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Posts de maio 2012

Vamos jantar?

24 de maio de 2012 3

Conheci o cônsul de Israel em São Paulo, Ilan Sztulman, em 12 dezembro de 2000. Eu, repórter iniciante. Ele, capitão do exército israelense. Encontrávamos, eu e o fotógrafo de ZH Ronaldo Bernardi, em um hotel do centro de Porto Alegre. Havia apenas nove semanas, Sztulman exercia uma nova função: era chamado a ser o porta-voz das forças armadas de Israel para a imprensa internacional. Suava diante do calor de Porto Alegre. Mais úmido do que o de São Paulo, sua terra natal. Mais úmido do que o de Israel.

Fotógrafo por formação, Sztulman, torcedor do Santos, recebeu ZH com o uniforme das Forças de Defesa de Israel. A pedido do Ronaldo, ele se deixou fotografar no terraço do hotel, de onde tínhamos uma bela visão da capital gaúcha.

Hoje, foi com alegria que vi sua foto e entrevista em ZH. Eu, no Líbano. Ele, cônsul de Israel em São Paulo. Seu olhar amigável me fez reconhecê-lo. Desde que vi sua imagem – ainda madrugada aí no Brasil, manhã de quinta aqui no Oriente Médio -, mandei um e-mail à editora Vivian Eicher:

- Eu conheço esse cara.

E lá se vão 12 anos.

Supreendeu-me ver Sztulman confirmar a tese que nos últimos dias ganharam as redes sociais, de que o Irã estaria planejando um atentado contra alvos israelenses no Brasil. Sei que há informações de inteligência nesse sentido, mas, no momento, o Hezbollah, o braço armado do regime iraniano no Líbano, tem outras questões a se preocupar. Por exemplo, evitar a derrubada anunciada de Bashar al-Assad – e, se pra isso for preciso, incendiar o Líbano. O Brasil é secundário nas políticias mundiais – ainda que queira ser falcão no xadrez internacional. Ainda não é o momento. O Hezbollah tem outras procupações.

O governo sírio, posso garantir, vê o Brasil como aliado – por mais que rejeitemos sua ditadura. Assim como o Irã, que ainda tem certeza, nos meandros diplomáticos, que o nosso governo o apóia.

Quero crer no que me disse Sztulman em 2000. À época, ele me contou: tinha um amigo palestino, que, quando ia a sua casa, em Jerusalém, pedia que ele vestisse sua farda israelense. Assim, diante dos filhos palestinos, esse amigo conseguia provar: mesmo tendo um amigo usando a roupa do exército israelense, não deixava se ser seu AMIGO.

Em 12 dias no Oriente Médio, o que mais sinto dificuldade é que as pessoas entendam que é possível ser católico, evangélico, judeu, espírita, muçulmano, budista…. E tudo bem… Quem sabe um dia poderão todos por aqui dizer: “Olá… Tudo bem? Vamos jantar?”

Confira matéria de ZH com Ilan Sztulman em 2000

O renascimento das milícias

24 de maio de 2012 1

Estou há 10 dias no Líbano. Evito sair de preto na rua, para não ser confundido com membros da Amal, grupo xiita pró-sírio. Evito o amarelo porque é a cor do Hezbollah. Quando deixo o hotel, tiro a corrente com crucifixo de prata que levo debaixo da camiseta. Pela meu porte físico, posso ser considerado americano. Pelo sotaque do meu inglês, acham que sou espanhol. E, pela cor do meu cabelo, temo que pensem que sou judeu. Exagero? Neurose? Bem-vindos ao Oriente Médio.

Isso que estou em uma das capitais mais cosmopolitas do mundo árabe, Beirute. Desde o tiroteio de domingo, a três quilômetros do meu hotel, há um medo latente do reaparecimento das milícias que racharam em fatias o país durante 15 anos. O Líbano é a caixa de ressonância de tudo o que acontece na Síria. Uma mini-síria, eu diria, com enorme influência – manteve tropas aqui até 2005 e ainda hoje exerce o poder por meio do Hezbollah, da Amal e de grupos alauítas.

