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Posts do dia 8 janeiro 2011

Ainda sinto o cheiro de morte

08 de janeiro de 2011 0

Eu recém havia chegado da cobertura da queda da ponte em Agudo. Estava cansado, é sempre difícil ver uma tragédia como aquela se abater sobre a terra da gente. Já vira uma guerra, a do Líbano, em 2006, já estivera na catástrofe do furacão Katrina, em 2005, no terremoto do Peru, quando uma cidade tomada por caixões me deixara a marca mais difícil de apagar da minha memória até então. Mas estava cansado, abatido. A queda da ponte sobre o Rio Jacuí pegava nosso Estado em cheio, era uma tragédia dentro de casa e eu fora enviado a Agudo para contar a história de forma especial: precisava recuperar as vidas, fazer o que mais gosto – pisar no barro, inverter o ângulo do meramente factual, aprofundar o assunto. Voltava com a sensação de missão cumprida: fizera grandes amigos em Agudo, como o Poca, um dos pescadores que ajudou a salvar muita gente levada pela força do Jacuí.

Na noite do dia 12 de janeiro, acompanhava as primeiras notícias sobre o terremoto no Haiti pela internet, em casa, em Porto Alegre, com uma dor particular: estivera duas vezes no país caribenho, pelo qual nutro uma simpatia fantástica. Sabia de sua miséria, experimentara o que é a noite em Porto Príncipe às escuras, sem luz elétrica, tivera vontade de beber água, lavar o rosto lá e não pudera porque o líquido é contaminado. Tomara 12 vacinas para chegar ao Haiti na primeira vez.

Imediatamente, naquela noite, comecei a entrar na Rádio Gaúcha, com boletins ao vivo. Enquanto isso, meu editor de Mundo, Luciano Peres, me ligou, pedindo um texto autoral sobre o país, já que o conhecia bem. Em meio a tudo isso, o editor-chefe Altair Nobre também me telefonou:

- Vamos para o Haiti?

Eu conhecia bem essa frase. Sempre gostei de ser convocado, desafiado a missões como essas. Aeroporto de Porto Príncipe fechado, o país sitiado, hotéis destruídos. Chegar lá seria inacreditável. Topei na hora.

Naquela noite, Fernando Rech, cinegrafista da RBS TV, cumpria missão em Bento Gonçalves, a pré-temporada da dupla GreNal. Um dos mais preparados profissionais da TV do sul do Brasil, Rech também topou na hora o desafio. Eram 23h, não resistia mais estar em casa. Fui para a redação de ZH, ajudar a preparar a logística. Nossa única chance de chegar ao Haiti era via Miami. Eu e o Rech nos encontramos às 4h da madrugada na redação da RBS TV. Ele recém havia chegado da serra, de carro. Lembro que me olhou com olhar assustado. Havíamos coberto a morte de João Paulo II, em 2005, juntos, mas aquela, sabíamos, viria a ser uma missão muito mais casca grossa.

Só houve tempo para o Rech ir em casa arrumar as malas. Eu voltei para meu apartamento apenas para também organizar as mochilas. No aeroporto Salgado Filho, nos reencontramos. Inicamos a missão mais difícil das nossas vidas, aquela que ainda hoje repercute na nossa mente. Entramos no Haiti por terra, as primeiras visões da morte, da catástrofe, ainda estão vivas. Um ano depois, é muito difícil esquecê-las. Até porque não queremos. A experiência nos tornou melhores profissionais, sim. Mas muito melhores seres humanos, tenho certeza.

Veja abaixo um pequeno remember daqueles dias. Na ZH deste domingo, impressa, uma reportagem sobre um haitiano que vive em Porto Alegre e como ele vê o Haiti, um ano após o horror: