Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Expedição Fucamérica

03 de julho de 2014 0

Olha aí uma prévia da matéria sobre a nossa viagem de fusca a Montevidéu. Você  que acompanha a história do fusca e vem viajando comigo  na Expedição Fucamérica não pode perder. Amanhã eu publico a matéria completa.

 

http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/jornal-do-almoco/videos/t/edicoes/v/ja-rumo-a-montevideu/3471323/

Eu já volto

10 de janeiro de 2013 0

Gente, hoje termina meu atestado de 14 dias. A partir de amanhã estarei fora por licença de saúde. É a primeira vez, em mais de 25 anos de trabalho que isto acontece. Sempre ouvia dizer que as pessoas se “encostavam” sem saber bem do que se tratava. Pois é. Eu esterei encostado nos próximos 30 dias. Por isto eu não posso publicar no blog nestes dias. Mas prometo voltar em breve. Por enquanto vamos nos vendo no Face, twitter e aqui em casa. Porque eu não posso sair de casa pra ver ninguém.

Por enquanto vou deixar aqui o convite para o lançamento do meu livro, Náufrago de um Mar Doce. Passa lá Cultura pra a gente se ver.

Até já.

Nauro Júnior

Motivos para viver. Livros e fotografia

08 de janeiro de 2013 2

Me fiz fotógrafo muito mais por necessidade do que por talento. Precisava uma profissão para me sustentar, o que já vinha fazendo como sapateiro desde os 12 anos, mas estava desempregado. Encontrei duas figuras exóticas (Xirú e Betinho) que tinham um estúdio de 3X4 ali na Rua 5 de Abril em Novo Hamburgo. Como caminhava pela cidade em busca de um novo emprego em uma fabrica de sapatos, parava ali para bater um papo, tomar um mate. Um dia todos saíram e eu fiquei tomando conta do lugar. O Xirú me disse que se chegasse um cliente era para eu fazer a 3×4 e cobrar a metade adiantado. Fiquei rezando para não chegar ninguém, porque apesar das explicações que me dram, não me achava preparado para bater uma foto. Todas que tinha feito até então tinham saído com as cabeças cortadas e mais outras atrocidades imagéticas; 
Chegou uma moça: Eu, com cara de experiente, recebi ela e antes se sentar em um banquinho para fazer a foto em que ela se veria na identidade por muito anos, indiquei o espelho onde ela arrumou os cabelos.
Quando o Xirú chegou eu mostrei o dinheiro e ele me deu a metade da grana. Me levou ao laboratório e revelei a primeira foto da minha vida.
Como podia um profissão onde a gente se divertia, ia em festas, não trabalhava e ainda ganhava dinheiro. Naquele dia minha carreia de sapateiro encerrou.
Passei pela época do deslumbre, de roupas de marcas, de achar que eu era artista.
Passei pela época em que eu pensei que a fotografia iria acabar porque tínhamos que andar com uma máquina com filme cor e outra P/B, porque só a capa dos jornais eram coloridas. Passei pela época que tivemos que fechar o laboratório P/B porque a fotografia preto e branco tinha ficado no passado. Passei pela época em que resistimos bravamente para que as fotos digitais não substituíssem os nossos filmes Kodak, Fuji, T-Max, porque jamais uma foto digital teria a mesma qualidade de uma foto analógica. Chegou o tempo em que nossas Nikons F3 F4, F5, Pentax, Canons analógicas tiveram que ir dormir em uma prateleira. Ainda tínhamos esperança que desse para implantar um beck digital nelas, até que nos convencemos que era como querer chegar de fuca na lua.
Hoje a digital é uma realidade. Parece que aquele tempo nunca existiu. Temos um monte de gente com a máquina encravada no “P” no “A” dizendo que são fotógrafos. Somente duas coisas mudaram minha vida. A fotografia e os livros. Máquinas são máquinas. Frias e desalmadas caixas de ferro que pensam aprisionar a luz.
O que aprisiona a luz é a humildade e a coragem de querer um mundo melhor. A fotografia é uma ferramente de sensibilização. É uma linguagem universal e plena de comunicação entre ricos e pobres, intelectuais e analfabetos.
Amo minha profissão. Sou fotógrafo desde antes de nascer, só que levei 19 anos para descobrir. Vivo uma vida plena. A fotografia me deu amigos, amores, minha casa, e me levou para conhecer lugares. No dia da fotografia só posso desejar uma coisa a todos os meus colegas. Leiam. Leiam muito. Porque minhas fotografias são o resultado de tudo que vivi até a hora do clic. O resto… Bom. O resto é pós-produção.
Parabéns a todos os que vivem e sobrevivem deste sonho cotidiano que é ver o mundo através dos olhos da alma.

O trem descarrilou, eu descarrilei!

05 de janeiro de 2013 0

Foto: Nauro Júnior

Vários amigos têm enviado mail preocupados com meu estado de saúde. Nas redes sociais também perguntam como estou. Vou aqui tentar explicar aqui no meu blog exatamente o que me sucedeu.

Este ano meu plantão de Natal foi super tranqüilo. Uma pauta sobre as melhorias de infraestrutura da Praia do Laranjal me rendeu uma contracapa na zero Hora e a foto comentada da semana.

Mal sabia eu, que no dia seguinte, 26 de dezembro, uma pacata quarta-feira, tudo iria mudar.

Eu estava na redação com a colega Julia Otero quando chegou uma ligação informando que um trem havia descarrilado no leito da antiga Viação Férrea, no bairro Simões Lopes, em Pelotas. Ao chegar lá me deparei com doze vagões do trem que vinha de Cruz Alta em direção a Rio Grande, carregado de trigo, jogados para fora dos trilhos. Sabe aquelas fotos de descarrilamentos que vemos em agências internacionais? Eu tinha na minha frente uma imagem destas!