Xiitas e cristãos apoiam Bashar al-Assad. Sunitas são contrários. Já houve mortes em Trípoli e Beirute. Na terça-feira, a capital amanheceu com barricadas e pneus em chamas em bairros xiitas. Nos últimos dias, ganharam força as ameaças de milícias de fechar o aeroporto internacional Rafik Rariri – o único do Líbano. Como aqui quem tem um partido político tem armas em casa, a sensação é de que basta um pequeno incidente – uma explosão, um tiroteio, uma briga no trânsito – para incendiar o país.

De olho no Egito

23 de maio de 2012 0

O Egito dá exemplo ao mundo árabe. Depois da Líbia de Kadafi, foi o país onde a Primavera Árabe foi mais sangrenta. Por isso, o que sair desta eleição deve  ditar os rumos de nações como a Líbia, a Tunísia, o Iêmen e a Síria. Aqui, no Líbano, talvez o país que mais entende de guerra (foram 15 anos), os libaneses lançam um olhar especial sobre o que ocorre no Egito. Foi o principal assunto do dia, ofuscando até a crise na Síria.

No Egito, são 12 candidatos. As pesquisas não são confiáveis, mas quem está na frente, a título de curiosidade, é Amr Moussa, ex-secretário-geral da Liga Árabe. Ma há outros três candidatos com chances – dois deles islâmicos e outro laico.

O papel do Islã, a segurança e a crise econômica são os três grandes assuntos da campanha. Mas há várias dúvidas sobre o futuro: por exemplo, que poder terá a junta militar que até agora tem governado o país desde a queda de Mubarak? Quais serão, de fato, as funções do presidente? Funções e poderes que serão definidos por uma nova Constituição que ainda não foi escrita. A forma como serão solucionadas essas questões fundamentais vai ditar em boa medida o fracasso ou o sucesso da transição egípcia.

Hoje, voltei ao inferno

21 de maio de 2012 4

Hoje foi um daqueles dias especiais. Ainda estou refletindo sobre tudo o que vi, vivi e as experiências que revivi. E, certamente, não conseguirei contar tudo neste post – tampouco passar a vocês o que me fez emocionar. Mas tentarei:

Agosto de 2006. Em um quarto do  Hotel Intercontinental, em Beirute, acordo por volta das 6h da manhã. Como é de hábito em coberturas internacionais, ligo a TV na CNN. Vejo a notícia: Israel bombardeou o vilarejo de Qana, no sul do Líbano, matando 19 mulheres e crianças. Era um erro, óbvio. Ninguém ataca uma residência de civis porque quer.

Imediatamente, no breaking news da CNN, vinha um alerta: Israel declara trégua (não me lembro se de 24 ou 48 horas) para investigar o que houve. Quando vi aquilo, liguei para o meu motorista:

- Vamos para o Sul.

A região, enclave do Hezbollah e a mais bombardeada por 20 dias de guerra, era também a mais perigosa. Alguns dias atrás, uma fotógrafa da Associated Press havia morrido em um ataque israelense. A trégua nos bombarderios, a que a CNN se referia, era minha chance de chegar até lá com relativa segurança.

Depois de seis horas de viagem, pelas montanhas, cheguei a Qana. O vilarejo estava destruído. Não havia ninguém para entrevistar. Simplesmente porque não havia ficado ninguém na cidade – ou estavam mortos ou tinham fugido. Caminhei por entre os destroços do prédio onde morreram as mulheres e crianças. Havia ainda chinelinhos de dedo, fraldas, colchonetes no local, espalhados…

Fiquei cerca de 15 minutos em Qana. Logo, começou um boato de que ocorreria um novo bombardeio. Iniciamos a fuga.

A imagem nunca me saiu da lembrança. Em meu livro Guerras e Tormentas detalho aquele dia e sempre conto esta história em meus papos em visita às universidades de jornalismo do Estado.


Entrada do vilarejo de Qana, sul do Libano, em 2006. Foto: Rodrigo Lopes




Centro do vilarejo de Qana, sul do Líbano, 2006. Foto: Rodrigo Lopes



Prédio bombardeado em Qana, sul do Líbano, 2006. Foto: Rodrigo Lopes




Quando cheguei, havia ainda no chão os chinelos de dedos das crianças. Foto: Rodrigo Lopes



Ao redor do prédio, havia risco de desabamento. Foto: Rodrigo Lopes



Hoje, voltei a Qana. Ao final de um dia de viagem pelo sul do Líbano em paz, meu motorista Ali perguntou:

- Queres ver Qana.

