Ainda que a cólera esteja por enquanto restrita à Isla Hispaniola, a notícia de que a doença superou a fronteira haitiana fazendo uma vítima na República Dominicana colocou os demais países do Caribe em alerta. Em quatro semanas, a cólera já deixou mais de mil mortos no Haiti. Há 17 mil doentes.
A República Dominicana nunca havia registrado um caso. É de um haitiano que havia visitado seus familiares no Haiti 12 dias atrás. Ele retornou à República Dominicana em um ônibus. Segundo as primeiras informações, o veículo dispõe de um banheiro (o que é raro por lá). O ônibus teria sido localizado tomadas as medidas sanitárias necessárias, conforme o o governo: o isolamento dos resíduos sanitários recolhidos.
Os dois países não têm muitos pontos de passagem, porque é uma região de fronteira montanhosa. Conheci um desses pontos em janeiro deste ano, quando eu e o cinegrafista Fernando Rech, da RBS TV, entramos por terra no Haiti, logo após o terremoto em Porto Príncipe. É um portão de ferro, com alguns homens armados. De vez em quando ocorre alguma truculência. Ao lado do portão há um lago, o Lago azul, no qual não há nenhum tipo de fiscalização.
Autoridades internacionais de saúde salientaram que é praticamente impossível prever o padrão do surto. A Organização Mundial da Saúde (OMS) destacou que a prioridade neste momento é evitar a propagação do surto de cólera no Haiti e tratar os contaminados, e não investigar as causas da epidemia. As declarações foram dadas depois que surgiram rumores de que a epidemia pode ter sido provocada pelas forças da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), que teriam contaminado um rio em Mirebalais.
Haitianos acusam soldados do Nepal integrantes da Minustah de levar o cólera ao país pela primeira vez em um século. A ONU confirmou que o tipo de cólera no país é o mesmo existente no Nepal, mas diz não ter encontrado evidências de que foram seus soldados que levaram a doença ao Haiti.
Cconheci também um hospital de Porto Príncipe. As condições são muito precárias – não se compara nem ao nosso pior SUS. Crianças pelo chão, sujeira, lixo, na frente, porcos, outros animais. Poças de água parada, tudo isso com um calor de 30 graus, muito abafado. Lembro que naquela ocasião do terremoto, eu entrei no prédio, fiz algumas imagens e logo sai com medo de ser contaminado por algum tipo de virus ou bactéria.
A cólera é uma doença gastrointestinal transmitida por meio de água contaminada e está relacionada a condições precárias de higiene, à superpopulação e à falta de sistemas adequados de saneamento. A doença pode ser tratada com relativa facilidade, mas provoca muitas mortes em países em desenvolvimento.
O Brasil tem 7 mil homens no Haiti, mas familiares devem ficar tranquilos. As instalações na base brasileira são limpas, os militares bebem sua própria água e fazem sua própria comida. Se na primeira vez em que estive no Haiti, em 2005, esses cuidados já eram importantes. Agora, eles devem ser redobrados.
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