Comecei a fotografar e fazer vídeos de tudo o que se passava no local. Comigo estavam o cinegrafista Luciano Charnaud, da RBS TV e o fotógrafo Jô Folha, do jornal Diário Popular. Na busca da melhor foto, subi em vagões, caminhei sobre os trilhos e procurei os mais diferentes ângulos, já que a pauta poderia ser capa do jornal.

Com o material quase pronto, fui cruzar entre os trilhos e ao pisar na brita que sustenta os dormentes, meu pé torceu e cai no chão sustentado apenas pelo meu pulso direito. Consegui salvar a máquina, segurando com a mão esquerda e sustentando-a pela alça no pescoço. Senti aquela dor aguda e fiquei mareado. Quando levantei os olhos vi a mão estendida de um dos fiscais da rede ferroviária, solidário, que me ajudou a levantar. Na hora já vi que não conseguia colocar o pé no chão, mas sabia que precisava transmitir as fotos rapidamente, porque já caia a tarde e arriscava não saírem no jornal do outro dia.

Foto: Júlia Otero

Chegando à redação, a colega Julia Otero, vendo o inchaço do pé, buscou um saco de gelo para amenizar a dor. Com o pé para cima, enviei as fotos e fui para casa, pensando que a dor iria diminuir. Ledo engano, quase não dormi. No dia seguinte a Gabi me levou direto para o Pronto Atendimento da Unimed. Por sorte tinha um traumatologista no plantão. O Dr. Tales Marçal foi impecável!

Foto: Paulo Rossi

Saí dalí com uma bota ortopédica, o pulso enfaixado e 14 dias de molho. O tempo passa, mas a dor não me deixe. Estou começando a ficar preocupado, mas vamos ser otimistas, o ano está só dando as caras!

Miro de Souza... Uma lenda.

03 de janeiro de 2013 1

No final da década de 80, lá em Novo Hamburgo, decidi que queria ser 
fotografo de jornal. Não sabia muito bem o que o futuro me reservava. Mas 
tinha decidido que queria ser como aqueles caras que eu lia todos os dias o 
nome nos cantinhos das fotos do Jornal NH. Eles estavam sempre em ação, e me 
parecia que aquela falta de rotina seria a minha felicidade. Um deles, em 
especial, me chamava a atenção. As fotos de Miro de Souza nunca eram óbvias. 
Não precisava ler os créditos. Quando uma imagem na capa do jornal viesse 
com ângulos intrigantes, era sempre dele. Eu estava começando como fotógrafo 
de aniversários e casamentos e resolvi ir até o jornal pedir emprego. O que 
consegui foi uma vaga nas rotativas, durante a madrugada. Assim fiquei 
durante um ano, tentando alguma coisa na área da fotografia. Um dia fui 
convidado para trabalhar de auxiliar de laboratório, e lá comecei a conviver 
com o Miro. Além de ser um fotógrafo inteligente, culto, era de uma bondade 
que encantava a todos. Miro estava sempre pronto para ajudar, ensinar e dar 
um conselho a quem quisesse ouvir. Logo que fui para a fotografia, lembro 
que ele ganho o Prêmio dos Direitos Humanos. Um orgulho para todo o setor. 
Miro foi meu primeiro ídolo no fotojornalismo. E quem é o primeiro, sempre 
terá um lugar de destaque na nossa vida. Agora que estou aqui na cama me recuperando, fiz uma retrospectiva de alguns momentos de minha vida e Miro de Souza faz parte de um destes bons momentos. Este é um dos últimos fotojornalista a moda antiga do Rio Grande do Sul.

Abaixo coloco um breve ensaio de fotos antigas de Miro de Souza. As legendas foram escritas por ele mesmo.

Foto Rua 5 – Esta inocente menina, chora no centro de São Leopoldo. sabe  porquê? Ela não conseguiu vender todos os panos de prato, e disse que não poderia chegar em casa sem o dinheiro. Adivinha o que aconteceu…. comprei todos os panos e busquei o conselho tutelar. Fui até a casa da menina com a conselheira e demos um cagaço na família. Resultado; nunca mais ví a menina na rua. Esse desfecho me dá prazer em fazer fotojornalismo.

Foto Sapucaia – A pauta era sobre as travessias perigosas da br-116. Os caras quebram o muro que divide as duas pistas e por ali atravessam. Passarela pra que né?

Foto Saúde – Vergonha! O hospital de Montenegro estava em crise(é sempre assim) e o atendimento fica mais precário ainda. A coitada da mulher foi jogada(deixada) por uma ambulância na porta da emergência na espera de atendimento. Mas um assaltante chega preso e tem atendimento antes da senhora. questão de prioridade. Que prioridade é esta? Resultado; em cinco minutos a senhora foi atendida. bá.

Foto Urubú – Alguém já viu um ninho de urubú? Pode até ser que alguém tenha visto mas resolvi registrar este com os filhotes, amarelados.

Fotozh1 – Levitação. No ano de 1989, usando uma pentax K1000 registrei o momento que um vendedor de pomadas para dores musculares fazia a apresentação no calçadão de Novo Hamburgo, isso para convencer seus futuros fregueses. Polegar direito para passar o filme e o indicador para registrar. Bati durante o salto duas fotos.

Foto Zoo – Este é um registro no zoo. não parece com nós? eheheheheheheh


Foto iris – O arco da irris é sempre bonito de se ver e registrar, este em Portão

Foto miro 3 – Alçar vôo é sempre fascinante mas prefiro registrar. Se lê paraglaider ou parapente ou espiga de milho no caso em Sapiranga

Foto Parado – Este é o verdadeiro retrato do cotidiano da br-116 em Canoas

Foto Desfile – Brasileirinhos entrando de cabeça no desfile de 7 de setembro em Novo Hamburgo.

Foto Faro – O detalhe do olho do cão e do adestrador mostra toda a sintonia de um tratamento. O cão só ganha a bolinha se achar o explosivo. Brigada militar de Montenegro.

Foto Fei – Artesão em São Leopoldo. Mãos que moldam é mão moldada.

