Com os olhos do planeta voltados para a catástrofe no Japão, a guerra civil na Líbia perdeu espaço nos jornais. E quem mais saiu ganhando com isso foi o ditador Muamar Kadafi. O tsunami que varreu o litoral japonês, por incrível que pareça, ameaça sepultar a revolta árabe. Não apenas pela dimensão das notícias nos jornais, obviamente. Mas enquanto o mundo conta os mortos na costa japonesa e preocupa-se com a usina de Fukushima, as tropas de Kadafi avançam no deserto, estreitando, dia após dia, o espaço dos rebeldes.
Há pouco, o filho ditador prometeu que Bengazi, a cidade de 1 milhão de habitantes que se tornou símbolo da revolta líbia, deve cair nas próximas 48 horas. Acho que vai levar mais tempo, mas uma amostra da tempestade kadafiana que deve se abater sobre o bastião rebelde foi dada: o aeroporto da cidade voltou a ser bombardeado nesta madrugada.
Desde ontem, as forças do ditador realizaram a maior ofensiva desde o levante. Ajdabiya, a 160 quilômetros de Bengazi, também foi duramente bombardeada. E assim, uma a uma, as cidades dos revoltosos voltam para o controle de Kadafi. Entre os jornalistas que ainda estão na Líbia - quatro repórteres do The New York Times estão desaparecidos - há fortes rumores de que, a qualquer momento, as forças do ditador poderão rumar, pelo deserto, de Ajdabiya a Tobruk, e assim isolar Bengazi do resto do mundo. Tobruk é a primeira cidade líbia para quem entra pela fronteira com o Egito. Foi usada por todos os jornalistas que ingressaram em território líbio pelo leste do país. Se isso acontecer, não apenas a capital rebelde ficará sitiada como os jornalistas internacionais que lá estão terão sérios problemas para sair da Líbia. A fronteira poderá ser fechada pelo regime do Kadafi, o que aconteceu no posto entre Dehiba (Tunísia) e Wazam (Líbia), menos de 24 horas depois que saí do território líbio, algumas semanas atrás.
Cada vez mais a crise caminha para uma vitória de Kadafi. Se isso realmente acontecer, estará freada a revolta árabe que iniciou na Tunísia, espalhou-se para o Egito e chegou à Líbia? Possivelmente. Outras nações, cuja oposição fez menção de se rebelar, já estão apreensivas. Houve um recuo nos protestos nos últimos dias. Desde o início afirmei aqui que Kadafi não é Mubarak, tampouco Ben Ali. Sua vitória, ainda que nada heróica, servirá de exemplo - no pior sentido da palavra - aqueles que pensarem em erguer suas vozes contra as ditaduras.
























Comentários