro anos por aqui, bati as fotos em filmes Fuji coloridos, e os enviava para Porto Alegre dentro de um envelope para serem revelados por lá.
Nunca sabia qual o resultado do meu trabalho. Acabei ficando mais íntimo de taxistas e motoristas de ônibus, que me ajudava na insana tarefa de fazer chegar o material até a redação, do que dos meus próprios colegas de Porto Alegre. Lá eu criei melhores amigos, que por telefone confidenciava os segredos mais íntimos, sem eu nem mesmo conhecer o rosto de quem estava do outro lado da linha.
Fui me dando conta aos poucos, de que eu era um solitário correspondente. Que a cada ano chegava um jovem jornalista na sucursal, com os olhos brilhando em direção ao futuro. E este futuro chegava um ano depois, o levando embora, obrigando a me reconstruir novamente, com um novo colega.
Fui me dando conta de que estava me acostumando, e gostando deste desafio de lutar contra moinhos de vento. Sonhando que a vida de correspondente era a melhor, apesar de ser solitária. Que em uma sucursal ainda se pode guardar certos costumes das velhas redações, onde o prazer deitar a cadeira para trás, colocar os pés em cima da mesa, e entre gargalhadas contar histórias em um tom de voz mais alto. Sem dúvida nenhuma seria motivo para um aviso prévio nas frias e informatizadas redações modernas.
Fui o último fotografo de todo o Grupo a RBS a receber uma máquina digital. Fui um Don Quixote defensor dos filmes, mas como na vida, tive que dobrar a espinha para a informatização da notícia. Estes dias o meu amigo Schlee me disse que as redações modernas parecem mais com um hospital do que com um lugar onde trabalham jornalistas. Ele me contou do tempo em que trabalhou com o Tarso de Castro, com o Samuel Wainer e que aquele ambiente está extinto como estão extintos os dinossauros.
Semana passada fui convidado para trabalhar dois dias na redação da Zero Hora, em Porto Alegre. Confesso que fiquei com um aperto no peito, e senti meu coração bater disparado quando tive que sair com um repórter e um motorista que eu nunca tinha visto. Em uma sucursal a equipe é quase uma família. Me senti como o menino que iniciava a carreira lá no final da década de 80.
Me senti mais solitário no silêncio da redação, onde jornalistas multimídia e web jornalistas se concentram nas notícias com os olhos colados em um monitor. Porque a internet transformou o universo no quintal de sua casa.
Sinceramente me senti um pouco sozinho, senti um pouco de saudades de um tempo que foi atropelado pelas mistura de cores que só um mundo informatizado pode criar. Meus olhos saudosistas procuraram no meio da silenciosa redação, pessoas que se reconstruíram sem perder a essência preto e branco do jornalismo humano. Pequei uma Nikon D90 que carrego na bolsa sempre com o modo P/B, e por instinto comecei a fotografar a redação da Zero Hora em Porto Alegre.
A noticia está cada vez mais rápida. Não encontro mais o cheiro de café, cigarro e negativos pelos corredores das redações. Penso que o ambiente hoje pode ser mais salubre, mas sem dúvidas não é mais tão romântico. O jornalismo mudou, eu mudei.
Eu hoje trabalho com máquinas digitais, tenho um blog, twitter, msn e todas as facilidades que o web jornalismo moderno pode oferecer. Mas meus olhos ainda teimam enxergar as redações em Preto e Branco e eu divido esse olhar aqui e agora.




15 de outubro de 2010 às 7:23 pm
O texto é lindo.
Não sei se é triste.
Mas confesso que me tocou profundamente.
Acho que a gente precisa ser multicolorido, sem deixar de ser P&B, se é que vocês me entendem.
16 de outubro de 2010 às 1:46 pm
Nauro, essa postagem é um resumo de todas essas nossas novas inquietações. Quando se clica em "redação da Zero Hora em Porto Alegre" não sabemos bem se estamos vendo um álbum de fotografias, assistindo um vídeo, ou curtindo um clip musical... Mas, pelo menos uma coisa fica evidente: fotografia é o aquilo que Breson nos ensinou. Só isso, nada mais. O resto é tecnologia japonesa...
Abs
Vaz
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