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Posts de março 2011

A revolta árabe e o tsunami japonês

16 de março de 2011 2

Com os olhos do planeta voltados para a catástrofe no Japão, a guerra civil na Líbia perdeu espaço nos jornais. E quem mais saiu ganhando com isso foi o ditador Muamar Kadafi. O tsunami que varreu o litoral japonês, por incrível que pareça, ameaça sepultar a revolta árabe. Não apenas pela dimensão das notícias nos jornais, obviamente. Mas enquanto o mundo conta os mortos na costa japonesa e preocupa-se com a usina de Fukushima, as tropas de Kadafi avançam no deserto, estreitando, dia após dia, o espaço dos rebeldes.
Há pouco, o filho ditador prometeu que Bengazi, a cidade de 1 milhão de habitantes que se tornou símbolo da revolta líbia, deve cair nas próximas 48 horas. Acho que vai levar mais tempo, mas uma amostra da tempestade kadafiana que deve se abater sobre o bastião rebelde foi dada: o aeroporto da cidade voltou a ser bombardeado nesta madrugada.
Desde ontem, as forças do ditador realizaram a maior ofensiva desde o levante. Ajdabiya, a 160 quilômetros de Bengazi, também foi duramente bombardeada. E assim, uma a uma, as cidades dos revoltosos voltam para o controle de Kadafi. Entre os jornalistas que ainda estão na Líbia – quatro repórteres do The New York Times estão desaparecidos – há fortes rumores de que, a qualquer momento, as forças do ditador poderão rumar, pelo deserto, de Ajdabiya a Tobruk, e assim isolar Bengazi do resto do mundo. Tobruk é a primeira cidade líbia para quem entra pela fronteira com o Egito. Foi usada por todos os jornalistas que ingressaram em território líbio pelo leste do país. Se isso acontecer, não apenas a capital rebelde ficará sitiada como os jornalistas internacionais que lá estão terão sérios problemas para sair da Líbia. A fronteira poderá ser fechada pelo regime do Kadafi, o que aconteceu no posto entre Dehiba (Tunísia) e Wazam (Líbia), menos de 24 horas depois que saí do território líbio, algumas semanas atrás.
Cada vez mais a crise caminha para uma vitória de Kadafi. Se isso realmente acontecer, estará freada a revolta árabe que iniciou na Tunísia, espalhou-se para o Egito e chegou à Líbia? Possivelmente. Outras nações, cuja oposição fez menção de se rebelar, já estão apreensivas. Houve um recuo nos protestos nos últimos dias. Desde o início afirmei aqui que Kadafi não é Mubarak, tampouco Ben Ali. Sua vitória, ainda que nada heróica, servirá de exemplo – no pior sentido da palavra – aqueles que pensarem em erguer suas vozes contra as ditaduras.

Kadafi começa a virar o jogo

13 de março de 2011 1

Soterrada, ou melhor, afogada pela catástrofe no Japão, em nível de importância jornalística, a crise na Líbia sofreu no fim de semana uma mudança importantíssima, que pode determinar os rumos da guerra a partir de agora. As tropas do ditador Muamar Kadafi tomaram neste domingo a estratégica cidade de Brega, forçando os rebeldes a recuarem ainda mais, sob pesado bombardeio. Com a perda de Brega e sua refinaria, o acesso ao combustível torna-se cada vez mais limitado para os insurgentes. No sábado, eles já haviam perdido o controle de outra importante cidade petrólífera da Líbia: Ras Lanuf.
A meu ver, o regime de Kadafi está sufocando aos poucos os rebeldes, e os empurrando para Bengazi. Há uma semana, quando eu ainda estava lá, a oposição controlava a metade leste do país e se preparava para seguir em direção à capital, Trípoli. Mas o jogo virou a favor do ditador. O terreno arenoso do deserto mostra que a supremacia aérea do governo e a superioridade em tanques deve vencer as armas dos rebeldes, mal preparados para utilizá-las.

O exército da Líbia avança para o leste para “limpar o resto do país” de rebeldes, nas palavras do governo. Kadhafi está disposto e parece que pode pôr um fim à insurreição nas próximas semanas.

Nesta segunda-feira, a luta deve ser pelo controle de Ajdabiya, uma cidade vital e estratégica para proteger Benghazi, a apenas 240 quilômetros. Em Benghazi, bastião dos rebeldes, a euforia inicial foi sendo transformada em temor e a população se preparava para o pior.

A velocidade com que o governo avança na retomada de posições pode anular as discussões diplomáticas sobre a imposição de uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia.

11 de março de 2011, um dia para esquecer

11 de março de 2011 0

Uma sexta-feira para esquecer. Alguém tuitou há pouco que há um “clima de fim de mundo” no ar. Acordamos no Ocidente com as imagens dantescas do mar engolindo parte do Japão, jogando navios uns contra os outros, arremessando carros como se fossem de brinquedo. E vamos dormir, enquanto o Japão amanhece para o sábado de reconstrução.
O terremoto – e o consequente tsunami – que varreu a região de Sendai, no nordeste do país, produziu recordes: foi o maior da história japonesa. E arrisco dizer foi o mais bem documentado de toda a História (acima, imagens desta sexta-feira). Em 26 de dezembro de 2004, quando tsunamis varreram o Sudeste Asiático, houve poucas imagens do momento exato do mar invadindo a terra. O que chegou até nós foram imagens de qualidade ruim (veja abaixo), dias depois, feitas por turistas com máquinas fotográficas de baixa resolução.
Desta vez, ao contrário, tivemos flagrantes impressionantes da força da natureza. Por vários motivos: no caso de 2004, as ondas devastaram remotos locais do globo, como Phuket, na Tailândia, e vilarejos costeiros da Indonésia, Sri Lanka, Índia, etc. No atual, as ondas atingiram em cheio uma cidade desenvolvida, de 1 milhão de habitantes, com emissoras de TV utilizando helicópteros para gravar o horror. O número de mortos é outra diferença. Um terremoto costuma devastar países onde as estruturas de prédios e casas são frágeis – basta lembrar do Haiti, com 220 mil mortes. Acostumado a terremotos, o Japão tem estruturas projetadas para resistir aos humores da crosta terrestre – o que tem salvado vidas.
Também pode-se perceber que o mundo aprendeu com a tragédia anterior: desta vez, tão logo foi detectado o tremor e o risco de tsunami, um alerta foi deflagrado, e milhares de pessoas foram retiradas das áreas costeiras. No Havaí e em Estados americanos da Costa Leste, populações passaram o dia à espera das ondas, que viajaram para o outro lado do Pacífico a uma velocidade de 800 km/h, a mesma de um avião comercial. Felizmente, chegaram com pouca força. Muitos morreram – até este momento, cerca de mil -, mas poderia ter sido muito pior caso não houvesse o alerta. Aprendemos a lição.

O berço da revolução árabe

08 de março de 2011 0

O atual estágio da crise nos países árabes teve como berço a Tunísia, ainda em dezembro do ano passado. As manifestações começaram depois do suicídio de Mohamed Bouazizi, de 26 anos, vendedor ambulante de frutas e verduras em Sidi Bouzid. Sem conseguir licença para trabalhar na rua, Mohamed fora, por anos, assediado pelas autoridades tuniaianas. Impossibilitado de continuar pagando propinas aos fiscais, acabou por ter sua mercadoria e sua balança confiscadas. Desesperado, o rapaz ateou fogo ao próprio corpo.

Incrível como a tragédia pessoal de um homem ainda é capaz de provocar grandes transformações. É claro que a revolta árabe não começou por causa da morte de Mohamed, assim como a I Guerra Mundial não começou apenas pelo assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, em 1914, em Sarajevo. Todo o clima já estava propício. No caso da Tunísia, desemprego, alta corrupção, falta de liberdade política e de expressão, sucessivas violações aos direitos humanos. No poder, uma ditadura comandada por Zine El Abdine Ben Ali, há 24 anos.

Pela internet, os tunisianos começaram a se organizar usando principalmente o Twitter e o Facebook. Foram marcadas manifestações no centro da capital, as maiores em 30 anos. Incêndios, carros queimados, gritos por liberdade. O ditador não resistiu mais do que poucos dias. Deixou o poder em 14 de janeiro de 2011. Dias depois, revolução semelhante explodia na Praça Tahir, no Cairo (Egito), e chegaria à Líbia de Kadafi – com razões semelhantes, mas de formas bem diferentes.

Túnis hoje mistura um ar de liberdade com resquícios da luta do que ficou conhecida como a Revolução do Jasmim. Nas fachadas, ainda há inscrições como “Enfim, Liberdade”, mas percebe-se uma tensão no ar. Os militares ainda dominam o cenário, com cercas de arame farpado e carros de combate nas ruas. Veja no vídeo que produzi algumas imagens da medina e do centro de Túnis.

