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Posts de fevereiro 2011

O território onde Kadafi não manda - vídeo

28 de fevereiro de 2011 0

Veja o vídeo com imagens da nossa entrada na Líbia.


ZH em território líbio

28 de fevereiro de 2011 0


O rosto de Muamar Kadafi no chão, pisado pela sola do sapatos de líbios que durante 41 anos viveram sob sua tirania. A imagem do ditador manchada em um grande cartaz no centro de Naloud, no oeste da Líbia. Uma fronteira vazia, abandonada, sem sequer um agente para carimbar o passaporte de quem entra.

São evidências de um regime que começa a ser corroído por dentro. Muamar Kadafi, o homem forte da Líbia, não manda mais em boa parte do país. Em pouco mais de sete horas em permaneci na Líbia, entrando a partir do posto de fronteira de Dahiba, pude testemunhar a falência múltipla dos órgãos da ditadura.

Foram 16 horas de viagem. Dahiba é uma fronteira pouco conhecida pela mídia internacional. A maioria das imagens internacionais mostram o posto de Ras Ajrit – onde centenas de refugiados se amontoam. Dahiba fica a quatro horas de viagem desse posto. É zona militarizada da Tunísia, no meio do deserto. Uma vez passando para o lado líbio, o poder de Kadafi inexiste.

Levamos mais uma hora para chegar a Naloud, onde a população celebra a liberdade – e destroi símbolos do antigo regime. Idosos contam que a população sempre se foi contraria a Kadafi, mas não podia manifestar-se por causa da repressão. Por razões de segurança e logísitca, retornei a Tunísia.

Não há hotel funcionando em Naloud, tampouco internet para atualizar o blog. Fiquei cinco horas sem telefone celular. Um relato completo da incursão à Líbia, você vai ler em ZH desta terça-feira.

Sudoeste da Líbia está tomado pelos rebeldes

28 de fevereiro de 2011 0

Já são quase 18h em Nalut, no sudoeste da Líbia. A cidade está tomada pelos rebeldes. Chegamos até o posto de fronteira da Líbia com a Tunísia. Embarcamos numa van de rebeldes. Não houve perigo. Esta região do país está totalmente sob controle dos rebeldes.

A fronteira está abandonada, não há nenhum agente de alfândega, nenhum militar de Kadafi. Regressaremos à Tunísia porque não há condições de seguir viagem com segurança. Os postos de combustíveis têm filas para comprar gasolina, não há hotéis ou sinal de internet por aqui

No início da tarde, relatei o cenário à Rádio Gaúcha, confira:

Entramos na Líbia: Kadafi não manda mais no Oeste

28 de fevereiro de 2011 2

Já passa do meio-dia na Líbia e recém conseguimos sair da fronteira com a Tunísia para entrar no território do país tomado pelos protestos contra o ditador Muamar Kadafi.

Neste momento, estamos — eu e jornalistas de outras nacionalidades — nos dirigindo à cidade de Nalut, no Oeste. Passamos pela fronteira sem nenhum tipo de abordagem dos militares de Kadafi, que não manda mais nessa região.

Em uma van guiada por militantes da oposição, vemos painéis com imagens de Kadafi, mas não há sinal do controle do ditador.

Nesta manhã, relatei o cenário da fronteira ao Gaúcha Atualidade. Confira:

Ruídos de comunicação

27 de fevereiro de 2011 0

Meu domingo começou às 7h, quando deixei Djerba em direção a Ras Ajdir, o posto fronteiriço. Como contei nos posts anteriores, me surpreendi com o aumento avassalador de refugiados (foto acima). Cerca de 100 mil já deixaram a Líbia nos últimos dias. No retorno a Djerba, meu hotel estava sem internet. E eu precisava transmitir a reportagem que irá ao ar amanhã no JA. Decidi trocar de hotel, desistir daquele dos shows bizarros da noite (conforme comentei no Twitter). Percorri durante duas horas a ilha (Djerba é uma ilha) em busca de outro local para me hospedar, com internet um pouco melhor - esse era meu quesito principal. Consegui um bem bonzinho, com a internet rápida. Fiquei. Mas foi só começar a transmitir o vídeo que a rede caiu. Tive que sair em busca de um café. Encontrei um bar, onde fiquei seis horas transmitindo. Resultado: são 0h15min de segunda-feira, e só agora consegui completar o envio das imagens (não perca no JA de amanhã).

Comunicação, logística e segurança são os principais problemas que enfrentamos aqui no norte da África. Coisas simples como mandar um e-mail ou uma foto se transformam muitas vezes em horas de trabalho. Isso quando a internet não cai no meio da transmissão, quando faltam apenas 95% para concluir o upload de um vídeo, por exemplo. Mas já foi bem pior, né? Quem acompanha as histórias das coberturas de guerra, sabe. Houve um tempo, na Guerra da Criméia, por exemplo, em que os despachos do front eram feitos a cavalo. E, em um tempo bem mais recente, havia teletipo, essas coisas que a nova geração nem sabe bem o que é - pra falar a verdade, só sei em tese também...

