
“Era uma vez... Uma bela e bondosa princesa chamada...” Nos livros, Kariny, oito anos, pode ser o que quiser: a Bela Adormecida, a Pequena Sereia e até professora.
— Por que tu queres ser professora? — pergunto.
— Por que eu tenho experiência...
— E o que tu lembras do dia do temporal?
Kariny fecha a cara, estende a palma da mão na parede do casebre usado para abrigar os livros da Biblioteca Comunitária Beira-Rio, em Dom Pedrito. Os olhos se encharcam, e ela corre para os braços do pai, o guardião dos livros. A princesa forte das histórias infantis volta a ser a menina pobre, delicada, que nasceu e cresceu na beira do Rio Santa Maria:
— Tá emocionada, né, filha? Não vai acontecer mais.
Oxalá o pai estivesse certo. É a primeira enchente de Kariny, mas André, a mulher e tantos outros moradores já perderam as contas de quantas vezes o Santa Maria insuflou-se contra seus vizinhos humanos. Encontramos Kariny no início da nossa viagem de 1,8 mil quilômetros pelo Rio Grande devastado pelos temporais das últimas semanas. Da Metade Sul do Estado inundada até o Noroeste assombrado pelos ventos, coletamos histórias de sobrevivência. Em Vila Carmelo, Rosário do Sul, conversamos com os 12 resistentes homens que ficaram no naco de terra ilhado pelo mesmo Santa Maria que engoliu as histórias de Kariny.
— É a última carne — disse-me seu Fernandes, mostrando a panela fervendo e o freezer vazio.
Em Três Passos, galpões e residências destruídos
Rumo a Santa Rosa, seguimos viagem sob céu carregado. Esses assombrosos dias de novembro ensinaram aos gaúchos que, diante de qualquer nuvem escura, devemos ficar em alerta. No horizonte, elas parecem formar um funil. Chuva ou mais um tornado? Paramos o carro, e alguns minutos depois, as nuvens despencam em mais um temporal.
Alívio para nós. Não para os agricultores de Três Passos. Até o dia 25, foram 493 mm de precipitação. Número frio melhor traduzido pelo cenário de devastação: casas e galpões destruídos, toneladas de sementes e adubos estragados e 70 cabeças de gado mortas. Um agricultor contou que sofreu com duas secas consecutivas. No verão, perdeu a lavoura de milho. Agora, viu o galpão e máquinas arrastados pela força da correnteza do Rio Herval Novo. Antes que o Hervalão, como chamam o rio, levasse seu fusca, ele o amarrou a uma árvore.
Em Vila Progresso, Três de Maio, é como se a mão de um gigante tivesse agarrado a base de uma árvore e a torcido de um lado para o outro. Em seguida, como se desistisse no meio do trabalho, o gigante demolidor avançara a passos largos a caminho da casa de Omar e Eloíde, metros a frente. Um grande galpão destruído. Ao lado, outro pequeno e frágil praticamente intacto. Característica de um tornado, dizem os especialistas. Para dona Eloíde, a força de Deus. Um Deus no qual ela vai continuar acreditando e rezando, mesmo depois de tudo isso.
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Postado por Rodrigo Lopes
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