A visita do presidente Lula ao Irã foi gestada durante meses por especialistas do Itamaraty, que pesaram, em detalhes, as vantagens e desvantagens da viagem a um país que oprime mulheres, censura a imprensa e põe atrás das grades opositores. Talvez mais simbólico do que o encontro com o presidente Mahmoud Ahmadinejad seja a reunião entre Lula e o aiatolá Ali Khamenei, a eminência parda do regime, o homem por trás da opressão no país. Não é exagero dizer que é ele quem dá as cartas no Irã e que Ahmadionejad seja em grande parte a caixa de ressonância dos pensamentos do líder xiita.
Não há dúvidas de que o Irã isolado é muito mais perigoso do que enquanto houver diálogo. Mas ainda estamos muito longe de esta ser "a última chance", como propagaram EUA, Rússia e veículos de comunicação internacionais. Enquanto houver diálogo (em qualquer nível), há chances de negociação. E é neste ponto, na minha opinião, que o Brasil contribui: mantém a comunicação em duas vias, não isola ou exclui. Quando George W. Bush encerrou o diálogo com o Iraque, começou a guerra. No caso do Irã, ainda estamos bem longe disso - uma porque os EUA da era Obama não é os EUA da era Bush. Mas principalmente porque hoje os americanos não tem condições financeiras (muito por causa da crise econômica internacional) nem logística de abrir um novo front - além de Iraque e Afeganistão.
A proposta que Lula leva na mala é a seguinte: o Irã envia seus estoques de urânio enriquecido para outro país - poderia ser o nosso, ou Líbano ou Turquia. E receberia de volta urânio enriquecido a 20%, capaz de ser usado apenas para questões pacíficas, como na medicina. Não é ideia brasileira. Este plano foi proposto há um ano pela ONU.
Um dos riscos é que o Irã não é confiável. Grã-Bretanha e França já tentaram acordos como o que Lula está propondo e não conseguiram. O regime dos aiatolás também poderia aceitar a proposta de troca de urânio, mas quem garantiria que todo o material seria transferido para o outro país?
Para alguns especialistas, o Brasil está testando seu poder de influência internacional - em Honduras, ainda não aceitou a validade da eleição e não reconhece o novo presidente -, no Haiti, testemunhei pequenas rusgas com os EUA na reação ao terremoto de janeiro, sem falarmos nos flertes com Hugo Chávez, que preocupam os americanos. O risco, no caso de a tentativa de Lula falhar e as sanções ao Irã se confirmarem, é de o Brasil ficar do lado errado. Alguns em Washington, como o ex-subsecretário de Estado de Clinton James Rubin, vêem a ação brasileira em Teerã como uma mancha na imagem conquistada no xadrez político global. E desqualifica o Brasil na sua campanha por uma cadeira permanente no Conselho de Segurança. Daí, o tiro acabaria saindo pela culatra.
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