Eu estava cansado. Mas como abrir mão dessa oportunidade? Entramos em uma rua de Tire e nos dirigimos ao vilarejo. Prédios inteiros, novos, fizeram eu nem perceber que havíamos chegado ao local. Meu motorista não sabia que eu havia estado ali em 2006. Comentei, como se não soubesse:

- Foi aqui que houve a morte das crianças?

Ele dobrou em uma rua e disse:

- Vou te mostrar!

Ao chegarmos, deparei com um memorial, com os túmulos das vítimas e os rostos emoldurados em painéis. Ao redor, um jardim com rosas. Um senhor regava as flores. Puxamos papo. Ele era marido de uma das mulheres mortas, pai de três crianças vítimas do ataque. Não casou de novo desde então.

Parecia outro lugar. Nem de perto lembrava o inferno por onde caminhei seis anos atrás, um terreno com ferros retorcidos e concreto despedaçado. Fiquei de novo 15 minutos no local. Fiz algumas imagens, tirei fotos. Entrei no carro. Não levamos seis horas para voltar a Beirute, ao contrário de 2006, quando a estrada estava destruída pelos bombardeios. Foi apenas uma hora e meia. Uma hora e meia de total silêncio.



Entrada do vilarejo de Qana reconstruído, 2012. Foto: Rodrigo Lopes




Novos prédios no centro da vila. 2012. Foto: Rodrigo Lopes




No local onde ficava o prédio destruído, os rostos. 2012. Foto: Rodrigo Lopes




Memorial em homenagem aos mortos. 2012. Foto: Rodrigo Lopes




Depois, o silêncio. 2012. Foto: Rodrigo Lopes



A noite em que a guerra na Síria chegou ao Líbano

21 de maio de 2012 0

Por volta de 23h de ontem, pode-se dizer, a guerra civil na Síria chegou a Beirute.

Do Hotel Holiday Inn, onde ZH está hospedada no Líbano, foi possível ouvir pelo menos oito séries de 10 tiros e uma explosão, provavelmente de granada. Pela manhã, o saldo do confronto entre grupos libaneses favoráveis e contrários ao regime de Bashar al-Assad era: três mortos, 20 feridos e um país jogado de volta a uma realidade de medo.

Desde a semana passada, quando nove pessoas morreram em Trípoli, no norte do Líbano, já havia sinais de que a revolta na Síria respingaria aqui, mas ninguém esperava que fosse chegar tão rápido a Beirute. O confronto entre milícias sunitas (contrárias a Al-Assad) e xiitas (que apóiam o regime) foi no bairro de Tarik al Jedid, a cerca de três quilômetros do hotel de ZH.

Tudo começou quando uma facção ligada ao Hezbollah invadiu um prédio ocupado por seguidores de uma organização sunita chamada Movimento Árabe. Segundo testemunhas, por volta das 22h, militantes de uma das facções passaram em um carro provocando o grupo rival.

- Logo, tudo começou. Tiros para todos os lados – contou um homem, em um restaurante próximo do local do confronto, ao lado da Universidade Árabe, uma região movimentada de Beirute.

Pela manhã, havia cacos de vidro e projeteis no asfalto. Blindados do exército libanês montavam guarda em frente à universidade. Era perceptível o olhar de impotência dos militares diante da força das milícias libanesas – o Hezbollah, partido político legalizado, mas com várias facções armadas é apenas um dos vários grupos religiosos e políticos. Esse é o maior temor no país: o retorno de milícias xiitas e sunitas que apavoraram o Líbano nos anos 80 e detonaram a guerra civil. O confronto da madrugada passada foi uma reação à morte de um líder religioso em Trípoli.

Simpatizante da oposição siria, o xeque Ahmad Abdel Wahed foi morto em uma barreira do exército libanês em Trípoli. As forças armadas dizem que ele seu carro não parou na barreira. O motorista afirma que foi execução. O episódio acirrou os ânimos e foi suficiente para os xiitas acusarem as forças armadas libanesas de serem contrárias a Bashar al-Assad.