Em ZH de amanhã, você vai ler histórias como a de Samir (foto abaixo), 25 anos, voluntário do Crescente Vermelho, o equivalente à Cruz Vermelha nos países árabes. Ele é um dos que vive o plantão na fronteira à espera da queda do regime.

Agora, embora dormir. Amanhã, vou descer mais ao sul, para Dehibah, um posto de fronteira pouco conhecido da mídia internacional. Abraços.

Quem manda aqui ainda é Kadafi

27 de fevereiro de 2011 1

No meio da confusão da fronteira, há um lugar para onde convergem os olhares dos jornalistas. Repare nesta foto abaixo: o prédio é a alfândega líbia. No teto está a bandeira verde, oficial do regime de Kadafi, adotada pelo país em 1969. Significa que o ditador ainda manda aqui. Quando ela sumir dos nossos olhares, poderemos entender como a queda do regime neste lado da nação. Os opositores adotaram como bandeira da revolta o antigo símbolo do país, nas cores vermelho, preto e branco.

Quem foge de Trípoli diz o seguinte: as três cidades na rota de fuga estão nas mãos da oposição, mas, entre elas, há barreiras comandadas por homens leais a Kadafi. Por isso, os refugiados precisam tomar uma rota alternativa, pelo meio do deserto, quase como uma trilha. Para piorar a situação, próximo à alfândega ainda há uma base militar, cujos soldados e oficiais ainda estão ao lado do regime.

Êxodo de dimensões bíblicas

27 de fevereiro de 2011 0

Acabo de retornar de Ras Jadir, o posto de fronteira com a Líbia. São impressionantes a cenas de refugiados deixando o país de Kadafi. Da 0h até as 16h, 8 mil pessoas saíram da Líbia. Quando desci do carro, a imagem que tive foi de um gigantesco campo de refugiados no meio do deserto. Pessoas pelo chão, com malas, cobertores, fazendo fila para conseguir água e pão. De cima de um caminhão, alguns homens jogavam os passaportes dos refugiados, que pulavam no meio da multidão, tentando alcançá-los. Não há mais uma triagem organizada, como antes. Os passaportes são verificados como se fossem a granel. Vi pessoas caminhando com pelo menos 30 passaportes de capa verde - líbios - nas mãos.

Ao apontar a câmera, o clima ficou tenso - em duas oportunidades, achei melhor baixá-la. Percebi que a população está humilhada e não quer que a imprensa mostre seu sofrimento perante o mundo. Houve um princípio de confusão: um homem saiu de um grupo e começou a xingar os jornalistas que apontavam as câmeras para o posto de fronteira.

No caminho, vi muitos carros, caminhões, transportando comida para a fronteira. Mas, como nós, jornalistas, a ajuda humanitária não ultrapassa a linha que divide os dois países. Na foto abaixo, o cartaz da caminhonete diz: Líbios + tunisianos = um só povo.

Sanções contra Kadafi

27 de fevereiro de 2011 0

Valeu o empurrão de Barack Obama. Pouco depois que o presidente americano veio a público dizer que Muamar Kadafi deve deixar o poder imediatamente, o Conselho de Segurança da ONU aprovou por unanimidade, 15 votos a zero, a resolução pedindo o julgamento do ditador no Tribunal Penal Internacional, em Haia. Ele é acusado de crimes contra a humanidade. A resolução prevê ainda o congelamento dos bens de Kadafi, seus familiares e membros de seu governo. Eles também estão impedidos de viajar. Expectativa aqui no norte da África para saber como Kadafi e seus assessores irão reagir.

Obama: "Kadafi deve deixar o poder agora"

26 de fevereiro de 2011 1

Na mais contundente manifestação dos Estados Unidos até agora (e talvez a mais forte desde que assumiu a Casa Branca), o presidente Barack Obama, disse a Angela Merkel, chanceler alemã, por telefone:

- Kadafi deve deixar o poder agora.

Por meio de assessores, o presidente declarou que, quando um líder, para permanecer no poder, usa a violência em massa contra seu próprio povo, ele perdeu a legitimidade para governar e precisa fazer o que é certo para o seu país, deixando-o agora.

Surge um nome nos protestos na Líbia

26 de fevereiro de 2011 1

Até agora, a oposição líbia não tinha uma cara para o mundo. Agora, ela existe: chama-se Fathi Tarbul, advogado que defende 1,2 mil famílias de presos assassinados em 1996 nos porões da ditadura de Kadafi, durante um motim por melhores condições carcerárias. Aos 39 anos, Tarbul foi preso sete vezes ao longo de sua vida - a última em 15 de fevereiro, seis dias antes de Bengasi, o berço dos protestos líbios, cair nas mãos dos rebeldes. Homens invadiram sua casa e o levaram detido. Foi um dos estopins da revolta: familiares dos presos que Tarbul representa ficaram sabendo e iniciaram protestos. O advogado foi solto no dia 16, mas as manifestações continuaram, no que ficou conhecido como o Dia da Ira dos Líbios.

