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Até aqui, chegamos

10 de junho de 2012 0

Da minha coluna, Diários do Mundo, de ZH deste domingo


Desde a ECO-92, as conferências do clima têm gerado mais expectativas do que avanços. Milhões de dólares são gastos, a cada ano, para a realização do evento em algum canto paradisíaco do planeta. Com um objetivo nobre – deter o aquecimento global – mas sem consenso sobre como alcançá-lo.

Como repórter, cobri três encontros da ONU sobre o clima: a COP-10 (Buenos Aires), a COP-11 (Montreal) e a COP-13 (Bali). Invariavelmente, essas reuniões seguem um roteiro conhecido: quando os debates do dia terminam, delegações numerosas confraternizam em hotéis de luxo, com jantares nos quais não faltam iguarias locais, vinho e champanha. Orbitando a conferência, em pequenas tendas, representantes de empresas de orgânicos, invenções sobre economia de água e outras iniciativas disputam um minuto da atenção dos jornalistas. Há também o circo: a cada manhã, ativistas de ONGs, devidamente fantasiados como ursos polares ou outras espécies em extinção, desfilam alguma performance em frente ao centro de convenções.

É de praxe a conferência durar duas semanas, mas os dias que realmente importam acabam sendo dois ou três, a parte ministerial. É contraditório, mas o que realmente faz a diferença, o acordo final, é tratado antes disso, nos bastidores, em salas adjacentes, a portas fechadas. O grande plenário – onde a discussão deveria ocorrer, na frente das câmeras – nesses dias que antecedem ao grand finale fica às moscas. Os ministros de Ambiente e os chefes de Estado normalmente chegam quando tudo já está acertado e só falta assinar – muitos, informados do conteúdo do documento final com antecedência, deixam de viajar para evitar desgastes políticos. Raramente, o debate é às claras.

Testemunhei uma dessas exceções na praia de Nusa Dua, em Bali (Indonésia), em 2007. A conferência estava estancada pelo impasse nas negociações: o Brasil oferecera um café da manhã para tentar destravar a crise, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, fizera um apelo, ativistas vestiram-se de “lesmas” para criticar a lentidão dos debates, o chefe da conferência, Yvo de Boer, saíra chorando do plenário e um bate-boca estabelecera-se entre a representante americana e o ministro de Ambiente de uma das pequenas ilhas do Pacífico, as primeiras a sentir os efeitos do aquecimento global. Foi quando, naquela manhã de dezembro, um acordo que previa redução de 20% a 40% nas emissões de gases poluentes salvou a conferência.

Na Rio+20, a partir desta semana, teremos no Brasil um pouco de tudo isso: debate sério, circo e mais expectativas do que acordos. Com a diferença que, para nós, será também um ensaio estrutural para a Copa e a Olimpíada. Teremos o polêmico presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, constrangendo o governo brasileiro, e os impasses de sempre: como limitar a emissão dos gases do efeito estufa sem afetar o desenvolvimento; as divergências de interesses entre ricos, pobres e nações em desenvolvimento; e o sonho de ver concretizado o princípio de uma responsabilidade compartilhada, mas diferenciada – ou seja, todos temos culpa pelo atual estágio de degradação do ambiente, mas uns (os países desenvolvidos) têm mais.

De tudo o que se discutirá, uma certeza: o único mecanismo criado para tentar limitar a emissão de gases poluentes (o Protocolo de Kyoto) chegou ao limite, e o seu sucessor ainda não está claro. Até aqui, chegamos. E agora?

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