Sabra e Chatila, o massacre 30 anos depois

20 de maio de 2012 2



Na entrada de Chatila, imagens e bandeiras de partidos políticos libaneses. Foto: Rodrigo Lopes


Em 2004, estive em MyLai, palco de um dos piores massacres do século 20. Guerra do Vietnã, 16 de março de 1968. Mais de 500 pessoas foram mortas na aldeia vietnamita por tropas americanas em busca de vietcongues. Havia apenas mulheres, crianças e idosos. Hoje, estive em Sabra e Chatila, palco de outro dos piores massacres do século 20.

Guerra do Líbano, 16 e 17 de setembro de 1982. Entre 700 e 3 mil moradores foram mortos nesses dois campos de refugiados palestinos por homens de uma milícia cristã apoiada por Israel. Os guerrilheiros queriam se vingar da morte, um dia antes, de Bashir Gemayel, presidente eleito e morto em um atentado atribuído, à época, aos palestinos.

Os dois lugares estão inscritos na tábua da infâmia da humanidade. Há tempos queria conhecer Sabra e Chatila, que, imaginava, ficavam bem mais ao sul de Beirute. Em 2006, quando estive aqui, não houve tempo e não era o foco de minha cobertura.

Aos fatos: Em 1982, Israel ocupava o sul do Líbano, chegando a Beirute. Os campos estavam sob controle israelense. Quando a milícia cristã chegou, sedenta de vingança pela morte de seu popular presidente, as forças comandadas à época por Ariel Sharon levantaram as armas. Homens foram decapitados. Mulheres, estupradas. O número de mortos é impreciso porque muitos foram depositados em valas comuns. O assunto é retratado no ótimo filme Valsa com Bashir, escrito e dirigido pelo israelense Ari Folman.

Pedi ao taxista Ali, que estava mais interessado em me levar a pontos turísticos do Líbano, a fazer um pequeno passeio por Sabra e Chatila. Os dois locais estão incorporados a Beirute, são bairros da capital libanesa, no caminho entre o centro e o aeroporto. Não guardam nenhuma semelhança com campos de refugiados que frequentei até hoje – não há tendas, barracas, etc. Sabra e Chatila parecem mais favelas cariocas, porém, planas. São compostos por prédios de quatro a seis andares, velhos, alguns parcialmente destruídos, cujas sacadas são cobertas por toldos que baixam totalmente, escondendo o lado de dentro dos apartamentos.

O trânsito pelas ruelas é infernal – mesmo no domingo. Supreendeu-me uma gigantesca feira de produtos falsificados no coração Chatila (aliás, só sei que é Chatila porque Ali me disse; os dois bairros misturam-se). Há também imagens de políticos libaneses na entrada de Sabra – confesso que esperava retratos de líderes palestinos, como o próprio Yasser Arafat.

Há muita pobreza. Mas, pelas ruas, jovens com cortes de cabelo ao estilo Neymar vestem camisetas de clubes de futebol europeus – uma geração que não viveu a guerra e pouco sabe o que aconteceu aqui. Internamente, há facções palestinas rivais – simpatizantes de Hamas e Fatah, mas não se percebe a olho nu.

No resto de Beirute quase não se vê palestinos circulando. O que me leva a concluir que Sabra e Chatila seguem sendo guetos dentro de Beirute. Na real, os dois bairros estão fora do roteiro turístico da cidade – isso a 10 minutos de carro do belo e reconstruído centro da capital. E parece que os libaneses não sabem, ainda hoje, o que fazer com Sabra e Chatila.



Lixo, pobreza e marcas de uma guerra não esquecida em Sabra. Foto: Rodrigo Lopes







Prédios velhos substituem casebres do tempo do massacre. Foto: Rodrigo Lopes







Ruas apertadas em Sabra e Chatila. Foto: Rodrigo Lopes







Sabra e Chatila lembram favelas cariocas. Foto: Rodrigo Lopes







Feira de produtos falsificados no centro de Chatila. Foto: Rodrigo Lopes









A fronteira síria

20 de maio de 2012 0



Placa indica fronteira síria adiante. Foto: Rodrigo Lopes


Na tarde de sábado, estive na fronteira entre Líbano e Síria. A fronteira Leste, já que a outra fica no Norte, por Trípoli. Neste ponto, o tráfego de veículos é normal. Não há ondas de refugiados, como vi na Tunísia, por exemplo. Embora, os moradores do Vale do Bekaa já digam que há muitos sírios que cruzaram as fronteiras com medo da guerra interna. As fotos estão ruins porque as fiz correndo. Não é um lugar para se parar e fotografar com calma.


