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Sobre maneiras de medir a vida

02 de abril de 2012 0

Este texto foi escrito pelo jornalista Cassio Filter. Um amigo que tive a oportunidade de dividir pautas… Adorei o texto e tomei a liberdade de dividir com meus amigos.

A Vida e a Morte são como amigas inseparáveis. São complementares. Não existe morte sem vida. Não existe vida sem morte. São tão amigas que estão sempre juntas .  A Vida é a amiga bonita, feliz e ingênua. A Morte é a amiga feia, amarga e esperta. E a Vida e a Morte, como todos os amigos que sabem que não vivem um sem o outro, tem a ciência de que alguém precisa ser mais sensato para que a amizade permaneça saudável e perene diante dos devaneios da existência. E este papel cabe à Morte.
A Morte sabe que é mais forte e inteligente que a Vida, assim como sabe que a Vida é mais rica, atraente, formosa e carismática. E a Vida, por ser assim, toda perfeita e ter tudo a seus pés, muitas vezes, se posiciona de forma fútil diante do mundo. Fica insolente,  inconsequente,  vazia. Daí a Morte, no seu papel de melhor amiga , precisa fazer algo. Normalmente faz. E faz de forma insólita. Tem vários métodos. Um das maneiras mais comuns e preferidas da Morte chamar a atenção da Vida é quando abraça inesperadamente alguém jovem, de quem a Vida é fã. Quando faz isto, paradoxalmente, a Morte sempre age a favor da vida. Por vários motivos.
Quanto mais jovem o cadáver, mais dolorosa é a morte. No óbito precoce, o sofrimento se alimenta da perda, mas se entorpece principalmente, no lamento pelo que aquele corpo, agora só matéria, deixa de viver. Logo, a Vida passa a questionar a efêmera transitoriedade da existência e tornar cada momento singular.
Quanto mais iluminada a alma, mais ampla é a dor. Quem não conhece se emociona só de ouvir falar,  quem conhece lamenta a perda e agradece pela existência. Logo, a Vida passa a refletir sobre a necessidade de perpetuar aquela luminosidade.
Quanto mais imprevista é a morte, mais aguda é a dor. A estupidez do inesperado nos é nítida crueldade pela proibição da despedida e a culpa por não ter sorrido mais, conversado mais, interagido mais com aquele corpo que agora é só matéria, é a presença da ausência. A Vida passa a pensar que é preciso abraçar mais, dizer mais, falar mais, fazer mais.
A Morte representa o término, mas não significa o fim. Algumas mais, outras menos, mas uma uma morte quase sempre multiplica a existência de milhares de vidas.
E  quando, repentinamente, alguém jovem e iluminado morre a própria multiplicação de vidas se multiplica. É como se uma tsunami invisível de valorização da própria existência inundasse corações e mentes. Temosias pessoais se dissolvem , orgulhos antigos desmoronam diante dos exemplos reais da incerteza do amanhã e da fragilidade humana diante da próxima esquina.

Inevitavelmente, entre as reflexões mais óbvias diante de uma morte inesperada são: “estou vivendo de fato como eu gostaria de viver? E se fosse comigo, o que eu gostaria de ter feito e não fiz?”. As reflexões são óbvias. As respostas não.

A vida não possui unidade de medida para sabermos o quanto da capacidade dela estamos utilizando, mas acho que duas perguntas nos ajudam a responder se estamos de fato vivendo ou existindo sob a face deste planeta, se estamos aqui por merecimento ou só ocupando espaço.
A primeira pergunta que acredito servir como uma maneira de medir a vida ouvi de um amigo, que ouviu de outro amigo: qual foi a última coisa que tu fizeste pela primeira vez na vida? As oportunidades, mesmo que em escala e valores diferentes, estão abertas a todos: dizer algo a alguém, uma viagem , um experiência culinária, um fetiche, um livro, uma prece, um carinho, uma brincadeira, algo importante, algo ridículo, uma verdade, uma mentira. A vida é uma festa open-bar. A opção de experimentar o diferente ou contentar-se como mesmo é pessoal.
A segunda pergunta é: o que tu já fizeste que seja digno de contar para teus filhos e netos? Fazer algo que nos orgulhe é alimentar a alma assim como fazer a diferença para algo ou alguém é sim necessidade e obrigação. Mesmo que não percebamos, realizar, mesmo que não seja grande ao mundo, mas que seja enorme a nós, é uma espécie de pagamento pela oportunidade de estarmos vivos. É uma maneira de estar com as contas acertadas com a vida.
Ênio Knak Júnior fez muito do que se orgulhariam os filhos e netos que a Vida e a Morte lhe negaram.  E desde o instante que subiu naquela escada energizada em Santo Ângelo, fez e fará com que muitas pessoas fizessem, façam e farão muitas coisas que nunca haviam feito antes na vida, como este texto lamentando a morte de alguém próximo, que, mesmo com centenas de amigos em comum, nunca tive a oportunidade de conhecer.
Vida e morte em plenitude. Algo para poucos.

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