Uma das mais belas cidades da antiguidade, Cartago

08 de março de 2011 2

Cercada de lendas, com exímios navegadores e guerreiros, Cartago foi fundada em 814 a.C pelos fenícios no norte de onde hoje é a Tunísia, onde o Mar Mediterrâneo se estreita entre a costa africana e a Sicília. Por estar afastada da Fenícia, prosperou e se transformou em uma das maiores potências da época. No Oriente, as cidades-estado foram atacadas pelos assírios e depois por babilônicos. Com a queda de Tiro (até então a maior cidade-Estado Fenícia), a hegemonia passou para Cartago, que se tornou a grande potência do Mediterrâneo, dominando entrepostos da Sicília, Sardenha, Córsega e Espanha.

Os gregos atacaram Cartago dezenas de vezes em busca do monopólio do Mediterrâneo. Com habilidosos navegadores, Cartago resistiu. Roma, que começava a se militarizar, quis saber como eram construídos os navios cartagineses. Por isso, também atacou Cartago, dando início às Guerras Púnicas. Os bravos guerreiros de Cartago não deixavam Roma entrar no território – protegido pelo deserto, de um lado, e pelo mar de outro. Afinal, no mar eles eram imbatíveis.

A região resistiu até 149 a.C, quando o senador romano Catão decidiu tomar Túnis e para isso mandou o exército destruir Cartago de vez. O general encarregado da missão era Cipião Emiliano. Foram seis dias de luta, com resistência do povo de Cartago. Mas os romanos conseguiram derrubar as muralhas da cidade. A população foi assassinada, as casas destruídas. Diz a lenda que foi espalhado sal na terra para que nada mais germinasse. Ao fim da matança, o general teria chorado após a vitória.

As ruínas desta maravilhosa história estão na região metropolitana de Túnis, capital da Tunísia. Passei pelo local a caminho do aeroporto. Não resisti e fiz umas fotos. Veja:


A ilha de Djerba e sua história

08 de março de 2011 0

Durante nossa cobertura no norte da África, usamos como QG a ilha de Djerba, que fica a cerca de uma hora de carro de Ras Ajdir, o posto fronteiriço com a Líbia. Já comentei aqui que, não fosse uma cobertura de guerra, o local seria perfeito para passar férias. O clima ainda anda meio tenso na Tunísia, berço da revolução árabe, que começou em Túnis, em janeiro, e culminou na derrocada do regime do ditador Ben Ali. Mas Djerba, com 140 mil habitantes, ainda sofre os efeitos da crise – só agora os turistas estão começando a voltar.

Como reportagem não combina com turismo, a menos que seja para a seção especializada de Viagem dos jornais e programas de TV, não postei aqui algumas fotos que fiz diariamente a caminho do front. Elas revelam um pouco da história deste lugar.

A ilha foi fenícia, cartaginesa e romana. A sua população é de origem berbere, os árabes chegaram no século 6 . A ilha conta ainda com uma das mais antigas comunidades judaicas do mundo. No século 15, foi refúgio de piratas, e no século 19 chegou chegaram os franceses. No período romano, os invasores ficaram fascinados com a oliva da região, instalaram um forte (cujas ruínas se pode ver logo na entrada da ilha), e começaram a exportar o produto para o continente europeu. Também estão lá, na beira da estrada, cemitérios romanos – mal cuidados, é verdade.

Repare na mesquita da foto acima. Pequena né? Pois saiba que o prédio é mais antigo do que o Brasil descoberto…

Alguns moradores utilizam o barro para esculpir peças de artesanato lindíssimas. É possível entrar nessas cavernas, caminhar pelos túneis e observar o trabalho. Enfim, como eu disse, um ótimo lugar para passar férias, a três horas de voo de Paris. Espero voltar lá um dia, com o país pacificado. E para descansar.

Fim de uma etapa

07 de março de 2011 5

Amigos,

Concluo aqui a primeira etapa desta cobertura da revolta na Líbia. Foram 12 dias intensos. Deixei a fronteira de Ras Ajdir em direção à capital Túnis com a intenção de viajar para o Egito e, de lá, entrar em Bengazi. Mas há dias tenho sentido fortes dores na região abdominal. Com sintomas de cálculo renal, seria arriscado entrar em um território sitiado, onde não há telefone ou internet, sequer atendimento médico.
Desta forma, decidi buscar tratamento ainda na Tunísia e, em seguida, retornar ao Brasil. Meu colega Humberto Trezzi vai tocar o outro lado da Líbia. Deve desembarcar em horas no Egito. Agradeço a vocês que acompanharam mais esta jornada. Pelos próximos dias, tão logo seja possível, continuarei postando aqui fotos e assuntos que tenham passado ao largo até o momento.
Muito obrigado pelo carinho de todos.
Abração.

