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Sobre Guerras e Tormentas

19 de agosto de 2011 9

Amigos, como prometido, coloco aqui um trecho do meu primeiro livro, Guerras e Tormentas – Diário de um Correspondente Internacional. Espero que gostem. O lançamento ontem foi uma das experiências mais incríveis da minha vida. Eu não imaginava que tantas pessoas estariam lá. Foi incrível ver a quantidade de amigos leitores, ouvintes, telespectadores, internautas, que muitas vezes acompanham o meu trabalho e eu não os conhecia. Espero que apreciem o livro. Abraços!


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Entre a turba de haitianos que inicia o êxodo de Porto Príncipe, os pés descobertos de uma mulher atraem o olhar: o rosa delicado das unhas denota um traço de vaidade na aridez do Haiti. Seu rosto está coberto por um pano preto, e o corpo, depositado na traseira de uma caminhonete. Não tem nome afixado, nem número de identificação. Carregada por familiares, a mulher morta no terremoto de 12 de janeiro deixa anônima a capital haitiana.

À frente, o normalmente caótico trânsito de Porto Príncipe está parado. Um comboio de caminhões, escoltado por tropas peruanas das forças de paz da ONU, provoca alvoroço. Mulheres correm na tentativa de seguir os carros, que trazem comida da República Dominicana. No caminho inverso, motoristas deixam os veículos e fazem as vezes de agentes de trânsito. Aos gritos. Dentro do nosso carro, o calor úmido do Caribe faz nossos corpos suarem.

A entrada na capital devastada pelo terremoto é assim: cheia de poeira, com cheiro de corpos em decomposição e cenas de desespero. Em um ponto da estrada, sacos de água são vendidos em um caminhão. Da carroceria, um homem vestindo terno preto recebe o dinheiro, enquanto outros distribuem o produto. Um puxa para lá, outro para cá. E está feita a confusão. Dezenas de pessoas se aproximam. Começa o saque.

A longa fila de veículos em vagarosa procissão faz com que um trecho percorrido em condições normais em menos de 15 minutos exija mais de uma hora de paciência. O ingresso na zona urbana é percebido pelo aumento na quantidade de escombros. Um muro caído, um telhado, um mercado inteiro. Quando um haitiano olha para a identificação do cartaz “imprensa brasileira” nos vidros do nosso carro, não fala nada. Apenas abre os braços, como quem não entendesse o que está acontecendo com seu país. Depois de séculos de invasões estrangeiras, de violência, pacificação, violência, pacifação, agora, a volta ao caos. Pelas mãos da natureza.

As zonas de maior destruição são o centro de Porto Príncipe – onde uma base brasileira desabou e 10 militares morreram – e um bairro localizado na área montanhosa, onde se situava o Hotel Christopher, sede da Minustah. O incipiente comércio de Porto Príncipe está fechado. Nem os ambulantes estão por aqui. Na frente de um shopping comercial desabado, homens ouvem rádio em aparelhos antigos, pesados. É o meio de informação mais comum no Haiti.

Mulheres correm de um lado para o outro equilibrando sacolas na cabeça. Com os maridos desempregados (uma realidade que atinge 70% da população haitiana), são elas, normalmente, as responsáveis pelo sustento da família. Nesses dias, são as responsáveis pela sobrevivência de todos.

No centro de Porto Príncipe, somos parados por haitianos que querem nos mostrar os efeitos do terremoto em uma escola salesiana. Cautelosos, distantes de muros e fachadas que ainda podem desabar, caminhamos alguns quarteirões arrasados. A sensação é de que, qualquer barulho, um vento, um toque fará com que prédiosque ainda estão inteiros venham a baixo, como castelos de cartas. Chegamos. No pátio da escola, pessoas cobrem o nariz com as roupas. Fernando Rech entra primeiro com a câmera no ombro. Prendo a respiração, tento puxar o ar pela boca, mas o cheiro dos cadáveres em decomposição invade todos os meus sentidos. Volto alguns passos, penso em não olhar. Mas, como jornalista, sinto o dever de escancarar a realidade crua. Na escola, há pelo menos 10 corpos insepultos, na quadra de futebol, ao sol.

Pobreza, porcos misturados a pães, arroz e bananas e trânsito confuso sempre fizeram parte do dia a dia dos haitianos. Até o cheiro forte da comida temperada e exótica é antigo conhecido dos brasileiros. A diferença, agora, é que tudo isso está misturado ao cheiro de morte. Assim é o Haiti. Homens e mulheres que podem sofrer tragédias violentas uma ou duas vezes, ou até três – e depois sofrer ainda mais.



Comentários (9)

  • Luiz Ost Frank diz: 19 de agosto de 2011

    Bom! De Canoas, sigo te lendo e te ouvindo na rádio gaúcha. Precisas diminuir de peso se não vai ficar sendo sósia do muito bom “Geraldo Canale”. Abração.

  • LETICIA RODRIGUES FERREIRA diz: 19 de agosto de 2011

    Rodrigo: Estava demais, emocionante! Parabéns! Obrigada pelo convite e tenho certeza que o livro será o primeiro de muitos!
    Beijos, Leticia

  • Paulo Alberto Borges de Medeiros diz: 19 de agosto de 2011

    Mas aqui, que solidão , cara! Sinto muito! Espere pela feira do livro da praça da alfândega. Vc será saudado por muita gente, que detesta ler livros, mas que adora ser fotografada como se fora um leitor voraz… O porteiro do condomínio onde moro escreveu um livro, que foi publicado e lançado no União, em noite de autógrafos muito concorrida – 1001 maneiras de se polir maçanetas, pela Editora StG – e ele se viu um best seller, tadinho. Hoje, comparece a feira do livro de qualquer lugar neste culto rinção de meu Deus…Ele e seus livros encalhados. Virou um personagem a procura de um autor!

  • Tânia e Bruno Lopes diz: 27 de agosto de 2011

    Rodrigo,Parabéns por mais esta vitória! Sucesso na vida pessoal e profissional!

  • nanci c. Camboim diz: 30 de agosto de 2011

    Assisto todas as tuas reportagens, outro dia vi uma participação no Café TVcom- Fez diferença! Amanhã vou correndo comprar teu livro… Viajo junto com leituras sobre outros países, costumes, crenças, diferentes dos nossos.. Citando uma frase em espanhol ( não lembro o autor)- Los libros son como pajaros a mi, que aprendi a volar!( A hora me hacem lhegar al cielo ), estas últimas palavras eu acrescentei! Parabéns Rodrigo, repórter jovem, simpático, carismático, sem afetação…Promete!

  • Isolde Bohn diz: 1 de setembro de 2011

    Sou professora de Geografia, apaixonada pelo rádio e por todas as publicações destes corajosos jornalistas que se aventurando pelo mundo, nos oferecem preciosidades. Soube da publicação do seu livro na entrevista com a Sara no programa Brasil na Madrugada. Com o acesso pela Internet, já conseguí o livro através da Livraria Cultura. Comecei a ler e me dá a impressão estar revivendo todos estes acontecimentos de seu relato. Parabéns, sucesso e muitas felicidades. Depois que terminar, lhe enviarei um novo comentário.

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