- Lula apertou a mão de Ahmadinejad. Apertou uma mão contaminada pelo sangue de milhares de pessoas.
A frase é de Mohsen Makhmalbaf, cineasta iraniano, diretor de filmes como A Caminho de Kandahar, que está em Porto Alegre para palestrar no Fronteiras do Pensamento, nesta noite de segunda-feira. Perseguido pelo regime de Mahmoud Ahmadinejad, ele percorre o mundo para denunciar as sucessivas violações aos direitos humanos do governo dos aiatolás. Na tarde desta segunda-feira, em entrevista coletiva que antecedeu a palestra, Mohsen detalhou exemplos de intolerância no Irã atual e explicou como o Estado nas mãos de clérigos xiitas invade a vida privada dos cidadãos.
- No Irã, não queremos apenas democracia. Queremos democracia e secularismo - afirmou aos jornalistas.
Um exemplo: em dois anos, mais de 50 cineastas foram presos ou ameaçados para que não mandassem seus filmes para o exterior, para competir em mostras internacionais. Mohsen viveu no Irã até sete anos atrás, quando Ahmadinejad assumir o poder. Com o recrudescimento do regime, deixou o país, foi para o Afeganistão, onde morou por dois anos. Certo dia, estava no set de filmagem, quando uma granada foi atirada contra a equipe de produtores, cinegrafistas, atores e atrizes. Ele sobreviveu ao ataque, mas um membro do grupo morreu e outras 20 pessoas ficaram feridas. Era um sinal de que forças do regime iraniano haviam entrado em território afegão para matá-lo. Nova mudança: passou a morar no Tadjiquistão, mas o governo local começou a ser pressionado, e o diretor teve que se mudar para Paris. Na França, recebeu proteção do governo, mas, por razões de segurança o iraniano não revela onde mora e é obrigado a se mudar de tempos em tempos.
Ele conta que uma atriz iraniana foi condenada no país dos aiatolás a um ano de prisão e 80 chibatadas, simplesmente porque, durante um filme, seu cabelo apareceu mais do que o permitido. A filha de Mohsen, também cineasta, foi ameaçada: se voltar ao Irã será presa ou estuprada. Nas prisões iranianas tanto homens quanto mulheres são violentados sexualmente. Nas escolas, funcionários do governo perguntam para crianças se os pais "gostam ou não" de Ahmadinejad.
- E fazem tudo isso em nome de Deus - revolta-se o diretor.
Segundo ele, o povo iraniano está sendo crucificado. É comandado por sacerdotes islâmicos como um país da Idade Média.
- Estamos esperando a libertação - afirma.
Uma das cenas mais fortes descritas pelo diretor é de uma mãe que teve os dois filhos enforcados em praça pública, e seus corpos entregues “ainda quentes”.
- Ela disse não acreditar que eles estavam mortos porque os corpos ainda estavam quentes - contou.
Segundo Mohsen, 15 mil pessoas foram presas por motivos políticos no país em dois anos. E, quando 3 milhões de iranianos saíram às ruas para protestar em Teerã, o governo Barack Obama mandou apenas duas cartas a Ahmadinejad, condenando a ação. Pouco na opinião do diretor.
Mohsen afirma que o Brasil tem uma democracia de 20 anos, diz que os iranianos gostam muito dos brasileiros e que, desde criança, ele começou a admirar o futebol brasileiro por causa de Pelé.
- Mas algo que o povo iraniano não entende é porque, apesar dessa tradição democrática, o governo faz contato com Ahmadijenad. Por que o Brasil apoia um homem que maltrata sua população? - questiona.







Comentários