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Posts do dia 14 maio 2012

Código internacional de sinais

14 de maio de 2012 0

18h58min

Sou chamado à ponte de comando. O comandante Ricardo Gomes está preocupado. Um navio não responde aos chamados por identificação. É possível avistá-lo. Gomes compara com a imagem de embarcações em um grande livro, uma espécie de dicionário de navios. É um Moma de inteligência russo. Esta é a terceira vez que ele aparece na área desde o início da missão.

— Ele está descendo em direção ao Sul. E um navio russo nessa região é um sinal.

A Rússia é um tradicional aliado do regime de Bashar al-Assad na Síria. Sua presença na área é uma demonstração de poder. Como não responde ao rádio, a tensão se estabelece. Estamos a 60 quilômetros da costa. A União aproxima-se da embarcação suspeita. Na sala de comando, com binóculos e máquinas fotográficas, os militares tentam identificar o nome do navio. Quando surge um sinal avisado pelo sinaleiro — o militar no posto de observação mais alto.

— Ele está dizendo boa viagem — alguém grita.

É o código internacional de sinais. Os militares correm para responder.

— Também desejam boa viagem.

Mas a presença do navio na área é uma clara violação dos acordos com a ONU e o episódio será informado ao comando da missão.

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19h36min

As luzes brancas são substituídas pela luz encarnada que toma os corredores. Ela é usada para que os pilotos do helicóptero se acostumem mais rápido à escuridão lá fora, no caso de voo noturno. No alto-falante, uma voz de comando decreta o fim do dia:

— Boa noite!

Tempero brasileiro

14 de maio de 2012 0

16h

O arroz e o feijão vieram do Brasil.

— Aqui, feijão só em lata — reclama o cozinheiro Bruno Barreto, 26 anos, do Rio de Janeiro.

Aproveito para espiar o que teremos de jantar: peito de frango acebolado e batatas fritas. A rotina do cabo Bruno é pesada. Acorda às 6h da manhã, o café precisa estar pronto. E vai dormir antes das 22h.

— A gente tenta colocar o tempero brasileiro — sorri, enquanto prepara o jantar, que será servido às 18h.

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18h30min

Começo a perceber o confinamento como o maior desafio a bordo. É possível passar horas no interior do navio sem ver o tempo lá fora. Imagino que já anoitece. Mas basta sair no convés principal para ver que o sol ainda não se foi. Venta forte. O capitão-tenente Sandro Barreto, 32 anos, explica que debaixo de nós a profundidade é de quase mil metros.

Militar vive com saudade de casa. Com Barreto, não é diferente. Há poucos computadores com acesso à internet, mas um telefone com linha direta com o Rio ajuda a aliviar os momentos difíceis.

14h44min: o fogo é o pior inimigo de um navio

14 de maio de 2012 0


Um alerta percorre os corredores da União pelo alto-falante.

— Colisão pela proa à boreste.

Há fumaça. A brigada de combate a incêndios atua no local, um escritório, e em outros dois compartimentos — em um deles, há alagamento.

O fogo é o pior inimigo de um navio. Penso na tragédia na Estação Comandante Ferraz, na Antártica. Na fragata, um incêndio semelhante poderia ser ainda pior — faria a embarcação naufragar.

Felizmente, hoje, trata-se de uma simulação. Os "feridos" são levados para uma enfermaria transformada em centro cirúrgico. O capitão-tenente Alexandre Coutinho, 37 anos, e o capitão-tenente Rodrigo Mathias, 34, são os dois médicos a bordo. Na fragata, eles têm condições de fazer cirurgias com anestesia geral e há desfibriladores para casos de parada cardíaca.

— O momento mais crítico foi a viagem até aqui. Durante 10 dias, no Oceano Atlântico, precisávamos estar preparados para tudo — explica Coutinho.

Para a travessia, os médicos transportaram bolsas com sangue. Nos seis meses de missão, houve apenas ferimentos leves: pequenos cortes e contusões.

A última patrulha da União nas águas do Líbano antes do retorno ao Brasil

14 de maio de 2012 0

9h50min

Esta é a última patrulha da União nas águas do Líbano antes do retorno ao Brasil, uma viagem que deve levar um mês. Esta semana, ela será substituída pela Fragata Liberal, que já está no Porto de Beirute. No briefing de segurança, somos orientados sobre como abandonar o navio em caso de emergência. Fixo o olhar em tela de LCD onde são passadas as instruções. Sinto os primeiros efeitos do mar. Meu estômago dá voltas. Prestes a perder o equilíbrio, decido sentar.

