Miguel Nicolelis, cientista brasileiro cujo trabalho foi capa da revista Science, é uma figura. Bom humor, gentileza e inteligência são qualidades que podem ser percebidas com um simples bate-papo por telefone. Na quarta-feira da semana passada, conversei com o pesquisador. Buscava uma conversa mais humana, já que o trabalho técnico, sua pesquisa sobre o mal de Parkinson, havia sido destrinchado por algumas outras publicações. A entrevista está em Zero Hora deste domingo. Leia, a seguir, a íntegra do bate-papo:
Zero Hora – Como nasceu a ideia de estudar o Mal de Parkinson?
Miguel Nicolelis - Nosso laboratório trabalha tentando entender como grandes circuitos neurais funcionam. Doenças como Parkinson são manifestações de alterações desses circuitos. Qualquer manifestação dessas doenças, uma vez que tenhamos um modelo animal em camundongo, rato ou macaco, é uma oportunidade para estudar esses circuitos. Nosso laboratório não é especializado em nenhuma dessas doenças, mas o que temos notado é que a abordagem que desenvolvemos para estudar o cérebro normal tem permitido analisar uma variedade de patologias. Então, foi quase que por acidente que começamos a trabalhar com Parkinson. Há alguns anos conseguimos um modelo animal da doença, um colega que criou camundongos que têm Parkinson. À medida que começamos a trabalhar, começamos a ver padrões de atividade cerebral que eram muito semelhantes aos que eu havia estudado há 10 anos. Em ciência, acontece muito isso, você começa de estudar e de repente explode uma ideia.
ZH – O senhor tem dito que, na pesquisa, teve um toque de criatividade brasileira. Qual foi?
Nicolelis - Aqui nos EUA, os laboratórios são muito especializados em uma coisa só. E no nosso grupo, o estilo de se fazer ciência é muito criativo, muito aberto. Não imponho limites às áreas de atuação do laboratório, vamos até onde há coisas interessantes para estudar. É muito raro ter laboratórios nos EUA que estudem epislepsia, Parkinson, paralisia e propriedades básicas do cérebro ao mesmo tempo. Isso é um estilo que acho que trouxe do meu estudo no Brasil.
ZH - Quando os pacientes que sofrem de mal de Parkinson poderão usufruir dessa pesquisa?
Nicolelis - Sou muito conservador nessa abordagem. Há gente me escrevendo do mundo inteiro, cientistas que já querem tentar fazer estudos em pacientes. Antes, quero reproduzir esses estudos em primatas, para ter certeza de que poderemos usar no ser humano. Estou muito esperançoso, porque o resultado é muito bom, mas evidentemente você tem de testar isso em primatas e ter uma resposta positiva e tão boa quanto a que obtivemos em roedores. Só assim, poderemos começar a ter verdadeiras esperanças de passar isso para o ser humano. Acho que daqui a um ano e meio, vamos ter uma boa amostragem em primatas, que se for tão bem sucedida, nos permitirá pensar realmente em aplicações clínicas. Como a técnica é muito simples, não vai demorar muito.
ZH – O que é necessário fazer para chegar a ser capa de uma revistão tão conceituada como a Science?
Nicolelis - Primeiro, você tem de gostar muito do que faz e ser muito persistente, porque 99% dos artigos mandados para a Science são rejeitados. Em 25 anos de carreira como cientista, tenho quatro trabalhos publicados na Science, de um total de 150 que publiquei em revistas científicas em todo o mundo. Tenho quatro na Science e quatro na Nature. O que é uma média razoável. Tem gente que nunca publicou. É muito difícil, é uma competição muito grande. Você está competindo com todas as áreas da ciência pelo espaço editorial mais cobiçado da academia. E a capa é algo que nunca imaginei que conseguiria. Você está competindo com descobertas da astronomia, cosmologia, geologia, ecologia, coisas que têm um apelo visual.
ZH – No Oscar ou em outros prêmios importantes, sempre existe uma pressão política, um lobby. No caso da revista, é possível fazer algum tipo de pressão para aparecer na capa?
Nicolelis - Nesse caso, a questão política não entra porque é uma revisão científica. Mas eles primeiro decidem se irão mandar o trabalho para revisão. Aí 80% dos trabalhos já são rejeitados sem nem serem revistos. Os que vão para revisão são analisados por outros especialistas da área. É mais ou menos como a Coca-Cola descobrir uma nova fórmula de fazer o refrigerante e mandar para uma agência reguladora. Lá, quem revisa se vale apena entrar no mercado é a Pepsi.