Comércio informal de tapetes e produtos piratas na fronteira Líbano-Síria. Foto: Rodrigo Lopes




Caminhões aguardam liberação na fronteira. Foto: Rodrigo Lopes


Abaixo, o Vale do Bekaa, a verdejante planície entre as montanhas do Líbano e a fronteira síria. Daqui sai a melhor uva do país, matéria-prima para o famoso vinho libanês. É um lugar realmente lindo, impressionante. Dizem que dos 10 mil habitantes, 7 mil são brasileiros. O Bekaa é dividido em Bekaa Norte, Central e Oeste. O Norte é habitado especialmente por xiitas. No centro, há uma população mista. E, no Oeste, população sunita e xiita.


O Vale do Bekaa, visto da estrada. Foto: Rodrigo Lopes


Na guerra de 2006, cruzei o vale de madrugada, vindo de Damasco para Beirute. O local era alvo de bombardeios por Israel. A entrada foi tensa, como relatei à época nas reportagens de ZH e em meu livro. Foram várias horas de viagem de carro porque a estrada principal havia sido destruída por bombardeios israelenses. Agora, ao voltar, foi extremamente rápido. De Beirute, uma hora de carro até Kab Elias, a cerca de 15 minutos da fronteira com a Síria.


O vilarejo de Kab Elias, no Vale do Bekaa. Foto: Rodrigo Lopes


Na reportagem desta segunda-feira em ZH, como vivem os brasileiros com medo e cansados de guerras.

Mais do que guerras e extremismo

18 de maio de 2012 0

Quando você pensa: “Vou para o Oriente Médio”, a primeira sensação é de medo, ou, no meu caso, pelo menos, algum cuidado.

Imersa em conflitos étnicos, religiosos e políticos, a região berço dos três grandes credos monoteístas é um contraste incrível entre paz e guerra, entre costumes que remontam ao Antigo Testamento e uma avalanche ocidental.

Mas nem sempre é só extremismo o que você encontra ao pisar aqui. Em Beirute, uma das capitais mais ocidentalizadas do Oriente Médio, algumas mulheres xiitas usam roupas negras, que deixam apenas os olhos de fora. O modo conservador, porém, não é observado nas bolsas, normalmente de marcas como Louis Vutton e Prada. Nem nos óculos Ray Ban.

No centro da capital libanesa, ruínas da guerra convivem com grandes andaimes e arranha-céus em construções. Nos shoppings, vitrines de marcas famosas e lojas exibem na vitrine lingeries sensuais.

No Líbano, se formos contabilizar, pouquíssimas mulheres usam o véu islâmico. Tá certo que temos que ir com calma nesse aspecto: Beirute é diferente do resto do país, há muçulmanos sunitas, xiitas, cristãos, drusos, alauítas… Mas, pelo menos, na capital, a gente se sente como em qualquer cidade europeia.

Há um Oriente Médio a ser descoberto pelo Ocidente, que vai muito além das simplificações normalmente resumidas a atentados terroristas, radicalismo islâmico e divisões religiosas.

Alguns países são abertos, nem tudo é extremismo. O Líbano, por exemplo, desde a guerra de 2006, investiu pesadamente na construção civil. Hoje, tem shoppings maravilhosos e uma estrutura que faz falta a muitas cidades brasileiras.

Por dentro da fragata União

17 de maio de 2012 0

Veja o interior da fragata que comandou a força naval da ONU e onde fiquei “hospedado” nesses últimos três dias. Belo trabalho da equipe de Arte de ZH, editoria de Mundo, alimentados com informações que enviei desde além-mar.



De volta à terra

17 de maio de 2012 5



A mesquista Al-Omari, do século 12, um dos cartões postais de Beirute. Foto: Rodrigo Lopes


Acordei às 7h, em minha última noite no camarote 105 da fragata União. Dormi pesadamente desde à 1h, quando me espremi na cama estreita da fragata. O balanço do mar, este sim, já me acostumei. Sinto-me como um velho lobo do mar. Estou brincando. Não é para tanto. Conversando com um oficial, soube que o navio, nesses dias, envergou no máximo cinco graus. Isso não é nada… Em dias de mar revolto, pode acontecer de chegar a 30 graus. E aí, haja estômago…

Felizmente, nesses três dias a bordo, pouco senti os efeitos do mar. Mesmo à noite, quando a fragata União seguia patrulhando o Mediterrâneo, deslocando-se pela costa libanesa. A segurança e profissionalismo da tripulação deixavam-me tranquilo.