Foto calor3 – Foto de calor mostrando toda a liberdade de ser uma criança tomando banho no Rio dos Sinos apesar do perigo que existe em um rio. Foto tirada em Campo Bom.

Foto car 9 – Pega-pega – Fragrante da polícia na busca de um assaltante em Novo Hamburgo. A qualidade da luz está ruim mas flagrante é assim mesmo…tu sabe né?.

Foto charrete – Outro flagrante, o pobre do cavalo resolver se atirar no chão bem na minha frente. foi em uma corrida de charretes em são Leopoldo. O piloto da charrete conheceu o ditado que o chão é o limite.

Foto Comida – Menores carentes em uma ONG. Todos os dias eles vão até a ONG receber um prato de comida no bairro Santo Afonso em novo Hamburgo.

Foto Dalua – Dalua é o apelido deste maluco de São Leopoldo que resolveu bater o record mundial de velocidade em um skate.

Tempestade in Satolep

11 de dezembro de 2012 0

Discurso de Pedro Moacyr em homenagem a Schlee

10 de dezembro de 2012 0

Caro amigo Nauro,

Conforme prometido, em anexo envio-te a saudação que fiz ao Schlee.

Um forte abraço e obrigado pela atenção.

Pedro Moacyr Pérez da Silveira

Tenho tão grande prazer vendo a todos aqui,
para homenagearmos o Schlee. Seus familiares, os
velhos amigos, antigos colegas, autoridades, gente
do Direito, gente das Letras. Boa noite a todos.
O que é uma homenagem, motivo que nos
reúne agora em torno do nome do Aldyr?
Uma homenagem parece ser um instante em
que nos desprovemos do cotidiano para avaliarmos
um pouco uma fatia da vida de alguém, um pedaço
dessa vida que teve imenso significado e grande
valia para tantos: são esses tantos os que, num
momento inevitável em suas próprias vidas, dão de
reconhecer o homenageado por esse pedaço, por
esse valimento.
A totalidade de alguém, sendo inexpugnável,
não se homenageia. Nela estão os deuses e os
demônios desse alguém, parte conhecidos, parte
desconhecidos, mas que nos igualam de tal forma
que o olhar aí nascido, forçosamente horizontal,
não destaca nenhum dentre todos. Mas uma
porção, uma leiva, um fragmento da vida de alguém
mostra às vezes uma luz tão intensa, refulgente,
que nos faz parar um momento e ficar olhando para
essa amostra e vendo como ela, sendo doutro, nos
influenciou, nos marcou, e em grande parte
contribuiu significativamente para sermos o que
somos. Uma homenagem é, portanto, um olhar
vertical – e para cima -, lá onde se encontra,
superior a nós, esse aspecto deslumbrante de
alguém e que nos assombra.
Quando o destacamos, nós o
homenageamos. Quando reverenciamos essa
parcela de alguém, esse alguém, não sendo em si
mesmo fracionável, vem em sua inteireza para o
ato, mas vem sabendo por que está sendo
salientado.
Melhor assim: saber o que de si foi notado,
foi testemunhado e o fez existir no sentido cogitado
por um ministro da igreja anglicana inglesa, George
Berkeley, “esse est percipii” (ser é ser percebido).
Este é o momento em que, olhando para o lado,
vendo o homenageado ao lado, na verdade o
estabelecemos como um ser aéreo, um
comandante que nosso afeto e reconhecimento põe
amorosamente numa espécie de céu, para dizer-lhe
que ele nos foi muito importante e que precisamos
uma vez mais convocá-lo ao nosso convívio, à nossa
casa de trabalho, que sempre foi também a casa em
que ele exerceu seus ofícios, e de onde seu espírito,
pelo que foi quando por aqui passou, mantém-se
iluminado a nosso lado. É um momento para dizerlhe
de seu prestígio e de nossa consideração.
Schlee andou largamente pelo mundo da
imaginação, vertendo o que concebeu em palavras
que organizou para a expressão literária, e nos
mostrou, com seu modo muito peculiar, até onde a
febril força criativa que o anima permitiu levá-lo.
Tornou-se conhecido de muitos pela sua verve
artística, lançando ao papel, como artesão, os
sortilégios sedutores do material com que melhor
trabalha: as letras, as letras que formam palavras,
que formam frases, que formam parágrafos, que
formam capítulos, que formam livros, que são os
berçários enfeitiçados de onde vêm as criaturas da
sua literatura, as que nos fazem caminhar com ele
por seu mundo (que não é absolutamente
inexistente), esse seu mundo onde habitam seres
humanos com características vivenciais
aparentemente únicas, mas que, logo a seguir e em
metáfora, vemos representarem a humanidade. O
mundo de seu Jaguarão-Roma, de seu Jaguarão-
Constantinopla, de seu Jaguarão-Jerusalém, de seu
Jaguarão-mundo-inteiro e de seu Jaguarão-mundoafora,
com a aparente redução regional que nos
mostra na tona, mas que cuida de evanescer na
metáfora contida naquelas baixezas fundas e raras
de sua tão criativa metalinguagem.
Schlee é um homem de fronteira com sede
de universo, e que volta à fronteira para montar,
fragmento após fragmento, a totalidade que o
comove, e este universo é uma terra só, feita de
pampa, de caudilhos, de amplidões de um planeta
sem canhadas, com poucos cerros, onde a língua
espanholada é um pouco a nossa e um pouco a
deles, o humilde povo de fala castelhana da
América Latina, pousado um pouco sobre o Uruguai
e outro pouco sobre o Rio Grande, e que Schlee faz
ser apenas um, mas que se desprende deste um
para ser todos.
Schlee compõe livros como um compositor
conduz lentamente a letra musical, até dá-la por
aprontada. É meticuloso e é estudioso, para não
permitir que a loucura da imaginação irrestrita o
retire completamente da concretude do mundo,
ainda que tenha menos compromisso com essa
concretude do que com a arte. É um homem feito
de uma substância infrequente, com interesses
espantosamente simultâneos e aparentemente
díspares, que mesclam certamente um leitor de