ZH – O texto é enviado por e-mail?
Nicolelis - Você submete os manuscritos com as figuras com uma carta para o editror da revista por e-mail. Toda a comunicação é feita eletronicamente.
ZH – E há como acompanhar se o trabalho está vencendo as etapas?
Nicolelis - Você acompanha o estado do seu artigo pelo site, vai vendo se está na revisão, no conselho editorial. Todo o processo é anônimo. A gente sabe que está passando de fase, mas não sabe em que estado está até receber os comentários. Só descobrimos que nosso trabalho seria capa uma semana antes. Foi uma surpresa e tanto.
ZH – E quando souberam ainda tiveram que guardar segredo?
Nicolelis - É, não pode falar nada, nem para a mãe. Se bem que para minha mãe eu falei. (risos)
ZH – Como o senhor ficou sabendo?
Nicolelis - Eu estava no escritório, tinha acabado de chegar de viagem, recebemos um e-mail indicando que havia uma essa possibilidade. Na sexta-feira anterior à publicação, recebemos um e-mail que não dizia muita coisa, mas mandava o copyright para a gente assinar. E aí foi aquele susto, porque é uma coisa que você não espera, é tão raro, tão difícil de acontecer. Na história de todo o departamento da Duke foi a segunda vez na história que aconteceu.
ZH – O investimento em ciência no Brasil é baixo. Um bom cientista é como jogador de futebol, tem que ir para fora do Brasil para fazer sucesso?
Nicolelis - Era assim na minha época de estudante. Era muito difícil ter uma ideia grande no Brasil e ter apoio. Mas mudou muito, as coisas melhoraram. Porém, ainda acho que falta dinamismo. A gente precisa mandar mais gente para fora e trazer de volta. A gente tem que continuar buscando os cientistas jovens brasileiros, mas tem de dar condições para eles voltarem para o nosso país. Por essa razão, criamos o Instituto de Neurociências de Natal (RN) para ter um lugar para onde as pessoas possam voltar. E também para mostrar que a ciência tem que fazer parte do dia-a-dia do país. O Brasil precisa acordar para sua riqueza não apenas natural, mas também humana. Descobrir que a ciência é vital para construir uma sociedade moderna. Essa visão não está ainda cristalizada na mente da sociedade brasileira nem dos dirigentes políticos do Brasil. O país ainda não tem essa visão prioritária.
ZH – O senhor tem em seu site o distintivo do Palmeiras e, basta abrir a página para que comece a tocar MPB. Isso tudo é saudade de casa?
Nicolelis - Gosto muito de falar isso porque eu falava isso para minha avó: eu saí do Brasil, mas o Brasil não saiu de mim. Nesses 20 anos que estou aqui, o Brasil sempre fez muito parte da minha vida. Sempre mantive laços e desejos de retornar ao país e fazer alguma coisa de verdade pelo Brasil, porque ele me deu essa aventura, a oportunidade de conseguir realizar meus sonhos. Devo isso à sociedade brasileira. O Brasil faz parte de tudo o que faço, em cada passo, tanto que até brinquei em uma das entrevistas, deixando a camisa da Seleção Brasileira ao fundo. O jornalista americano perguntou a razão. Eu disse que aquilo era meu kit de emergência que eu levo mundo afora para quando alguém me pergunta de onde venho. O cara ficou meio confuso. Mas é genuíno. É a sensação de que devo tanto ao Brasil, que tenho uma ligação emocional com o Brasil, que é como se eu nunca tivesse ido embora. Estou à distância, mas estou perto.
ZH - Como um cientista descansa?
Nicolelis - Nesse instante estou escrevendo meu livro, que está atrasado. É sobre a teoria que tenho desenvolvido nesses 20 anos sobre o cérebro. É uma publicação científica. Estou tendo muito prazer em escrever, explicando porque estamos pensamos em uma nova forma de olhar para o cérebro e qual é essa nova fórmula.
ZH – Então, praticamente o senhor não descansa. Dá pra acompanhar o futebol de que o senhor tanto gosta? Nicolelis - Sem dúvida, se você me perguntar o que está acontecendo no campeonato gaúcho eu posso até te dizer.
ZH - Olha, tem jogo hoje (quarta-feira passada) do Grêmio na Libertadores...
Nicolelis - O Grêmio está enroscado. Tem de trazer o Felipão de volta.
Postado por Rodrigo Lopes
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