Mas voltando ao dia. Ao sair para o convés: terra à vista!!!! As montanhas de Beirute já compunham o horizonte. Era manhã de despedida. Quando desci da União, no porto, a caminho da fragata Liberal (que assumiria o comando), foi emocionante ver os militares perfilados nos diferentes convéses, à bombordo, em posição de sentido, como a zelar pelo meu trajeto. Muito legal!


A União aproxima-se da Liberal. Foto: Rodrigo Lopes


A bordo da fragata Liberal, voltamos ao mar. Era hora da troca de comando. Em uma cerimônia muito bonita, no convés que serve de heliponto, houve a troca dos bonés. Os militares da Liberal tiraram o boné preto da Marinha e vestiram pela primeira vez o boné azul, da ONU. Simples, mas muito simbólico.



O convés principal da Liberal, com a tripulação já "empossada" com os bonés azuis da ONU. Foto: Rodrigo Lopes


O Brasil tem uma longa história de participações em forças de paz. Desde os anos 50, com os capacetes azuis de Suez, aqui mesmo no Oriente Médio, passando por El Salvador, Angola, Moçambique, Timor Leste, Haiti e tantos outros contingentes que não vou conseguir lembrar aqui, de cabeça. Por isso, vestir o boné da ONU é muito simbólico.

No momento da troca de bonés, a fragata União posicionava-se ao fundo, navegando em linha reta, enquanto o helicóperto Super Lynx sobrevoava as duas embarcações. A troca de bonés também ocorreu na União, cuja tripulação tirou os azuis, desagregando-se do contingente da ONU.


Tripulação da União deixa os bonés azuis para voltar a utilizar os da Marinha brasileira: Foto: Rodrigo Lopes


Em seguida, as fragatas ficaram lado a lado. Da Liberal, foi disparado um cabo até a proa da União. Houve uma troca de materiais, dentro de uma sacolinha, que simbolizou o câmbio de comando.



A troca de cabos (espias, na linguagem naval). Foto: Rodrigo Lopes




Comandante da frota naval da ONU, contra-almirante Wagner Lopes de Moraes Zamith, é recebido pelo comandante da fragata Liberal, capitão-de-fragata José LuizFerreira Canela


A Liberal é praticamente igual à União. Ambas pertencem à classe Niterói. Enquanto esta foi construída na Grã-Bretanha, a União foi levada ao mar no Brasil. Mas, a olho nu, é muito difícil diferenciá-las. Quase ousaria dizer que são iguais. Só não faço isso, porque aprendi, nesses três dias, com os marinheiros:

- Nada é tão diferente quanto dois navios iguais.

A frase me foi ensinada pelo capitão-de-corveta André Martins, chefe de operações da Liberal.

E é assim: para cada marinheiro, o seu navio tem alma. E isso, para quem ficou apenas alguns dias a bordo, posso confirmar: é a mais pura verdade.



O último pôr do sol no Mediterrâneo

16 de maio de 2012 1

O meu último pôr do sol a bordo da fragata União foi bem emocionante. Os tripulantes reuniram-se no deck do heliponto para homenagear a bandeira brasileira, diante de um sol incrível que se deitava no mar.

O sol se põe no Mediterrâneo. Foto: Rodrigo Lopes

A formatura também marcou o início da série de despedidas da União do Líbano. Amanhã, o comando passará para a fragata Liberal, que já está no porto de Beirute. A União inicia a volta para casa na segunda-feira.

Formatura da tripulação no heliponto da fragata

Militares se emocionaram ao lembrar o colega que morreu no Brasil. Foto: Rodrigo Lopes

Durante a cerimônia, o comandante da força naval da ONU, contra-almirante Wagner Lopes de Moraes Zamith, e o comandante da União, capitão-de-fragata Ricardo Gomes, jogaram flores brancas ao mar em memória ao cabo Rocha Lima, que voltou ao Brasil após uma crise no sistema respiratório. No Rio, foi diagnosticada uma doença crônica, com inflamação na traqueia. Rocha Lima morreu depois de dois meses de volta.

