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“Não aceitamos chantagem”

15 de janeiro de 2012 3



Rosa Baez



Há quatro anos, Rosa Baez deixou mais de três décadas de trabalho na Biblioteca Nacional de Cuba para se dedicar à internet. Virou blogueira oficial do governo cubano – a antítese do que faz, por exemplo, Yoani Sánchez, a famosa autora do blog Generación Y, que, desde Cuba, denuncia as limitações impostas pelo governo dos irmãos Castro. Rosa faz o contrário: por meio do blog La Polilla Cubana, entre outros que mantém, ela defende o governo que tomou o poder na Revolução de 1959. Desde sua casa, ela também monitora o que é publicado na imprensa mundial sobre a ilha e, quando não concorda, contesta – como fez com a entrevista de Yoani publicada em Zero Hora na edição de 7 de janeiro. Em conversa por telefone a Zero Hora, ela expõe a sua versão sobre Cuba:

Zero Hora – O que a senhora contesta nos argumentos de Yoani?

Rosa Baez – Nem jornais na internet recebem a ajuda financeira que o blog de Yoani tem. Ela recebe ajuda de grupos privados e do governo americano. Não há a ideia de “pobre mulher que não tem acesso a outros países”. Ela tem todos os recursos. Eu não tenho câmera de vídeo, gravador. Questiono a banalidade de tudo o que expressa. Não há um post em seu blog que seja uma crítica contundente à Revolução. Ela está enganando a comunidade internacional. Os posts são ridículos, banais... Fala sobre falta de bananas em Cuba, por exemplo. E, com isso, ganha prêmios internacionais, com milhares de euros.

ZH – Dê um exemplo do que não corresponde à realidade.

Rosa – Ela trata de temas banais. Um dia disse que no Malecón não há guarda-sóis, outra dia disse que não há bananas em Cuba. Ora, havia passado três ciclones, como haveria bananas nas lavouras? Estamos preocupados em trabalhar por uma sociedade melhor, com os poucos recursos, e vem essa gente com palhaçadas. Aqui não há uma dissidência real.

ZH – A senhora trabalha como jornalista?

Rosa – Sou bibliotecária, mas, por problemas de saúde, tive de parar com meu trabalho na Biblioteca Nacional e passei a trabalhar em um centro de imprensa. Não temos cobertura internacional. Um artigo que Yoani escreve é reproduzido em 200 jornais. No entanto, notícias a favor de Cuba não recebem cobertura. O Unicef reconhece Cuba pela baixo índice de mortalidade infantil. Tu procuras na imprensa e não encontras. No Brasil ninguém sabe que em Cuba há baixa mortalidade infantil. Mas sabem que não há guarda-sóis, porque Yoani disse que não há guarda-sóis. Não é justo.

ZH – Quando a senhora criou o blog?

Rosa – Tenho vários blogs. Por que vários? Há muitos sites que hospedam blogs que, de uma hora para outra, podem tirar a informação do ar. Aconteceu comigo e com um amigo. Tínhamos um blog, e, de repente, o site que o hospedava disse que estávamos mandando spams ou que o blog tinha conteúdo inapropriado. E o fecharam. ZH – Quem o fechou? Rosa – No meu caso, Google fechou. Blogger, a ferramenta do Google, fechou meu blog por seis meses, embora eu escrevesse constantemente, protestando, dizendo que não estava transmitindo spams. Então, tens de ter alguns blogs alternativos.

ZH – A senhora quer dizer que há censura por parte de empresas?

Rosa – Exatamente. Cuba não tem a infraestrutura necessária para quem quer ter internet. Como é por satélite, a rede é mais cara e mais lenta. No caso de postarmos um vídeo no YouTube ou fazermos download, é comum desistirmos porque demora muito. Dei uma entrevista a um jornal espanhol, em vídeo, e nunca pude ver toda a entrevista. Estou tentando subir um vídeo no YouTube e já fazem 72 horas.

ZH – A senhora não acha que a culpa é da situação de Cuba, do regime fechado que comanda o país?

Rosa – Esse é o problema. Inclusive pessoas que vivem no país pensam isso. Dizem: “Não me dão acesso à internet”. Como vão dar acesso? Não vais poder abrir uma página. Não há infraestrutura.

ZH – Yoani pediu ajuda à presidente Dilma Rousseff para sair de Cuba, já que o governo não permite. A senhora gostaria de sair do país?

Rosa – Por razões de trabalho, tive a oportunidade de sair, fui à Argentina. Se Yoani quer tanto sair, porque regressou, se estava no Exterior? Regressou porque lhe ofereceram dinheiro.

ZH – O que a senhora diz a quem trata Cuba como uma ditadura?

Rosa – Se tu tivesses recursos limitados e precisasse escolher entre dá-los aos teus profissionais, pesquisadores, jornalistas ou a quem está denegrindo o teu projeto, a quem tu darias? Em primeiro lugar, aos teus. Quando a Unesco reconheceu a Palestina como membro, o que os EUA fizeram? Tiraram o apoio financeiro. Por que temos de obedecer a essa chantagem? Não vamos aceitar. Convidamos todos a vir conversar em pé de igualdade. Há pouco, o governo libertou grande quantidade de prisioneiros políticos.

Comentários (3)

  • Mauro diz: 20 de janeiro de 2012

    Parabéns pela entrevista e parabéns à Rosa. Apesar de curtinha a entrevista (bem curtinha, não é) podemos ter acesso a informações e sobre Cuba que não vemos na grande mídia brasileira.

  • Rodrigo diz: 26 de janeiro de 2012

    Achei a entrevista ótima também. As pessoas endeusam essa Yoani Sanchez, uma jornalista medíocre, que fatura em cima do regime. Não estou dizendo que o regime é bom ou ruim, mas infelizmente muitos acreditam nas lorotas que ela publica sem se preocupar com o que há de verdade de fato.

  • Chicão diz: 3 de fevereiro de 2012

    Os senhores Mauro e Rodrigo leram outra entrevista, não esta que esta que foi registrada!
    A pobre (pobre mesmo) da senhora Rosa só se queixou da falta de estrutura cubana e alardeou a baixa mortalidade infantil na ilha.
    E qual o custo dessa estatística favorável?
    A ditadura?
    A falta de liberdade?
    A vida miserável que se leva em Cuba?
    E qual será o futuro dessas crianças diante do regime comunista e imperial que os irmãos Castro mantém com mãos de ferro?
    Uma existência medíocre.
    Sonhos jamais sonhados.
    Direitos sempre negados.
    Mais a mais, qual é a taxa de crescimento do povo cubano para tanta propaganda sobre os baixos índices de mortalidade infantil?
    Alguém já teve acesso ao número de habitantes da ilha e seu crescimento nos últimos anos?
    Sim, porque se nascem apenas meia dúzia de crianças por mês é fácil controlar a mortalidade, nada de extraordinário.
    Como seria se fosse a população brasileira, onde morrem dezenas de crianças nos corredores dos hospitais à espera de atendimento, quando não de doenças nos primeiros meses?
    Haveria a mesma eficiência?
    Conseguiríamos os mesmos registros?
    Então por que esse método as nossas autoridades não implantam em nosso país?
    Aonde está o nosso ministro da saúde que não adota essa forma o quanto antes, haja vista ser tão espetacular?
    Nossa presidente e dirigentes que vão a Cuba regularmente, fazem o quê?!
    Por que não copiamos o que Fidel faz de bom ao seu povo?
    Por essas e outras que o meu voto não será concedido aos admiradores de regimes de força, aos que prestigiam títeres, aos que apóiam a prisão do povo em seu próprio país!

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