Borges com um improvável jogador de futebol de
mesa. São desse homem as potentes irritações
súbitas e a ternura permanente e alentada, como
um menino que reluta em envelhecer o espírito, e
faz caricaturas enquanto analisa o destino do
mundo.
Mas o Schlee que hoje homenageamos não
está aqui por ser este escritor criativo e
multipremiado, apreciado verdadeiramente pela
crítica literária. O Schlee que homenageamos é
outro: é o Schlee professor.
Falo-lhes da minha relação com ele, e estou
certo que ela é representativa das emoções de
todos os que com ele conviveram, desde os de
antes de mim até os de depois.
Quando por aqui cheguei, vindo da
Campanha, há já quase trinta e quatro anos, e
ingressei no Curso de Direito, havia um professor
que caminhava com sua cabeleira encrespada por
estes corredores. Eu, muito menino; ele já um
homem de cerca de quarenta e poucos anos. Eu
nunca sabia bem o que o animava, de que se
alimentava o espírito do homem de cabeleira
armada para trás, do que, enfim, ele tratava. Os
mais velhos, neste tempo em que para cá vim,
florescido que fui na selvagem Bagé, me diziam: -
ele é o Schlee. E aquele juízo descritivo era
imperfeito em sua origem, pois só me era dado o
nome da criatura, mas não o que fazia, por que
razão aqui estava, qual a disciplina que lecionava.
Na verdade – depois fui me apercebendo -
havia várias formas de me dizerem quem era o
professor sem terno, sem gravata, desgrenhado,
que parecia estar ali como visitante de outro
mundo. Também vi depois que isso não era
exatamente um exagero.
Vivíamos ainda no período ditatorial, era
ainda um general o chefe da nação, um homem que
amava cavalos e detestava estudantes, o General
Figueiredo. Os combativos colegas do CAFV falavam
com orgulho do Schlee, como se ele fosse uma
porta aberta para um tipo de embate político de
onde sairíamos todos para dizer “o mundo precisa
ser diferente, canalhas”. “Canalha” era uma
expressão que ele utilizava muito, e que não tinha a
exata força semântica que um desaforo dessa
ordem parece ter. Era uma expressão até mesmo
carinhosa, um aposto despretensioso, muito
embora às vezes “canalha” fosse “canalha” mesmo.
Mas havias os outros, os que não queriam
mudança alguma, os que seguiam o caminho
inverso daquele que comovia meus amigos da
época, e estes me apresentavam o Schlee como o
professor inconsequente, de mau-humor, um
solitário em seus sonhos e que não deveria ser
levado a sério. Estudar Direito, mesmo, era ler os
códigos e fazer apontamentos.
Pouco a pouco, em silêncio, fui dele me
aproximando, até que se tornou meu professor de
Direito Internacional Público.
Aí, eu finalmente conheci o Schlee, ou penso
que conheci o suficiente para vê-lo, de maneira
definitiva, como alguém que não era daquele
mundo, que sugeria outras hipóteses cognitivas,
que via a política com entusiasmo forte, e mesmo
que ele não saiba, nesta casa permaneci apenas
porque sabia que era possível manter-se uma vela
acesa para iluminar outras veredas. E não foi sem
razão que, anos depois, aqui ingressei para lecionar
Filosofia do Direito, esse outro nicho de
possibilidade teórica onde se pode realizar o
enfrentamento da dogmática jurídica, acalentar
utopias inexistentes no deserto árido onde
repousam os mandamentos estatais; enfim, querer
pensar em outras coisas sem precisar sair de dentro
deste prédio, destas salas, do discurso jurídico e da
retórica da ordem.
O Direito dá poucas chances aos professores
das matérias codificadas para que logrem delirar
com pensamentos que se afastem por demais das
leis. Tive professores magníficos também nessas
áreas, e com eles muito aprendi, mas meu apreço,
àquele tempo, era pelo homem de cabeleira ampla,
que caminhava com a demência própria dos sonhos
permanentes de quem, não sendo desse mesmo
filão de pensamento, ou dessa mesma resolução
emocional, buscava formular outras conjecturas
para a vida.
E o Schlee, aproveitando o seu DIP, em plena
Guerra Fria nos falava mal dos americanos e não
tão bem dos Soviéticos, mas deixava entrever muito
claramente que havia dois lados e dois ideais
básicos. Schlee era contrário às adaptações e se
deixava estimular pelas resistências. Qualquer
opressão, qualquer oportunismo político, qualquer
modelo de dominação era refutado por ele, com a
veemência que sempre lhe foi própria.
“Os canalhas, os canalhas”.
Pontualmente, recordo do Schlee duas coisas
que me pareceram extraordinárias: ele desenhava
com rapidez impressionante mapas dos países no
quadro. Falava-se em Albânia, lá estava a Albânia;
falava-se em Israel, lá estava Israel; falava-se em
Cuba, lá estava Cuba; falava-se da França, lá estava
a França.
Nunca conferi a exatidão dos mapas, mas ela
não era para ser conferida. Aquilo era um tanto
charmoso e louco, ninguém sabia se realmente os
mapas eram coincidentes com a realidade, mas o
nosso professor, tomado pela força de nos falar
sobre o mundo político, nulificava completamente
quaisquer interesses investigativos sobre estarem
ou não os mapas no perfeito formato dos mapasmúndi.
O outro fato que gostaria de mencionar
eram as Provas de Livro Aberto, as PLAs. Dizia
Schlee que não tinha o menor interesse em que
fizéssemos outra coisa senão raciocinar, e
procurávamos, assim, tentar compreender algum
sentido possível para os assuntos durante as
avaliações.
Pois bem, é o professor dos mapas
espantosos, da cabeleira farta, das roupas comuns,
das provas em que consultávamos os livros, é esse o
ser humano que hoje homenageamos. Mas não o
homenageamos porque desenhava mapas
espantosos, tinha cabeleira farta, usava roupas
comuns ou nos permitia consultar livros durante as
provas. Nós o homenageamos porque foi um
contraponto a uma visão consideravelmente
unificada do mundo, porque resistiu e não se
adaptou, porque ensinou-nos o valor pedagógico da
palavra “não” e o idêntico valor moral da palavra
“sim”, conquanto ambas fossem ditas de acordo
com as convicções pessoais mais fundas.
Não homenageamos o autor de vários livros,
o sonhador sensível que idealizou, rompidos os
aramados e os marcos frágeis de fronteira, uma
terra só para o Pampa, e sobre ela escrever contos.
Não serão os contos gardelianos, de concepção
formidável e prosa única, ou estudos alentados de
figuras emblemáticas como foi José Fructuoso
Rivera, ou da miríade de personagens que
apareceram em seu Contos de Sempre, ou ainda o
relato da viagem do Papa João Paulo II a Melo, uma
cidade uruguaia esquecida do mundo, mas tão
recordada por nós, que proporcionou uma
receptividade curiosa de seus habitantes. E nem é o
reconhecido divulgador da obra simoniana, autor
de três livros recentes, lançados conjuntamente,
para desvendar a obra de João Simões Lopes Neto.
E também não homenageamos o jornalista e
o desenhista, atividades que desenvolvia
profissionalmente junto ao outro personagem aqui
lembrado nesta noite, jornalista Clair Lôbo
Rochefort, seu grande amigo e de quem, ao que
soube, foi agradadamente subordinado em um
tempo mais ingênuo, mais romântico, mais
gracioso, muito anterior a este nosso tempo, de
tanta pressa, de tanta informação desorganizada e
muitas vezes de uma imoralidade muito mais
ordinária; este tempo brutal em que vivemos, onde
o Bem e o Mal, se existem de fato para além da
abstração de seus conceitos, dançam uma sinistra
valsa sem lugares fixos, dificultando ao fotógrafo
localizar-lhes bem as posições para obter uma boa
imagem, instalado então já em algum saudoso
laboratório de revelação fotográfica, pois estamos
em tempos de espantosas fotografias digitais.
Não, não é este o homem que
homenageamos.
O homem a quem rendemos nossos
emocionados tributos esta noite é aquele – e por
isso – que foi o professor de gerações. E ensinou
Arte, ensinou língua vernácula, ensinou Sociologia,
ensinou Teoria Geral do Estado, ensinou Direito
Internacional, ensinou, ensinou e ensinou, e que
agora precisa ser revisto pela casa em que
trabalhou, para que esta lhe devolva o mesmo amor
com que foi por ele amada.
Seus amigos estão aqui, Schlee. Seus velhos
amigos estão aqui. E os que não estão, estariam por
certo, tivesse a organização desse acontecimento se
produzido com mais normalidade. Vejo na plateia, e
me perdoem se a algum eu não enxergar, os
professores Boaventura Centeno, Gilberto
Quadrado, José Gilberto da Cunha Gastal, José
Rodrigues Gomes Neto. São seus velhos
companheiros, independentemente de tudo que
possa, no passado, haver-te aproximado de uns e te
afastado de outros. Ninguém escolhe
definitivamente os que transitam por nossas vidas,
mas na hora em que, voltando os olhos para o
passado, fazemos um inventário afetivo e afetuoso
de nossas vidas, vamos lá encontrar todos aqueles
que, pelo mesmo mistério que nos impede de
compreendermos as nossas vidas, viveram,
contudo, ao mesmo tempo que nós, e
proximamente.
A coincidência de este galardão ser-te
concedido no ano em que a Faculdade fez cem
anos, e Pelotas, duzentos, é fortuito. O
requerimento que entreguei para que tal
acontecesse data de dois anos e meio, mas foi, por
essas coisas estranhas das tramitações de papeis
que caminham e estancam em impensáveis
escaninhos da burocracia, aprovado apenas muito
recentemente pelos Conselhos Superiores da
Universidade Federal de Pelotas.
Quis, assim, uma dessas vontades sem dono
que hoje, na confluência de dois séculos agrupados
em exatidão, aqui viéssemos para te conceder este
título, materializado na cártula do diploma que ora
recebes.
Uma coincidência do tamanho da história
dessa Faculdade, da dignidade de Pelotas e da
envergadura de tua docência aqui passada em sua
maior parte.
Conto-lhes um já esquecido acontecimento:
um dia, amigos que eram, Hegel jantava em casa de
Goethe. E Hegel tinha maneiras bruscas, e era
falastrão, e suas palavras eram altas. Fizeram suas
libações, comeram sua comida. Hegel, não
abandonando seu dialeto suabo e obrigando
Goethe a se comunicar imperfeitamente com ele,
falou-lhe de vários assuntos. Ao final, quando se
despediu, a fraca voz da governanta de Goethe
chegou-lhe na forma de uma pergunta: – Quem é
este senhor de tão más maneiras?
E Goethe respondeu-lhe: – Este é o maior
filósofo da Alemanha.
Nosso homenageado é, sem dúvida, o maior
literato de nossa aldeia, e a está levando além do
que nossos olhos podem ver. Mas hoje, ele é outro.
Ele é o Aldyr Garcia Schlee, que pode não ter sido,
talvez, em sentido estrito, o maior professor da
história desta Casa centenária, mas que foi – isso
sem qualquer dúvida – o que mostrou a quem o viu
trabalhar, sempre encantado com sua docência, o
professor que fez ver a seus alunos que outro
mundo, menos opressivo, menos bárbaro, menos
violento, menos iníquo, menos vilipendioso era
possível. E é por isso que – não fora todo o resto – se
torna definitivamente suficiente à Universidade
Federal de Pelotas, ao te conceder este título, dizer,
nem tão cifradamente assim, o que eu te digo:
“muito obrigado, velho, sem ti eu seria pior”.
Abraço grande deste teu velho amigo, que traz
consigo certamente o abraço de todos os teus
alunos de todos os tempos, o mesmo abraço que te
darão os teus amigos verdadeiros, muitos dos quais
aqui estão. Comovidos como eu. Obrigado.