Os colegas se emocionaram. Durante as palavras do comandante, em que foi ressaltado o cumprimento da missão única na história da Marinha brasileira, alguns choraram. Os tripulantes estão há sete meses longe de casa. O retorno começa na segunda, mas a fragata ainda vai levar um mês para chegar ao Rio de Janeiro.

Bandeira brasileira é retirada do mastro do navio. Foto: Rodrigo Lopes



Dia de fazer exercícios de tiro

16 de maio de 2012 0

Estamos em uma área chamada Bárbara II, entre 40 e 50 milhas da costa, entre o Líbano e o Chipre. Esta é uma área internacional para disparos de navios. O país que deseja realizar exercícios com tiros precisa comunicar à Espanha, que faz a gestão desse tipo de atividade na região do Mediterrâneo e do Mar Negro. O Brasil, por exemplo, reservou Bárbara II para fazer o exercício nesta quarta-feira. Há outra área “perto daqui”, a 120 milhas, onde hoje os EUA estão fazendo disparos.


Além de uma carta, onde navios que circulam pela região são alertados sobre o risco, a todo momento, pelo rádio há troca de comunicações. Em tese, todos sabem sobre as áreas de disparos.

O estrondo do canhão 4.5, da proa do navio estremece a fragata União e rompe o silêncio do Mediterrâneo. O projétil é capaz de atingir alvos em terra – como fez o regime de Kadafi, disparando do mar contra o território ocupado pelos rebeldes. Ou pode ser um disparo contra outro navio ou contra aviões. A distância do alvo: 20 quilômetros.



Como se trata de um exercício, são lançados no mar boias laranjas chamadas de killer tomatoes (tomates assassinos) – monitorados por radares, laser e binóculos.

Os disparos mobilizam toda a tripulação – desde a equipe médica, que fica de prontidão até o comandante, que é quem autoriza cada disparo. Além do canhão 4.5, foram feitos tiros com canhão 4.0 e metralhadoras 5.0.


ZH liga o Brasil ao Líbano

16 de maio de 2012 1

Como desde os tempos remotos o jornalista nada mais é do que um mensageiro, divulgo aqui duas mensagens que recebo do Brasil. Uma delas é do pai do marinheiro Feldhaus, de Santa Catarina:

Eu fico muito orgulhoso por ter um filho como este, que representa alem da família, uma cidade, um estedo e um pais e até meso a Organização da Nações Unidas em uma missão de paz, em uma região um tanto perigosa, mas que onde eles estavam atuando já não está tão perigoso no momento que é o litoral do Líbano.

Eu sempre fui muito patriota e ensinei meus filhos a respeitarem e amarem a pátria e seu símbolos, e acredito que isso tenha influenciado um pouco meu filho. Uma coisa eu sempre me orgulhei dos meus filhos, como do Theófilo também é a responsabilidade daquilo que assumem. Eles se dedicam com garra naquilo que escolhem na vida, isto é uma coisa que aprenderam desde pequenos com toda a família, avós tios, e pais. Fiquei muto feliz por term feito esta reportagem com meu filho.

A outra é da Claudiane, mulher do terceiro sargento Eduardo:

Eu me chamo Claudiane e meu marido é o terceiro sargento Eduardo. Estamos na expectativa porque, se der tudo certo, eles virão embora dia 21/05, mas só chegarão ao RJ no dia 7/7. É o que está previsto. Eu o amo demais, e foi muito difícil para mim ficar longe dele. Eu sei o quanto ele é importante, e ele sabe disso por mais que eu fale. Eu gostaria, se você pudesse, me ajudar a fazer esta homenagem a ele e disser o quanto o amo. Nossos filhos são Gabriel e Maria Eduarda.

E como não acredito em jornalismo sem emoção, permitam-me também eu, este simples repórter, me emocionar com as mensagens. Muito legal poder servir de ligação entre as famílias dos militares aí no Brasil e a fragata União, aqui do outro lado do mundo. Abraços!

A terça-feira a bordo

15 de maio de 2012 1

6h da manhã, o alto-falante anuncia:

- União, bom dia! A temperatura ambiente é de 22C, da água 18C.