- Hoje, Kadafi não controla mais do que 15% do território da Líbia - afirmou neste sábado Tarbul.

É claro que a prisão de Tarbul, que hoje é um dos principais líderes da revolta, foi apenas o estopim. As razões para a revolta árabe são maiores. Assentada sobre um subsolo encharcado de petróleo (é o nono produtor mundial), a Líbia é um dos países mais ricos da África. Mas esse dinheiro todo não chega à população pobre, com 30% de desempregados. Não dividir o dinheiro do petróleo, não apostar em programas de habitação, não criar condições de desenvolvimento foram os primeiros erros de Kadafi. Mas o maior talvez tenha sido subestimar os jovens: um terço da população líbia tem menos de 15 anos. Outra grande parcela tem menos de 25 anos. Jovens conectados com o mundo, cansados dos desmandos de Kadafi.

Na fronteira do desespero - Vídeo

26 de fevereiro de 2011 1

Amigos, as conexões com a internet aqui na Tunísia são muito lentas. Desde ontem estou tentando postar um vídeo que fiz na fronteira com a Líbia, mas estava enfrentando dificuldades. Muito, muito lento. Agora, pelo YouTube, consegui. Vejam abaixo:


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A hora da diplomacia

26 de fevereiro de 2011 0

Finalmente, depois vários dias de crise na Líbia, entraram em campo os lentos jogadores da diplomacia. Às 14h de Nova York, o Conselho de Segurança da ONU vai se reunir para votar uma resolução que estabelece uma série de sanções ao regime Kadafi. No rascunho, não há menções a ataques militares. O documento inclui embargo de exportação de armas à Líbia, o congelamento dos bens e a proibição da família Kadafi de viajar para o Exterior.

Além disso, pede ao Tribunal Penal Internacional que averigue os possíveis crimes de guerra e contra a humanidade cometidos durante a repressão dos protestos. Por usa parte, os EUA também impuseram sanções de forma unilateral - congelaram os bens do ditador e de seus quatro filhos em bancos americanos.

Eu estou em Djerba, a fronteira fica a uma hora de carro daqui. Decidi montar a base aqui justamente porque, no caso de a fronteira cairas mãos da oposição, ficaria mais fácil ingressar em Trípoli estando bem próximo. É um ponto estratégico, com internet, ainda que muito lenta (por isso não consegui até agora enviar os vídeos que fiz) e telefone celular (com boa qualidade). E de plantão à espera da tomada de Trípoli.

Líbia, a um passo do inferno

25 de fevereiro de 2011 5

Caros, quando a gente pensa no que ocorre na Líbia, imaginamos todo o horror que é uma ditadura instaurada em 1969, ou seja há 41 anos. Muamar Kadafi, não tenho dúvidas, é pior do que Ben Ali e Mubarak, tem ganas (vou usar a expressão em espanhol aqui) de ser mártir, como Saddam Hussein. Por isso, acho que, apesar do otimismo de quem sai, a batalha por Trípoli será longa. A visão que tive da Líbia hoje foi limitada pelas circunstâncias: um portão azul, o muro branco, algumas torres de celular e um prédio do governo, nas cores amarelo e verde, como descrevi na Rádio Gaúcha. Veja a foto abaixo. O militar que aparece é tunisiano. Daqui da fronteira, não conseguimos avistar os militares líbios, sequer saber como estão armados - muito menos imaginar se estão a poucas horas de jogar a toalha para o lado da oposição.

Os mil e um dias

25 de fevereiro de 2011 0

Perdão pelo trocadilho, caros amigos. Mas o dia começou assim, como em As Mil e Uma Noites. Olhares estranhos no retrovisor do carro que me levou para a fronteira com a Líbia. Como é difícil confiar nas pessoas quando você não entende o que elas conversam entre si... Dois motoristas, contratados em Túnis, para me levar até Ras Ajdir, conversam em árabe durante as sete horas de viagem. E beduínos (povos nômades do deserto) e seus dromedários (eu nunca tinha visto um,  acho) e cabras acrescentam uma dose de turismo à cobertura..

Cenas comoventes

25 de fevereiro de 2011 0

Duas cenas me comoveram neste dia aqui em Ras Jadir, fronteira entre Líbia e Tunísia. Uma as crianças, sempre elas. Repare nesta menina, mal aparece entre as malas dos adultos. Sua mãe carregava uma boneca de pano. De jaqueta por causa do frio, ela mal sabia o que estava acontecendo. A outra cena, fiz questão de fotografar em detalhe. O homem com o que sobrou de sua história: um pedaço de pão e o passaporte. O drama dos refugiados é o assunto da minha reportagem de ZH de amanhã.