Por Nauro Júnior.
Este é um texto de ficção. Qualquer semelhança com pessoas ou com a realidade é mera coincidência.
Ontem, no final do jogo do Pelotas, abaixo das arquibancadas, lá, em frente ao vestiário, foi lá que entendi por que o time áureo cerúleo foi mal em campo na estréia do Campeonato Gaúcho de 2011. Foi exatamente lá que vi, com estes olhos que vivem olhando o mundo, o principal motivo da desestruturação do time "azul e ouro" no segundo tempo. Foi lá que entendi por que o Ypiranga de Erechim massacrou o Pelotas dentro da Boca do Lobo, tal qual fez o Todo Poderoso Mazembe com o frágil, acuado e covarde Internacional de Porto Alegre em Abu Dhabi.
Mas para vocês entenderem melhor, preciso falar um pouco de um fato histórico, corriqueiro em qualquer equipe de futebol quando está sendo montada.
Quando um time está em formação, dirigentes e treinadores tentam encontrar centroavantes, goleadores e zagueiros valentes. O que se espera de um zagueiro é que ele já chegue ao estádio “brabo”. Que em campo seja um xerife, que tenha um olhar sisudo para os adversários, cara de mau. E que não dê toquinho na bola e, sim, que a espante de perto da área de seu time a patadas.
Já do centroavante se espera que seja irreverente, que chegue ao estádio sorrindo e contando piadas, divertindo desde o flanelinha até os caras que estão aparando a grama do campo. E quando joga tem que ser aquele cara que provoca o zagueiro adversário, que ginga com a bola nos pés antes de chutar em gol e, se possível, dê um balãozinho no zagueiro adversário antes de marcar.
O zagueiro contratado deve mandar. O centroavante de preferência não deve obedecer.
Zagueiro é aquele cara centrado, que chega cedo em casa, que leva os filhos para brincar na pracinha do condomínio, que toma mate com a esposa e que leva a família para assistir ao treino no estádio, para depois irem embora todos de mãos dadas.
Já o centroavante é aquele cara que se atrasa para os treinos porque ficou até tarde na balada. E quando chega ao estádio é recebido aos beijos por algumas "marias chuteiras".
Enquanto o zagueiro é completamente fiel, o centroavante tem muitas mulheres.
O zagueiro na maioria das vezes é o capitão do time, o centroavante nunca vai usar a braçadeira. O zagueiro é o homem de confiança do treinador, uma espécie de extensão dele dentro do campo. O centroavante é o cara que o treinador tem que viver acalmando, é vaidoso, tem um ego maior que os gols que marca.
Um zagueiro, quando marca um gol, corre para os braços do treinador gritando: “É nós, é nós...”
O centroavante, quando faz tremer a rede corre para a torcida, escala a tela, faz coraçãozinho para as câmeras de TV, manda beijos para as namoradas, etc, etc.
O zagueiro vive treinando. É o cara que passa a vida assistindo à partida lá de trás, sabe tudo de técnica e, depois que para de jogar, se transforma em ótimo treinador, como Luiz Felipe Scolari.
O centroavante joga por obrigação, odeia treinar e quando pendura as chuteiras abre um restaurante, uma casa noturna, ou ainda se candidata a deputado como Romário ou Bebeto.
Tenho observado durante os anos em que acompanho futebol, ali de dentro do campo, que nada muda. Zagueiro é zagueiro, e centroavante é centroavante.
O torcedor tem um amor incondicional e edipiano pelo centroavante como se fosse ele sua própria mãe. Mas respeita e confia na valentia do zagueiro, como se fosse um pai.
Quando o zagueiro vai treinar, o carro que estaciona em frente ao estádio é um Corolla cinza, um Honda Civic verde-musgo. Já um centroavante, encosta camionete Mitsubishi preta com insulfilm nos vidros ou um conversível vermelho.
O que se espera de um zagueiro é que ele tenha uma esposa. Uma senhora nem muito bonita nem muito feia, que seja boa mãe, boa esposa e que essa mulher lhe passe tranqüilidade, tanto quando está em casa ou dentro das quatro linhas. O zagueiro precisa saber que aquela senhora está lá.
Do centroavante se espera que tenha muitas mulheres, loiras, morenas, lindas, poderosas, “periguetes”, “popozudas”.
Quando zagueiro entra em campo, discretamente o pai diz para o filho: “Vai lá e pede um autógrafo, que este cara é um exemplo pra ti”.
Quando o centroavante aporta de um carrão, com brinco nas orelhas e correntes de ouro nos braços e no pescoço, todos correm à volta dele para pedir autógrafo. Meninos meninas e, principalmente, mulheres.
O zagueiro é concentrado 24h por dia. Centroavante vive no mundo da Lua.
Bom, voltando ao início desta história, vou explicar o motivo de o Pelotas ter se desconcentrado no último domingo.
Enquanto os jogadores do Pelotas estavam no vestiário tomando banho e tentando assimilar a derrota de 2 x 1, de virada, para o Ypiranga, observei suas mulheres e seus filhos que os aguardavam debaixo das arquibancadas. Foi ali, quando eu saía do estádio em direção a minha casa, carregando máquinas, lentes, laptop, monopé, e toda a parafernália que um fotógrafo de futebol carrega, foi naquele instante que meus olhos viram aquela mulher.
Abaixo de seus cabelos loiros e bem cuidados, tinha um corpo de mais ou menos um metro e oitenta de altura, esculpido generosamente pelas mãos de Deus. O olhar angelical destoava de todos os olhares de todas as esposas de jogadores que ali, junto com ela, aguardavam seus maridos. Seu rosto parecia uma pintura de um anjo de Rafael e não lembrava em nada aquele ambiente hostil de estádio de futebol.
Pensei ser alguma modelo, amiga de algum dirigente, ou até mesmo a musa do clube. Não me contive, perguntei para um radialista quem era aquela jovem senhora ali junto com as esposas dos jogadores?
Ele me respondeu:
- “É a mulher do Zagueiro.”
Não posso acreditar que um zagueiro que passa a vida dando pontapés receba a bem-aventurança ter a esposa mais linda que qualquer jogador de futebol já imaginou ter. Não estou dizendo que não mereça, ele deve ter dotes inimagináveis para alcançar tamanha graça.
Mas não estamos falando em uma bonitinha, nem de uma mulher bonita. Ela, a mulher do zagueiro, é daquelas que destoam. Daquelas que, quando entram em um restaurante, os maridos (das outras) não conseguem disfarçar e lhe perseguem com o olhar, sob os protestos de suas esposas.
A esposa do zagueiro do Pelotas é mais linda que a Suzana Werner ou a Wanda Nara, ou até mesmo que a mulher do Kaká ou a do Messi. A mulher do zagueiro do Pelotas é mais bonita que a Victoria Beckham, ou aquela linda modelo que é casada com o Figo. A mulher do zagueiro não caminha, ela flutua, ela levita, ela deixa um rastro de primavera por onde passa.
Quero que me entendam, mas não posso crer que o jogador que tenha uma esposa daquelas lhe esperando nas arquibancadas, lá nas cadeiras cativas, consiga se concentrar. Ele sabe que é admirado por todo o estádio, que é invejado pelos dois centroavantes em campo. Sabe que é odiado por toda a torcida adversária, que todo o estádio, na maioria do tempo de jogo, lança seu olhar lá para as cadeiras cativas. E por mais que saiba que ela é completamente fiel, em algum momento ele se desconcentra. Ele é temido, admirado, invejado, é amado.
No final do jogo de domingo, o goleiro do Pelotas foi eleito o vilão da partida por ter tomado um frango em uma bola que era fácil de defender. O jogador do Ypiranga chutou do meio do campo, a bola acabou passando pelo meio das mãos do pobre do goleiro. No final da partida toda a torcida entoava um cântico: “frangueiro, frangueiro...”
Eu assisti ao lance pelo menos dez vezes. Repetidamente vi a jogada em câmera lenta para ter certeza de que não era ilusão de óptica. Depois de ver e rever com o controle remoto na mão o episódio do gol, consegui confirmar.
O goleiro estava distraído com o olhar levemente inclinado lá para o pavilhão social, foi pego desprevenido pelo atacante adversário, que espertamente chutou do meio do campo.
Toda a torcida pediu a saída do goleiro. Os dirigentes pensam em mandar o vilão da partida embora. O treinador tenta dar uma segunda chance para ver se o guardião da meta azul e ouro se recupera. Vão acabar pedindo a cabeça do treinador também.
Mas, na minha humilde apreciação dos fatos, quem deveria ser mandado embora era a mulher do zagueiro. Enquanto ela estiver orbitando pela Boca do Lobo, ninguém vai se compenetrar nos jogos. Nem o zagueiro, nem o centroavante, muito menos torcedores.
Enquanto esta mulher estiver por lá, o Pelotas não ganha.
Pra mim, a verdadeira culpada pela derrota do Pelotas na estreia no Gauchão 2011 é a mulher do zagueiro.
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