Tenho tão grande prazer vendo a todos aqui,para homenagearmos o Schlee. Seus familiares, os velhos amigos, antigos colegas, autoridades, gente do Direito, gente das Letras. Boa noite a todos.O que é uma homenagem, motivo que nos reúne agora em torno do nome do Aldyr?Uma homenagem parece ser um instante em que nos desprovemos do cotidiano para avaliarmos um pouco uma fatia da vida de alguém, um pedaço dessa vida que teve imenso significado e grande valia para tantos: são esses tantos os que, num momento inevitável em suas próprias vidas, dão de reconhecer o homenageado por esse pedaço, por esse valimento.A totalidade de alguém, sendo inexpugnável,não se homenageia. Nela estão os deuses e os demônios desse alguém, parte conhecidos, parte desconhecidos, mas que nos igualam de tal forma que o olhar aí nascido, forçosamente horizontal,não destaca nenhum dentre todos. Mas uma porção, uma leiva, um fragmento da vida de alguém mostra às vezes uma luz tão intensa, refulgente,que nos faz parar um momento e ficar olhando para essa amostra e vendo como ela, sendo doutro, nos influenciou, nos marcou, e em grande parte contribuiu significativamente para sermos o que somos. Uma homenagem é, portanto, um olhar vertical – e para cima -, lá onde se encontra,superior a nós, esse aspecto deslumbrante de alguém e que nos assombra.Quando o destacamos, nós o homenageamos. Quando reverenciamos essa parcela de alguém, esse alguém, não sendo em si mesmo fracionável, vem em sua inteireza para o ato, mas vem sabendo por que está sendo salientado. Melhor assim: saber o que de si foi notado,foi testemunhado e o fez existir no sentido cogitado por um ministro da igreja anglicana inglesa, George Berkeley, “esse est percipii” (ser é ser percebido).Este é o momento em que, olhando para o lado,vendo o homenageado ao lado, na verdade o estabelecemos como um ser aéreo, um comandante que nosso afeto e reconhecimento põe amorosamente numa espécie de céu, para dizer-lhe que ele nos foi muito importante e que precisamos uma vez mais convocá-lo ao nosso convívio, à nossa casa de trabalho, que sempre foi também a casa em que ele exerceu seus ofícios, e de onde seu espírito,pelo que foi quando por aqui passou, mantém-se iluminado a nosso lado. É um momento para dizer-lhe de seu prestígio e de nossa consideração. Schlee andou largamente pelo mundo da imaginação, vertendo o que concebeu em palavras que organizou para a expressão literária, e nos mostrou, com seu modo muito peculiar, até onde afebril força criativa que o anima permitiu levá-lo.Tornou-se conhecido de muitos pela sua verve artística, lançando ao papel, como artesão, os sortilégios sedutores do material com que melhor trabalha: as letras, as letras que formam palavras,que formam frases, que formam parágrafos, que formam capítulos, que formam livros, que são os berçários enfeitiçados de onde vêm as criaturas da sua literatura, as que nos fazem caminhar com ele por seu mundo (que não é absolutamente inexistente), esse seu mundo onde habitam seres humanos com características vivenciais aparentemente únicas, mas que, logo a seguir e em metáfora, vemos representarem a humanidade. O mundo de seu Jaguarão-Roma, de seu Jaguarão-Constantinopla, de seu Jaguarão-Jerusalém, de seu J aguarão-mundo-inteiro e de seu Jaguarão-mundo afora,com a aparente redução regional que nos mostra na tona, mas que cuida de evanescer na metáfora contida naquelas baixezas fundas e raras de sua tão criativa metalinguagem. Schlee é um homem de fronteira com sede de universo, e que volta à fronteira para montar,fragmento após fragmento, a totalidade que o comove, e este universo é uma terra só, feita de pampa, de caudilhos, de amplidões de um planeta sem canhadas, com poucos cerros, onde a língua espanholada é um pouco a nossa e um pouco adeles, o humilde povo de fala castelhana da América Latina, pousado um pouco sobre o Uruguai  e outro pouco sobre o Rio Grande, e que Schlee fazer apenas um, mas que se desprende deste um para ser todos. Schlee compõe livros como um compositor conduz lentamente a letra musical, até dá-la por  aprontada. É meticuloso e é estudioso, para não  permitir que a loucura da imaginação irrestrita o retire completamente da concretude do mundo,ainda que tenha menos compromisso com essa concretude do que com a arte. É um homem feito de uma substância infrequente, com interesses espantosamente simultâneos e aparentemente díspares, que mesclam certamente um leitor de Borges com um improvável jogador de futebol de mesa. São desse homem as potentes irritações súbitas e a ternura permanente e alentada, como um menino que reluta em envelhecer o espírito, e faz caricaturas enquanto analisa o destino do mundo. Mas o Schlee que hoje homenageamos não está aqui por ser este escritor criativo e multipremiado, apreciado verdadeiramente pela crítica literária. O Schlee que homenageamos é outro: é o Schlee professor.Falo-lhes da minha relação com ele, e estou certo que ela é representativa das emoções de todos os que com ele conviveram, desde os de  antes de mim até os de depois.Quando por aqui cheguei, vindo da Campanha, há já quase trinta e quatro anos, e ingressei no Curso de Direito, havia um professor que caminhava com sua cabeleira encrespada por estes corredores. Eu, muito menino; ele já um homem de cerca de quarenta e poucos anos. Eu nunca sabia bem o que o animava, de que se  alimentava o espírito do homem de cabeleira armada para trás, do que, enfim, ele tratava. Os mais velhos, neste tempo em que para cá vim,florescido que fui na selvagem Bagé, me diziam: -ele é o Schlee. E aquele juízo descritivo era imperfeito em sua origem, pois só me era dado o nome da criatura, mas não o que fazia, por que razão aqui estava, qual a disciplina que lecionava.Na verdade – depois fui me apercebendo -havia várias formas de me dizerem quem era o professor sem terno, sem gravata, desgrenhado,que parecia estar ali como visitante de outro mundo. Também vi depois que isso não era exatamente um exagero.Vivíamos ainda no período ditatorial, era ainda um general o chefe da nação, um homem que amava cavalos e detestava estudantes, o General Figueiredo. Os combativos colegas do CAFV falavam com orgulho do Schlee, como se ele fosse uma porta aberta para um tipo de embate político deonde sairíamos todos para dizer “o mundo precisa ser diferente, canalhas”. “Canalha” era uma expressão que ele utilizava muito, e que não tinha a exata força semântica que um desaforo dessa ordem parece ter. Era uma expressão até mesmo carinhosa, um aposto despretensioso, muito embora às vezes “canalha” fosse “canalha” mesmo.Mas havias os outros, os que não queriam mudança alguma, os que seguiam o caminho inverso daquele que comovia meus amigos da época, e estes me apresentavam o Schlee como o professor inconsequente, de mau-humor, um solitário em seus sonhos e que não deveria ser levado a sério. Estudar Direito, mesmo, era ler os códigos e fazer apontamentos.Pouco a pouco, em silêncio, fui dele me aproximando, até que se tornou meu professor de Direito Internacional Público.Aí, eu finalmente conheci o Schlee, ou penso que conheci o suficiente para vê-lo, de maneira definitiva, como alguém que não era daquele mundo, que sugeria outras hipóteses cognitivas,que via a política com entusiasmo forte, e mesmo que ele não saiba, nesta casa permaneci apenas porque sabia que era possível manter-se uma vela acesa para iluminar outras veredas. E não foi sem razão que, anos depois, aqui ingressei para lecionar Filosofia do Direito, esse outro nicho de possibilidade teórica onde se pode realizar o enfrentamento da dogmática jurídica, acalentar utopias inexistentes no deserto árido onde repousam os mandamentos estatais; enfim, querer pensar em outras coisas sem precisar sair de dentro deste prédio, destas salas, do discurso jurídico e da retórica da ordem.O Direito dá poucas chances aos professores das matérias codificadas para que logrem delirar com pensamentos que se afastem por demais das leis. Tive professores magníficos também nessas áreas, e com eles muito aprendi, mas meu apreço,àquele tempo, era pelo homem de cabeleira ampla,que caminhava com a demência própria dos sonhos permanentes de quem, não sendo desse mesmo filão de pensamento, ou dessa mesma resoluçãoemocional, buscava formular outras conjecturaspara a vida.E o Schlee, aproveitando o seu DIP, em plenaGuerra Fria nos falava mal dos americanos e nãotão bem dos Soviéticos, mas deixava entrever muitoclaramente que havia dois lados e dois ideaisbásicos. Schlee era contrário às adaptações e sedeixava estimular pelas resistências. Qualqueropressão, qualquer oportunismo político, qualquermodelo de dominação era refutado por ele, com aveemência que sempre lhe foi própria.