Kadafi comemora supostas vitórias

06 de março de 2011 3

Numerosos seguidores do ditador líbio, Muamar Kadafi, saíram neste domingo às ruas de Trípoli para celebrar o que consideram “vitórias” militares do regime, depois de a TV estatal líbia anunciar que os rebeldes tinham sido derrotados em Zawiya, Ras Lanuf, Misrata e Tobruk. No entanto, um opositor, em entrevista à Al-Jazeera em Misrata, desmentiu que essa cidade estivesse em poder das brigadas leais a Kadafi e duvidou que as outras tivessem voltado ao domínio do ditador.
Os rebeldes, que nos três últimos dias se aproximaram de Sirte, cidade natal de Kadafi, afirmam manter o controle do enclave petrolífero e portuário de Ras Lanuf, tomado na sexta-feira passada.

Sábado no norte da África

05 de março de 2011 2

O dia amanheceu parcialmente nublado aqui no norte da África. Há um vento que prejudica um pouco o áudio do vídeo, mesmo assim aí abaixo algumas informações sobre a crise.


Oito dias no norte da África

04 de março de 2011 1

Pessoal, estou há oito dias no norte da África, entre a Tunísia e a Líbia. Ao longo desse período, temos mantido contato aqui pelo blog em Zero Hora.com, além das reportagens em Zero Hora, Rádio Gaúcha, RBSTV e TVCOM e as pinceladas no Twitter. Agora sobrou um tempinho, e gostaria de contar um pouco dos bastidores desta cobertura, que se revela difícil, como sempre, imprevisível. Nesta região do mundo é muito difícil estabelecer contatos: as fontes não são confiáveis, a priori, e, quando ajudam, têm um interesse por trás, a maioria das vezes dinheiro. Estabeleci uma rotina: acordo às 7h30min (quando ainda são 3h30min da manhã no Brasil), saio às 8h, em direção a Ras Ajdir, o posto de fronteira entre Líbia e Tunísia. Levo em média uma hora de carro em que aproveito para dar uma cochilada, recuperar o sono porque fatalmente acabo indo dormir por volta da 1h da manhã (21h do dia anterior no Brasil). Isso se alguém no Brasil não me liga, achando que eu ainda estou acordado ou perdido no fuso-horário como já aconteceu com minha própria família. Enquanto estou em Ras Ajdir, faço as entradas da manhã na Rádio Gaúcha, gravo imagens em vídeo, fotos e apuro informações, sobretudo sinto o clima da fronteira. Na volta, aproveito para editar os vídeos ainda no caminho e reduzir o tamanho das fotos que serão enviadas para o blog. O dia de maior emoção até agora foi a entrada na Líbia, pelo posto de fronteira de Dehiba. Foram sete horas de viagem. Fui apenas para verificar a possibilidade de entrar, não achava possível até porque, pelas informações que eu tinha, a fronteira ainda estava nas mãos do Kadafi. Minha surpresa foi grande quando cheguei lá, e não havia mais militares. Apenas rebeldes dando as boas-vindas. Na foto, a saída da Líbia, na traseira de uma picape, no momento em que perdi os óculos por causa do vento. Ao lado do colega da agência Ansa, saímos de carro, sentindo o vendo do deserto líbio no rosto, uma experiência inesquecível. Há também momentos de pequenas alegrias, como a que provei essa fruta da foto, tirada de um cáctus, e o local que conheci nesta manhã, antes de embarcar para Túnis: resquícios arqueológicos romanos. Djerba era uma das cidades dominadas pelo império romano, que aproveitava-se da grande produção de oliva.

Parênteses na cobertura

04 de março de 2011 0

Amigos, enquanto estava no aeroporto de Djerba, embarcando em uma avião, percebi que outra aeronave decolava. Resolvi registrar. Vejam como o avião decola bem próximo de onde estou, levantando areia do deserto. Não há nada a ver com a cobertura, mas este blog também é de curiosidades. E resolvi dividir com vocês a cena, especialmente com meu amigo Getúlio Vargas, cinegrafista da RBS TV, que adora aviação e sei que está acompanhando passo a passo a cobertura aqui. Abraço ao Getúlio e a todos os amigos leitores do blog.


