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Hoje, voltei ao inferno

21 de maio de 2012 4

Hoje foi um daqueles dias especiais. Ainda estou refletindo sobre tudo o que vi, vivi e as experiências que revivi. E, certamente, não conseguirei contar tudo neste post – tampouco passar a vocês o que me fez emocionar. Mas tentarei:

Agosto de 2006. Em um quarto do  Hotel Intercontinental, em Beirute, acordo por volta das 6h da manhã. Como é de hábito em coberturas internacionais, ligo a TV na CNN. Vejo a notícia: Israel bombardeou o vilarejo de Qana, no sul do Líbano, matando 19 mulheres e crianças. Era um erro, óbvio. Ninguém ataca uma residência de civis porque quer.

Imediatamente, no breaking news da CNN, vinha um alerta: Israel declara trégua (não me lembro se de 24 ou 48 horas) para investigar o que houve. Quando vi aquilo, liguei para o meu motorista:

- Vamos para o Sul.

A região, enclave do Hezbollah e a mais bombardeada por 20 dias de guerra, era também a mais perigosa. Alguns dias atrás, uma fotógrafa da Associated Press havia morrido em um ataque israelense. A trégua nos bombarderios, a que a CNN se referia, era minha chance de chegar até lá com relativa segurança.

Depois de seis horas de viagem, pelas montanhas, cheguei a Qana. O vilarejo estava destruído. Não havia ninguém para entrevistar. Simplesmente porque não havia ficado ninguém na cidade - ou estavam mortos ou tinham fugido. Caminhei por entre os destroços do prédio onde morreram as mulheres e crianças. Havia ainda chinelinhos de dedo, fraldas, colchonetes no local, espalhados...

Fiquei cerca de 15 minutos em Qana. Logo, começou um boato de que ocorreria um novo bombardeio. Iniciamos a fuga.

A imagem nunca me saiu da lembrança. Em meu livro Guerras e Tormentas detalho aquele dia e sempre conto esta história em meus papos em visita às universidades de jornalismo do Estado.


Entrada do vilarejo de Qana, sul do Libano, em 2006. Foto: Rodrigo Lopes




Centro do vilarejo de Qana, sul do Líbano, 2006. Foto: Rodrigo Lopes



Prédio bombardeado em Qana, sul do Líbano, 2006. Foto: Rodrigo Lopes




Quando cheguei, havia ainda no chão os chinelos de dedos das crianças. Foto: Rodrigo Lopes



Ao redor do prédio, havia risco de desabamento. Foto: Rodrigo Lopes



Hoje, voltei a Qana. Ao final de um dia de viagem pelo sul do Líbano em paz, meu motorista Ali perguntou:

- Queres ver Qana.

Eu estava cansado. Mas como abrir mão dessa oportunidade? Entramos em uma rua de Tire e nos dirigimos ao vilarejo. Prédios inteiros, novos, fizeram eu nem perceber que havíamos chegado ao local. Meu motorista não sabia que eu havia estado ali em 2006. Comentei, como se não soubesse:

- Foi aqui que houve a morte das crianças?

Ele dobrou em uma rua e disse:

- Vou te mostrar!

Ao chegarmos, deparei com um memorial, com os túmulos das vítimas e os rostos emoldurados em painéis. Ao redor, um jardim com rosas. Um senhor regava as flores. Puxamos papo. Ele era marido de uma das mulheres mortas, pai de três crianças vítimas do ataque. Não casou de novo desde então.

Parecia outro lugar. Nem de perto lembrava o inferno por onde caminhei seis anos atrás, um terreno com ferros retorcidos e concreto despedaçado. Fiquei de novo 15 minutos no local. Fiz algumas imagens, tirei fotos. Entrei no carro. Não levamos seis horas para voltar a Beirute, ao contrário de 2006, quando a estrada estava destruída pelos bombardeios. Foi apenas uma hora e meia. Uma hora e meia de total silêncio.



Entrada do vilarejo de Qana reconstruído, 2012. Foto: Rodrigo Lopes




Novos prédios no centro da vila. 2012. Foto: Rodrigo Lopes




No local onde ficava o prédio destruído, os rostos. 2012. Foto: Rodrigo Lopes




Memorial em homenagem aos mortos. 2012. Foto: Rodrigo Lopes




Depois, o silêncio. 2012. Foto: Rodrigo Lopes



Comentários (4)

  • Lisette Teresinha Beck Schmidt diz: 21 de maio de 2012

    Bela reportagem. Estou acompanhando suas reportagens no Face e na Zero Hora. Tenho interesse particular sobre o assunto pois, minha filha é casada com um rapaz libanês,mas eles moram no Kuwait.

  • Celso Lopes Seus diz: 22 de maio de 2012

    A vida sempre recomeça. Haja guerra, hecatombes, a vida sempre recomeça. Mas, será sempre importante fazer com que o recomeço não seja no futuro motivo para outro recomeço: as causas devem ser identificadas e, na medida do possível, ser evitadas. Quando houve guerra, ou mesmo um simples ataque, está nas mãos dos homens evitar mais um recomeço.

  • Ivani Schütz diz: 23 de maio de 2012

    Muito interessantes os posts. Cotidianos recheados de história e muito atuais e bem escritos. Parabéns,

  • Naion Curcino diz: 23 de maio de 2012

    Impressionante Rodrigo. Já havia lhe falado da linguagem do seu livro, assim como ele, suas matérias parece que nos levam junto com você. Parece que estamos ali, ao seu lado, reportando tudo.

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