“Os canalhas, os canalhas”.Pontualmente, recordo do Schlee duas coisasque me pareceram extraordinárias: ele desenhavacom rapidez impressionante mapas dos países noquadro. Falava-se em Albânia, lá estava a Albânia;falava-se em Israel, lá estava Israel; falava-se emCuba, lá estava Cuba; falava-se da França, lá estavaa França.Nunca conferi a exatidão dos mapas, mas elanão era para ser conferida. Aquilo era um tantocharmoso e louco, ninguém sabia se realmente osmapas eram coincidentes com a realidade, mas onosso professor, tomado pela força de nos falarsobre o mundo político, nulificava completamentequaisquer interesses investigativos sobre estaremou não os mapas no perfeito formato dos mapasmúndi.O outro fato que gostaria de mencionareram as Provas de Livro Aberto, as PLAs. DiziaSchlee que não tinha o menor interesse em quefizéssemos outra coisa senão raciocinar, eprocurávamos, assim, tentar compreender algumsentido possível para os assuntos durante asavaliações.Pois bem, é o professor dos mapasespantosos, da cabeleira farta, das roupas comuns,das provas em que consultávamos os livros, é esse oser humano que hoje homenageamos. Mas não ohomenageamos porque desenhava mapasespantosos, tinha cabeleira farta, usava roupascomuns ou nos permitia consultar livros durante asprovas. Nós o homenageamos porque foi umcontraponto a uma visão consideravelmenteunificada do mundo, porque resistiu e não seadaptou, porque ensinou-nos o valor pedagógico dapalavra “não” e o idêntico valor moral da palavra“sim”, conquanto ambas fossem ditas de acordocom as convicções pessoais mais fundas.Não homenageamos o autor de vários livros,o sonhador sensível que idealizou, rompidos osaramados e os marcos frágeis de fronteira, umaterra só para o Pampa, e sobre ela escrever contos.Não serão os contos gardelianos, de concepçãoformidável e prosa única, ou estudos alentados defiguras emblemáticas como foi José FructuosoRivera, ou da miríade de personagens queapareceram em seu Contos de Sempre, ou ainda orelato da viagem do Papa João Paulo II a Melo, umacidade uruguaia esquecida do mundo, mas tãorecordada por nós, que proporcionou umareceptividade curiosa de seus habitantes. E nem é oreconhecido divulgador da obra simoniana, autorde três livros recentes, lançados conjuntamente,para desvendar a obra de João Simões Lopes Neto.E também não homenageamos o jornalista eo desenhista, atividades que desenvolviaprofissionalmente junto ao outro personagem aquilembrado nesta noite, jornalista Clair LôboRochefort, seu grande amigo e de quem, ao quesoube, foi agradadamente subordinado em umtempo mais ingênuo, mais romântico, maisgracioso, muito anterior a este nosso tempo, detanta pressa, de tanta informação desorganizada emuitas vezes de uma imoralidade muito maisordinária; este tempo brutal em que vivemos, ondeo Bem e o Mal, se existem de fato para além daabstração de seus conceitos, dançam uma sinistravalsa sem lugares fixos, dificultando ao fotógrafolocalizar-lhes bem as posições para obter uma boaimagem, instalado então já em algum saudosolaboratório de revelação fotográfica, pois estamosem tempos de espantosas fotografias digitais.Não, não é este o homem quehomenageamos.O homem a quem rendemos nossosemocionados tributos esta noite é aquele – e porisso – que foi o professor de gerações. E ensinouArte, ensinou língua vernácula, ensinou Sociologia,ensinou Teoria Geral do Estado, ensinou DireitoInternacional, ensinou, ensinou e ensinou, e queagora precisa ser revisto pela casa em quetrabalhou, para que esta lhe devolva o mesmo amorcom que foi por ele amada.Seus amigos estão aqui, Schlee. Seus velhosamigos estão aqui. E os que não estão, estariam porcerto, tivesse a organização desse acontecimento seproduzido com mais normalidade. Vejo na plateia, eme perdoem se a algum eu não enxergar, osprofessores Boaventura Centeno, GilbertoQuadrado, José Gilberto da Cunha Gastal, JoséRodrigues Gomes Neto. São seus velhoscompanheiros, independentemente de tudo quepossa, no passado, haver-te aproximado de uns e teafastado de outros. Ninguém escolhedefinitivamente os que transitam por nossas vidas,mas na hora em que, voltando os olhos para opassado, fazemos um inventário afetivo e afetuosode nossas vidas, vamos lá encontrar todos aquelesque, pelo mesmo mistério que nos impede decompreendermos as nossas vidas, viveram,contudo, ao mesmo tempo que nós, eproximamente.A coincidência de este galardão ser-teconcedido no ano em que a Faculdade fez cemanos, e Pelotas, duzentos, é fortuito. Orequerimento que entreguei para que talacontecesse data de dois anos e meio, mas foi, poressas coisas estranhas das tramitações de papeisque caminham e estancam em impensáveisescaninhos da burocracia, aprovado apenas muitorecentemente pelos Conselhos Superiores daUniversidade Federal de Pelotas.Quis, assim, uma dessas vontades sem donoque hoje, na confluência de dois séculos agrupadosem exatidão, aqui viéssemos para te conceder estetítulo, materializado na cártula do diploma que orarecebes.Uma coincidência do tamanho da históriadessa Faculdade, da dignidade de Pelotas e daenvergadura de tua docência aqui passada em suamaior parte.Conto-lhes um já esquecido acontecimento:um dia, amigos que eram, Hegel jantava em casa deGoethe. E Hegel tinha maneiras bruscas, e erafalastrão, e suas palavras eram altas. Fizeram suaslibações, comeram sua comida. Hegel, nãoabandonando seu dialeto suabo e obrigandoGoethe a se comunicar imperfeitamente com ele,falou-lhe de vários assuntos. Ao final, quando sedespediu, a fraca voz da governanta de Goethechegou-lhe na forma de uma pergunta: – Quem éeste senhor de tão más maneiras?E Goethe respondeu-lhe: – Este é o maiorfilósofo da Alemanha.Nosso homenageado é, sem dúvida, o maiorliterato de nossa aldeia, e a está levando além doque nossos olhos podem ver. Mas hoje, ele é outro.Ele é o Aldyr Garcia Schlee, que pode não ter sido,talvez, em sentido estrito, o maior professor dahistória desta Casa centenária, mas que foi – issosem qualquer dúvida – o que mostrou a quem o viutrabalhar, sempre encantado com sua docência, oprofessor que fez ver a seus alunos que outromundo, menos opressivo, menos bárbaro, menosviolento, menos iníquo, menos vilipendioso erapossível. E é por isso que – não fora todo o resto – setorna definitivamente suficiente à UniversidadeFederal de Pelotas, ao te conceder este título, dizer,nem tão cifradamente assim, o que eu te digo:“muito obrigado, velho, sem ti eu seria pior”.Abraço grande deste teu velho amigo, que trazconsigo certamente o abraço de todos os teusalunos de todos os tempos, o mesmo abraço que tedarão os teus amigos verdadeiros, muitos dos quaisaqui estão. Comovidos como eu. Obrigado.