O grito das mesquitas

04 de março de 2011 0

Os protestos chegaram a Trípoli, capital da Líbia. Depois das orações da sexta-feira, como era esperado, mais de 1,5 mil pessoas saíram às ruas no distrito de Tajoura. Eles pediam a renúncia de Kadafi cantando “o povo quer derrubar o regime”. As forças do ditador usaram gás lacrimogêneo contra os manifestantes.

Hoje, as autoridades líbias proibiram jornalistas estrangeiros de deixar hotel para cobrir protestos em Trípoli. Quando os repórteres – incluindo da agência de notícias Reuters e da emissora de TV Al Arabiya – tentaram deixar o principal hotel usado pela imprensa no país, guardas bloquearam sua saída. Um porta-voz do governo disse que os jornalistas estavam sendo mantidos no hotel Rixos porque a presença deles poderia aumentar a violência por parte do que chamaram de afiliados da rede terrorista Al Qaeda. O grupo, integrado por 150 jornalistas, foi convidado pelo regime a entrar na Líbia esta semana.

No aeroporto de Djerba, que está sendo utilizado para retirar refugiados, fiz esta imagem abaixo de uma aeronave americana de prontidão.


Amontoados

04 de março de 2011 2

Hoje é sexta-feira, dia sagrado dos muçulmanos. Por ser um dia em que muitas pessoas estão nas ruas, havia a expectativa de que uma grande manifestação pudesse pressionar ainda mais o regime de Kadafi. Até o momento ela não ocorreu. Ou pelo menos não com a força esperada. Vários grupos estariam preparando protestos em Trípoli, mas, com medo de represálias, poucas pessoas apareceram.

Acordei ao som das orações nas mesquitas, o canto do muazin toma conta do mundo árabe.

Segundo o Alto Comissariado da ONU para Refugiados, 12,5 mil pessoas estão bloqueadas na fronteira com a Tunísia depois de uma fuga e aguardam uma operação de retirada. O órgão também informou que as tropas de Kadafi dominam o lado oeste da fronteira.

As imagens dos refugiados sendo retirados da Líbia lembram as da Guerra de Kosovo: amontoados em ônibus. Veja.


Confrontos no deserto lembram Primeira Guerra Mundial

03 de março de 2011 2

A ofensiva de Kadafi continua e atinge um momento crucial. Há bombardeios em Brega, uma importante cidade produtora de petróleo. Está delimitado o campo de batalha nesta cidade, onde existe o único brasileiro civil além de jornalistas e diplomatas no país.

Desde a Guerra do Golfo não se via esse tipo de conflito. Os rebeldes tentam controlar a cidade e os militares atacam, não apenas com bombardeios aéreos, mas por terra. É guerra de trincheira, como na primeira Guerra Mundial.

Ouça o áudio na gaúcha:

A Líbia está em guerra civil

03 de março de 2011 0

A crise na Líbia atinge status de guerra civil. Não se trata mais de manifestações como as que derrubaram Ben Ali do poder na Tunísia ou Mubarak, da presidência do Egito. No caso líbio, há uma guerra declarada entre rebeldes, com apoio de parte do exército que desertou, e o governo.

O front está bem definido. Brega, cidade petrolífera, tornou-se a fronteira entre a Libia dos rebeldes e a Líbia do Kadafi. A aviação do ditador lançou hoje bombas próximo a um hospital. Pelo menos pessoas teriam morrido nesses que são os mais graves confrontos esta semana. Ontem, os rebeldes haviam conseguido expulsar os militares de Kadafi, mas hoje, ocorre uma nova ofensiva.

O mais incrível é que temos, além do uso da aviação, avanço de tropas pelo deserto, estilo guerra de trincheiras como na I Guerra Mundial em pleno século 21. Os rebeldes normalmente utilizam caminhonetes 4 x 4 que singram o deserto, com uso de RPGs em confrontos pontuais: atacam e fogem. Está claro tambem o uso de mercenários africanos por parte de Kadafi.

Ontem, cerca de 200 homens do ditador, que chegaram a ocupar a refinaria de Brega, foram encurralados e uma universidade próxima e fugiram após várias horas de combate, após terem tentado tomar também o aeroporto e o porto da cidade.

Os pilotos de Kadafi tinham recebido ordens de bombardear essa base, na segunda-feira e na quarta, mas despejaram as bombas em uma área deserta próxima. O piloto pousou seu avião a 40 km de Ajdabiya e desertou. A recusa dos pilotos em atacar os rebeldes, até mesmo alvos militares como o depósito de armas e munições da base, foi vital para a derrota dos leais ao ditador. Até o momento.