Em seguida, vem um resumo das notícias no Brasil e uma agenda das atividades, que inclui até o cardápio.

Ouço um tanto sonolento. O aviso não chega a me acordar. Estou das 5h entre dorme-acorda-dorme-acorda de novo. Acostumado a cobrir o ambiente militar, sei que o pessoal acorda cedo. Não seria eu a estragar a tradição.

A noite foi tranquila. Estava cansado, com as pernas doendo do primeiro dia a bordo. Depois do café da manhã, preparo minha própria agenda: prioridades de entrevistas, um papo mais demorado com o comandante Ricardo Gomes para entender os meandros da missão e detalhes da Fragata, demonstração de interceptação de navios suspeitos e o esperado voo de helicóptero.

Na popa do navio, tivemos uma encenação de como os capacetes azuis agem caso seja necessário entrar em um navio para inspeção da carga.

À tarde, um militar de ligação, pertencente à marinha do Líbano, deixa a embarcação de Bangladesh e se integra ao efetivo da União. Quando saio para observar essa operação, me surpreendo com a visão das montanhas que cercam Beirute. Há uma neblina no horizonte, mas mesmo assim, o skyline (nunca pensei que usaria essa expressão para Beirute) da cidade me alegra depois de quase 30 horas no mar.

A aproximação da terra é uma operação de risco. É quando o navio fica vulnerável  diante dos chamados ataques assimétricos. O termo usado até então apenas na bibliografia militar começou a ganhar popularidade após o 11 de setembro de 2001. Um ataque assimétrico nada mais é do que o inimigo não estar caracterizado como militar. Não é uma força regular, um exército. Pode ser um homem-bomba ou terroristas como os que atacaram Nova York naquela manhã de 2001, usando facas de cozinha para sequestrar os jatos.

No caso da costa do Líbano, um ataque assimétrico poderia vir de uma lancha civil, aproximando-se, disfarçadamente, para depois detonar explosivos. Por isso, militares da União são posicionados nas metralhadoras .50 a bordo.

A comida a bordo é excelente. Eu, que sou chato com comidas estranhas, não me sinto fora de casa. Talvez porque seja feita com o nosso tempero e o toque brasileiro, é claro. No almoço: salmão maravilhoso.

À tardinha, veio o esperado voo no Super Lynx AH-11 A, o helicóptero da embarcação (já descrevi abaixo, mas não resisti e coloquei mais fotos desse momento pra vocês).

Em Zero Hora papel, amanhã, mostro como a guerra na Síria está se espraiando para o Líbano. Agora são 23h44min aqui (aí pelo horário de Braspilia 17h44min). Estamos a 30 quilômetros da costa, no quadrante Norte, entre Beirute e Trípoli. Boa noite a todos!

Nenhuma terra por perto

15 de maio de 2012 0

Aqui do alto, a fragata União, um dos maiores navios da Marinha brasileira, não passa de um ponto cinza quase mimetizado ao azul do Mediterrâneo. A bordo do helicóperto Super Lynx AH-11A, subimos de 100 para 300 metros de altitude, em curva, com as portas abertas. O vento é forte. O sol se põe no Oeste, refletindo-se no mar, abrindo com raios um caminho para a fragata.

São todas figuras de linguagens que me vem à mente para buscar pontos concretos, aquele tal de “terra à vista”. Mas não há nada no campo de visão de 360 graus, a não ser o sol, o mar e a fragata. A União, minúscula lá embaixo, vira nosso único ponto de referência.

O Super Lynx pode ser equipado com metralhadoras e foguetes, dependendo da missão. Aqui, no Líbano, é utilizado para interrogar navios suspeitos, para transporte de oficiais entre a terra e a fragata ou em casos de emergência para deslocamento de feridos para hospitais em Beirute.

Depois de 20 minutos de sobrevoo, iniciamos a descida. Pousar um helicóptero em terra não é uma procedimento simples. Muito menos em um navio em deslocamento. A missão, porém, foi fácil, graças à experiência do capitão-tenente Glaucio Alvarenga Colmenero, um dos pilotos. Não chegamos nem perto da mais difícil – à noite, os pilotos precisam decolar e pousar olhando apenas para os instrumentos. Aí, não há sol, mar e a fragata vira apenas um ponto de luz na escuridão.