A paz da Praia do Laranjal

09 de dezembro de 2012 0

A nave de Niemeyer

05 de dezembro de 2012 0

Vi essa nave criada por Niemeyer estacionada em Niterói. Sabia que um dia ela iria buscá-lo para encantar o resto do universo

Minha Bela

05 de dezembro de 2012 0


Pela vida e pela morte, sempre fui em busca dela,
dias e noites espreitando, na janela, na janela,
procurando, procurando
entregaria minha alma só pra ela, só pra ela.
Quantas vezes icei velas, perambulei por ruelas
namorei Isabelas, Donatelas e Danielas,
mas minhas vida buscava, os rumos de Gabriela.
Vi minhas melhores cenas no cinema em um tela
amei anjos e demônio, meretrizes e donzelas
futuro, presente e passado andando na direção dela
razão, sentimento e espirito, eu te entrego minha bela.
Amava minha existência em palácios e favelas,
senti teu cheiro nos campos, nos céu nos mares em vielas
Aromas de alecrim, de flores e de canela
perecem minhas frases prontas, sobrevive versos pra ela
Fruto da vida, Sofia,
amor entre eu e ela,
sem graça seria a vida
espreitando na janela, procurando, procurando
e no peito um coração que martela
amando a vida e a morte,
junto a nossa flor mais bela.
Existência em despedida, minha alma distraida
só sou feliz nesta vida, por te amar ó Gabriela.