Essa sensação passa com o tempo a bordo, garantem os mais experientes. A minha ainda não passou…

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10h

A área total de patrulha das forças brasileiras compreende um retângulo imaginário de 180 mil quilômetros quadrados — até as fronteiras com Israel (Sul) e Síria (Norte). Saio para o convés principal. O tempo nublado não permite ver a posição do sol. É água por todos os lados. Não há como definir, sem os instrumentos do navio, para que lado fica a terra.

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11h44min

O centro de controle detecta a presença de um navio suspeito. Na tela do radar, a identificação: UJ4503. A informação é passada ao comandante, que ordena um interrogatório. O capitão-tenente Gleidir Abreu, 34 anos, natural do Rio de Janeiro, aparenta tranquilidade. Pelo rádio, em inglês, o navio suspeito responde. Saiu do Egito rumo a Beirute. Não é possível avistá-lo a olho nu. Estamos a 8 milhas da embarcação suspeita — aproximadamente 16 quilômetros. Ao ser questionado sobre a carga, a resposta:

— Pet Coke.

Na ponte de comando da União, os oficiais olham entre si:

— Pet Coke?

Gleidir insiste para que o comandante da outra embarcação seja mais preciso. Depois de alguns diálogos, a tripulação compreende que trata-se de garrafas PET vazias.

Em seis meses aqui, foram cerca de 600 interrogatórios como estes. Nem sempre há resposta. Não é incomum, segundo os militares, a ação de caças F-16 israelenses ou aeronaves não tripuladas violarem a área sob proteção da ONU.

Com ordem apenas para responder caso seja atacada, a fragata brasileira limita-se a informar o comando da Unifil, que se encarrega de protestar oficialmente pelo descumprimento dos acordos internacionais.

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13h30min

Volto ao meu camarote para descansar. O balanço do navio pressiona minhas costas contra o colchonete, como se alguém de cima forçasse o seu peito para baixo. De um lado e de outro.

8h30min

14 de maio de 2012 0

— Tá parecendo Rio Grande.

A frase é do comandante Ricardo Gomes, no convés superior, enquanto Beirute fica para trás. A velocidade do vento atinge 15 nós (30 km/h). O Mar Mediterrâneo está agitado. Por isso, a comparação com Rio Grande. As condições do tempo mudam muito rapidamente por aqui. Relatórios com a previsão meteorológica chegam a cada três horas.

Pelo acordo com a ONU, a fragata União deve ficar 70% dos dias no mar. A principal ameaça, explica Gomes, são ataques assimétricos — embarcações civis que podem se aproximar da União para realizar atentados. Por isso, além de dois canhões 40 mm, a embarcação foi equipada com quatro metralhadoras .50, propícias para reações rápidas.

7h48min, o primeiro desafio

14 de maio de 2012 0

O primeiro desafio é não bater a cabeça no alto das escadas dos oito convéses da fragata. É preciso também olhar para o chão. As portas são em formato de U — em caso de inundação, isso evita que a água se espalhe. Logo, é preciso dar um passo alto cada vez que se cruza um compartimento. Termino o primeiro passeio de reconhecimento sem fôlego com o sobe-desce e um saldo de duas batidas com testa e uma canelada na escada. Pronto para zarpar.

Diário de bordo: 7h30min

14 de maio de 2012 0

— Em navio não se corre, anda-se acelerado — ensina um militar, repetindo uma das leis do mar.

Em um ambiente limitado como o da Fragata União, um acidente a bordo deve ser evitado a qualquer custo: um tombo, ou, pior, uma queda no mar, pode determinar não apenas a vida ou a morte, mas o sucesso ou o fracasso da missão.

Subo a bordo da embarcação nesta manhã, conduzido, a passos acelerados, por um corredor estreito, cheio de canos e fios próximos às paredes brancas.

A cabine 105, ao final do corredor principal, será o meu quarto pelos próximos dias. É um ambiente em madeira. Calculo dois metros quadrados. A cama, estilo beliche, é estreita. Com 1,87 m de altura, testo se consigo esticar o corpo. É possível, mas não muito. Além da cama, na cabine há um pequeno armário e uma pia. Na parede um decálogo de segurança:

"Lembre-se que o conhecimento de assunto sigiloso depende da função desempenhada pelo militar e não do seu grau hierárquico ou posição".

Espio pela porta, e a sensação que tenho é de, se me largarem aqui, sozinho, não conseguirei sair do navio. Por dentro, a fragata União é como um labirinto de corredores, escadas e portas-estanque. Atracada, nada se move. A embarcação parece estável. Continuará assim?